29.8.10

O amor não vale um número de telefone

A primeira vez em que vi aquele número de telefone gravado no meu celular, uma dúvida me corroeu as certezas: que eco é esse? Um eco que parecia me transportar a lugares os quais já não lembrava mais ter visitado. Eu não pudera atender à chamada pois estava com amigos, comemorando o aniversário no final do dia, e quando percebi a ligação, era por demais tarde.

Aquele número não me era estranho, eu o conhecia de algum lugar, porém, de onde? Apesar da família extensa e dum número razoável de amizades, nem tantas pessoas haviam me ligado desde então, felicitando-me pelos 22 anos. Quem seria aquele número?

Quando essa pessoa retornou, mais tarde, estava em aula. Não observei o número, mas quando ouvi a voz dela, os fatos me vieram à mente como um raio. Era ela. Era ela que havia ligado.

Ela falava rapidamente, sem prender a respiração, como se tivesse calculado cada palavra. Eu silenciava, não por desídia, mas por absoluta falta de imaginação: o tempo em que vasculhava minha mente atrás de palavras para dizer algo não conferiam com o tempo que ela esperava por uma resposta. O silêncio entremeava minha lentidão e assim ela entendia que eu queria me expressar: ignorando-a.

Desejou-me felicidades, saúde, prosperidade. Eu não saberia dizer se aquilo era falso ou verdadeiro. Julguei ser verdadeiro, afinal de contas, ela é péssima tentando ser uma filha da puta.

Quando consegui achar as palavras, só me restou pedir que ela me ligasse posteriormente, ou que eu ligasse para ela, ou que nos falássemos de alguma maneira. Não seria possível, ela alegou, iria sair com amigas mais tarde.

Houve tempos em que demonizava essas amigas, para mim eram sempre a encarnação da lascívia e da luxúria que a tomavam de mim, que a carregavam para longe dos meus braços protetores. Infelizmente, o tempo tem o terrível efeito de nos fazer sentir pena de nós mesmos no passado, e é um tanto quanto cruel que nosso eu no futuro sempre e indubitavelmente dirá sobre o nosso eu de agora, “mas que ingênuo…”, como se ele, de alguma forma temporalmente absurda, não tivesse culpa nisso também.

Agora tanto me faz se ela sai com fulana ou com sicrano, o ponto em que quero chegar é que já não lembrava mais do número de telefone dela. Aquele eco perturbador nada mais era do que um grito vindo lá do passado, da época em que eu era ingênuo, tão ingênuo quanto sou hoje – e, no entanto, só acharei isso amanhã -, me escancarando uma verdade inconveniente, a qual custei a acreditar: acabou.

6 comentários:

Marina disse...

Uau. É mesmo, os textos não podiam combinar mais.

É engraçado essa coisa de não reconhecer mais a pessoa. Houve um tempo em que ela era tudo, agora ele nem reconhece mais o número de telefone. No caso dos meus personagens, acho que eles entenderam isso também. Tem coisas que devem ficar lá, guardadas do tempo, na lembrança. Nem todas as histórias merecem ser revividas.

Muito bom texto. Gosto desses contos, nem tristes, nem felizes. Mas que fazem pensar.
Beijos!

Alisson da Hora disse...

Lindo conto... como disse a Marina, olvidar por vezes é um mal necessário. Meus personagens também entenderiam isso, afinal são mestres na arte do desencontro...

abraços!

Natália Oliveira disse...

UAU. Você manda muito bem. Me deu a impressão q vcescreveu tudo num tapa só, sabe? Qd a gente não para pra respirar, nem revisar o texto? Então. Tanta verdade nele, né? Gostei tbdo comentário da Marina, realmente, "Nem todas as histórias merecem ser revividas."
te cuida :)

M. L. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
M. L. disse...

Um Belo conto! ( também tive a impressão que escreveu isso numa sentada só, como mencionou a Natália).
A tal sensação de querer ir em frente; de quem ,enfim, não resta mais nada(talvez, meras lembranças).
;*

re disse...

Passado....
Talvez meras jaguatiricas espreitando e tentando nos pegar em momentos mais frágeis. Mas acredito que tanto o passado quanto as jaguatiricas merecem respeito, afinal, foram nós.