6.2.10

Desvirtudes (parte I)

espelho

Recordo-me com amargor daqueles dias sombrios. Não são literalmente terríficos, senão para minha honra, acabrunhada por cada segundo que teima em lembrar-se dos penosos fatos. Apodera-se de mim nestes momentos uma vergonha indescritível, capaz de corar-me por dentro, coisa que dificilmente ocorre por fora. Rememoro tais dias unicamente para encarar um problema, intragável, adianto, nesta ocasião em que consigo respirar o ar de certa tranquilidade. Tranquilidade, repito, não comiseração. Por certo, foram tão péssimos dias que, se pretendesse traçar linhas à época, com louvor teria furado o caderno com a caneta, inúmeras vezes. Pela história daquele dia a ser contada, espero livrar-me desse maldito desconforto, que se dá nos seguintes termos.

Era uma sexta de sol abafado, a pôr-se. Estacionei, temerário, meu modesto carro numa vaga qualquer. Àquela altura, já tremia e suava frio, e imaginava que bateria num dos veículos ao redor a qualquer momento, o que seria horrível. Esfriei a cabeça e então pude balizar satisfatoriamente. Desci do carro suspirando, mas não menos tenso.

Olhei para o alto e vi garrafal a inscrição “Cine-teatro Mandrake”. Creio ter sorrido. Do estacionamento até o cine-teatro eram algumas boas passadas e, durante o trajeto, as pessoas me olhavam curiosas. Não me abalei: não é todo dia que se vê um rapagão de quarenta anos vestindo uma camiseta com um enorme “69” grafado, calça jeans rasgada e botas que bem poderiam ter sido de algum integrante do Steppenwolf. Nessas ocasiões, costumo devolver um olhar de desprezo, outro de canalhice, e continuo meu caminho. Certa vez, pus-me a fingir de demônio para uma carola, perseguindo-a enquanto gritava sílabas incompreensíveis e, com os dedos, imitava chifres sobre a cabeça. A velha amaldiçoou até a terceira geração de minha família.

Entrei pela porta dos fundos, temendo o assédio dos fãs, que provavelmente estariam no hall do cine, aguardando-me ensandecidos. O porteiro já me conhecia, abrindo passagem com um polido “Como vai, doutor?”.

O camarim estava à minha espera. Nada demais. Em verdade, era um pequeno quarto, lúgubre, limbo nos cantos a formar um carpete brilhante, de um denso verde enegrecido. Um empoeirado espelho ocupava boa parte da parede rebocada. Rosas esfacelentas enfeitavam a escrivaninha ao lado do espelho. Do canto, um crânio com peruca loira fitava-me em tom de deboche, fazendo troça de mim com seu batom vermelho ao redor da boca descarnada. Resisti ao clichê shakespeariano.

Alonguei-me, tentando imitar um gato. Repuxei-me para cima, depois para baixo, para os lados, lânguido. Senti os músculos quentes. Tirei as botas, a camiseta, a calça, ficando apenas de cueca. Um terno ao lado me aguardava encabideado, sisudo. Vesti a calça e me deparei com o espelho, aflito. Fitei-o longamente, vendo-me e, um tanto quanto além, as palmas, os assobios, os sorrisos, esplendorosos, admirados, de minha querida platéia.

“Vamos lá, vamos lá”, tentei me concentrar, discursando para o velho espelho... “Senhoras e senhores! Agradeço a presença de todos neste dia especial” – faria uma pausa, para colher olhares de cordeiro e continuaria - “dia em que pretendo elevar a arte a um novo patamar, a uma nova concepção. Uma nova visão para novos tempos... uma... uma...” E restei a gaguejar, lembro-me bem, tomado novamente pela crua ansiedade.

Piegas. Se ares soturnos desse ao discurso, talvez, bem talvez, introduzisse uma atmosfera adequada ao que viria depois. Ah! Em minha mente conjurava tantas blasfêmias que os espantariam: nada mais que minha arte, a qual estavam prestes a conferir na tela de cinema. Eu vislumbraria, no irromper do clímax, estampado nos olhos esbugalhados de minha querida platéia, o assombro de suas inocências sucumbindo a uma abrupta ruptura, fruto de minha obra, de minha readaptação. Inquietar-se-iam em suas poltronas, inseguros de como reagir. Eu, atrás das cortinas, jorraria gargalhadas.

Recordo-me que, embebido dessa comoção e ao passar um cinto em volta da calça, notei estar magro demais, me vindo à mente logo a constatação de Nelson Rodrigues, “todo canalha é magro!”. Ser canalha é uma bênção neste país. Ser magro, então, é um toque divino na condução de minha vida. Há, ainda, quem saiba apreciar o esbelto, mesmo em dias de corpos perfeitos, musculosos, gregos. Custa-me a aceitar a hipocrisia desse pessoal do politicamente correto, do saudável acima de tudo, se me permitem a digressão.

Sei, contudo, que a idéia de canalhice foi um gatilho inspirador. “Devia ter pensado nisso antes”, censurei-me, à hora. Disparei satírico, a mim mesmo, no espelho: “Senhoras e senhores, heterossexuais e homossexuais, voyeurs e swingers, zoófilos e pedófilos. Não. Os pedófilos podem se retirar. Escória. Aqui estamos, minha querida plateia, para uma noite memorável. Noite em que a arte se renderá à sacanagem e o mundo sairá da sombra do moralismo para entrar nos domínios da liberdade. Um território onde o sagrado e o vil se complementam e se conjugam, onde a censura se vê incapaz de taxações, onde o culto coaduna o ordinário e todos os seus irrequietos prazeres são postos à prova. Bem-vindos, senhoras e senhores, a esta fantástica estreia!”.

Meu velho espelho refletia um homem de camisa mal abotoada e gravata presa à testa, de braços estendidos ao ar e feições megalomaníacas. Gostei do tom profano. Parecia genial. A ordem era proferir um discurso carregado de lascívia, um preâmbulo adequado, capaz de ressaltar a vida através do erotismo e tornar isso relevante, artisticamente aceitável. Não que eu precisasse ser aceito. Tinha a pretensão, sim, de criar sob minhas pegadas toda uma vanguarda, condensando a brutalidade de um linguajar chulo, só aceito em termos primitivos de socialização, com a mistificação do sexo em sua aura sagrada, semente da vida.

[continua…]

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Confira: parte II / parte III

Um comentário:

Lucas disse...

hahah.. muito bom. parte 1 me instiga a ler o que quer que venha a seguir : ) um abraço.