28.7.10

O burro total

A Revista Istoé de 28 de Julho de 2010 traz em seu bojo reportagem intitulada “O herdeiro de Eike Batista”. A matéria aborda a vida e os planos de Thor Batista, 19 anos, filho do bilionário brasileiro, o “oitavo homem mais rico do mundo”, com Luma de Oliveira, a “eterna musa do Carnaval”.

Senti-me compelido a escrever sobre o garoto, um rapaz loiro, de sobrancelhas grossas e feições brutas.

Aparentemente, Thor é um bon-vivant, que divide seu tempo entre musculação constante, noitadas caras e uma faculdade de Economia no Ibmec. É fácil observar que vive à sombra do pai, um homem poderoso. Não por menos, o nome do garoto é inspirado num deus nórdico: Thor, deus do trovão, que possuía um poderoso martelo e só perdia em beleza e força para Odin, seu pai.

Em condições semelhantes, e que me fez despertar a justa atenção para a reportagem, está Bernardo Bertrand, personagem fictício do livro A imortalidade de Milan Kundera, escritor tcheco. Bernardo Bertrand era neto de Arthur Bertrand, deputado francês que, obcecado em ecoar sua vida e sua reputação pela eternidade, como aparentemente todo ser humano deseja, batizou seu filho, o pai de Bernardo, de Bertrand Bertrand. Um nome que não poderia deixar de ser indiferente a ninguém e que era, nas palavras de Kundera, “bonito como uma berceuse”.

Bertrand Bertrand, por sua vez, sob o fardo de possuir um nome dobrado, que o fazia carregar em igual proporção seu senso de responsabilidade perante os outros, instruiu-se a sempre fazer o bem pela humanidade. Não imaginava, contudo, que distinguir o bem do mal fosse tarefa tão árdua, pelo que, a despeito da repetição silábica de seu poderoso nome, tornava-o tão comum quanto qualquer homem, embora não se desse conta desse fato corriqueiro. É por isso que seu filho também teve de suportar uma sina, e veio a ser chamado Bernardo Bertrand, uma conjunção sonora tão bela que não foi surpresa o garoto ter acabado com um emprego numa emissora de rádio.

Na rádio, o papel de Bernardo era fazer entrevistas com celebridades. Numa crítica brilhante, Kundera demonstra o poder daquele que se dá ao luxo de perguntar, ao invés de ser aquele que tem de responder. Bernardo era aquele tipo de sujeito tão afeito com sua condição de superioridade, de ter sido criado numa família distinta, de se sentir mais responsável que a maioria para fazer valer sua reputação, que foi com profunda indignação que reagiu quando recebeu uma correspondência (diploma) anônima, mas obviamente remetida por um desafeto, com os dizeres: “Bernardo Bertrand é promovido a burro total”.

Indispensável ressaltar que essa ferida nunca sarou no pobre Bernardo. Tão convicto. Tão poderoso. Mas até um homem que está acima de todos tem de saber que alguém lá embaixo, entre as formigas, o tem por burro total.

A reportagem da Istoé traz o seguinte trecho:

“Tino para os negócios ele mostrou cedo. Na adolescência, aproveitava os dias de temporal para dar carona aos colegas da escola em seu guarda-chuva, cobrando R$ 1 por viagem do pátio à cantina. A história é contada entre sorrisos pela mãe. ‘Desde pequeno ele sabe fazer dinheiro’, diz Luma”.

Eu juro que nunca senti tanta pena de uma pessoa.

A despeito de sua mesada polpuda, de suas namoradas do quilate de Nicole Bahls e semelhantes, de possuir um helicóptero à disposição, de já ter sentado à mesma mesa de Lula, do sheik de Abu Dhabi e outras figuras poderosas, Thor, o deus à sombra do pai, nada mais é do que um rapaz assustado, acossado por um império que não lhe pertence mas que clama por sua futura responsabilidade. O nome de seu pai está grafado em seu DNA assim como no peso de seu futuro, que não vai embora depois da agitada vida noturna que consome os príncipes cariocas. Um garoto que é aplaudido por vender solidariedade a crianças, ainda que a R$ 1, não pode viver senão sob o signo da ganância, da indiferença. Thor, o deus menor, está fadado à burguesia mais nojenta que reside nos trópicos. A uma elite que brinca de cassino na bolsa de valores e presenteia suas crias com Porsches e Lamborghinis.

Criado em berço de ouro e ignorante quanto à realidade que o cerca, Thor provavelmente vive num mundo de fantasias. Um mundo surreal, onde tudo é possível. Uma matrix definida pela economia, que o blinda com seguranças, câmeras e cercas, e o encerra numa jaula de poucas possibilidades, onde se torna um raquítico, muito embora malhe todo dia. Um raquítico acorrentado, à espera do pai lhe passar a coroa. Um rei escravo.

O verdadeiro deus Thor, segundo reza a mitologia nórdica, será morto pela cobra Jormungand, filha de Loki, durante o Ragnarok (Apocalipse), que o enrolará sobre si e destilará seu veneno contra o filho do deus supremo. O Thor tupiniquim também tem seus dias contados, não sua preciosa vida, mas sim suas crenças limitadas, quando perceber que dentro de seu mundinho restrito, ele não passa de um burro total.

