18.4.10

Desejo

eva

Homens sábios não titubeiam ao andar na selva. Eu não sou um homem sábio, razão pela qual chamei a atenção daquela cobra desnecessariamente.

Não é um animal de grandes feitos. Uma cobra é apenas um réptil com algumas propriedades interessantes de defesa. É ágil, escorregadia, forte, venenosa. As metáforas que a envolvem são tão múltiplas quanto suas diabruras.

Eu não devia ter pisado naquele galho seco, mas pisei. Há quem diga que é de propósito que cometemos os maiores erros. As maiores cagadas. Perdão por falar cagada, eu não sou um homem sábio.

O crepúsculo descia lento e opressivo sobre o dia quente e cansativo, descortinando atrás de si uma onda negra de mistérios insolúveis, a noite.

Eu atravessava cautelosamente a selva. A cobra passaria por mim sem maiores delongas, a fim de procurar por seus ratinhos, jantar costumeiro. Ainda assim, jamais saberemos o motivo, pisei no galho seco.

Engraçado como, mesmo estando sob o gozo de nossa lúcida razão, paralisamos de medo perante o incomum. Não há reação suficiente no mundo para evitar um ataque certeiro da víbora.

Foi assim que ela me deu o bote, investida fatal. Senti a dor, a queimação, a vergonha daquele veneno. Após alguns segundos, até que me senti confortável. Mas, assim como não há reação suficiente ante o desconhecido, não há conforto o bastante para espantar nossas agruras, teimosas em seus desígnios.

Deve ser por eu não ser sábio que ela, além de tudo, resolver enrolar-se em volta do meu corpo quente e esmagar-me, num massacre que cheira à lei da natureza. Cheiro acre de morte.

Eu definitivamente não sou um homem sábio.

7 comentários:

Savio disse...

homens sábios não são paradoxais mto menos relativistassss... pelos menos são dialéticos e poetas, duas características suas... abrasss

re disse...

Desejos são assim, não o acessamos diretamente, não o detemos e ele acaba nos determinando.
Danado estes galhos que camuflam cobras maliciosas que aniquilam nossas pobres defesas. E por este caminho passa a vida, o sexo e a morte.
Destaque para o "gozo" do 7º. parágrafo Muito lindo!
bjs.

Bruno Portella disse...

Vergonha do veneno. Momento ímpar do texto. Realmente belo esse bote certeiro.

R. disse...

Eu também não sou sábia, mas seguimos aprendendo com a vida...

**

Marina disse...

Se a cobra não morde pessoas sábias, gostaria de ser também. Mas será?

Marianna disse...

"Perdão por falar cagada, eu não sou um homem sábio."
boa =]

V.H. de A. Barbosa disse...

Ela achou que esse texto é uma ofensa dirigida contra ela. Eu gostaria de dizer a ela que esse texto não significa intriga, mas vergonha. E a cobra não é ela, a cobra é o desejo.

É o desejo que torna os homens menos sábios, e é uma pena que ela não tenha entendido o 'mea culpa' que fiz aqui.

Se for ver bem, é uma boa que eu tenha "morrido".