11.2.10

Desvirtudes (parte II)

cinema Confira: parte I / parte III (final)

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Sou o pioneiro. Com minha readaptação, esperava lançar as bases de uma nova concepção da arte, fundindo – sempre a mistura, ressaltava – a idéia do intocável, do sublime, com a idéia do vulgar, daquilo que está aos olhos, ao tato, aos sentidos em geral, em excesso.

Minha readaptação – e aqui relembro meu satisfatório esgar em forma de distorcido sorriso canalha, quando apresentei a idéia a Isaac – nada mais é do que a transformação de O Processo, do gênio Kafka, em filme, sob o hediondo aspecto sexual!

Sei bem agora, que os dias me tolheram o vislumbre esperançoso de sucesso e me presentearam com enrugadas convicções realistas, que minha obra nada mais é do que um filme pornô baseado no livro kafkiano. Compartilho desta limitada visão após sofrer toda sorte de desilusão, o que não diminui em nada o impacto de minha genialidade.

Podem os grandes literatos, os acadêmicos, os críticos e mesmo os togados senhores da ABL notar todos os detalhes da obra kafkiana, seu papel no estabelecimento de um realismo submerso em fantasia, em pesadelos, a plasticidade sufocante do gélido ar europeu, os diálogos bem sustentados, a crítica ferrenha ao sistema judiciário, à condição humana e ao caminho do homem na efervescente passagem do século XIX ao XX. Nenhum deles, contudo, ou somente poucos, confesso não dar a mínima para estes portentosos senhores, reparou um instante sequer em toda a carga erótica desta obra-prima!

Ou muito me engano ou há somente duas saídas para nosso querido Kafka. A primeira, na qual acredito piamente: era um misógino acobertado por genialidade. A segunda, uma visão um tanto quanto brasileira: era um safado incurável. Minha opinião, entretanto, não basta, tenho de relevar o que o próprio escreveu: “Não se sentia...” – ele está a falar de K., enquanto este espera pela Senhorita Bürstner, ao qual beija posteriormente – “... particularmente atraído por ela, pois nem mesmo recordava exatamente que aspecto tinha, mas como queria falar-lhe, irritava-se ao constatar que a moça ao chegar tão tarde contribuía para que também o fecho desse dia estivesse cheio de inquietude e confusão. Tinha ela a culpa, do mesmo modo, de que naquela noite K. não tivesse comido e de que tampouco poderia fazer ambas as coisas se ele agora fosse à taberna onde Elsa servia como camareira”.

Ressalto outro ponto, aos que possam duvidar de minhas convicções, quando K. sente-se atraído pela mulher do porteiro do Tribunal, que é molestada pelo estudante de pernas tortas e barbicha ruiva: “K. deu precipitadamente dois passos em direção a eles, dispondo-se a tirá-la dele, e, se fosse necessário, a estrangular o estudante. Mas nesse momento a mulher exclamou: ´tudo é inútil; (...) não posso ir-me com você (...)’”. E K. brada, por certo ciumento: “E não quer ver-se livre dele!”. De fato, as mulheres praticam papéis subservientes nesta obra, padecendo sempre de uma passividade alarmante, que beira à manipulação, e ao total desprezo do narrador pelas mesmas. Mas esse não é o ponto fulcral.

Revelo peremptoriamente que o livro muito me excitou. Se por acaso estas memórias caírem em mãos alheias e estas mesmas mãos não tiverem percorrido as páginas de O Processo, rogo-lhe, leitor, que leia de imediato este livro, de maneira adequada, sob pena de considerá-lo um ignorante. E espero que mais pessoas, como eu, tenham notado toda esta degeneração. Senhorita Bürstner provavelmente se presta à prática de sexo corporativo, não tenho dúvida. É uma datilógrafa. Vai cedo ao trabalho, volta tarde. A mulher do porteiro é vítima de todo tipo de assédio por parte dos operadores de Direito, e vê nisso uma forma de poder, nunca resistindo. Seu marido, um tremendo corno, nada faz, embora queira, pois se vê ameaçado pela tirania daqueles que lhe transam a mulher. A enfermeira Leni, amante de todos, inclusive de K., tão perspicaz, julga poder influir nos destinos do processo do protagonista, assim como ama todos os acusados defendidos por seu patrão, o advogado Huld. Há ainda Montag, as endiabradas meninas do prédio de Titorelli, Elsa, e por aí vai. Todas imprestáveis, como o próprio Josef K.

A idéia de filmar esta minha concepção distorcida de um livro tão cultuado veio com a oferta do velho judeu Isaac. A História tem revelado judeus de diversos tipos. Judeus expurgados, judeus vítimas, judeus exterminados, judeus matadores, judeus negociadores, judeus vendedores, judeus engraçados, judeus de toda sorte. Juro, porém, que nunca havia visto um judeu tarado. Isaac é um velho judeu tarado, dedicado a toda arte da sacanagem, embora, socialmente, se limite a uma vida pacata e benquista pela comunidade. Sei do lado sujo da maioria das pessoas. Isaac conhece alguns trabalhos meus na área do cinema pornográfico e, muito empolgado, encomendou-me um filme pornô com história, dado que é às coisas intelectuais. Explico: pornôs podem ser divididos em duas categorias: filmes com história e filmes sem história. Os primeiros têm enredo e sexo, os segundos, apenas sexo. Muito inspirado por Calígula, de Tinto Brass, e outras obras visionárias, em especial de diretores latinos, de sangue mais quente (os anglo-saxônicos costumam ser lacônicos), resolvi dar vida à minha impressão infame, desejoso de construir algo grande, hábil a quebrar certos paradigmas. Não posso deixar de mencionar, como também uma fonte de inspiração, o frêmito que havia se instaurado pelas pin-ups à época: se objetos sexuais do passado podiam se passar por arte e serem cultuados no presente, por que não minha readaptação?

