14.10.10

O estranho mundo das floriculturas

Os dias atípicos me agradam. Não só porque afrontam o cotidiano, de tediosidade temerária, mas também porque ao final desses dias, sempre fico com a impressão que um pedaço de vida se criou. Que acresci mais um tijolinho na minha estrada rumo à morte. Um jogo interessante de mais e menos.

Em uma manhã desses dias atípicos, resolvi procurar uma floricultura. Queria presentear um affair por seu aniversário. Sou do tipo bobo, que ainda presenteia mulheres com flores e se presta a imaginar milhares de situações românticas. Um tipo em extinção, assumo.

Não foi tarefa fácil achar uma floricultura. A cidade, com sua objetividade de imensos prédios, asfalto e comércio predatório, acabou por obliterar as floriculturas. Essa cidade é própria dos construtivistas, qualquer poeta mais afeito à subjetividade a denegriria. Afinal, que graça tem a vida sem as flores?

Quando achei uma floricultura, alegrei-me. Era modesta, porém respirava aquele ar de leveza típico desses estabelecimentos. Encaravam-me ansiosas as bromélias, as orquídeas e as flores do deserto, entre tantas outras. Perguntei por girassois.

“Ih, moço, só se encomendar!”.

Como assim? Girassois são nobres por natureza, deveriam existir aqui a qualquer custo, como ousam não criar girassois?! Mas me limitei a questionar: “E a senhora sabe de algum outro lugar aqui perto que talvez tenha?”.

“No calçadão”, respondeu, enquanto dava atenção para um jovem rapaz que segurava uma carta na mão e me olhava de soslaio.

E até lá fui. Olhei detidamente as belas flores expostas, aspirei aqueles doces aromas (que lembram minha avó), atrás do bendito girassol. Porém também estava em falta.

“Nossa, o que acontece, não é época?”, indaguei.

“Não, senhor, é que tem que encomendar!”, tornou-me o vendedor.

Os girassois, aparentemente, eram muito valorizados. Talvez por orgulho não queriam se expor em lojas. Felicitam-se tão-somente em deitar suas pétalas ao sol, no campo, de onde acham que jamais deveriam sair. Mas, saindo, ao menos querem ser encomendados, sinal de sua nobreza e teimosia. Eu deveria imaginar. Uma flor que se curva apenas ao Sol é difícil de lidar.

Ao sair da loja, esbarrei em outro jovem rapaz, que me encarou durante alguns segundos. Desculpei-me e prossegui meu caminho.

Estava um tanto quanto desolado. Será que não encontraria o girassol? Tinha que ser o girassol. O girassol se encaixava. Ela só iria gostar do girassol. Não teria sentido se eu mandasse rosas ou hortênsias. A simbologia exigia o girassol, mas isso não vem ao caso. Affairs são affairs e o que envolve esse mundo de intimidade não deve revelar jamais seus segredos.

Lembrei da floricultura do velho mercado. Era algo profissional, com flores espalhadas por corredores, empilhadas, atulhadas umas aos lados das outras. Aquela floricultura obviamente teria o girassol. Provavelmente todas as flores desejavam estar naquela floricultura. Ser vendida ali com toda a certeza lhes traria um destino proveitoso: um amor conquistado, um feliz aniversário realmente feliz, uma condolência honrosa. O girassol estaria ali para atender meus intentos.

E estava. Eram logo cinco girassois disputando minha atenção. Escolhi o mais vistoso, o mais vaidoso, aquele que mais agradaria a garota. Mandei entregar. Paguei.

Ao meu lado, enquanto guardava o troco, notei mais um jovem rapaz. Escrevia uma carta. Provavelmente uma carta de amor. Ele me olhou de esguelha e sorriu.

“O grande Victor Hugo. Há tempos queremos conhecê-lo…”, disse num tom cordial.

Suspeitei.

“Como você sabe meu nome?”.

“Sabemos tudo sobre você. Onde mora, com quem fala, para quem escreve suas cartas de amor”.

“Quem é você?!”, indaguei já nervoso.

“Vamos lá fora”.

Puxou-me pelo braço, percorrendo os corredores tortos daquele mercado velho, onde fogões idosos se empilhavam sobre mercadorias tão velhas quanto, onde condimentos, bebidas e artigos de decoração estavam lado a lado, disputando atenção dos bolsos com dinheiro, onde caixas velhas serviam de bancos e mesas, onde o café era de um negror já esquecido. Puxou-me pela história.

