27.2.10

Minha escrita pesa uma tonelada

Terminei recentemente um conto sobre a história de três pacatos jovens que retornam de uma – eu realmente detesto essa palavra - “balada”, e passam na casa da garota da turma (os outros dois são homens) para descansar.

Eu escrevi o texto em um momento de raiva. Escrever é uma ótima forma de se expressar. Se você, leitor, nunca tentou, passe a cultivar esse hábito. É aliviante. Obviamente eu ainda não o publiquei. O insight pode vir dessa tensão toda, mas a técnica há de ser trabalhada, as frases reescritas, os pontos adicionados. Qualquer dia ele aparece por estas bandas.

Acontece que a história assume contornos nada agradáveis aos olhos estetas da nossa juventude colorida. É um conto pesado, realista, denso, visceral. A minha escrita pesa uma tonelada. Na melhor influência de Rubem Fonseca, Milan Kundera, Dostoiévski, entre outros.

Já adianto este detalhe pois, relendo meus últimos textos, tenho percebido muita violência, sexo, mortes e outras agruras.

“Mas por que você não escreve coisas mais leves, Victor?”, perguntariam as moçoilas fãs de Crepúsculo, açodadas em seu mundinho de classe-média romantizada.

Simples. Se quer ler coisas bonitinhas e engraçadinhas, basta achar um dos milhares de blogs que existem no Brasil destinados a essa finalidade. Blogs com historinhas sobre amor, solidão, paixão, baladas, continhos policiais mergulhados numa infinidade de clichês insuportáveis. Geralmente se tratam de a) garotos com alguma habilidade para a escrita e que a usam para conquistar meninas ou; b) meninas que só sabem escrever quando estão sofrendo, o que é patético.

“Credo, Victor, mas sua vida é assim tão ruim para escrever essas coisas?”. Não, lógico que não. Ninguém precisa vivenciar para escrever, basta ter imaginação. A vivência é um passo além e, confesso, acho injusto livros autobiográficos. Sempre são considerados geniais. Cristovão Tezza que o diga. Eu sou normal, eu acho… Sou universitário. Faço estágio e detesto estudar como muitos. Gosto de sair e beber. Rock, heavy metal, música clássica e música eletrônica são minhas predileções. Mas alguns ainda teimam em achar que eu sou um alienígena que mora numa toca e é insensível ao contato humano.

Bem, aparentemente, imaginação todos têm. Uns para o kitsch, outros para o horrendo. Se estiver acostumado com a dor, leitor, aqui é seu lugar. Sofra e cresça, assim como cansa de ensinar a vida.

20.2.10

Desvirtudes (parte III – final)

cadeira diretor

Confira também:

Parte I / Parte II

Relato estas memórias não apenas como digressões no meu exercício de desembaraço. Boa parte disso, preferencialmente partes das gravações e curiosidades ocorridas no set, eram lembranças das quais eu, de fato, recordava enquanto me trocava no camarim. Era a noite de estreia de toda esta saga pela qual me afligi e bem sei eu a ansiedade que me torturava. Enquanto abotoava os últimos botões e penteava meu desgrenhado cabelo, pensava em cada cena dirigida por mim com toda a dedicação possível. As cenas da ruiva, caracterizada como santa, mas revelada uma puta. As da morena, completamente pervertida (ah, como gostei da cena em que ela pula no colo de K.!) e as da mulata, sempre tão frágil a resistir aos assédios masculinos, mas uma força potente na hora do sexo. Brinco que todos suamos neste trabalho, à sua maneira. Minha decepção, única, predigo, foi a de não poder contar com alguma cena com as garotas de Titorelli, as endiabradas, pequenas lolitas.

