24.7.10

Vampiros verdadeiros

Devo avisar o leitor, de antemão, que pretendo falar sobre vampiros nesse texto. O alerta é recomendável, uma vez que é possível que todos já estejam saturados desse assunto. De fato, é só ligar a TV para ver inúmeras séries sobre vampiros. Nas livrarias, os livros dedicados a esses seres noturnos enfileiram-se orgulhosos nas prateleiras mais visíveis. É no cinema, contudo, que têm causado alarde, e é justamente de cinema que falarei aqui.

Saí do cinema nesta última sexta-feira um tanto quanto estupefato. Assistira a um filme sobre vampiros. Eclipse? Não, não ousaria gastar meu dinheiro com isso. Assisti a um filme chamado Sede de Sangue, do aclamado diretor sul-coreano Park Chan-wook (Oldboy, Lady Vingança…).

O filme fala a respeito de um padre coreano extremamente ético que, em uma atitude de penitência e voluntarismo, alista-se para ser cobaia num experimento que analisa os efeitos causados por um vírus no corpo humano. Sofrendo de hemorragia e sabendo que seus dias estavam contados, o padre passa por uma transfusão de sangue e acaba tendo injetado acidentalmente em seu corpo sangue de vampiro.

O que se segue a partir daí é uma quebra progressiva de todos os valores nos quais o padre acreditava. “Agora tenho sede de todos os pecados”, confessa o padre-vampiro a seu superior. O embate moral a que é submetido o lança numa espiral de sexo, violência, fetichismo, desejos e, como não poderia deixar de ser para um predador, morte.

O filme é de longe um dos mais fracos de Park. A edição é confusa e um pouco de concisão à montagem teria caído bem para o resultado final. No entando, do ponto de vista simbólico, a obra é rica, e não pude deixar de notar o contraponto em que há entre Sede de Sangue e Crepúsculo.

Crepúsculo nada mais é do que a platonização da ideia do vampiro, do sombrio. As trevas nos livros de Stephanie Meyer glamurizam-se por rostinhos esteticamente perfeitos e atitudes aristocráticas de seus seres que supostamente haveriam de ser monstros. Crepúsculo reflete a contemporaneidade em relação ao mito do vampiro: os vampiros cederam ao politicamente correto. Não caçam, não matam, não agridem, não almejam poder. São seres mutilados e reprimidos. Desprezam suas habilidades e a condenam como um fardo. Edward recusa o sexo com uma humana, pois aparentemente tem consciência. Romeu e Julieta não teriam sido mais piegas, muito embora Crepúsculo não passe de uma versão quixotesca da obra shakesperiana. Não por menos, a ideia que o livro e filme passam é a de que um casal de vampiros pode ser feliz eternamente.

Já Sede de Sangue inverte esse papel e resgata o sentido do mito do vampiro, de sua simbologia mais sorumbática. A iniciar pelo fato de ser um filme oriental, contrapondo-se ao conjunto de valores ocidentais de castidade presentes na obra americana. Sede de Sangue traz uma protagonista doentia, desvirtuada, que brinca de matar o marido enquanto este dorme e não se exime de transar com um padre, enquanto tenta se convencer de que não é tímida. Muito diferente da menininha sem sal de Crepúsculo, que virginalmente não se decide entre um vampiro e um lobisomem.

O padre de Sede de Sangue, por sua vez, a despeito de seu desespero e dúvida entre respeitar a fé da Santa Sé e seguir seu instinto animal recém-adquirido (ou recém-acordado?), não titubeia quando tem de se alimentar: vai se virando como pode, roubando sangue de pessoas em coma, de suicidas, até que não resiste e… mata.

O realismo da obra coreana é como uma mão podre e descarnada que puxa o romantismo de Crepúsculo para baixo, para que a necessidade do pensamento ocidental de estabelecer padrões de comportamento e ideais longínquos como castidade, respeito, amor impossível, entre outros, nunca mais invadam o covil de um dos seres mais demoníacos que existe no imaginário humano, o vampiro.

