31.10.10

Noites amargas

Certa vez, na bela Califórnia, terra de terremotos e putarias, alguns brilhantes homens escreveram uma música chamada People are strange. Era uma banda de nome The Doors, cuja fama precede qualquer comentário banal que eu venha a expor aqui.

Creio que ao comporem essa música, eles viviam uma vida muito parecida com a minha. Se isso é um fato histórico ou não, não ligo. Detesto formalismos e pelo bem da minha escrita, defendo minha imaginação com unhas e dentes.

A verdade, companheiros, é que certas noites são amargas, principalmente quando somos ou estamos estranhos.

Há noites, e quanto a isso me refiro a madrugadas, em que meus vizinhos ouvem não só meus passos desfilando pelo longo corredor até meu apartamento, mas também outros passos. Lindos passos. Passos que se conjugam aos meus. Passos de saltos, de sapatos, de sandálias, que num trote dionísico, muito se assemelham a um samba rude de noite já alta, noite quase finda. São passos que acompanham um garoto atrevido. Mas eu sei que os vizinhos riem disso. É a lei da vida, ora!

Essas noites são doces como o mel das abelhas mais ordeiras. São tenras tal qual um manto de estrelas que cobrem dois amantes despropositados. Juro mesmo que são noites capazes de fazer cochilar o mais severo dos turrões.

Mas nem toda noite é assim.

Há noites em que não há escapatória. Somos estranhos e ninguém lembra o nosso nome. Women seem wicked.

Noites em que abrimos pesarosos o portão do prédio, pois nem mesmo o porteiro, o guardião da madrugada, ludibriou-se com nossas súplicas e ousou ter compaixão de nossa solidão.

Dirigimo-nos cabisbaixos ao elevador, onde um imenso espelho ri sadicamente de nossas falhas.

Deitamo-nos em camas grandes demais.

Adormecemos sem nenhum prazer nos lábios.

Abraçamos o vazio ao nosso lado.

Nossos narizes sentem falta de um perfume.

Essas não são noites doces e mágicas. Não há samba nem atrevimento. Não há riso nem contentamento.

Essas, meus companheiros, são noites amargas.

25.10.10

Duas mãos

Lembro que os exercícios de redação da época da escola pediam para delimitarmos certas características nos textos. Personagens, lugar, tempo, narrativa. De fato, ao pensar nisso, estou sentado defronte a uma mesa de cozinha, decorada com uma toalha barata e um vaso de flores de plástico, tão falsas quanto minhas tentativas em decorar meu apartamento. Minha bunda está sobre uma cadeira que só não cede pois consigo ser mais leve que o peso mínimo – e é bem pouco! – exigido para fazê-la despencar. Minha mãe as detesta.

Entre mim e as flores está um saco plástico. Dentro dele, jaz uma rosca doce embolorada. Foi feita pela namorada do meu avô, trazida pela minha mãe e habitante de minha geladeira há semanas.

O sol cai por detrás dos prédios. Da janela da cozinha, vejo a beleza do pôr-do-sol (que aqui assume as cores do pêssego) escondida atrás de prédios que surgem novíssimos todos os dias. Esse é o tempo.

Sei que estou aflito. Mas não sei bem porquê. Pode ser a faculdade, que me enfastia. Ou podem ser as mulheres, que exigem demais de mim. Pode ser os dois, ou até mesmo a eleição, que evidencia a ignorância de tantos. Pode ser meu talento, que me acompanhava com mais frequência antigamente, arremessando pedras num lago escuro, na outra margem, enquanto se afasta cada vez mais de mim rumo a uma foz que desconheço.

Não é nada disso ou é tudo isso. No entanto, a pedra-no-meu-sapato do momento é a rosca embolorada.

Esse pão-doce tão vistoso, tão suculento. Tenho certeza que estava saboroso, não fosse o fato de não ter comido sequer uma fatia deste amontoado de carboidratos.