Recordo-me com um aperto no coração que, ao dar uma última olhadela ao espelho, meu velho espelho, desinibi-me por completo da sensação juvenil de ansiedade que me corroia, pois acabara de pensar em todas as pessoas que haviam prometido comparecer à estreia de meu filme. Isaac, meus fãs, conhecidos, artistas, críticos, amigos, a imprensa (o que julguei um milagre). Angustiava-me esperando o momento em que os surpreenderia e os chocaria com minha readaptação, porém, concomitantemente, a certeza de que todos lá estariam assegurava o regozijo que sentiria pelo meu trabalho realizado. Minhas mãos gelavam. Certa hora, desvairava imaginando como seria formada a plateia no caso de vivermos no Admirável Mundo Novo de Huxley, com suas crianças sendo instigadas à promiscuidade em idade tão tenra. Eu seria um deus.

Súbito, lembro bem, um contrarregra qualquer pôs-se a socar a porta, afobado. “Cinco minutos, senhor!”, disse convicto. Aquiesci, engolindo um seco. Era meu grande momento. Optara pelo discurso blasfemo afinal. Se os aterrorizaria, que o fizesse desde o princípio. Fitei meu reflexo por mais uma vez: do sapato lustroso à gravata bem delineada, julgava estar tudo em pompa. Dei um adeus à poeira e ao limbo e uma grande reverência ao espelho que tanto me suportara, um verdadeiro parceiro. Enfiei a mão aos bolsos do paletó e achei um cantil prateado. Sorvi sedento o que estivesse alcoólico dentro dele. Suspirei e saí.

Os corredores do cine, obscuros e estreitos, imergiam-me num denso pesadelo. Percorri-os durante tempo infindável, acima, abaixo, adiante. Distante, julgava ouvir o murmúrio de toda minha querida platéia, ansiosa. Percorri aqueles corredores como o lutador que adentra o ringue, como o ator que entra em cena, como o perdido que sai afinal do labirinto. Obstinara-me em fazer valer minha visão, louca que fosse, ao mundo normal. Que estranhassem, que prejulgassem, que criticassem. Era meu trabalho, fruto de meu esforço, pedra angular da arte distorcida que pretendia erigir. Percorri os corredores negros com passos surdos, engolfados pelo estrondo do que viria a ser milhares de aplausos.

Quando finalmente abri as cortinas do palco e a luz onírica embalou minhas pupilas, vi somente dez cabeças espalhadas pelas cadeiras que, em coro e vazias, ofendiam-me.

Não havia quase ninguém.

A decepção devoradora ceifou-me a expectativa, como um Cérbero voraz a degolar almas no inferno. Posteriormente, no entanto, e de modo ágil, enalteço, este sentimento infantil cedeu ao meu cinismo contumaz: a ralé jamais estaria preparada para minha arte. Erotismo, para a pretensa corja, nada mais é do que pecado entre quatro paredes. Tão exposta à luz do dia em seus debates sobre negócios, esportes, arte convencional, seus filhos e seus problemas conjugais, mas tão recôndita quando trata de suas fantasias. São por demais insípidos. Quanta hipocrisia demanda nossa reprimida sociedade liberal para que tudo permaneça em sua neurótica higidez? A mim, parecem o personagem Kaminer de O Processo, deformado por uma distorção crônica de um músculo facial, que o fazia sorrir cretinamente o tempo inteiro. Tanto faz. Creio mesmo, após o susto inicial, ter me conformado, sarcástico, com as idéias distantes, já em outras paragens: tinha em mente mais uma nova sacanagem para filmar. Um sucesso daqueles...

16.2.10

A arte de aprisionar olhares

Observo uma vítima se aproximar. Não há muito tempo para pensar. Só tenho alguns segundos para o ataque e qualquer falha, por menor que seja, significa o completo fracasso. Não preciso de muitos atributos, apenas coragem, determinação e um olhar fixo. O olhar é importante e essencial para a vitória.

A vítima anda em minha direção, servil, dócil. É uma presa. A caça. Vindo em minha direção, preparo-me para o momento-chave. Está há pouco mais de um metro de mim e... olha em minha direção.

Eu retorno o olhar. Rápido, certeiro, um bote num ato tão singelo. Esse é meu ataque. Aprisionei seu olhar.

