25.4.10

Essência

Acho engraçado, muito embora seja aquele riso forçado, como algumas pessoas não sabem se compreender. Por mais que o “Conheça-te a ti mesmo” socrático tenha mais de dois milênios de existência, as pessoas ainda teimam em ignorar seus próprios sinais, seus próprios alertas, surdas que são aos seus anseios mais profundos.

É importante que o indivíduo estabeleça uma relação de essencialidade entre si e a natureza. Um homem que não se compreende como membro de um ambiente vasto, do qual não passa de um ponto desprezível, não sabe se compreender, e vive sua vida em superficialidade, como um cão que corre atrás do próprio rabo.

A essência da natureza reside em seus componentes mais básicos, os elementos, os animais, a vegetação: um espírito próprio moto-contínuo, ao qual os cristãos chamam Deus, os muçulmanos Alá e por aí vai. Estar em sintonia com esse cenário, e fujo aqui de qualquer ideia ambientalista eco-chata, é estar bem consigo mesmo.

Compreendendo-me, sempre admirei os leões e o fogo, em particular.

A graça destes felinos é insuperável, sua interdependência como bando, onde cada um sabe sua função e todos tomam conta um do outro, é o segredo de seu sucesso como predadores. Rei da floresta, é a legenda da imponência, da violência, o que não o deixa menos belo. Um leão é como Deus e o diabo no mesmo ser, reflexo da verdade em si, posto que temos uma ideia estúpida de associar a imagem de “Deus” ao maniqueísmo “bem/mal”. Mesmo tendo por objetivo matar Zaratustra, ao menos este sabia há muito tempo que Deus está além do bem e do mal.

Já o fogo surpreende por sua imaterialidade. Tido por uns como agente da destruição, prefiro encará-lo como poder de renovação. O fogo destroi, para que algo novo surja em seguida. Assim o é no cerrado. É premente: sem ele não teríamos a possibilidade de iluminar as trevas, de nos aquecermos, de nos confortarmos. Mesmo assim, à semelhança dos altruístas que trazem inúmeros bens para o mundo, sacrificando-se em prol do progresso, da evolução, o fogo guarda seus perigos, e aproximar-se dele significa queimar-se, magoar-se. Aproximar-se do altruísta significa estar ao lado de alguém que sempre vai queimar os mais próximos… em prol daqueles que necessitam de ajuda.

Não à toa, muito embora me identifique com esses elementos citados, é na água que sinto-me livre. E foi com um leão destituído de seu trono que compreendi a tristeza da vida.

Eu não tinha mais que oito anos, um rapazote. Em minha cidade natal havia um bosque, com um zoológico modesto,  mas que possuía animais altivos em cativeiro. Excitava-me sobretudo o rugido do leão, que eu ouvia desde longe, ainda na entrada do bosque. A possibilidade de me deparar com aquele animal era extasiante, tamanho meu fascínio pelos leões. Começava meu itinerário sempre pelos símios, todos tão sem-graça, para que o último animal a ser visto fosse o felino, assim a expectativa cresceria, o que parece razoável para uma criança de oito anos.

A jaula do leão, contudo, era muito pequena. E aquele animal já aparentava sinais de idade avançada. Era magro, cabisbaixo, enrugado, com as costelas todas à mostra sob a pelugem escassa. Andava agitado em certos momentos, como que num desespero perpétuo, mas, subitamente, estancava, e ficava parado, resignado com a ideia de que nunca sairia daquelas grades. Sua falta de ânimo era gritante, e as crianças ao meu redor zombavam dele. Chamavam-no feio, velho, tedioso. “Faz alguma coisa, animal idiota”, disse um. Eu, parado como ele, cabisbaixo como ele, triste como ele, ouvia em silêncio. E me entristecia.

O leão da jaula de minha cidade sempre foi um fantasma para mim. Um aviso sombrio de que feras também adoecem, também falecem. Rei morto, rei posto, diz o ditado. Nunca foi fácil para mim perder. Mas eu tento aprender, paulatinamente, que há coisas das quais temos que abrir mão.

Esse leão preso impregnou-se em mim de tal maneira que durante muito cresci sob o signo das grades. Infelizmente, temo dizer que cresci preso em mim mesmo, quando poderia ter voado tão mais alto…

Foi a água, repito, que me apresentou a liberdade.

Por mais que sentisse-me preso nesta carcaça que é meu corpo, sempre tímido perante os olhos do mundo, sempre de joelhos perante o julgamento dos leões mais fortes, dos elefantes mais sábios, das girafas mais esbeltas, respirando o ar livre com a sofreguidão de quem se encontra preso numa caixa apertada, na água sinto-me liberto, capaz de jogar por terra grilhões invisíveis, que só existem na minha cabeça. A natação me ajuda a esquecer inúmeros problemas. Na natação, minha única preocupação é chegar ao outro lado da piscina.

A água é paz para quem sempre teve o fardo de queimar aqueles que estavam ao redor.

À minha essência, pois, agradeço. Conhecer a mim mesmo pode não ter me trazido felicidade instantânea, mas não há alegria maior do que olhar ao redor do mundo e estar feliz com o ar que respiro sadio e com a pessoa que eu sou, alguém capaz de correr livre, de atacar, de defender e de rugir tão alto quanto todos possam ouvir, como um leão sem grades.

3 comentários:

chica disse...

Seu texto me trouxe - e quase todos me traz - sentimentos de ciúmes/inveja e os roubo para mim.
Sentindo a força dessa "Essência" que agora é minha, desejo o fogo para o momento do fim - talvez seja menos poluente.rsrsrs

Daniel Ricardo Barbosa disse...

Interresante esse texto... tem nele um grito - ou rugir - que ainda não sei precisar qual, mas de incontida força... vou reler ainda algumas vezes para descobrir exatamente como me tocou, mas desde já receba o meu...
abraço!

Natália Oliveira disse...

Incrível,como todos os outros... Que orgulho devocê. e que vontade de ser assim também =)

saudades das longas-conversas-longas...