28.12.10

Laços

Quando eu ainda era bem pirralho, coisa de quatro anos, chuto, minha madrinha faleceu. Não me culpem, pois, se não lembro dela nos mais nítidos detalhes, senão por fotos e relatos.

Era uma mulher distinta e bonita. Creio mesmo que, por fotos, tinha um ar aristocrático nos traços e no jeito de se vestir. Já ouvi que era rígida, mas sem deixar de ser muito afetuosa. Sempre lamentei não tê-la conhecido a fundo, não ter conversado com ela, não ter recebido broncas e carinhos dela durante meu crescimento. Ela se foi precocemente, em decorrência de um acidente de trânsito.

Não estou a par se todos sabem disso, mas há pessoas que, ao falecerem, imprimem uma marca no mundo tão forte que se tornam eternas. Minha madrinha foi uma dessas pessoas. Como explicar essa saudade sem causa?

Deixou três filhos: R., T. e P: as três marcas grafadas no mundo por minha madrinha.

Eu não pude conhecê-la como gostaria, mas sou grato por conhecer seus filhos: eles brincam que são minha "madrinha substituta" e, talvez, por isso mesmo, eu sinta um carinho especial pelos três e, suponho, o mesmo aconteça por parte deles.

Um padre, uma pesquisadora, um policial. Falar que essas palavras os definem seria zombar da complexidade de pessoas que estimo tanto. Mas, apenas a título exemplificativo, são esses os diferentes rumos que eles tomaram, e o que mais me fascina na vida deles. Cada um a seu modo, todos os três colaboraram para que eu mudasse de visão no momento apropriado.

Conselhos que me tornaram mais ponderado, mais ativo, mais ousado. Eu devo muito ao carinho e à atenção de cada um deles. Eu perdi uma madrinha, mas eles perderam uma mãe. Eu respeito aqueles que aprendem na adversidade. E é justamente essa lacuna que os torna mais humanos e mais admirados por mim.

Eu não pude dizer apropriadamente que a amava, madrinha, mas eu posso dizer com todas as letras que a simplicidade desse texto me permite: eu amo a sua marca eterna no mundo.