Aprisionar olhares ou, há quem diga, aprisionar almas, é uma arte. Poucos veem sentido nessa excêntrica mania. Alguns não entenderiam, sequer, a sutileza de um olhar, prisioneiros que são de suas superficialidades. A vocação depende dos cérebros por trás dos olhos.

Muitos já ouviram a ladainha de que os olhos são a porta de entrada da alma. Balela. Olhos são nada mais que olhos e, caso exista alma, o ponto de contato para esta são as mãos. A mão que nos dá segurança, que cumprimenta, que agride, que acaricia, que tateia, que massageia e cura, que sente. A mão é a porta da alma. Os olhos, por sua vez, são a fraqueza do corpo.

Olhares revelam tudo: desejo, paixão, tristeza, amor, decepção, cansaço, agonia, tudo sempre de forma transparente, independente das dissimulações correntes, que tratam de nos enganar em todas as outras formas de comunicação. Outro dia surpreendi os olhares de duas meninas sobre meu chefe. A intensidade daquele desejo era avassalador. Observadores como eu são incapazes de se dar ao luxo de ceder aos olhos tamanha expressividade. Observadores nada mais fazem que observar e registrar, coisa que muito honrosamente faço agora.

A arte de aprisionar olhares, contudo, é coisa que venho desenvolvendo anos a fio. Aprisionar um olhar significa guardar o olhar de uma pessoa para sempre em meu íntimo. Explico: uma forma de autismo social é negar o olhar ao próximo, ou seja, pessoas que andam sem olhar ao redor, sem se deter no próximo. Alguém que deita seu olhar sobre outra pessoa, porém, o faz com o nítido, porém delicado, desejo de se comunicar, ainda que com uma frágil olhadela, com a outra pessoa. Uma pessoa completa, de olhares completos.

Esse olhar, fruto de uma singularidade tão doce dos humanos, é algo único para mim. Aprisiono-os sem me importar se me dão essa licença ou não, pois, uma vez destinados a mim, esses olhares são meus.

Não importa que olhar seja, se o da garotinha curiosa, do machão querendo briga, da moça sedutora ou de um parente preocupado. Todo olhar é passível de aprisionamento e é bem provável que num momento ou noutro, você venha a sonhar com ele, aquele olhar tão marcante.

Eis o motivo pelo qual evito de olhar nos olhos das pessoas em conversas triviais. O olhar é algo importante e só o uso quando quero deixar claro que gostaria de estabelecer uma conexão com o interlocutor. Se vir meu olhar, leitor, é porque o levo em conta. E porque aceitei me ceder a você.

Caso contrário, contente-se em, algum dia, ser apenas mais um cativo...

11.2.10

Desvirtudes (parte II)

cinema Confira: parte I / parte III (final)

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Sou o pioneiro. Com minha readaptação, esperava lançar as bases de uma nova concepção da arte, fundindo – sempre a mistura, ressaltava – a idéia do intocável, do sublime, com a idéia do vulgar, daquilo que está aos olhos, ao tato, aos sentidos em geral, em excesso.

Minha readaptação – e aqui relembro meu satisfatório esgar em forma de distorcido sorriso canalha, quando apresentei a idéia a Isaac – nada mais é do que a transformação de O Processo, do gênio Kafka, em filme, sob o hediondo aspecto sexual!

Sei bem agora, que os dias me tolheram o vislumbre esperançoso de sucesso e me presentearam com enrugadas convicções realistas, que minha obra nada mais é do que um filme pornô baseado no livro kafkiano. Compartilho desta limitada visão após sofrer toda sorte de desilusão, o que não diminui em nada o impacto de minha genialidade.

Podem os grandes literatos, os acadêmicos, os críticos e mesmo os togados senhores da ABL notar todos os detalhes da obra kafkiana, seu papel no estabelecimento de um realismo submerso em fantasia, em pesadelos, a plasticidade sufocante do gélido ar europeu, os diálogos bem sustentados, a crítica ferrenha ao sistema judiciário, à condição humana e ao caminho do homem na efervescente passagem do século XIX ao XX. Nenhum deles, contudo, ou somente poucos, confesso não dar a mínima para estes portentosos senhores, reparou um instante sequer em toda a carga erótica desta obra-prima!