Tenho certeza absoluta, também, que ele era perfeito. Fofo, dourado, cheio de açúcar. Todavia, agora estava como muitos de nós, não totalmente podre, mas cheio de manchas negras, dessas que assomam durante nossas vidas, que o enfeiavam. Digo, enfeavam. Nas aulas de redação da época da escola, a professora, que eu amava tanto, sempre riscava a palavra “enfeiava” e escrevia de vermelho em cima “enfeava”. Eu nunca gostei de errar.

Encarei perplexo aquele pedaço de rosca. Certamente eu cometera uma falta grave para com as crianças da África, para com os necessitados do mundo todo. Enquanto combaliam de fome, eu me dava ao luxo de desperdiçar tanta comida.

Levantei-me sem saber o motivo. Andei um passo para cá, outro para lá. Fechei a persiana da janela da cozinha. O sol de pêssego das seis me incomoda. Mas não adianta nada! Essa persiana é traiçoeira, pois nunca se fecha completamente. Se a fecho, ela se abre, se a abro, ela se fecha.

Voltei ao meu lugar na cadeira esquelética enquanto meus olhos eram bombardeados pela brincadeira da persiana, que deixava escapar lampejos do sol que se ia.

Tomei em minha mão o saco plástico da rosca para jogá-la no lixo, já conformado com meu pecado, quando uma mão magra, oriunda de um braço também magro, oposto ao meu, pousou sobre minha mão e a empurrou para baixo, impedindo que eu desse cabo daquele doce.

Segui o caminho daquela intromissão: uma mão esquerda, de dedos magros, como os meus, de unhas algumas cortadas e outras roídas, hábito que eu conseguira gloriosamente largar, mas que voltara sorrateiramente; uma pequena cicatriz transversal no dorso; punhos finos; braços longos e nem peludos nem pelados; um ombro largo; um pescoço comprido e, por fim, em contraste com as réstias troceiras permitidas pela persiana metida à besta, meu próprio rosto!

Eu estava sentado logo ali, em minha própria frente!

Pisquei, saracoteei a cabeça, belisquei meu, meu!, braço. Nada adiantou, eu realmente existia do lado de cá da mesa e, misteriosamente, também do lado de lá. Sei que não há nexo, mas me limitarei a chamar o eu intruso de “outro-eu”, e a mim chamarei de “eu” mesmo, o que não deixa de ser verdade.

“Olá, Victor”, disse o outro-eu, rindo com o canto da boca de um jeito que só o eu, digo, só eu sei rir.

“Olá…”, respondi confusa e educadamente.

“Você esperou muito tempo para que isso acontecesse, não é mesmo?”, o outro-eu prosseguiu.

“Esperei, é verdade, sempre achei que você fosse aparecer só quando eu, nós?, já estivesse velho, quando o tempo invariavelmente fosse me tratar como um louco, pois não há velhos excêntricos, apenas loucos gagás”.

“Pois bem, cá estou, muito antes do que você imaginava. Não é maravilhoso? Estamos livre”.

“Livres”, corrigi-o.

“As circunstâncias exigem que desconsideremos as regras de concordância verbal e nominal, Victor”, sentenciou o outro-eu, e prosseguiu, “Além do mais, perceba, quando eu falo, você fala também, e assim eu somos nós”.

“O que o traz aqui?”. E percebi que minha voz também saía pela boca dele.

“Estou preocupado conosco, sou uma espécie de aviso”.

“Aviso sobre o quê?”.

“Não é óbvio?”.

“É, você está certo. Mas o que fará, vai me dar um sermão, dizer que não posso viver essa vida, bla bla bla?”.

“Sim e não. Nós pode levar essa vida, mas, por Deus, aprenda a aceitá-la, então! Ou nos arrependa e viva pelo ‘bom’ caminho”.

“A maioria das pessoas pode seguir assim sem problemas, por que justo nós preciso decidir desde já?”.

“Ninguém mandou termos esse complexo de Alex DeLarge, se acharmos escolhidos de Deus, invencíveis, inigualáveis, irresistíveis! Temos que ser os primeiros de tudo, infelizmente”.

“Cortemos essa!”.