Chegamos do lado de fora, onde a claridade ofuscou minhas retinas.

Quando me acostumei à luz, percebi que ao meu redor estavam os rapazes das floriculturas pelas quais tinha procurado frustradamente o girassol. Além de mais dez outros homens.

“Oh que bom, ele está aqui!”, comentaram entre si.

“Expliquem o que é isso, por favor”, exigi.

“Victor, somos um grupo muito restrito. Temos o observado e chegamos à conclusão de que talvez você queira se juntar a nós”.

“E do que se trata?”, perguntei curioso.

“Todos nós nos conhecemos em floriculturas, ou cafeterias, ou parques, ou joalherias. Em algum momento da vida, nos conhecemos enquanto gostávamos de alguém, nos reconhecemos pois éramos pessoas apaixonadas, em busca de uma pessoa. Nos reunimos para trocar experiências, dicas, para conhecer novas paixões. Não temos a hipocrisia de afirmar que vivemos por sucesso profissional ou por ideologias. Vivemos apenas pela paixão”, explicou um deles.

E prosseguiram:

“O C. aqui, presenteava suas amantes com colares lindíssimos, nos explicou tudo sobre jóias e o que elas mais adoram. O F. era um exímio conquistador, de uma cafeteria ou uma doceria, já conseguia emendar um motel, vai aprender muito com ele. O T. ali escreveu poemas lindíssimos sob a sombra de ipês, e suas mulheres se derretiam com suas doces palavras”.

Achei o papo esquisito, mas decidi seguir adiante:

“Eu não estou entendendo muito bem, mas… me explica algo, por que você falou tudo no passado? ‘Presenteava’?, ‘Era’?, ‘Escreveu’?”.

Então, os cenhos daqueles rapazes se agravaram. Abaixaram os olhares e pareceram comungar de um sentimento terrível, de uma dor incurável.

“É por isso que nos reunimos, Victor. Deixe-me perguntar, você acha que suas flores vão surtir o efeito desejado?”.

“Bem, eu acho que sim, é um lindo girassol, que mulher não gostaria de recebê-lo…?”.

“Você tem certeza?”, e todos me olhavam atentos.

Senti-me acuado.

“Bem, talvez não… na verdade estou mandando essas flores como última tentativa… confesso que esta peleja é difícil…”.

“Exatamente, Victor. Ela gostará da flor, gostará sim. Mas ela não ficará com você. Já a analisamos. Sabemos disso por experiência. Aqui somos todos assim. Somos amados uma vez ou outra, escolhidos intermitentemente. Mas nunca somos aqueles que durarão para sempre. Nós apenas somos aqueles que as presenteiam, que as fazem ficar felizes com o mundo, consigo mesmas. Somos como drogas que elas só usam em tempos de desespero. É a nossa sina, o fardo de ser uma espécie em extinção”.

Tive de ceder. Ele tinha razão, era exatamente assim.

Naquele dia, juntei-me ao grupo, sob as vivas de todos os integrantes: um membro novo significa que a paixão não morreu, que ainda pode ser carregada por mais um tempo, até que o futuro nos extinga ou nos consagre mártires em meio a brutos e cafajestes, que se aproveitam do desejo feminino de castigar seu sentimento de culpa para fazer sua própria fortuna. Tantos segredos eu poderia aprender com aqueles renomados artistas do amor! Vivemos pela paixão, não pelas mulheres. Mulheres mudam, envelhecem, morrem, perdem a graça. Mas a paixão, ah… esse é um sentimento que se renova, um sentimento eterno e imortal, não importa a mulher que o provoque.

Eu bem sabia que um dia atípico me traria um novo pedaço de vida para refrescar meu coração.

3 comentários:

M. L. disse...

Um novo pedaço de vida para refrescar seu coração, uma nova paixão. Afinal, é o que nos move a cada dia,portanto, renova-se.

Lucas disse...

Obrigado por compartilhar : ) gostei muito! Somos o que somos, mesmo qunado, as vezes, sonhamos ser um pouco mais.

re disse...

Se nossa busca amorosa é a somatória de todos os amores já vividos, você ama literalmente e deve ter sido amado apaixonadamente.
Mas o affair desta história está merecendo as flores de plástico da sua mesa de cozinha da história que veio depois. rsrsrs