Ou muito me engano ou há somente duas saídas para nosso querido Kafka. A primeira, na qual acredito piamente: era um misógino acobertado por genialidade. A segunda, uma visão um tanto quanto brasileira: era um safado incurável. Minha opinião, entretanto, não basta, tenho de relevar o que o próprio escreveu: “Não se sentia...” – ele está a falar de K., enquanto este espera pela Senhorita Bürstner, ao qual beija posteriormente – “... particularmente atraído por ela, pois nem mesmo recordava exatamente que aspecto tinha, mas como queria falar-lhe, irritava-se ao constatar que a moça ao chegar tão tarde contribuía para que também o fecho desse dia estivesse cheio de inquietude e confusão. Tinha ela a culpa, do mesmo modo, de que naquela noite K. não tivesse comido e de que tampouco poderia fazer ambas as coisas se ele agora fosse à taberna onde Elsa servia como camareira”.

Ressalto outro ponto, aos que possam duvidar de minhas convicções, quando K. sente-se atraído pela mulher do porteiro do Tribunal, que é molestada pelo estudante de pernas tortas e barbicha ruiva: “K. deu precipitadamente dois passos em direção a eles, dispondo-se a tirá-la dele, e, se fosse necessário, a estrangular o estudante. Mas nesse momento a mulher exclamou: ´tudo é inútil; (...) não posso ir-me com você (...)’”. E K. brada, por certo ciumento: “E não quer ver-se livre dele!”. De fato, as mulheres praticam papéis subservientes nesta obra, padecendo sempre de uma passividade alarmante, que beira à manipulação, e ao total desprezo do narrador pelas mesmas. Mas esse não é o ponto fulcral.

Revelo peremptoriamente que o livro muito me excitou. Se por acaso estas memórias caírem em mãos alheias e estas mesmas mãos não tiverem percorrido as páginas de O Processo, rogo-lhe, leitor, que leia de imediato este livro, de maneira adequada, sob pena de considerá-lo um ignorante. E espero que mais pessoas, como eu, tenham notado toda esta degeneração. Senhorita Bürstner provavelmente se presta à prática de sexo corporativo, não tenho dúvida. É uma datilógrafa. Vai cedo ao trabalho, volta tarde. A mulher do porteiro é vítima de todo tipo de assédio por parte dos operadores de Direito, e vê nisso uma forma de poder, nunca resistindo. Seu marido, um tremendo corno, nada faz, embora queira, pois se vê ameaçado pela tirania daqueles que lhe transam a mulher. A enfermeira Leni, amante de todos, inclusive de K., tão perspicaz, julga poder influir nos destinos do processo do protagonista, assim como ama todos os acusados defendidos por seu patrão, o advogado Huld. Há ainda Montag, as endiabradas meninas do prédio de Titorelli, Elsa, e por aí vai. Todas imprestáveis, como o próprio Josef K.

A idéia de filmar esta minha concepção distorcida de um livro tão cultuado veio com a oferta do velho judeu Isaac. A História tem revelado judeus de diversos tipos. Judeus expurgados, judeus vítimas, judeus exterminados, judeus matadores, judeus negociadores, judeus vendedores, judeus engraçados, judeus de toda sorte. Juro, porém, que nunca havia visto um judeu tarado. Isaac é um velho judeu tarado, dedicado a toda arte da sacanagem, embora, socialmente, se limite a uma vida pacata e benquista pela comunidade. Sei do lado sujo da maioria das pessoas. Isaac conhece alguns trabalhos meus na área do cinema pornográfico e, muito empolgado, encomendou-me um filme pornô com história, dado que é às coisas intelectuais. Explico: pornôs podem ser divididos em duas categorias: filmes com história e filmes sem história. Os primeiros têm enredo e sexo, os segundos, apenas sexo. Muito inspirado por Calígula, de Tinto Brass, e outras obras visionárias, em especial de diretores latinos, de sangue mais quente (os anglo-saxônicos costumam ser lacônicos), resolvi dar vida à minha impressão infame, desejoso de construir algo grande, hábil a quebrar certos paradigmas. Não posso deixar de mencionar, como também uma fonte de inspiração, o frêmito que havia se instaurado pelas pin-ups à época: se objetos sexuais do passado podiam se passar por arte e serem cultuados no presente, por que não minha readaptação?

