20.9.10

Os sonhadores

A verdade nunca é simples, bem, ela é. A verdade é que nós o matamos. Pelo silêncio nós consentimos ... pois não podíamos continuar. Por Ares, por que deveríamos seguir em frente… para ser eliminados no fim como Cleitus? Depois de todo esse tempo, para dar a nossa riqueza aos bajuladores asiáticos que desprezávamos? Misturando as raças? Harmonia? Ah, ele falou destas coisas. Eu nunca acreditei em seu sonho. Nenhum de nós acreditou. Essa é a verdade de sua vida. Os sonhadores nos exaurem. Eles devem morrer antes que nos matem com seus sonhos malditos.

Esta fala é proferida por Ptolomeu no filme Alexandre, de 2004, dirigido por Oliver Stone e estrelado por Colin Farrel.

“Alexandre” me impressiona sob diferentes maneiras, mas com toda certeza nunca deixo de me surpreender com a capacidade que esse filme tem de demonstrar, emocionadamente, quão inexorável é a ascensão e a queda que podem acometer qualquer homem.

Há diferentes tipos de homens andando sobre esse planeta neste exato momento. Muitos nasceram por nada, irromperam em vida e deitar-se-ão em seu leito de morte grafados com o signo do vazio, da inutilidade. São peões em um complexo jogo de xadrez.

Outros poucos, contudo, conseguem elevar sua existência de modo a deixar rastros atrás de si, rastros que perduram durante eras, capazes de guiar as pessoas aonde elas jamais conseguiriam chegar sozinhas.

Por que motivos existimos senão para tentar deixar estas marcas? Por que deveríamos permitir o tempo consumir tudo, sem lançar um grito à História, que ecoe durante décadas, séculos, milênios depois que tenhamos ido embora?

Por isso mesmo, admiro os sonhadores. Aqueles que fixam o olhar no horizonte e imaginam, idealizam. Fluem sua ambição e com isso são capazes de mover montanhas.

Não interessa o que idealizam. Não nos deixemos acometer de moralismos. As grandes mentes têm licença para empreenderem quaisquer atos. De que outra maneira a vida teria graça? De que outra maneira se faria História? Fatos são fatos e não podemos deixar que pré-julgamentos nos inibam de reconhecer a grandeza de um homem.

É por isso que no mesmo saco dos sonhadores é possível encontrar Gandhi, Churchill, Einstein, Alexandre, Lula, Bismarck, Marcola. Até mesmo Hitler foi eleito “Homem do Ano” pela revista Time, ora.

Explico: a despeito das convenções, que enterram o potencial humano, os sonhadores não se atêm a preceitos morais, pois eles mesmos são aptos a construir a moral do mundo ideal. É notável que Marcola é um bandido. Mas sua visão o levou a perceber a situação dos carcerários, a ausência do Poder Público: um caminho livre à sua frente. Com sua ambição, criou uma facção poderosa, e é patente que em seu tempo, teve a capacidade de ditar o rumo das coisas. Ainda que um sonho degenerado, é inegável que este homem alcança o que deseja.

Tão melhor seria se todos os sonhadores transformassem suas frustrações em força construtiva, num aprendizado digno.

Temos um exemplo claro bem à nossa frente e ele se chama Luís Inácio Lula da Silva. Lula teve muitas portas fechadas em sua trajetória: a da oportunidade de ter uma infância digna, a dos patrões capitalistas, a dos generais políticos, a da elite preconceituosa. Sempre teimou. E hoje dita toda a política brasileira, sendo o presidente mais popular da História de nosso país. Seu governo deixará raízes profundas, tal qual Getúlio e Juscelino.

No “Alexandre” de Stone há duas cenas marcantes: a primeira, da ascensão, mostra um jovem imperador adentrando a cidade da Babilônia, sob a aclamação dos súditos conquistados, em meio a pétalas e oferendas. Ele fecha seus olhos e goza aquele momento sublime, enquanto a câmera se aproxima mudando lentamente seu eixo, num efeito vertiginoso que expressa a sensação de poder que o conquistador sentia naquele momento.