“Victor, quero fazer uma pergunta. Para. Escuta. Sim, sim, eu sei que é estranho ver nós próprio falando…”, e tive que me conter ante ao entusiasmo de me ver nos olhos de outro (?). “Agora: por que começou a se colocar como protagonista de seus próprios textos?”, questionou, arregalando os olhos. Eu estava extasiado de me ver!

“Uma questão de estilo…”.

“Bobagem! Conte-nos! Não vai nos dizer que seria auto-terapia?”.

“Nós não seria tão piegas, já não basta nossos pais tentando entender cada palavra, cada vírgula, cada ponto, cada acento, cada entrelinha desses malditos textos?”.

“Você tem razão, mas por que então?”.

“Eu acho que gosto de viver essas coisas. Veja só, estou encontrando eu mesmo na minha própria mesa de cozinha!”, trocei.

Nesse momento, o outro-eu arremessou o vaso de flores de plástico para o lado, causando uma grande sujeira no chão já sujo.

“Isso não é uma brincadeira! Não beberás. Não treparás. Não rirás. Não escutarás músicas malevólas no seu computador malévolo acaso não queiras me encontrar novamente!”, ameaçou o outro-eu.

“Ah, logo vejo que se somos dois, você é o diabo e sou o anjo”, e ri de mim mesmo.

“Não, você é o diabo e eu sou o anjo”, por algum motivo, eu, ele, também ria.

“Outro-eu, posso chamá-lo assim? Você sabe o que você é?”.

“O que somos?”.

“Só mais uma ideia de madrugada, uma ideia de insônia. Deveria saber disso”.

Ele me olhou um pouco trêmulo. Desviou o olhar tantas vezes lhe foi possível escolher lados para direcionar nossos olhos.

“Temos razão. Mas de qualquer maneira, ainda estou aqui. Só há uma maneira de me fazer ir embora”.

Nesta altura, reparei que a mão dele ainda repousava sobre a minha mão e que esta, por sua vez, ainda repousava sobre o saco plástico, já suado por meu nervosismo.

Entendi contrariado a mensagem do outro-eu. Ele olhou lânguido e com aquele maldito escárnio na boca (como só eu sei fazer) para uma faca que surpreendentemente havia surgido ao meu lado. Eu a tomei para mim. Tremia. O outro-eu me olhava apreensivo, mordendo o canto do lábio e franzindo a testa (como só eu sei fazer). Empunhei a faca. Tomei firmeza nestes meus braços magros, mas fortes quando sobre mim desce uma força inexplicável até mesmo para loucuras literárias.

E desferi um golpe certeiro sobre a rosca doce.

Comi-a salivando. Antes de chegar até o final, creio que chorei. Sempre estranhei as pessoas que choram enquanto comem, então talvez apenas as tenha imitado para que toda a cena ficasse um pouco mais dramática. A verdade é que enfiava goela abaixo não só um pão mofado, verde, cheio de fungos. Eu engolia junto o preço da sanidade. E quando lambi enojado a última migalha daquele saco plástico suado e pestilento, ele, o outro-eu, desapareceu, não sem antes me agarrar pela nuca e assegurar que ainda nos veríamos mais algumas vezes por aí.

Antes de partir, ele ficou bem na minha frente, de braços cruzados, assistindo aquele espetáculo grotesco. Igual a mim. Diferente de mim. Eu próprio. Sem rir, sem chorar, sem esboçar reação alguma. Apenas flegmático. Digo, fleumático. Na época dos exercícios de redação da escola, escrevi em um texto a palavra “flegmático”, para espanto da professora, que eu amava tanto. “É fleumático, Victor!”, ela asseverou. “Não, professora, eu também vi que existe flegmático”. “Você tem certeza?”, ela me perguntou. Ela sabia que eu estava certo. Ela sabia que podia confiar em mim. Ela não riscou nada de vermelho.

Aquela mulher sabia que podem existir duas palavras iguais, só um pouco diferentes, assim como podem existir dois personagens tão iguais quanto diferentes, mas assombrados pelo mesma medida de loucura.