Desenvolvi o roteiro sozinho, em duas semanas, creio, após uma rápida releitura da obra original. Pretendia um filme relativamente longo, pelo que seria verdadeiramente uma readaptação induzida dos aspectos pornográficos. Induzida, talvez, seja um termo incorreto, melhor seria falar reforçada, pois está tudo lá, engaiolado nas páginas do livro, insinuante como uma garota de quinze anos. E Kafka, a despeito da época em que escreveu, não era santo. Aliás, estranha idéia têm as pessoas ao associar indivíduos ou épocas velhas a uma espécie de santidade, de inocência. Provavelmente se esquecem de que não foi bem a cegonha quem lhes pariu.

Alguns problemas na locação de cenários e na contratação do staff não me detiveram. O velho havia molhado minha mão com grana o suficiente para fazer uma obra-prima do sexo e eu iria até o final da empreitada, entusiasmado que estava.

Gosto sempre do teste com as atrizes. Sou profissional, não esperem que eu saia transando com cada guria que se proponha a fazer um filme que contenha cenas de sexo. A propósito, muito urgente se faz definir que não nasci diretor de filme pornô. Egresso da escola de cinema, pus-me a rodar desde produções médias até documentários, onde, juro, não havia sequer uma insinuação sexual. Enfastiado, porém, com todas as determinações artísticas - melhor seria dizer financeiras – dos produtores, dos patrocinadores e de demais provedores, decidi perseguir uma área livre aos meus talentos, e foi nesse momento que me deparei com o cinema pornô, onde eu detinha o poder de criar o prazer e de ditar os rumos da concupiscência alheia. Resumindo, sou um desvirtuado convicto.

Em verdade, precisava de três belas garotas, que se encaixassem no perfil de Bürstner, Leni e a mulher do porteiro. Respectivamente, uma ruiva, uma pálida de cabelos negros e uma mulata. Tomei a discricionariedade de empregar uma mulata pelo fato do autor ressaltar as qualidades corpóreas da mulher do porteiro, o que eu só poderia encontrar numa formosa mulata à brasileira. Pensando agora, me foge à mente o motivo de minha apreensão, enquanto rodava o filme, com a citada discricionariedade. Por que deveria eu me preocupar com o respeito a detalhes, uma vez que transgredia de maneira bárbara uma genialidade? Só posso responder isso com minha suposição de excelência: sempre gostei de meu trabalho e procurava me dedicar ao mesmo com um ardor fora do comum. Simples seria se, como uma criança mimada, procurasse estragar anarquicamente o trabalho alheio. Meu objetivo, contudo, era debater a arte em si, realocá-la, introduzir nela sinais de novos tempos, de novos pensamentos. Muito me decepciona a visão limitada de arte demonstrada pela maioria das pessoas. Há arte onde olhos cultos jamais suspeitariam pousar seu ceticismo. Nesse ponto, continuo a afirmar que sou vanguarda, pois discuto a relação da vida com o ser humano de uma forma muito mais ousada e desafiadora do que um fotógrafo se dispõe a fazer ao tirar fotos dos elefantes do Seringuete. Recordo-me, só para citar um exemplo, de uma cena em especial, onde eu procurava recriar a parte em que K. está no Tribunal, a discursar para um público corrupto que, ao invés de lhe dar a devida atenção, procura acobertar o assédio que o jovem estudante de pernas arqueadas lançava à mulher do porteiro. Em minha readaptação, procurei ressaltar sobremaneira o caráter sórdido desta platéia, que ao próprio K. enoja, dando a eles feições de homens poderosos: os atores se assemelhavam a políticos, executivos, funcionários exemplares que, mesmo em face de seus importantes trabalhos a tomar-lhes o tempo, valorizam, ou preferem valorizar, um estupro contra uma jovem, excitando-se com isso. Se isso não é arte, não sei o que fez então Kundera com sua escrita realista e Polanski em seu Lua de Fel. Foi uma cena forte, obviamente destituída de violência real, mas lá estava o sexo real. Creio, ainda, que, além de real, mostrou-se difícil à nossa mulata, pois nesta sequência ela teve de transar com cinco rapazes diferentes, além dos voyeurs abelhudos.

