7.6.10

Clara Crocodilo se foi

O feriado de Corpus Christi me trouxe de companhia dois velhos amigos que ficariam alguns dias em Londrina para o encontro de estudantes de Ciências Sociais da região Sul. Hospedei-os, por mais que meu apartamento mal me comporte.

Vejo-os poucas vezes no ano, um mora em Curitiba, o outro em São Paulo. Com sorte, consigo vê-los no interior paulista, de onde venho. Lá tínhamos nossa turma, um amontoado de trinta pessoas que eram conhecidas como “nuvem negra”, em decorrência do fato que quase sempre usávamos roupa preta. Foram tempos bons, ainda que pareçam ingênuos.

Desses trinta, eu realmente só tenho amizade com três. Dois deles são os que vieram para cá.

Acompanhava-me já há algum tempo um vinil do Arrigo Barnabé e sua extinta banda Sabor de Veneno, Clara Crocodilo, emprestado de um desses amigos. Para quem não sabe, Arrigo Barnabé é um artista londrinense muito cultuado, que fez sua carreira em sampa, e que, musicalmente, é uma das únicas coisas experimentais desse país tão monótono.

Não sei precisar quanto tempo esse vinil ficou comigo, mais de ano, provavelmente. Muitos podem pensar que é falta de educação pegar algo emprestado durante tanto tempo. Esse amigo, porém, manteve para si meu Apanhador no Campo de Centeio durante bons três anos. Mas não é vingança o que motivou eu manter a bolacha entre meus vinis durante tanto tempo.

Aquele vinil significava mais para mim. Era uma maneira de retornar a lugares aos quais não pertenço mais, a uma adolescência cheia de vivências, de experiências, ao seio de uma turma que me acolheu independentemente de todos os meus trejeitos. Aquele vinil era uma forma de nunca esquecer o que fui e de sempre lembrar para onde correr, quando as coisas apertassem.

Mas Clara Crocodilo se foi. E junto dele (sim, porque Clara era um office boy), algumas idealizações também partiram. Tive de devolver o vinil ao amigo saudoso do dodecafonismo de Arrigo. Obviamente eu não diria a ele tudo o que o vinil significa, pois sei que ele fica mais feliz em posse do disco. Uma vez ele me disse que tem uma relação quase erótica com seus discos. Prefiro não entender isso.

Vejo nos dois amigos frustrações semelhantes às minhas. Querem explorar um mundo novo que se desenha à frente de suas vidas, com oportunidades infinitas, mas ao mesmo tempo não conseguem soltar a mão do passado, pois sabem que devem respeito aquilo que viveram, e sabem que nesse mesmo mundo cheio de oportunidades, dificilmente encontrarão sinceridade e amor que encontravam naquela turma, ainda que seja a turma restrita a quatro pessoas realmente comprometidas com uma amizade.

A ideia machadiana de atar as pontas do passado e presente, que Bentinho perseguia doentemente, talvez se revele cristalina aqui. Um dos lados tem de ceder, infelizmente. E quase sempre é o passado que fica para trás, coisa natural.

Enquanto postergamos essa decisão, vamos vivendo de ideais, crentes de que os laços jamais desatarão, que as amizades sempre se fortalecerão e que a vida jamais imporá condições cruéis à concretização de nossos sonhos. Vivemos esses ideais por medo ou por esperança, com vinis ou livros guardados num canto confortável, somente esperando um momento para que sejam apreciados, para que façam florescer as melhores memórias. Por isso e por muito mais, sentirei saudades de você, Clara Crocodilo.

Adeus, Clara.

2 comentários:

Wilson Barbieri disse...

Sabe, me sinto como você. Pode ser muito saudosismo da nossa parte, não sei, mas sinto muita falta dos bons tempos e sinto uma certa necessidade de exaltar nossa amizade.
Talvez isso seja uma forma de se confortar diante de um presente cheio de novos caminhos, quiçá tão intensos quanto os nossos "velhos tempos"... não, acho que nao...

[Ice em sua fase Aspone] disse...

No fundo, comparo a amizade à tatuagem: ela está lá, sempre estará; tem seu significado, sua história. É a marca que, sempre que vista, trará lembranças que as vezes nós mesmos tinhamos certeza que já não existiam. Deixa aquele gosto de que um tempo foi muito bom e você fez questão de grava-lo na pele, no peito. Exalta-la prova não somente que você ainda valoriza as raizes, mas que, um dia, foi realmente feliz.