A outra cena mostra um imperador experiente, já cheio de vícios e orgulhos, que contra a vontade de todos quer sempre ir a Leste, perseguir o fim do mundo, aumentando as fronteiras de seu império. Numa batalha contra indianos, é ferido mortalmente junto de seu célebre cavalo, Bucéfalo. Cai ao chão e então desce sobre a tela uma cortina vermelha: vermelho do sangue que deixa claro que Alexandre é um homem e não um mito; que é mortal e não um deus. Vermelho que lembra a ele que o Sol que tanto admira não nasceu justamente para iluminar seu dia. É a cena da queda, o início do fim de um jovem imperador.

Morreu Alexandre e, tendo conquistado a Europa e a Ásia, pôde conquistar também a morte. Dizem que fracassou nos seus objetivos, mas seu fracasso foi nada mais que sucesso. Com sua política, fundou as raízes da cultura ocidental, até hoje sendo conhecido como o Pai do Ocidente.

Os sonhos de Alexandre não enxergaram fronteiras. Os de ninguém precisam enxergar. Seja um sonho pequeno ou sonho grande, a extensão de nossas conquistas é o quão longe pode ir nossa ambição. É o quanto de ideais podemos enxergar no horizonte.

É o quão significativa podemos tornar nossa ascensão e nossa queda.

13.9.10

A balança

Há eras imemoriáveis, localizadas num tempo que as mentes humanas não conhecem senão pela forma de mitos distorcidos, deformados e desbotados, existiu um semideus de nome Hércules ou Héracles, que supostamente possuía força sobrehumana. Era filho de Zeus, o deus supremo do Olimpo, com uma mortal.

Em certa altura de sua vida, após algumas frustrações pela indecisão entre ser mortal ou imortal, Hércules foi incumbido pelo oráculo de Delfos a cumprir doze tarefas que o redimiriam de sua desonra. Nada mais justo, tendo em vista que as tarefas haviam sido preparadas por seu maior inimigo.

A nós, basta saber que a primeira tarefa do semideus era matar um terrível leão, o Leão da Nemeia.

Esse Leão era um monstro cujo ímpeto por sangue o tornava uma criatura perigosa. Sua pele era intransponível e seu rugido ensurdecedor. Todos o temiam.

Ao encontrá-lo, Hércules tentou matá-lo com lanças e flechas, não obtendo sucesso. Após luta incansável, conseguiu derrotar o monstro enforcando-o. Arrancou sua pele indestrutível e passou a usá-la como proteção.

O que a mitologia não conta, e isso foi coisa que ouvi certa vez de um homem obscuro, cheio de mágoas, é que o Leão da Nemeia comoveu certa parte dos deuses do Olimpo. Por que a natureza deveria ser privada de uma de suas maiores forças pelo simples egoísmo de um semideus qualquer que só se interessa por sua redenção?, pensaram.

O felino foi então ressuscitado.

Em sua nova vida, o Leão da Nemeia não se sentia muito bem. A floresta parecia ter se esquecido de seus encantos. Não conseguia mais atemorizar os outros animais. Não podia mais correr livre e rápido como o próprio ar. Não caçava mais com o vigor de outrora. Algo incomodava o leão.

Após reflexão, percebeu que a derrota para Hércules lhe amputara o orgulho, o que é o mesmo que a alma do leão.

Ele não poderia mais correr, caçar, matar, dilacerar, copular, bocejar, qualquer coisa que fosse, com o brilho de antes, pois para cada ato em que fosse se esmerar, a lembrança de Hércules e de seus braços o enforcando lhe voltavam à memória, e um medo indescritível lhe invadia o ânimo.

O Leão se tornou solitário. Não era mais um monstro e tampouco podia ser um leão normal qualquer. Transitava no limbo entre dois mundos extremos e isso o deprimia. Finalmente, decidiu vagar em busca de respostas.