Minhas atrizes, escolhidas depois de análise criteriosa, mostraram-se de um profissionalismo ímpar. Consegui selecionar três lindas e talentosas garotas. Belos rabos e peitos, além daquele olhar de malícia, insubstituível. Afirmo categoricamente que não eram dessas desesperadas que se sujeitam ao pornô por dinheiro, o que não as diferenciariam de prostitutas. Eram, sobretudo, garotas desenvoltas, desatadas de amarras moralistas, instigadas pelo meu projeto e apaixonadas por sexo, por que não? Além delas, contei com inúmeros figurantes, gente simples. Meu K. era um rapagão de bons dotes, e o principal, um ator de formação, não apenas um ator pornô. Admito que um ator um tanto quanto decadente, mas ainda assim, um poço de experiência. Chamava-o de “meu Malcolm McDowell”. Eu contava com uma boa equipe, de sorte que as filmagens se deram num clima de descontração e profissionalismo. Rotulavam-me “exigente”, mas respeitavam minhas habilidades. Era meu grande filme.

[continua…]

6.2.10

Desvirtudes (parte I)

espelho

Recordo-me com amargor daqueles dias sombrios. Não são literalmente terríficos, senão para minha honra, acabrunhada por cada segundo que teima em lembrar-se dos penosos fatos. Apodera-se de mim nestes momentos uma vergonha indescritível, capaz de corar-me por dentro, coisa que dificilmente ocorre por fora. Rememoro tais dias unicamente para encarar um problema, intragável, adianto, nesta ocasião em que consigo respirar o ar de certa tranquilidade. Tranquilidade, repito, não comiseração. Por certo, foram tão péssimos dias que, se pretendesse traçar linhas à época, com louvor teria furado o caderno com a caneta, inúmeras vezes. Pela história daquele dia a ser contada, espero livrar-me desse maldito desconforto, que se dá nos seguintes termos.

Era uma sexta de sol abafado, a pôr-se. Estacionei, temerário, meu modesto carro numa vaga qualquer. Àquela altura, já tremia e suava frio, e imaginava que bateria num dos veículos ao redor a qualquer momento, o que seria horrível. Esfriei a cabeça e então pude balizar satisfatoriamente. Desci do carro suspirando, mas não menos tenso.

Olhei para o alto e vi garrafal a inscrição “Cine-teatro Mandrake”. Creio ter sorrido. Do estacionamento até o cine-teatro eram algumas boas passadas e, durante o trajeto, as pessoas me olhavam curiosas. Não me abalei: não é todo dia que se vê um rapagão de quarenta anos vestindo uma camiseta com um enorme “69” grafado, calça jeans rasgada e botas que bem poderiam ter sido de algum integrante do Steppenwolf. Nessas ocasiões, costumo devolver um olhar de desprezo, outro de canalhice, e continuo meu caminho. Certa vez, pus-me a fingir de demônio para uma carola, perseguindo-a enquanto gritava sílabas incompreensíveis e, com os dedos, imitava chifres sobre a cabeça. A velha amaldiçoou até a terceira geração de minha família.

Entrei pela porta dos fundos, temendo o assédio dos fãs, que provavelmente estariam no hall do cine, aguardando-me ensandecidos. O porteiro já me conhecia, abrindo passagem com um polido “Como vai, doutor?”.