24.7.10

Vampiros verdadeiros

Devo avisar o leitor, de antemão, que pretendo falar sobre vampiros nesse texto. O alerta é recomendável, uma vez que é possível que todos já estejam saturados desse assunto. De fato, é só ligar a TV para ver inúmeras séries sobre vampiros. Nas livrarias, os livros dedicados a esses seres noturnos enfileiram-se orgulhosos nas prateleiras mais visíveis. É no cinema, contudo, que têm causado alarde, e é justamente de cinema que falarei aqui.

Saí do cinema nesta última sexta-feira um tanto quanto estupefato. Assistira a um filme sobre vampiros. Eclipse? Não, não ousaria gastar meu dinheiro com isso. Assisti a um filme chamado Sede de Sangue, do aclamado diretor sul-coreano Park Chan-wook (Oldboy, Lady Vingança…).

O filme fala a respeito de um padre coreano extremamente ético que, em uma atitude de penitência e voluntarismo, alista-se para ser cobaia num experimento que analisa os efeitos causados por um vírus no corpo humano. Sofrendo de hemorragia e sabendo que seus dias estavam contados, o padre passa por uma transfusão de sangue e acaba tendo injetado acidentalmente em seu corpo sangue de vampiro.

O que se segue a partir daí é uma quebra progressiva de todos os valores nos quais o padre acreditava. “Agora tenho sede de todos os pecados”, confessa o padre-vampiro a seu superior. O embate moral a que é submetido o lança numa espiral de sexo, violência, fetichismo, desejos e, como não poderia deixar de ser para um predador, morte.

O filme é de longe um dos mais fracos de Park. A edição é confusa e um pouco de concisão à montagem teria caído bem para o resultado final. No entando, do ponto de vista simbólico, a obra é rica, e não pude deixar de notar o contraponto em que há entre Sede de Sangue e Crepúsculo.

Crepúsculo nada mais é do que a platonização da ideia do vampiro, do sombrio. As trevas nos livros de Stephanie Meyer glamurizam-se por rostinhos esteticamente perfeitos e atitudes aristocráticas de seus seres que supostamente haveriam de ser monstros. Crepúsculo reflete a contemporaneidade em relação ao mito do vampiro: os vampiros cederam ao politicamente correto. Não caçam, não matam, não agridem, não almejam poder. São seres mutilados e reprimidos. Desprezam suas habilidades e a condenam como um fardo. Edward recusa o sexo com uma humana, pois aparentemente tem consciência. Romeu e Julieta não teriam sido mais piegas, muito embora Crepúsculo não passe de uma versão quixotesca da obra shakesperiana. Não por menos, a ideia que o livro e filme passam é a de que um casal de vampiros pode ser feliz eternamente.

Já Sede de Sangue inverte esse papel e resgata o sentido do mito do vampiro, de sua simbologia mais sorumbática. A iniciar pelo fato de ser um filme oriental, contrapondo-se ao conjunto de valores ocidentais de castidade presentes na obra americana. Sede de Sangue traz uma protagonista doentia, desvirtuada, que brinca de matar o marido enquanto este dorme e não se exime de transar com um padre, enquanto tenta se convencer de que não é tímida. Muito diferente da menininha sem sal de Crepúsculo, que virginalmente não se decide entre um vampiro e um lobisomem.

O padre de Sede de Sangue, por sua vez, a despeito de seu desespero e dúvida entre respeitar a fé da Santa Sé e seguir seu instinto animal recém-adquirido (ou recém-acordado?), não titubeia quando tem de se alimentar: vai se virando como pode, roubando sangue de pessoas em coma, de suicidas, até que não resiste e… mata.

O realismo da obra coreana é como uma mão podre e descarnada que puxa o romantismo de Crepúsculo para baixo, para que a necessidade do pensamento ocidental de estabelecer padrões de comportamento e ideais longínquos como castidade, respeito, amor impossível, entre outros, nunca mais invadam o covil de um dos seres mais demoníacos que existe no imaginário humano, o vampiro.

Há uma diferença brutal entre os beijos não dados no folhetim americano e entre o filme coreano, onde o casal apaixonado, visceralmente, usa e abusa de suas línguas, lambendo pés, mãos, feridas, sangue e, inclusive, axilas. O corpo é a âncora do realismo do verdadeiro vampiro. Ele vive pelo corpo, pelo prazer, pela sede. Por sua vez, no romantismo vampiresco de Meyer, os vampiros se acham superiores demais para violar uma humana sonsa. Os vampiros apaixonados de Crepúsculo vivem eternamente se amando, numa reedição do impossível. O casal de Sede de Sangue, diante do fato de que terão de viver um ao lado do outro pela eternidade, passa a se agredir mutuamente, a se odiar, a se sabotar. Alguém tem dúvida de qual cenário se tornaria realidade no caso de imortais se amarem?

Fiquei estupefato, é verdade. Mas não com as condições doentias e insanas a que os personagens de Sede de Sangue são submetidos. Muitos foram os descontentes que saíram do cinema, acusando o filme de antiestético e de mau-gosto. Não, eu não ligo para o visceral. O que me deixou surpreso, em verdade, foi que me descobri um defensor ferrenho de Sede de Sangue, de sua brutalidade, de suas conjunções carnais, de sua escatologia.

Prefiro mil vezes a baixeza do instinto humano ao elevado senso de racionalismo que julga poder controlar nossas mentes, e que tem falhado sistematicamente nessa tarefa. A razão não é tudo!

E você, de que lado está?