9.6.10

Dois dons

Eu tenho dois dons. Um deles é escrever, o outro, ajudar as pessoas. Não quero me gabar, apenas digo isso para exaltar que se há uma ou duas coisas em que eu posso ser útil nesse mundo é escrevendo e ajudando pessoas.

Ajudar pessoas é algo que está no meu DNA, tendo em vista que sou filho de psicólogos. Escrever, no entanto, é algo que desenvolvi sozinho, independente de aulas de redação ou outro ensinamento qualquer. É um dom nato.

Gosto de lidar com os problemas alheios. Nada me recompensa mais do que a satisfação de saber que ajudei um ser humano. Sou altruísta por convicção e por não conseguir imaginar que seja possível viver ignorando as dificuldades que cercam aqueles que amo e aqueles que me chamam a atenção.

Escrever, contudo, não me traz prazer certeiro. Escrever implica em sentir dor ou mesmo um prazer doentio. Quando escrevo, esqueço o mundo. Ao terminar um texto, dou-me conta de que muitas horas passaram, não comi nada, não tomei nada, mal respirei. Escrever é como arrancar um câncer de mim. Benigno ou maligno. O objetivo direto da minha escrita é extirpar das minhas entranhas as percepções mais sinceras e mais controvertidas que possuo sobre a humanidade, sobre meus pares. Escrever para mim é esbofetear rostos, pois não aprecio a acomodação.

De um dom ou outro, portanto, nada sobra para mim. Meus dons me fazem um servo das pessoas e não reclamo disso. No entanto, não posso ignorar minha própria existência e meus próprios desejos. É possível ajudar os outros enquanto o próprio altruísta está se despedaçando ou não suporta mais o mundo em suas costas?

No filme Violação de Privacidade, estrelado por Robin Willians e Jim Caviezel, que trata de um futuro onde os humanos tem uma espécie de câmera instalada no cérebro desde crianças, que registra todas as visões da pessoa e, quando esta morre, são editadas por um editor (Robin Willians) para que sejam exibidas no funeral, por exemplo, ou que se faça um filme, como uma dessas gravações de parto, há uma cena que muito admiro. Robin Willians e Jim Caviezel se encontram e este interpela aquele a respeito de seus atos. A responsabilidade de se exaltar o indivíduo e de esconder os erros deste durante sua vida cabe ao editor, o que motivava a revolta de Caviezel. O personagem de Willians acredita, não sem uma leve entonação de frustração em sua voz e seus olhos, que é um “devorador de pecados” (sin eater), alguém que lava os mortos de seus vícios e os toma para si. Um grande fardo, que o torna desprezível para o resto da sociedade.

A cena em questão ilustra bem o ponto abordado. Aquele que ajuda se sacrifica, esquece-se: some em meio a um espectro de dor, um mar negro cujo único navio permitido a singrá-lo é daquele que o enfrenta impiedosamente, de um capitão que, dentro de sua cabine iluminada, sabe quais ondas superar.

Isso não é possível eternamente. O capitão não pode esquecer de seus deveres para consigo mesmo.

Aquele que devora pecados tem de estar preparado para adoecer. Chagas inúmeras surgirão em seu corpo, reflexo da exaustão a que é levado pelos combates que assume. Os pecados alheios não morrem com o pecador, eles se apossam do devorador, e o vitimam cruelmente.

Houve quem amaldiçoasse meus dons. Houve portos em que atraquei por amor, sedento de sentir algo por mim, e não pelos outros. Essas paragens me traíram, cuspiram em minha face. Nomearam “medíocre” minha escrita e “sem brilho” meu altruísmo. Hoje, quando navego em mares longínquos, lembro com desdém desse amor deformado, e regozijo-me de explorar outros horizontes, principalmente quando ouço notícias que não me despertam outra coisa senão nojo por quem um dia ousei amar.

Sei dos meus dons e do papel que tenho de desempenhar nesse planeta. Sei que existo e que não posso sumir em meio a essa missão. Sei dos meus limites e sei do gosto que tenho por essa empreitada. Escreverei e ajudarei com paixão. Sei o suficiente para começar meus passos, mas quero saber muito mais.

Não falharei, prometo.

7.6.10

Clara Crocodilo se foi

O feriado de Corpus Christi me trouxe de companhia dois velhos amigos que ficariam alguns dias em Londrina para o encontro de estudantes de Ciências Sociais da região Sul. Hospedei-os, por mais que meu apartamento mal me comporte.

Vejo-os poucas vezes no ano, um mora em Curitiba, o outro em São Paulo. Com sorte, consigo vê-los no interior paulista, de onde venho. Lá tínhamos nossa turma, um amontoado de trinta pessoas que eram conhecidas como “nuvem negra”, em decorrência do fato que quase sempre usávamos roupa preta. Foram tempos bons, ainda que pareçam ingênuos.

Desses trinta, eu realmente só tenho amizade com três. Dois deles são os que vieram para cá.

Acompanhava-me já há algum tempo um vinil do Arrigo Barnabé e sua extinta banda Sabor de Veneno, Clara Crocodilo, emprestado de um desses amigos. Para quem não sabe, Arrigo Barnabé é um artista londrinense muito cultuado, que fez sua carreira em sampa, e que, musicalmente, é uma das únicas coisas experimentais desse país tão monótono.

Não sei precisar quanto tempo esse vinil ficou comigo, mais de ano, provavelmente. Muitos podem pensar que é falta de educação pegar algo emprestado durante tanto tempo. Esse amigo, porém, manteve para si meu Apanhador no Campo de Centeio durante bons três anos. Mas não é vingança o que motivou eu manter a bolacha entre meus vinis durante tanto tempo.

Aquele vinil significava mais para mim. Era uma maneira de retornar a lugares aos quais não pertenço mais, a uma adolescência cheia de vivências, de experiências, ao seio de uma turma que me acolheu independentemente de todos os meus trejeitos. Aquele vinil era uma forma de nunca esquecer o que fui e de sempre lembrar para onde correr, quando as coisas apertassem.

Mas Clara Crocodilo se foi. E junto dele (sim, porque Clara era um office boy), algumas idealizações também partiram. Tive de devolver o vinil ao amigo saudoso do dodecafonismo de Arrigo. Obviamente eu não diria a ele tudo o que o vinil significa, pois sei que ele fica mais feliz em posse do disco. Uma vez ele me disse que tem uma relação quase erótica com seus discos. Prefiro não entender isso.

Vejo nos dois amigos frustrações semelhantes às minhas. Querem explorar um mundo novo que se desenha à frente de suas vidas, com oportunidades infinitas, mas ao mesmo tempo não conseguem soltar a mão do passado, pois sabem que devem respeito aquilo que viveram, e sabem que nesse mesmo mundo cheio de oportunidades, dificilmente encontrarão sinceridade e amor que encontravam naquela turma, ainda que seja a turma restrita a quatro pessoas realmente comprometidas com uma amizade.

A ideia machadiana de atar as pontas do passado e presente, que Bentinho perseguia doentemente, talvez se revele cristalina aqui. Um dos lados tem de ceder, infelizmente. E quase sempre é o passado que fica para trás, coisa natural.

Enquanto postergamos essa decisão, vamos vivendo de ideais, crentes de que os laços jamais desatarão, que as amizades sempre se fortalecerão e que a vida jamais imporá condições cruéis à concretização de nossos sonhos. Vivemos esses ideais por medo ou por esperança, com vinis ou livros guardados num canto confortável, somente esperando um momento para que sejam apreciados, para que façam florescer as melhores memórias. Por isso e por muito mais, sentirei saudades de você, Clara Crocodilo.

Adeus, Clara.