13.9.10

A balança

Há eras imemoriáveis, localizadas num tempo que as mentes humanas não conhecem senão pela forma de mitos distorcidos, deformados e desbotados, existiu um semideus de nome Hércules ou Héracles, que supostamente possuía força sobrehumana. Era filho de Zeus, o deus supremo do Olimpo, com uma mortal.

Em certa altura de sua vida, após algumas frustrações pela indecisão entre ser mortal ou imortal, Hércules foi incumbido pelo oráculo de Delfos a cumprir doze tarefas que o redimiriam de sua desonra. Nada mais justo, tendo em vista que as tarefas haviam sido preparadas por seu maior inimigo.

A nós, basta saber que a primeira tarefa do semideus era matar um terrível leão, o Leão da Nemeia.

Esse Leão era um monstro cujo ímpeto por sangue o tornava uma criatura perigosa. Sua pele era intransponível e seu rugido ensurdecedor. Todos o temiam.

Ao encontrá-lo, Hércules tentou matá-lo com lanças e flechas, não obtendo sucesso. Após luta incansável, conseguiu derrotar o monstro enforcando-o. Arrancou sua pele indestrutível e passou a usá-la como proteção.

O que a mitologia não conta, e isso foi coisa que ouvi certa vez de um homem obscuro, cheio de mágoas, é que o Leão da Nemeia comoveu certa parte dos deuses do Olimpo. Por que a natureza deveria ser privada de uma de suas maiores forças pelo simples egoísmo de um semideus qualquer que só se interessa por sua redenção?, pensaram.

O felino foi então ressuscitado.

Em sua nova vida, o Leão da Nemeia não se sentia muito bem. A floresta parecia ter se esquecido de seus encantos. Não conseguia mais atemorizar os outros animais. Não podia mais correr livre e rápido como o próprio ar. Não caçava mais com o vigor de outrora. Algo incomodava o leão.

Após reflexão, percebeu que a derrota para Hércules lhe amputara o orgulho, o que é o mesmo que a alma do leão.

Ele não poderia mais correr, caçar, matar, dilacerar, copular, bocejar, qualquer coisa que fosse, com o brilho de antes, pois para cada ato em que fosse se esmerar, a lembrança de Hércules e de seus braços o enforcando lhe voltavam à memória, e um medo indescritível lhe invadia o ânimo.

O Leão se tornou solitário. Não era mais um monstro e tampouco podia ser um leão normal qualquer. Transitava no limbo entre dois mundos extremos e isso o deprimia. Finalmente, decidiu vagar em busca de respostas.

Certa vez, em um povoado qualquer, encontrou uma bela moça, cujos cabelos cintilavam à luz dos girassois, e logo se encantou por ela. Ela não lhe desviava o olhar como os outros camponeses, nem fugia ante sua passagem. A moça não o temia, pelo contrário, parecia compreendê-lo, e isso felicitava o Leão, que estava cansado da solidão que lhe fora imposta pela nova vida.

A moça sempre trazia consigo uma balança dourada. Ao aproximar-se dela, o Leão a rodeou, a cheirou, afagou-a com sua juba e ela nada fez. Prostrando-se na frente dela, o leão esperou que dissesse algo, e então ela retrucou:

“Você é um belo leão e percebo que quer que eu siga pelas florestas da Grécia ao seu lado”.

O felino assentiu.

“Mas, primeiramente, terá de passar num teste. Dê-me seu coração e o colocarei nesta balança. Se seu coração pesar menos que o puro ar o qual você tanto amava sentir em sua orgulhosa juba, serei sua. Caso contrário, terá de ir embora”.

O Leão aceitou sem pestenejar. Tinha convicção de que seu coração era mais leve que o ar. Seu pai era Tifão, deus dos ventos, ora!

Não me perguntem como o Leão conseguiu entregar seu próprio coração para a garota, mas ele conseguiu.

Infelizmente, o coração do Leão já não era mais leve como o ar. Onde outrora só existia a pureza de um instinto cego, agora havia o ressentimento, a dor, o medo e a necessidade de encontrar alguém que lhe afirmasse que sim, ele era um leão, não era?

A moça nada disse. Decepcionara-se

O Leão tentou argumentar: explicou ser filho de um deus, que era muito respeitado, que gostava dela mais que tudo, que não haveria como seu coração ser pesado e denso, não! seu coração era puro, puro como a natureza. Por que ela exigia tanto dele?

Mas aos olhos da moça aquelas súplicas nada mais eram do que rugidos assustadores e presas enormes que lhe ameaçavam. No fundo, ela não mais compreendia o Leão.

Ela se virou e foi embora. E durante muito tempo o Leão a observou se afastar, enquanto cintilavam de longe seu cabelo de girassol e a balança dourada.

O Leão da Nemeia amaldiçoou tudo e todos. Hércules, sua pele indestrutível, os deuses que o reviveram, a moça pela qual se apaixonara. De que adiantava ser um monstro se uma simples moça conseguira dissolver seu coração numa balança?

Vagou sozinho pela relva, sob sóis ardentes e quartos-de-lua brilhantes, durante muito tempo, rugindo um chamado de tristeza, de comiseração. Chamava por alguém, por algo, mas ninguém respondia, pois todos sabem que não se responde ao chamado de um leão triste. Todos na floresta sabem que não existe um leão triste. Leões são vivos, alegres, comem e se saciam vorazmente e matar é a sua vida. O Leão da Nemeia já não conseguia matar, depois que provara daquele sentimento, de que adiantava matar? Um leão triste é um fantasma, dizem.

Afinal de contas, aquele ali já tinha morrido, não tinha?

Um comentário:

Borealis disse...

"Se seu coração pesar mais que o puro ar o qual você tanto amava sentir em sua orgulhosa juba, serei sua."

Ops! não seria pesar menos?

Belo texto, como sempre.

Abraço.