15.11.10

Amantes de tempo nenhum

Minha mãe sempre foi uma grande fã de Chico Buarque, provavelmente a maior delas. Desde pirralho, convivo com a voz desajeitada e o lirismo certeiro do homem. Aprendi a respeitá-lo, embora não seja um fã.

Quando ainda era jovem e tolo, gostava de ouvir Futuros Amantes, não sei se pela letra, se pela harmonia, ou se pelo fato daquela música mexer tanto com a mulher que me gerou.

Tenho a impressão que as músicas do Chico são como as flechas do Cupido. Parecem sempre destinadas a alguma mulher interessante que em algum momento da vida ele cobiçou. Não é diferente com Futuros Amantes, a interlocutora invisível está lá, talvez seja uma, talvez sejam várias, talvez ela nem exista realmente, mas toda mulher se coloca ali, no pedestal que Chico erege para suas musas.

Essa bela composição fala sobre um futuro onde o Rio é uma cidade submersa, onde escafandristas remexem os restos e as ruínas do passado, e descobrem traços de um amor já perdido. Bem, essa é a interpretação grosseira e primária. Serve de pano de fundo para os segredos que só existiam entre Chico e a interlocutora.

Minha mãe sempre foi muito boa observadora. Ao perceber que a música me agradava, revelou-me que muitos anos antes, havia escrito uma crônica onde estabelecia a relação entre essa música e a Psicanálise. Para ela, Futuros Amantes seria uma alegoria das teorias desenvolvidas a partir das descobertas de Freud.

Com significados escondidos ou não, Chico teve amores suficientes em sua vida para entender cada palavra de sua obra. Todos reviram o passado em busca de respostas que decifrem coisas tão inexplicáveis no presente. Na agonia e inconstância do presente.

Aquele bilhetinho que encontrei em minha carteira, nossos nomes e um coração entremeando-os que marquei na madeira, os recados amorosos que você escreveu no meu caderno, os presentes que ganhei, as cartas, as malditas lembranças, as benditas mentiras. A cada dia encontro sinais inverossímeis da existência de um amor que não sei se de fato existiu.

E mesmo minha mãe… quando viveu isso? Quando escreveu esse texto que suponho brilhante? Como você e meu pai se conheceram? Quando você fez Direito, desistiu e depois resolveu fazer Psicologia? Quando vocês tiveram essas vidas que tanto admiro?

Quando as coisas aconteceram? Quando existiram, isto é, se existiram?

Remexo o passado, afobado, mesmo sabendo que nada é pra já, mas não encontro nada. São todos vestígios de uma memória que se perdeu em águas nada navegáveis.

Eu não sou um escafandrista e talvez Chico concorde comigo, do alto de sua experiência e de sua famosa timidez, que há certos amores que não possuem futuro algum. Mas isso eu deixo para os milênios vindouros descobrirem.