Certa vez, em um povoado qualquer, encontrou uma bela moça, cujos cabelos cintilavam à luz dos girassois, e logo se encantou por ela. Ela não lhe desviava o olhar como os outros camponeses, nem fugia ante sua passagem. A moça não o temia, pelo contrário, parecia compreendê-lo, e isso felicitava o Leão, que estava cansado da solidão que lhe fora imposta pela nova vida.

A moça sempre trazia consigo uma balança dourada. Ao aproximar-se dela, o Leão a rodeou, a cheirou, afagou-a com sua juba e ela nada fez. Prostrando-se na frente dela, o leão esperou que dissesse algo, e então ela retrucou:

“Você é um belo leão e percebo que quer que eu siga pelas florestas da Grécia ao seu lado”.

O felino assentiu.

“Mas, primeiramente, terá de passar num teste. Dê-me seu coração e o colocarei nesta balança. Se seu coração pesar menos que o puro ar o qual você tanto amava sentir em sua orgulhosa juba, serei sua. Caso contrário, terá de ir embora”.

O Leão aceitou sem pestenejar. Tinha convicção de que seu coração era mais leve que o ar. Seu pai era Tifão, deus dos ventos, ora!

Não me perguntem como o Leão conseguiu entregar seu próprio coração para a garota, mas ele conseguiu.

Infelizmente, o coração do Leão já não era mais leve como o ar. Onde outrora só existia a pureza de um instinto cego, agora havia o ressentimento, a dor, o medo e a necessidade de encontrar alguém que lhe afirmasse que sim, ele era um leão, não era?

A moça nada disse. Decepcionara-se

O Leão tentou argumentar: explicou ser filho de um deus, que era muito respeitado, que gostava dela mais que tudo, que não haveria como seu coração ser pesado e denso, não! seu coração era puro, puro como a natureza. Por que ela exigia tanto dele?

Mas aos olhos da moça aquelas súplicas nada mais eram do que rugidos assustadores e presas enormes que lhe ameaçavam. No fundo, ela não mais compreendia o Leão.

Ela se virou e foi embora. E durante muito tempo o Leão a observou se afastar, enquanto cintilavam de longe seu cabelo de girassol e a balança dourada.

O Leão da Nemeia amaldiçoou tudo e todos. Hércules, sua pele indestrutível, os deuses que o reviveram, a moça pela qual se apaixonara. De que adiantava ser um monstro se uma simples moça conseguira dissolver seu coração numa balança?

Vagou sozinho pela relva, sob sóis ardentes e quartos-de-lua brilhantes, durante muito tempo, rugindo um chamado de tristeza, de comiseração. Chamava por alguém, por algo, mas ninguém respondia, pois todos sabem que não se responde ao chamado de um leão triste. Todos na floresta sabem que não existe um leão triste. Leões são vivos, alegres, comem e se saciam vorazmente e matar é a sua vida. O Leão da Nemeia já não conseguia matar, depois que provara daquele sentimento, de que adiantava matar? Um leão triste é um fantasma, dizem.

Afinal de contas, aquele ali já tinha morrido, não tinha?

9.9.10

Esperando por alguém

Em 1905, Einstein apresentou ao mundo sua Teoria da Relatividade Restrita, baseada no conceito de que o espaço-tempo se apresenta sob quatro dimensões, três espaciais e uma temporal. O estudo ainda previa a física do movimento na ausência de campos gravitacionais. Dez anos depois, formulou a Teoria Geral da Relatividade, aprofundando seus estudos anteriores e generalizando a questão da relatividade em relação ao movimento e aos referenciais inerciais. O ponto fulcral dessa estupenda análise é a de que a gravitação é um efeito da geometria do espaço-tempo, capaz de curvá-lo.

As teorias de Einsten tiveram impactos profundos na concepção humana sobre o tempo e o espaço. Fosse arte, ciência ou um simples pensamento individual. Não sem menos relevo que tais proposições físicas, o sociólogo Boaventura de Souza Santos condensou estudos sociológicos a respeito do tempo no brilhante artigo “A crise do contrato social” (Reinventando a democracia), o qual li ainda no primeiro ano de curso.

