20.2.10

Desvirtudes (parte III – final)

cadeira diretor

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Parte I / Parte II

Relato estas memórias não apenas como digressões no meu exercício de desembaraço. Boa parte disso, preferencialmente partes das gravações e curiosidades ocorridas no set, eram lembranças das quais eu, de fato, recordava enquanto me trocava no camarim. Era a noite de estreia de toda esta saga pela qual me afligi e bem sei eu a ansiedade que me torturava. Enquanto abotoava os últimos botões e penteava meu desgrenhado cabelo, pensava em cada cena dirigida por mim com toda a dedicação possível. As cenas da ruiva, caracterizada como santa, mas revelada uma puta. As da morena, completamente pervertida (ah, como gostei da cena em que ela pula no colo de K.!) e as da mulata, sempre tão frágil a resistir aos assédios masculinos, mas uma força potente na hora do sexo. Brinco que todos suamos neste trabalho, à sua maneira. Minha decepção, única, predigo, foi a de não poder contar com alguma cena com as garotas de Titorelli, as endiabradas, pequenas lolitas.

Recordo-me com um aperto no coração que, ao dar uma última olhadela ao espelho, meu velho espelho, desinibi-me por completo da sensação juvenil de ansiedade que me corroia, pois acabara de pensar em todas as pessoas que haviam prometido comparecer à estreia de meu filme. Isaac, meus fãs, conhecidos, artistas, críticos, amigos, a imprensa (o que julguei um milagre). Angustiava-me esperando o momento em que os surpreenderia e os chocaria com minha readaptação, porém, concomitantemente, a certeza de que todos lá estariam assegurava o regozijo que sentiria pelo meu trabalho realizado. Minhas mãos gelavam. Certa hora, desvairava imaginando como seria formada a plateia no caso de vivermos no Admirável Mundo Novo de Huxley, com suas crianças sendo instigadas à promiscuidade em idade tão tenra. Eu seria um deus.

Súbito, lembro bem, um contrarregra qualquer pôs-se a socar a porta, afobado. “Cinco minutos, senhor!”, disse convicto. Aquiesci, engolindo um seco. Era meu grande momento. Optara pelo discurso blasfemo afinal. Se os aterrorizaria, que o fizesse desde o princípio. Fitei meu reflexo por mais uma vez: do sapato lustroso à gravata bem delineada, julgava estar tudo em pompa. Dei um adeus à poeira e ao limbo e uma grande reverência ao espelho que tanto me suportara, um verdadeiro parceiro. Enfiei a mão aos bolsos do paletó e achei um cantil prateado. Sorvi sedento o que estivesse alcoólico dentro dele. Suspirei e saí.

Os corredores do cine, obscuros e estreitos, imergiam-me num denso pesadelo. Percorri-os durante tempo infindável, acima, abaixo, adiante. Distante, julgava ouvir o murmúrio de toda minha querida platéia, ansiosa. Percorri aqueles corredores como o lutador que adentra o ringue, como o ator que entra em cena, como o perdido que sai afinal do labirinto. Obstinara-me em fazer valer minha visão, louca que fosse, ao mundo normal. Que estranhassem, que prejulgassem, que criticassem. Era meu trabalho, fruto de meu esforço, pedra angular da arte distorcida que pretendia erigir. Percorri os corredores negros com passos surdos, engolfados pelo estrondo do que viria a ser milhares de aplausos.

Quando finalmente abri as cortinas do palco e a luz onírica embalou minhas pupilas, vi somente dez cabeças espalhadas pelas cadeiras que, em coro e vazias, ofendiam-me.

Não havia quase ninguém.

A decepção devoradora ceifou-me a expectativa, como um Cérbero voraz a degolar almas no inferno. Posteriormente, no entanto, e de modo ágil, enalteço, este sentimento infantil cedeu ao meu cinismo contumaz: a ralé jamais estaria preparada para minha arte. Erotismo, para a pretensa corja, nada mais é do que pecado entre quatro paredes. Tão exposta à luz do dia em seus debates sobre negócios, esportes, arte convencional, seus filhos e seus problemas conjugais, mas tão recôndita quando trata de suas fantasias. São por demais insípidos. Quanta hipocrisia demanda nossa reprimida sociedade liberal para que tudo permaneça em sua neurótica higidez? A mim, parecem o personagem Kaminer de O Processo, deformado por uma distorção crônica de um músculo facial, que o fazia sorrir cretinamente o tempo inteiro. Tanto faz. Creio mesmo, após o susto inicial, ter me conformado, sarcástico, com as idéias distantes, já em outras paragens: tinha em mente mais uma nova sacanagem para filmar. Um sucesso daqueles...

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