25.10.10

Duas mãos

Lembro que os exercícios de redação da época da escola pediam para delimitarmos certas características nos textos. Personagens, lugar, tempo, narrativa. De fato, ao pensar nisso, estou sentado defronte a uma mesa de cozinha, decorada com uma toalha barata e um vaso de flores de plástico, tão falsas quanto minhas tentativas em decorar meu apartamento. Minha bunda está sobre uma cadeira que só não cede pois consigo ser mais leve que o peso mínimo – e é bem pouco! – exigido para fazê-la despencar. Minha mãe as detesta.

Entre mim e as flores está um saco plástico. Dentro dele, jaz uma rosca doce embolorada. Foi feita pela namorada do meu avô, trazida pela minha mãe e habitante de minha geladeira há semanas.

O sol cai por detrás dos prédios. Da janela da cozinha, vejo a beleza do pôr-do-sol (que aqui assume as cores do pêssego) escondida atrás de prédios que surgem novíssimos todos os dias. Esse é o tempo.

Sei que estou aflito. Mas não sei bem porquê. Pode ser a faculdade, que me enfastia. Ou podem ser as mulheres, que exigem demais de mim. Pode ser os dois, ou até mesmo a eleição, que evidencia a ignorância de tantos. Pode ser meu talento, que me acompanhava com mais frequência antigamente, arremessando pedras num lago escuro, na outra margem, enquanto se afasta cada vez mais de mim rumo a uma foz que desconheço.

Não é nada disso ou é tudo isso. No entanto, a pedra-no-meu-sapato do momento é a rosca embolorada.

Esse pão-doce tão vistoso, tão suculento. Tenho certeza que estava saboroso, não fosse o fato de não ter comido sequer uma fatia deste amontoado de carboidratos.

Tenho certeza absoluta, também, que ele era perfeito. Fofo, dourado, cheio de açúcar. Todavia, agora estava como muitos de nós, não totalmente podre, mas cheio de manchas negras, dessas que assomam durante nossas vidas, que o enfeiavam. Digo, enfeavam. Nas aulas de redação da época da escola, a professora, que eu amava tanto, sempre riscava a palavra “enfeiava” e escrevia de vermelho em cima “enfeava”. Eu nunca gostei de errar.

Encarei perplexo aquele pedaço de rosca. Certamente eu cometera uma falta grave para com as crianças da África, para com os necessitados do mundo todo. Enquanto combaliam de fome, eu me dava ao luxo de desperdiçar tanta comida.

Levantei-me sem saber o motivo. Andei um passo para cá, outro para lá. Fechei a persiana da janela da cozinha. O sol de pêssego das seis me incomoda. Mas não adianta nada! Essa persiana é traiçoeira, pois nunca se fecha completamente. Se a fecho, ela se abre, se a abro, ela se fecha.

Voltei ao meu lugar na cadeira esquelética enquanto meus olhos eram bombardeados pela brincadeira da persiana, que deixava escapar lampejos do sol que se ia.

Tomei em minha mão o saco plástico da rosca para jogá-la no lixo, já conformado com meu pecado, quando uma mão magra, oriunda de um braço também magro, oposto ao meu, pousou sobre minha mão e a empurrou para baixo, impedindo que eu desse cabo daquele doce.

Segui o caminho daquela intromissão: uma mão esquerda, de dedos magros, como os meus, de unhas algumas cortadas e outras roídas, hábito que eu conseguira gloriosamente largar, mas que voltara sorrateiramente; uma pequena cicatriz transversal no dorso; punhos finos; braços longos e nem peludos nem pelados; um ombro largo; um pescoço comprido e, por fim, em contraste com as réstias troceiras permitidas pela persiana metida à besta, meu próprio rosto!

Eu estava sentado logo ali, em minha própria frente!

Pisquei, saracoteei a cabeça, belisquei meu, meu!, braço. Nada adiantou, eu realmente existia do lado de cá da mesa e, misteriosamente, também do lado de lá. Sei que não há nexo, mas me limitarei a chamar o eu intruso de “outro-eu”, e a mim chamarei de “eu” mesmo, o que não deixa de ser verdade.

“Olá, Victor”, disse o outro-eu, rindo com o canto da boca de um jeito que só o eu, digo, só eu sei rir.

“Olá…”, respondi confusa e educadamente.

“Você esperou muito tempo para que isso acontecesse, não é mesmo?”, o outro-eu prosseguiu.

“Esperei, é verdade, sempre achei que você fosse aparecer só quando eu, nós?, já estivesse velho, quando o tempo invariavelmente fosse me tratar como um louco, pois não há velhos excêntricos, apenas loucos gagás”.

“Pois bem, cá estou, muito antes do que você imaginava. Não é maravilhoso? Estamos livre”.

“Livres”, corrigi-o.

“As circunstâncias exigem que desconsideremos as regras de concordância verbal e nominal, Victor”, sentenciou o outro-eu, e prosseguiu, “Além do mais, perceba, quando eu falo, você fala também, e assim eu somos nós”.

“O que o traz aqui?”. E percebi que minha voz também saía pela boca dele.

“Estou preocupado conosco, sou uma espécie de aviso”.

“Aviso sobre o quê?”.

“Não é óbvio?”.