O camarim estava à minha espera. Nada demais. Em verdade, era um pequeno quarto, lúgubre, limbo nos cantos a formar um carpete brilhante, de um denso verde enegrecido. Um empoeirado espelho ocupava boa parte da parede rebocada. Rosas esfacelentas enfeitavam a escrivaninha ao lado do espelho. Do canto, um crânio com peruca loira fitava-me em tom de deboche, fazendo troça de mim com seu batom vermelho ao redor da boca descarnada. Resisti ao clichê shakespeariano.

Alonguei-me, tentando imitar um gato. Repuxei-me para cima, depois para baixo, para os lados, lânguido. Senti os músculos quentes. Tirei as botas, a camiseta, a calça, ficando apenas de cueca. Um terno ao lado me aguardava encabideado, sisudo. Vesti a calça e me deparei com o espelho, aflito. Fitei-o longamente, vendo-me e, um tanto quanto além, as palmas, os assobios, os sorrisos, esplendorosos, admirados, de minha querida platéia.

“Vamos lá, vamos lá”, tentei me concentrar, discursando para o velho espelho... “Senhoras e senhores! Agradeço a presença de todos neste dia especial” – faria uma pausa, para colher olhares de cordeiro e continuaria - “dia em que pretendo elevar a arte a um novo patamar, a uma nova concepção. Uma nova visão para novos tempos... uma... uma...” E restei a gaguejar, lembro-me bem, tomado novamente pela crua ansiedade.

Piegas. Se ares soturnos desse ao discurso, talvez, bem talvez, introduzisse uma atmosfera adequada ao que viria depois. Ah! Em minha mente conjurava tantas blasfêmias que os espantariam: nada mais que minha arte, a qual estavam prestes a conferir na tela de cinema. Eu vislumbraria, no irromper do clímax, estampado nos olhos esbugalhados de minha querida platéia, o assombro de suas inocências sucumbindo a uma abrupta ruptura, fruto de minha obra, de minha readaptação. Inquietar-se-iam em suas poltronas, inseguros de como reagir. Eu, atrás das cortinas, jorraria gargalhadas.

Recordo-me que, embebido dessa comoção e ao passar um cinto em volta da calça, notei estar magro demais, me vindo à mente logo a constatação de Nelson Rodrigues, “todo canalha é magro!”. Ser canalha é uma bênção neste país. Ser magro, então, é um toque divino na condução de minha vida. Há, ainda, quem saiba apreciar o esbelto, mesmo em dias de corpos perfeitos, musculosos, gregos. Custa-me a aceitar a hipocrisia desse pessoal do politicamente correto, do saudável acima de tudo, se me permitem a digressão.

Sei, contudo, que a idéia de canalhice foi um gatilho inspirador. “Devia ter pensado nisso antes”, censurei-me, à hora. Disparei satírico, a mim mesmo, no espelho: “Senhoras e senhores, heterossexuais e homossexuais, voyeurs e swingers, zoófilos e pedófilos. Não. Os pedófilos podem se retirar. Escória. Aqui estamos, minha querida plateia, para uma noite memorável. Noite em que a arte se renderá à sacanagem e o mundo sairá da sombra do moralismo para entrar nos domínios da liberdade. Um território onde o sagrado e o vil se complementam e se conjugam, onde a censura se vê incapaz de taxações, onde o culto coaduna o ordinário e todos os seus irrequietos prazeres são postos à prova. Bem-vindos, senhoras e senhores, a esta fantástica estreia!”.

Meu velho espelho refletia um homem de camisa mal abotoada e gravata presa à testa, de braços estendidos ao ar e feições megalomaníacas. Gostei do tom profano. Parecia genial. A ordem era proferir um discurso carregado de lascívia, um preâmbulo adequado, capaz de ressaltar a vida através do erotismo e tornar isso relevante, artisticamente aceitável. Não que eu precisasse ser aceito. Tinha a pretensão, sim, de criar sob minhas pegadas toda uma vanguarda, condensando a brutalidade de um linguajar chulo, só aceito em termos primitivos de socialização, com a mistificação do sexo em sua aura sagrada, semente da vida.

[continua…]

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Confira: parte II / parte III