16.2.10

A arte de aprisionar olhares

Observo uma vítima se aproximar. Não há muito tempo para pensar. Só tenho alguns segundos para o ataque e qualquer falha, por menor que seja, significa o completo fracasso. Não preciso de muitos atributos, apenas coragem, determinação e um olhar fixo. O olhar é importante e essencial para a vitória.

A vítima anda em minha direção, servil, dócil. É uma presa. A caça. Vindo em minha direção, preparo-me para o momento-chave. Está há pouco mais de um metro de mim e... olha em minha direção.

Eu retorno o olhar. Rápido, certeiro, um bote num ato tão singelo. Esse é meu ataque. Aprisionei seu olhar.

Aprisionar olhares ou, há quem diga, aprisionar almas, é uma arte. Poucos veem sentido nessa excêntrica mania. Alguns não entenderiam, sequer, a sutileza de um olhar, prisioneiros que são de suas superficialidades. A vocação depende dos cérebros por trás dos olhos.

Muitos já ouviram a ladainha de que os olhos são a porta de entrada da alma. Balela. Olhos são nada mais que olhos e, caso exista alma, o ponto de contato para esta são as mãos. A mão que nos dá segurança, que cumprimenta, que agride, que acaricia, que tateia, que massageia e cura, que sente. A mão é a porta da alma. Os olhos, por sua vez, são a fraqueza do corpo.

Olhares revelam tudo: desejo, paixão, tristeza, amor, decepção, cansaço, agonia, tudo sempre de forma transparente, independente das dissimulações correntes, que tratam de nos enganar em todas as outras formas de comunicação. Outro dia surpreendi os olhares de duas meninas sobre meu chefe. A intensidade daquele desejo era avassalador. Observadores como eu são incapazes de se dar ao luxo de ceder aos olhos tamanha expressividade. Observadores nada mais fazem que observar e registrar, coisa que muito honrosamente faço agora.

A arte de aprisionar olhares, contudo, é coisa que venho desenvolvendo anos a fio. Aprisionar um olhar significa guardar o olhar de uma pessoa para sempre em meu íntimo. Explico: uma forma de autismo social é negar o olhar ao próximo, ou seja, pessoas que andam sem olhar ao redor, sem se deter no próximo. Alguém que deita seu olhar sobre outra pessoa, porém, o faz com o nítido, porém delicado, desejo de se comunicar, ainda que com uma frágil olhadela, com a outra pessoa. Uma pessoa completa, de olhares completos.

Esse olhar, fruto de uma singularidade tão doce dos humanos, é algo único para mim. Aprisiono-os sem me importar se me dão essa licença ou não, pois, uma vez destinados a mim, esses olhares são meus.

Não importa que olhar seja, se o da garotinha curiosa, do machão querendo briga, da moça sedutora ou de um parente preocupado. Todo olhar é passível de aprisionamento e é bem provável que num momento ou noutro, você venha a sonhar com ele, aquele olhar tão marcante.

Eis o motivo pelo qual evito de olhar nos olhos das pessoas em conversas triviais. O olhar é algo importante e só o uso quando quero deixar claro que gostaria de estabelecer uma conexão com o interlocutor. Se vir meu olhar, leitor, é porque o levo em conta. E porque aceitei me ceder a você.

Caso contrário, contente-se em, algum dia, ser apenas mais um cativo...

3 comentários:

A_for_Anetta disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
A_for_Anetta disse...

É uma coisa bem felina essa de aprisionar olhares. Também gosto de pensar no poder que os olhos tem. Muitas vezes desejei que meus olhos guardassem imagens como as cameras fotograficas fazem... Mas já que não posso me contento em guardar lembranças de olhares.

Adorei o texto, bem a sua cara, leão.

Marina disse...

Belíssimo, V.H. Não sei o que dizer. Acabei de ler outro texto sobre olhos e, tanto o seu quanto o outro, parecem ter aparecido para me cutucar.