“É, você está certo. Mas o que fará, vai me dar um sermão, dizer que não posso viver essa vida, bla bla bla?”.

“Sim e não. Nós pode levar essa vida, mas, por Deus, aprenda a aceitá-la, então! Ou nos arrependa e viva pelo ‘bom’ caminho”.

“A maioria das pessoas pode seguir assim sem problemas, por que justo nós preciso decidir desde já?”.

“Ninguém mandou termos esse complexo de Alex DeLarge, se acharmos escolhidos de Deus, invencíveis, inigualáveis, irresistíveis! Temos que ser os primeiros de tudo, infelizmente”.

“Cortemos essa!”.

“Victor, quero fazer uma pergunta. Para. Escuta. Sim, sim, eu sei que é estranho ver nós próprio falando…”, e tive que me conter ante ao entusiasmo de me ver nos olhos de outro (?). “Agora: por que começou a se colocar como protagonista de seus próprios textos?”, questionou, arregalando os olhos. Eu estava extasiado de me ver!

“Uma questão de estilo…”.

“Bobagem! Conte-nos! Não vai nos dizer que seria auto-terapia?”.

“Nós não seria tão piegas, já não basta nossos pais tentando entender cada palavra, cada vírgula, cada ponto, cada acento, cada entrelinha desses malditos textos?”.

“Você tem razão, mas por que então?”.

“Eu acho que gosto de viver essas coisas. Veja só, estou encontrando eu mesmo na minha própria mesa de cozinha!”, trocei.

Nesse momento, o outro-eu arremessou o vaso de flores de plástico para o lado, causando uma grande sujeira no chão já sujo.

“Isso não é uma brincadeira! Não beberás. Não treparás. Não rirás. Não escutarás músicas malevólas no seu computador malévolo acaso não queiras me encontrar novamente!”, ameaçou o outro-eu.

“Ah, logo vejo que se somos dois, você é o diabo e sou o anjo”, e ri de mim mesmo.

“Não, você é o diabo e eu sou o anjo”, por algum motivo, eu, ele, também ria.

“Outro-eu, posso chamá-lo assim? Você sabe o que você é?”.

“O que somos?”.

“Só mais uma ideia de madrugada, uma ideia de insônia. Deveria saber disso”.

Ele me olhou um pouco trêmulo. Desviou o olhar tantas vezes lhe foi possível escolher lados para direcionar nossos olhos.

“Temos razão. Mas de qualquer maneira, ainda estou aqui. Só há uma maneira de me fazer ir embora”.

Nesta altura, reparei que a mão dele ainda repousava sobre a minha mão e que esta, por sua vez, ainda repousava sobre o saco plástico, já suado por meu nervosismo.

Entendi contrariado a mensagem do outro-eu. Ele olhou lânguido e com aquele maldito escárnio na boca (como só eu sei fazer) para uma faca que surpreendentemente havia surgido ao meu lado. Eu a tomei para mim. Tremia. O outro-eu me olhava apreensivo, mordendo o canto do lábio e franzindo a testa (como só eu sei fazer). Empunhei a faca. Tomei firmeza nestes meus braços magros, mas fortes quando sobre mim desce uma força inexplicável até mesmo para loucuras literárias.

E desferi um golpe certeiro sobre a rosca doce.

Comi-a salivando. Antes de chegar até o final, creio que chorei. Sempre estranhei as pessoas que choram enquanto comem, então talvez apenas as tenha imitado para que toda a cena ficasse um pouco mais dramática. A verdade é que enfiava goela abaixo não só um pão mofado, verde, cheio de fungos. Eu engolia junto o preço da sanidade. E quando lambi enojado a última migalha daquele saco plástico suado e pestilento, ele, o outro-eu, desapareceu, não sem antes me agarrar pela nuca e assegurar que ainda nos veríamos mais algumas vezes por aí.

Antes de partir, ele ficou bem na minha frente, de braços cruzados, assistindo aquele espetáculo grotesco. Igual a mim. Diferente de mim. Eu próprio. Sem rir, sem chorar, sem esboçar reação alguma. Apenas flegmático. Digo, fleumático. Na época dos exercícios de redação da escola, escrevi em um texto a palavra “flegmático”, para espanto da professora, que eu amava tanto. “É fleumático, Victor!”, ela asseverou. “Não, professora, eu também vi que existe flegmático”. “Você tem certeza?”, ela me perguntou. Ela sabia que eu estava certo. Ela sabia que podia confiar em mim. Ela não riscou nada de vermelho.

Aquela mulher sabia que podem existir duas palavras iguais, só um pouco diferentes, assim como podem existir dois personagens tão iguais quanto diferentes, mas assombrados pelo mesma medida de loucura.

2 comentários:

Viviane disse...

Já comentei com sua Mãe... não me conformo de ainda não ter editado seus contos!!! Daria um livro maravilhoso!!! Você escreve divinamente!!! Visualizei, ou melhor, senti cada cena descrita!!! Todo conto seu é um presente!!! Obrigada!!! Viviane

re disse...

Achei o atual modo de construção dos seus textos muito interessante e divertido - acho também que deve ser muito difícil elaborar desta forma - assim como é muito complicado viver nossas dicotomias.
Enlouquecer é bom demais!