26.3.10

Dezenove

Seus olhos se altercavam impacientes. Sabia que deveria chegar ao local antes das dezenove, mas o tempo lhe contrapunha as vontades, avançando vigorosamente. Estava parado perante uma viela que se estendia infinitamente e é isso que seus olhos ávidos examinavam.

Gotas de chuva lhe embaralhavam a visão vez ou outra enquanto enxergava a entrada fétida do beco fumegante, incrustado entre duas construções sóbrias de tijolos nus, invisível aos guarda-chuvas escuros como a noite que se aproximavam ao redor e que de lá vinham e que de cá iam, num movimento infinito, que assomava o homem e o tornava ainda mais impaciente.

A viela era um atalho, e para onde tinha de ir, ali era o meio mais rápido de se seguir.

Molhado e convicto, decidiu prosseguir, embrenhar-se naquele corredor escuro e úmido de desdobramentos misteriosos, onde ninguém em vida parecia ter pisado. Nenhum dos transeuntes apressados notava o local. Ele vacilou por um instante, decidindo encarar o atalho.

Uma mão, contudo, o detém. Mão descarnada, de dedos exageradamente compridos e unhas de esmalte descascado. O olhar dele segue o braço que se sobrepõe à mão, e depois o corpo que se oculta sobre o braço: é uma loira de feições traiçoeiras, de cabelo ensebado e olhar assustado. Assim como ele, não tinha guarda-chuva, e não parecia incomodar-se com a garoa que lhe varria a maquiagem. Com o braço que não se aferroava ao pulso dele, ela segurava uma bolsa surrada como se tivesse um filhote sob as asas para proteger.

“Não vai por aí, não, senhor. Tem um doido aí, ele tentou me roubar, veio para cima de mim, vai saber o que queria, eu tive medo, não sei se ele está armado. Tinha cara de louco. Não vai, não”, preconizava, a boca trêmula.

E soltou-lhe o braço, dando-se conta de que o segurava.

O homem encarou-a confuso, incapaz de formular uma resposta, hesitando sobre como juntar adequadamente as sílabas. Virou-se para prosseguir em direção ao desconhecido, mas volveu para tentar se comunicar, ao menos se desculpar. Sem sucesso. Virou-se, pois, novamente, e entrou na viela, sibilando um ok entre os dentes amarelos que mal se abriam e deixando a loira para trás.

Era mais escuro do que imaginava. As gotas de chuva que lhe estapeavam a face pareciam mais densas em comparação as que caíam lá fora e acreditava piamente que se se olhasse no espelho naquele momento, ver-se-ia coberto de piche e não de água.

Caminhou alguns passos com dificuldade, tendo por norte que, ao menos daquela maneira, chegaria antes das dezenove. Parecia ter de reaprender a andar, uma perna atrás da outra, numa cadência corajosa, coordenada.

Vagava por aquele beco sorumbático com seus olhos arregalados, imbuído de uma tensão que lhe possuía profanamente o corpo. Enquanto caminhava, cerrava os pulsos com força, receoso de que algo o atacasse a qualquer momento.

Ao pisar no chão pegajoso, ouvia barulho de vidro moído, e ao longe, um gato gemia de horror. Sombras aqui e acolá projetavam-se ameaçadoras, só desvencilhando-se de seu caminho quando as gotas negras de água retumbavam nas hastes de metal que brotavam ameaçadoras do chão e das paredes, vigas provavelmente abandonadas de uma construção infrutífera.

Certa hora, decidiu olhar para trás e nada mais viu, o mundo decidira fechar-se atrás de si, e não notava mais sinal de guarda-chuvas trombando apressados nem da mulher desesperada. Lembrava-se ainda de seu olhar suplicante. Talvez aquela coitada tivesse visto o próprio diabo. Ela ao menos tinha onde se segurar, pensou, lembrando-se da bolsa. Ele tinha as mãos nuas. Cobertas de piche.

Elevando seu olhar, tinha a certeza de estar sendo vigiado. Janelas que nunca se abriam pareciam esconder olhares de corujas e outros seres vigilantes que espreitavam para ver o final daquela criatura que tinha pressa em chegar ao outro lado daquela passagem. Tinha pressa para chegar antes das dezenove.

Talvez devesse ter se atrasado. Talvez devesse ter dado ouvidos àquela louca. Mas era tarde demais, só havia um caminho de ida e um de volta, mas não saberia retornar. Suas pernas desobedeciam.

Outro barulho de vidro moído, então, penetrou-lhe o ouvido.

Não ousou virar a cabeça. Ao se movimentar, notava que seu algoz também o fazia, seguindo-o. Sempre sutil, sempre envolto pelas sombras, sempre oculto. Um bafo de morte lhe veio às narinas.

A adrenalina tomou-lhe o corpo. Suas pernas tremiam, as mãos gotejavam. Não sentia seu ventre. O coração explodia dentro de si. Suas unhas já encravavam-se em sua palma.

Começou a caminhar mais e mais rápido, movido pela íntima esperança de que o outro lado daquela viela logo surgiria. Seu perseguidor havia abandonado a timidez de seus passos maliciosos e passara a imprimir uma marcha pesada atrás daquele estrangeiro. Desesperado, agora ouvia claramente os passos ensurdecedores daquele que viria a lhe tomar o corpo, a lhe machucar, quiçá matá-lo, e levar consigo tudo o que ele possuía.

Enquanto corria, julgava ver em cantos escuros meia dúzia de seres abjetos que lhe riam a desgraça e incitavam o monstro a alcançá-lo. Suas pernas pareciam querer tropeçar. Era uma presa agora. Quando deveria ceder?

Súbito, enxergou um movimento adiante. E outro. Eram veículos cruzando a rua, logo mais. O mundo exterior já escurecera, o que, ainda assim, o tornava mais claro do que o lugar em que estava. A noite tranquila o esperava logo ali.

Estaria a salvo.

Entretanto, quis olhar um pouco para trás, para ter certeza de que tinha passado por tudo aquilo, para saber que tinha se livrado de uma violência que o assolava pelas minúcias de seu cotidiano aparentemente pacato, uma vida a qual todos julgavam segura, mas que momento após momento escondia uma sombra de desespero que tornava o mais paciente dos cidadãos em uma presa acuada, temerosa. Estava cheio de tensão e cansado de viver refém do medo. Estava cansado de sentir as pernas trêmulas e o coração agitado toda vez que se aproximava de alguém que aparentava perigo. Quem sabe ao menos se visse a cara do sujeito que lhe perseguia, não poderia dar um basta nisso tudo?

Olhou uma última vez para a luz que se aproximava, para as buzinas tão ternas que já embalavam seus ouvidos, para as luzes dos postes que mais pareciam guardiães, para os transeuntes que se assemelhavam a irmãos. Estacou e virou-se lentamente para encarar aqueles passos pesados e aquela respiração ruidosa da besta que o perseguia…

Ali perto, ninguém notava aquela viela escura. Eram dezenove horas.

2 comentários:

Daniel Ricardo Barbosa disse...

Beleza de conto! Li num só fôlego... Agora pretendo dar outras passadas de vistas. :)
Abraço!

karen disse...

te devo uma visita faz tempo, hein? :P
fico abismada com as sensações que seus textos me transmitem. quero um livro inteiro já! haha
muito bom. :)