9.9.10

Esperando por alguém

Em 1905, Einstein apresentou ao mundo sua Teoria da Relatividade Restrita, baseada no conceito de que o espaço-tempo se apresenta sob quatro dimensões, três espaciais e uma temporal. O estudo ainda previa a física do movimento na ausência de campos gravitacionais. Dez anos depois, formulou a Teoria Geral da Relatividade, aprofundando seus estudos anteriores e generalizando a questão da relatividade em relação ao movimento e aos referenciais inerciais. O ponto fulcral dessa estupenda análise é a de que a gravitação é um efeito da geometria do espaço-tempo, capaz de curvá-lo.

As teorias de Einsten tiveram impactos profundos na concepção humana sobre o tempo e o espaço. Fosse arte, ciência ou um simples pensamento individual. Não sem menos relevo que tais proposições físicas, o sociólogo Boaventura de Souza Santos condensou estudos sociológicos a respeito do tempo no brilhante artigo “A crise do contrato social” (Reinventando a democracia), o qual li ainda no primeiro ano de curso.

Souza Santos relaciona a crise (ou “fragmentação”) das instituições na sociedade atual à uma turbulência paradigmática de disfunção do espaço-tempo estatal (o tempo oficial), forçado a coexistir com novos e instáveis tempos, representantes de novos direitos, novas coercitividades e novas violências.

Para entender essa complexa observação é preciso compreender o papel do Estado moderno, nascido à luz da Revolução Francesa, baseado na tripartição dos Poderes e calcado na República. Sua primazia como legislador, executor e julgador, outrora máxima e pouco limitada, padece de uma fraqueza sem precedentes, perdendo terreno para o poder de multinacionais, entidades paraestatais, organizações criminosas, formas locais de poder, entre outros subcentros que perquirem as prerrogativas estatais às quais a não muito tempo atrás se submetiam.

A existência de novas necessidades, crescentes e ilimitadas, da sociedade de consumo, inserida agora num contexto virtual da cibernética, ou mesmo o tempo das destruições das riquezas naturais, são exemplos das distorções trazidas ao tempo estatal, um tempo ultrapassado, caduco, como, por exemplo, o tempo nada razoável de um processo, ou mesmo a duração de um mandato presidencial e as exigências de uma burocracia.

Quantas vezes não nos pegamos imaginando que há algum tempo atrás, as coisas não pareciam ser tão rápidas quanto agora…

Einstein, ainda que não sozinho, revelou uma nova perspectiva do tempo para o ser humano. Essa relativização, por mais que soe atentatória e imprevisível, foi capaz de nos tornar mais humildes em relação à nossa ignorância. Não há tempo oficial, não há referencial absoluto. Alguns argumentarão que não há que se falar em humildade, partindo-se do fato de que tais estudos originaram bombas capazes de nos dizimar milhares de vezes, um poder quase divino. Mas não lembra essa força e mesmo seu significado abstrato, ainda que, porventura, inexistisse, que somos tão pequenos em relação ao universo?

Somos pequenos também em relação uns aos outros e por vezes nos esquecemos que a relatividade igualmente se dá no campo intersubjetivo. Gritamos, amamos, choramos, transamos, vivemos em nosso próprio tempo, que obviamente não é o tempo certeiro do próximo, daquele, desse ou de um qualquer.

Os apaixonados viverão a consumação de seu coração em velocidades que beiram à da luz, que Einstein precisou em aproximadamente 300.000 km/h. Outros, mais complacentes, observam a vida passar com a placidez que uma margem registra a fluidez do rio que lhe banha.

Eu me apequeno, respeitoso à relatividade das coisas, ciente que nada é absoluto e, por isso mesmo, capaz de dispender o dobro de esforço para alcançar as coisas que me atraem. Eu, em respeito à teoria da relatividade, a Einstein, a Boaventura, ao Universo e a todas às paixões, esperarei pacientemente a sua decisão.

4 comentários:

V.H. de A. Barbosa disse...

Esse texto, como se percebe pelo final, foi dedicado a apenas uma pessoa. Mas é também útil para qualquer um.

Natália Oliveira disse...

Ouuunnnnnnnnnnn que lindo, VH =)

Olha, pra mim, tudo se resume a Sartre: "o inferno são os outros", seja no tempo, no sentimento, ou na decisão... A culpa é semrpe deles rs

Marina disse...

É bom a gente lembrar, de vez em quando, que as coisas são relativas. Ainda agora estava me aborrecendo com uma ideia que tinha como absoluta. Na verdade, acho que só preciso de férias.

Beijos, V.H. Bom te ler de novo.

V.H. de A. Barbosa disse...

“Do you want to become an old man, filled with regret, waiting to die alone?”

Inception.