Há uma diferença brutal entre os beijos não dados no folhetim americano e entre o filme coreano, onde o casal apaixonado, visceralmente, usa e abusa de suas línguas, lambendo pés, mãos, feridas, sangue e, inclusive, axilas. O corpo é a âncora do realismo do verdadeiro vampiro. Ele vive pelo corpo, pelo prazer, pela sede. Por sua vez, no romantismo vampiresco de Meyer, os vampiros se acham superiores demais para violar uma humana sonsa. Os vampiros apaixonados de Crepúsculo vivem eternamente se amando, numa reedição do impossível. O casal de Sede de Sangue, diante do fato de que terão de viver um ao lado do outro pela eternidade, passa a se agredir mutuamente, a se odiar, a se sabotar. Alguém tem dúvida de qual cenário se tornaria realidade no caso de imortais se amarem?

Fiquei estupefato, é verdade. Mas não com as condições doentias e insanas a que os personagens de Sede de Sangue são submetidos. Muitos foram os descontentes que saíram do cinema, acusando o filme de antiestético e de mau-gosto. Não, eu não ligo para o visceral. O que me deixou surpreso, em verdade, foi que me descobri um defensor ferrenho de Sede de Sangue, de sua brutalidade, de suas conjunções carnais, de sua escatologia.

Prefiro mil vezes a baixeza do instinto humano ao elevado senso de racionalismo que julga poder controlar nossas mentes, e que tem falhado sistematicamente nessa tarefa. A razão não é tudo!

E você, de que lado está?

5 comentários:

re disse...

Distância higiênica.
“O rapaz conta sobre as andanças do final de semana: deixou a namorada em casa perto das 02 horas, despedindo-se afobado e cansado depois da noite barulhenta da balada, a intimidade foi pouca e sem grandes emoções, mas estava eufórico. Entra em seu quarto e quase tropeça na ânsia de ligar o computador - para falar com a namorada que havia deixado a poucos minutos - e ali trocaram “intimidades” até às 05 horas”.
De que lado estou?
Talvez naquela parte “do lado” onde o riso não seja entendido como banal ou medíocre e que o nojo não limite as trocas mais íntimas.

♪¬♥ MaRa♥ ♫☼ disse...

De que lado estou? Bom... deixe me ver.... "Um vampiro que ama uma garota humana e que simplesmente nao a toca por ama-la tanto que nao a quer machucar, ja que o extase vampirico esta em morder e nao em "gozar" como nos humanos" E um... "Padre que se torna vampiro e agora começa a cometer os pecados mais sujos?.. ahh fala serio... os padres de hoje nao precisam de desculpas para cometerem pecados nao.. " eu estou do lado do vampiro qualquer que seja ele, mas vampiros sao uma raça e como toda raça nao sao iguais em tudo, com isso pode sim existir uma raça como os Cullen de "CREPUSCULO" o que é alias um otimo filme, seu sucesso nao me deixa mentir. e antes de falar da maneira de Edward Cullen se relacionar com a Bella.. leia TODOS os livros e vai ver que ele Tranza com ela ainda humana sim. ainda preciso dizer algo? rsrs

Marina disse...

Posso ficar em cima do muro? Não gosto dessa coisa de ficar contra tudo o que eu não concordo. Acho justo deixar as pessoas escreverem o que acharem bom, enquanto tem gente que gosta e enquanto não estejam ferindo ninguém.

Por outro lado, já tentei fazer um comentário sobre os óbvios defeitos no livro/filme Crepúsculo na frente de fãs e só faltaram me engolir. Detesto fanatismos. Me dá enjôos esse povo fanático que não consegue aceitar que a história tem rombos enormes.

De longe, prefiro os vampiros como os conheci antes de Crepúsculo. Mas não condeno quem está a fim de inovar. Somos todos livres.

Maria a louca disse...

Ainda acredito que o mito vampiresco seja para tranferir os demonios interiores, afinal você já morreu, não acho certo se prender a conceitos humanos de etica.

Lígia Silva disse...

Para mim os vampiros são o retrato dos nossos instintos mais selvagens sem nenhuma espécie de freios. Sem morte, sem amarras racionais, seja lá quais forem. Os vampiros da Meyer são o retrato das nossas pretensões mais bonitas e intangíveis. Autopenitência, castidade, amor, compaixão. Estou, como todo ser humano, entre os dois. Nenhum é absoluto, em nenhuma circunstância.