14.10.10

O estranho mundo das floriculturas

Os dias atípicos me agradam. Não só porque afrontam o cotidiano, de tediosidade temerária, mas também porque ao final desses dias, sempre fico com a impressão que um pedaço de vida se criou. Que acresci mais um tijolinho na minha estrada rumo à morte. Um jogo interessante de mais e menos.

Em uma manhã desses dias atípicos, resolvi procurar uma floricultura. Queria presentear um affair por seu aniversário. Sou do tipo bobo, que ainda presenteia mulheres com flores e se presta a imaginar milhares de situações românticas. Um tipo em extinção, assumo.

Não foi tarefa fácil achar uma floricultura. A cidade, com sua objetividade de imensos prédios, asfalto e comércio predatório, acabou por obliterar as floriculturas. Essa cidade é própria dos construtivistas, qualquer poeta mais afeito à subjetividade a denegriria. Afinal, que graça tem a vida sem as flores?

Quando achei uma floricultura, alegrei-me. Era modesta, porém respirava aquele ar de leveza típico desses estabelecimentos. Encaravam-me ansiosas as bromélias, as orquídeas e as flores do deserto, entre tantas outras. Perguntei por girassois.

“Ih, moço, só se encomendar!”.

Como assim? Girassois são nobres por natureza, deveriam existir aqui a qualquer custo, como ousam não criar girassois?! Mas me limitei a questionar: “E a senhora sabe de algum outro lugar aqui perto que talvez tenha?”.

“No calçadão”, respondeu, enquanto dava atenção para um jovem rapaz que segurava uma carta na mão e me olhava de soslaio.

E até lá fui. Olhei detidamente as belas flores expostas, aspirei aqueles doces aromas (que lembram minha avó), atrás do bendito girassol. Porém também estava em falta.

“Nossa, o que acontece, não é época?”, indaguei.

“Não, senhor, é que tem que encomendar!”, tornou-me o vendedor.

Os girassois, aparentemente, eram muito valorizados. Talvez por orgulho não queriam se expor em lojas. Felicitam-se tão-somente em deitar suas pétalas ao sol, no campo, de onde acham que jamais deveriam sair. Mas, saindo, ao menos querem ser encomendados, sinal de sua nobreza e teimosia. Eu deveria imaginar. Uma flor que se curva apenas ao Sol é difícil de lidar.

Ao sair da loja, esbarrei em outro jovem rapaz, que me encarou durante alguns segundos. Desculpei-me e prossegui meu caminho.

Estava um tanto quanto desolado. Será que não encontraria o girassol? Tinha que ser o girassol. O girassol se encaixava. Ela só iria gostar do girassol. Não teria sentido se eu mandasse rosas ou hortênsias. A simbologia exigia o girassol, mas isso não vem ao caso. Affairs são affairs e o que envolve esse mundo de intimidade não deve revelar jamais seus segredos.

Lembrei da floricultura do velho mercado. Era algo profissional, com flores espalhadas por corredores, empilhadas, atulhadas umas aos lados das outras. Aquela floricultura obviamente teria o girassol. Provavelmente todas as flores desejavam estar naquela floricultura. Ser vendida ali com toda a certeza lhes traria um destino proveitoso: um amor conquistado, um feliz aniversário realmente feliz, uma condolência honrosa. O girassol estaria ali para atender meus intentos.

E estava. Eram logo cinco girassois disputando minha atenção. Escolhi o mais vistoso, o mais vaidoso, aquele que mais agradaria a garota. Mandei entregar. Paguei.

Ao meu lado, enquanto guardava o troco, notei mais um jovem rapaz. Escrevia uma carta. Provavelmente uma carta de amor. Ele me olhou de esguelha e sorriu.

“O grande Victor Hugo. Há tempos queremos conhecê-lo…”, disse num tom cordial.

Suspeitei.

“Como você sabe meu nome?”.

“Sabemos tudo sobre você. Onde mora, com quem fala, para quem escreve suas cartas de amor”.

“Quem é você?!”, indaguei já nervoso.

“Vamos lá fora”.