Souza Santos relaciona a crise (ou “fragmentação”) das instituições na sociedade atual à uma turbulência paradigmática de disfunção do espaço-tempo estatal (o tempo oficial), forçado a coexistir com novos e instáveis tempos, representantes de novos direitos, novas coercitividades e novas violências.

Para entender essa complexa observação é preciso compreender o papel do Estado moderno, nascido à luz da Revolução Francesa, baseado na tripartição dos Poderes e calcado na República. Sua primazia como legislador, executor e julgador, outrora máxima e pouco limitada, padece de uma fraqueza sem precedentes, perdendo terreno para o poder de multinacionais, entidades paraestatais, organizações criminosas, formas locais de poder, entre outros subcentros que perquirem as prerrogativas estatais às quais a não muito tempo atrás se submetiam.

A existência de novas necessidades, crescentes e ilimitadas, da sociedade de consumo, inserida agora num contexto virtual da cibernética, ou mesmo o tempo das destruições das riquezas naturais, são exemplos das distorções trazidas ao tempo estatal, um tempo ultrapassado, caduco, como, por exemplo, o tempo nada razoável de um processo, ou mesmo a duração de um mandato presidencial e as exigências de uma burocracia.

Quantas vezes não nos pegamos imaginando que há algum tempo atrás, as coisas não pareciam ser tão rápidas quanto agora…

Einstein, ainda que não sozinho, revelou uma nova perspectiva do tempo para o ser humano. Essa relativização, por mais que soe atentatória e imprevisível, foi capaz de nos tornar mais humildes em relação à nossa ignorância. Não há tempo oficial, não há referencial absoluto. Alguns argumentarão que não há que se falar em humildade, partindo-se do fato de que tais estudos originaram bombas capazes de nos dizimar milhares de vezes, um poder quase divino. Mas não lembra essa força e mesmo seu significado abstrato, ainda que, porventura, inexistisse, que somos tão pequenos em relação ao universo?

Somos pequenos também em relação uns aos outros e por vezes nos esquecemos que a relatividade igualmente se dá no campo intersubjetivo. Gritamos, amamos, choramos, transamos, vivemos em nosso próprio tempo, que obviamente não é o tempo certeiro do próximo, daquele, desse ou de um qualquer.

Os apaixonados viverão a consumação de seu coração em velocidades que beiram à da luz, que Einstein precisou em aproximadamente 300.000 km/h. Outros, mais complacentes, observam a vida passar com a placidez que uma margem registra a fluidez do rio que lhe banha.

Eu me apequeno, respeitoso à relatividade das coisas, ciente que nada é absoluto e, por isso mesmo, capaz de dispender o dobro de esforço para alcançar as coisas que me atraem. Eu, em respeito à teoria da relatividade, a Einstein, a Boaventura, ao Universo e a todas às paixões, esperarei pacientemente a sua decisão.

3.9.10

ZtqM acadêmico

Orgulhosamente apresento o excelente trabalho da mestre Marilene Alencastro da Silva, cuja dissertação teve como tema: “A geração digital espelhada nos blogs: combinações e imagens”.

http://www.ppgeufsc.com.br/ferramentas/ferramentas/tese_di/313.pdf

Marilene, que defendeu a dissertação acima na Federal de Santa Catarina, faz um verdadeiro apanhado sobre como a internet e os blogs modificaram a vida dos jovens e quais consequências resultaram a partir daí, focando principalmente o impacto sócio-político que essas vozes isoladas causam na sociedade.

Tive a honra de ser um dos entrevistados que ajudaram a compor os estudos de Marilene, fornecendo detalhes sobre as motivações que me levaram a criar e a manter o Zaratustra tem que morrer, bem como sobre minha visão a respeito dos jovens atuais.

A autora achou por bem preservar a identidade dos blogueiros entrevistados, portanto, quem quiser conferir os trechos em que esse blog aparece, pesquise pela palavra “Vinicius”.

Aproveito para registrar aqui meus parabéns à mais nova mestre, cujo trabalho merece os mais proveitosos elogios.