Desenvolvi o roteiro sozinho, em duas semanas, creio, após uma rápida releitura da obra original. Pretendia um filme relativamente longo, pelo que seria verdadeiramente uma readaptação induzida dos aspectos pornográficos. Induzida, talvez, seja um termo incorreto, melhor seria falar reforçada, pois está tudo lá, engaiolado nas páginas do livro, insinuante como uma garota de quinze anos. E Kafka, a despeito da época em que escreveu, não era santo. Aliás, estranha idéia têm as pessoas ao associar indivíduos ou épocas velhas a uma espécie de santidade, de inocência. Provavelmente se esquecem de que não foi bem a cegonha quem lhes pariu.

Alguns problemas na locação de cenários e na contratação do staff não me detiveram. O velho havia molhado minha mão com grana o suficiente para fazer uma obra-prima do sexo e eu iria até o final da empreitada, entusiasmado que estava.

Gosto sempre do teste com as atrizes. Sou profissional, não esperem que eu saia transando com cada guria que se proponha a fazer um filme que contenha cenas de sexo. A propósito, muito urgente se faz definir que não nasci diretor de filme pornô. Egresso da escola de cinema, pus-me a rodar desde produções médias até documentários, onde, juro, não havia sequer uma insinuação sexual. Enfastiado, porém, com todas as determinações artísticas - melhor seria dizer financeiras – dos produtores, dos patrocinadores e de demais provedores, decidi perseguir uma área livre aos meus talentos, e foi nesse momento que me deparei com o cinema pornô, onde eu detinha o poder de criar o prazer e de ditar os rumos da concupiscência alheia. Resumindo, sou um desvirtuado convicto.

Em verdade, precisava de três belas garotas, que se encaixassem no perfil de Bürstner, Leni e a mulher do porteiro. Respectivamente, uma ruiva, uma pálida de cabelos negros e uma mulata. Tomei a discricionariedade de empregar uma mulata pelo fato do autor ressaltar as qualidades corpóreas da mulher do porteiro, o que eu só poderia encontrar numa formosa mulata à brasileira. Pensando agora, me foge à mente o motivo de minha apreensão, enquanto rodava o filme, com a citada discricionariedade. Por que deveria eu me preocupar com o respeito a detalhes, uma vez que transgredia de maneira bárbara uma genialidade? Só posso responder isso com minha suposição de excelência: sempre gostei de meu trabalho e procurava me dedicar ao mesmo com um ardor fora do comum. Simples seria se, como uma criança mimada, procurasse estragar anarquicamente o trabalho alheio. Meu objetivo, contudo, era debater a arte em si, realocá-la, introduzir nela sinais de novos tempos, de novos pensamentos. Muito me decepciona a visão limitada de arte demonstrada pela maioria das pessoas. Há arte onde olhos cultos jamais suspeitariam pousar seu ceticismo. Nesse ponto, continuo a afirmar que sou vanguarda, pois discuto a relação da vida com o ser humano de uma forma muito mais ousada e desafiadora do que um fotógrafo se dispõe a fazer ao tirar fotos dos elefantes do Seringuete. Recordo-me, só para citar um exemplo, de uma cena em especial, onde eu procurava recriar a parte em que K. está no Tribunal, a discursar para um público corrupto que, ao invés de lhe dar a devida atenção, procura acobertar o assédio que o jovem estudante de pernas arqueadas lançava à mulher do porteiro. Em minha readaptação, procurei ressaltar sobremaneira o caráter sórdido desta platéia, que ao próprio K. enoja, dando a eles feições de homens poderosos: os atores se assemelhavam a políticos, executivos, funcionários exemplares que, mesmo em face de seus importantes trabalhos a tomar-lhes o tempo, valorizam, ou preferem valorizar, um estupro contra uma jovem, excitando-se com isso. Se isso não é arte, não sei o que fez então Kundera com sua escrita realista e Polanski em seu Lua de Fel. Foi uma cena forte, obviamente destituída de violência real, mas lá estava o sexo real. Creio, ainda, que, além de real, mostrou-se difícil à nossa mulata, pois nesta sequência ela teve de transar com cinco rapazes diferentes, além dos voyeurs abelhudos.

Minhas atrizes, escolhidas depois de análise criteriosa, mostraram-se de um profissionalismo ímpar. Consegui selecionar três lindas e talentosas garotas. Belos rabos e peitos, além daquele olhar de malícia, insubstituível. Afirmo categoricamente que não eram dessas desesperadas que se sujeitam ao pornô por dinheiro, o que não as diferenciariam de prostitutas. Eram, sobretudo, garotas desenvoltas, desatadas de amarras moralistas, instigadas pelo meu projeto e apaixonadas por sexo, por que não? Além delas, contei com inúmeros figurantes, gente simples. Meu K. era um rapagão de bons dotes, e o principal, um ator de formação, não apenas um ator pornô. Admito que um ator um tanto quanto decadente, mas ainda assim, um poço de experiência. Chamava-o de “meu Malcolm McDowell”. Eu contava com uma boa equipe, de sorte que as filmagens se deram num clima de descontração e profissionalismo. Rotulavam-me “exigente”, mas respeitavam minhas habilidades. Era meu grande filme.

[continua…]

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