Puxou-me pelo braço, percorrendo os corredores tortos daquele mercado velho, onde fogões idosos se empilhavam sobre mercadorias tão velhas quanto, onde condimentos, bebidas e artigos de decoração estavam lado a lado, disputando atenção dos bolsos com dinheiro, onde caixas velhas serviam de bancos e mesas, onde o café era de um negror já esquecido. Puxou-me pela história.

Chegamos do lado de fora, onde a claridade ofuscou minhas retinas.

Quando me acostumei à luz, percebi que ao meu redor estavam os rapazes das floriculturas pelas quais tinha procurado frustradamente o girassol. Além de mais dez outros homens.

“Oh que bom, ele está aqui!”, comentaram entre si.

“Expliquem o que é isso, por favor”, exigi.

“Victor, somos um grupo muito restrito. Temos o observado e chegamos à conclusão de que talvez você queira se juntar a nós”.

“E do que se trata?”, perguntei curioso.

“Todos nós nos conhecemos em floriculturas, ou cafeterias, ou parques, ou joalherias. Em algum momento da vida, nos conhecemos enquanto gostávamos de alguém, nos reconhecemos pois éramos pessoas apaixonadas, em busca de uma pessoa. Nos reunimos para trocar experiências, dicas, para conhecer novas paixões. Não temos a hipocrisia de afirmar que vivemos por sucesso profissional ou por ideologias. Vivemos apenas pela paixão”, explicou um deles.

E prosseguiram:

“O C. aqui, presenteava suas amantes com colares lindíssimos, nos explicou tudo sobre jóias e o que elas mais adoram. O F. era um exímio conquistador, de uma cafeteria ou uma doceria, já conseguia emendar um motel, vai aprender muito com ele. O T. ali escreveu poemas lindíssimos sob a sombra de ipês, e suas mulheres se derretiam com suas doces palavras”.

Achei o papo esquisito, mas decidi seguir adiante:

“Eu não estou entendendo muito bem, mas… me explica algo, por que você falou tudo no passado? ‘Presenteava’?, ‘Era’?, ‘Escreveu’?”.

Então, os cenhos daqueles rapazes se agravaram. Abaixaram os olhares e pareceram comungar de um sentimento terrível, de uma dor incurável.

“É por isso que nos reunimos, Victor. Deixe-me perguntar, você acha que suas flores vão surtir o efeito desejado?”.

“Bem, eu acho que sim, é um lindo girassol, que mulher não gostaria de recebê-lo…?”.

“Você tem certeza?”, e todos me olhavam atentos.

Senti-me acuado.

“Bem, talvez não… na verdade estou mandando essas flores como última tentativa… confesso que esta peleja é difícil…”.

“Exatamente, Victor. Ela gostará da flor, gostará sim. Mas ela não ficará com você. Já a analisamos. Sabemos disso por experiência. Aqui somos todos assim. Somos amados uma vez ou outra, escolhidos intermitentemente. Mas nunca somos aqueles que durarão para sempre. Nós apenas somos aqueles que as presenteiam, que as fazem ficar felizes com o mundo, consigo mesmas. Somos como drogas que elas só usam em tempos de desespero. É a nossa sina, o fardo de ser uma espécie em extinção”.

Tive de ceder. Ele tinha razão, era exatamente assim.

Naquele dia, juntei-me ao grupo, sob as vivas de todos os integrantes: um membro novo significa que a paixão não morreu, que ainda pode ser carregada por mais um tempo, até que o futuro nos extinga ou nos consagre mártires em meio a brutos e cafajestes, que se aproveitam do desejo feminino de castigar seu sentimento de culpa para fazer sua própria fortuna. Tantos segredos eu poderia aprender com aqueles renomados artistas do amor! Vivemos pela paixão, não pelas mulheres. Mulheres mudam, envelhecem, morrem, perdem a graça. Mas a paixão, ah… esse é um sentimento que se renova, um sentimento eterno e imortal, não importa a mulher que o provoque.

Eu bem sabia que um dia atípico me traria um novo pedaço de vida para refrescar meu coração.