7.3.10

Ainda um Errado

Um cabeludo impulsivo. Nunca imaginei que fosse um sujeito assim que mudaria minha concepção sobre o Direito.

Não sei se anuncio novidade, mas eu curso Direito na Estadual de Londrina já há quatro anos. Quem acompanha o blog há algum tempo sabe da minha relação conflituosa com as leis e a Justiça em geral. Já cheguei a publicar texto descendo a lenha em coisas que eu considerava inconcebíveis, como a personalidade da maioria dos alunos, a didática dos professores e a atuação dos ministros do STF, por exemplo.

Os últimos tempos, contudo, revelavaram uma faceta desconhecida desse mundo que eu quase vim a abandonar.

O cabeludo impulsivo a que me refiro é apenas uma ponta de muitas surpresas que me abriram os olhos e me animaram o espírito para seguir nesse caminho de conhecimento e futuramente de profissão. O cabeludo, que em verdade só me remete há tempos longínquos, quando eu também era um cabeludo impulsivo, não é ninguém mais que Jerry Kellerman.

jerry kellerman “Do you wanna hit a lawyer, hein?!”

Jerry Kellerman é o protagonista do seriado Raising the Bar (AXN, toda sexta, 22h), uma série exibida na TNT norte-americana que retrata o cotidiano forense de uma turma de amigos que se formaram juntos, mas que atuam em lados opostos da Justiça, uns como defensores públicos, outros como promotores de justiça.

Como mencionei, quase desisti do curso. Não era possível que não houvesse debate numa sala de aula de Direito. Não entrava na minha cabeça que a decoreba ainda existisse no mundo. Eu não aceitava essa ideia grotesca de que o estudante de Direito obrigatoriamente tinha de ser um playboy que ouve sertanejo e que passa mais tempo na academia ou pensando na balada do final de semana do que discutindo os problemas que nos cercam (isso se aplica às patricinhas também).

Mas o tempo passou. Tive paciência e teimei. Olhando mais atentamente a dinâmica do curso, notei que essa imagem que me saltava aos olhos era falsa. Os playboys existem, mas só estão em evidência pois requerem sempre a atenção para si. Uma vez calados, há uma infinidade de pessoas diferentes e interessantes para se conhecer. Pessoas dispostas a fazer algo pelo mundo, por mais que isso soe utópico.

Jerry Kellerman é um exemplo do que podem vir a se tornar essas pessoas. Avesso a ternos bem alinhados, sempre acompanhado de sua bolsa surrada, descabelado e inconsequente, Kellerman não hesita em falar o que pensa, em atingir o que almeja. Não repete frases prontas, não quer sair na coluna social, não desiste de lutar pelos seus clientes. Enquanto assistia a série, lembrei de um estágio que fazia num lugar chamado Promotoria de Justiça das Comunidades, que atendia pessoas pobres prestando assessoria jurídica na área cível. A relação de comprometimento que Kellerman e os outros personagens que atuam na defensoria criavam com as pessoas que precisavam dele me reavivaram a boa sensação que dava ajudar alguém que estava desesperado.

Choros, risos, súplicas, agradecimentos, confiança, descontentamento. Cada cliente atendido era um novo universo, uma nova história, um novo problema a ser solucionado. Dediquei-me a eles, embora o tenha feito por pouco tempo, haja vista que esse programa de atendimento foi extinto em Londrina (vejam só que consideração as autoridades dispensam aos mais pobres).

Vi-me em Kellerman, alguém que luta até o final. Alguém que colhe um “obrigado” de um cliente como a retribuição de todo o suor e dedicação despendidos. Muitas pessoas, mais que auxílio na Justiça, só queriam alguém para ouvir seus problemas.

Kellerman, os estágios - onde pude lidar de modo real com os problemas - e muitas outras pessoas diferentes do curso me ajudaram a reencarar o Direito, a enxergar sua real beleza. A beleza está em trilhar um caminho sinuoso, mas completamente diferente daqueles já massivamente trilhados. Cada pessoa que possui voz própria e pensamentos distintos me cativa e me faz ter orgulho de vir a ser um profissional dessa área um dia.

Há tempos queria escrever esse texto. Sei que, como eu, há várias pessoas espalhadas pelas salas de Direito desse Brasil. Sofrem caladas, vendo ao redor pessoas com mentalidade de ensino médio*, mais interessadas no próprio umbigo do que em fazer algo de útil pela sociedade.

A todos os diferentes, dedico esse texto e os parabenizo caso consigam seguir em frente e atingir seus objetivos. Nunca desistam!

E se quiser assistir Raising the Bar, clique aqui.

4 comentários:

V.H. de A. Barbosa disse...

*por ensino médio me refiro àquela ideia de uma sala cheia de adolescentes que ainda não sabem o que fazer da vida.

Marina disse...

Já pensei em assistir a essa série, mas sempre acho que vejo séries demais e desisto. Minha mãe gosta bastante. Vou ver se crio vergonha na cara e começo a assistir de vez.

Andréia Alves Pires disse...

nunca assisti.. mas gostei do post. Abração!

Marina disse...

Não conhecia seu blog, muito bem escrito. Tens futuro nisso, Vítor! Parabéns =)