28.12.10

Laços

Quando eu ainda era bem pirralho, coisa de quatro anos, chuto, minha madrinha faleceu. Não me culpem, pois, se não lembro dela nos mais nítidos detalhes, senão por fotos e relatos.

Era uma mulher distinta e bonita. Creio mesmo que, por fotos, tinha um ar aristocrático nos traços e no jeito de se vestir. Já ouvi que era rígida, mas sem deixar de ser muito afetuosa. Sempre lamentei não tê-la conhecido a fundo, não ter conversado com ela, não ter recebido broncas e carinhos dela durante meu crescimento. Ela se foi precocemente, em decorrência de um acidente de trânsito.

Não estou a par se todos sabem disso, mas há pessoas que, ao falecerem, imprimem uma marca no mundo tão forte que se tornam eternas. Minha madrinha foi uma dessas pessoas. Como explicar essa saudade sem causa?

Deixou três filhos: R., T. e P: as três marcas grafadas no mundo por minha madrinha.

Eu não pude conhecê-la como gostaria, mas sou grato por conhecer seus filhos: eles brincam que são minha "madrinha substituta" e, talvez, por isso mesmo, eu sinta um carinho especial pelos três e, suponho, o mesmo aconteça por parte deles.

Um padre, uma pesquisadora, um policial. Falar que essas palavras os definem seria zombar da complexidade de pessoas que estimo tanto. Mas, apenas a título exemplificativo, são esses os diferentes rumos que eles tomaram, e o que mais me fascina na vida deles. Cada um a seu modo, todos os três colaboraram para que eu mudasse de visão no momento apropriado.

Conselhos que me tornaram mais ponderado, mais ativo, mais ousado. Eu devo muito ao carinho e à atenção de cada um deles. Eu perdi uma madrinha, mas eles perderam uma mãe. Eu respeito aqueles que aprendem na adversidade. E é justamente essa lacuna que os torna mais humanos e mais admirados por mim.

Eu não pude dizer apropriadamente que a amava, madrinha, mas eu posso dizer com todas as letras que a simplicidade desse texto me permite: eu amo a sua marca eterna no mundo.

15.11.10

Amantes de tempo nenhum

Minha mãe sempre foi uma grande fã de Chico Buarque, provavelmente a maior delas. Desde pirralho, convivo com a voz desajeitada e o lirismo certeiro do homem. Aprendi a respeitá-lo, embora não seja um fã.

Quando ainda era jovem e tolo, gostava de ouvir Futuros Amantes, não sei se pela letra, se pela harmonia, ou se pelo fato daquela música mexer tanto com a mulher que me gerou.

Tenho a impressão que as músicas do Chico são como as flechas do Cupido. Parecem sempre destinadas a alguma mulher interessante que em algum momento da vida ele cobiçou. Não é diferente com Futuros Amantes, a interlocutora invisível está lá, talvez seja uma, talvez sejam várias, talvez ela nem exista realmente, mas toda mulher se coloca ali, no pedestal que Chico erege para suas musas.

Essa bela composição fala sobre um futuro onde o Rio é uma cidade submersa, onde escafandristas remexem os restos e as ruínas do passado, e descobrem traços de um amor já perdido. Bem, essa é a interpretação grosseira e primária. Serve de pano de fundo para os segredos que só existiam entre Chico e a interlocutora.

Minha mãe sempre foi muito boa observadora. Ao perceber que a música me agradava, revelou-me que muitos anos antes, havia escrito uma crônica onde estabelecia a relação entre essa música e a Psicanálise. Para ela, Futuros Amantes seria uma alegoria das teorias desenvolvidas a partir das descobertas de Freud.

Com significados escondidos ou não, Chico teve amores suficientes em sua vida para entender cada palavra de sua obra. Todos reviram o passado em busca de respostas que decifrem coisas tão inexplicáveis no presente. Na agonia e inconstância do presente.

Aquele bilhetinho que encontrei em minha carteira, nossos nomes e um coração entremeando-os que marquei na madeira, os recados amorosos que você escreveu no meu caderno, os presentes que ganhei, as cartas, as malditas lembranças, as benditas mentiras. A cada dia encontro sinais inverossímeis da existência de um amor que não sei se de fato existiu.

E mesmo minha mãe… quando viveu isso? Quando escreveu esse texto que suponho brilhante? Como você e meu pai se conheceram? Quando você fez Direito, desistiu e depois resolveu fazer Psicologia? Quando vocês tiveram essas vidas que tanto admiro?

Quando as coisas aconteceram? Quando existiram, isto é, se existiram?

Remexo o passado, afobado, mesmo sabendo que nada é pra já, mas não encontro nada. São todos vestígios de uma memória que se perdeu em águas nada navegáveis.

Eu não sou um escafandrista e talvez Chico concorde comigo, do alto de sua experiência e de sua famosa timidez, que há certos amores que não possuem futuro algum. Mas isso eu deixo para os milênios vindouros descobrirem.

31.10.10

Noites amargas

Certa vez, na bela Califórnia, terra de terremotos e putarias, alguns brilhantes homens escreveram uma música chamada People are strange. Era uma banda de nome The Doors, cuja fama precede qualquer comentário banal que eu venha a expor aqui.

Creio que ao comporem essa música, eles viviam uma vida muito parecida com a minha. Se isso é um fato histórico ou não, não ligo. Detesto formalismos e pelo bem da minha escrita, defendo minha imaginação com unhas e dentes.

A verdade, companheiros, é que certas noites são amargas, principalmente quando somos ou estamos estranhos.

Há noites, e quanto a isso me refiro a madrugadas, em que meus vizinhos ouvem não só meus passos desfilando pelo longo corredor até meu apartamento, mas também outros passos. Lindos passos. Passos que se conjugam aos meus. Passos de saltos, de sapatos, de sandálias, que num trote dionísico, muito se assemelham a um samba rude de noite já alta, noite quase finda. São passos que acompanham um garoto atrevido. Mas eu sei que os vizinhos riem disso. É a lei da vida, ora!

Essas noites são doces como o mel das abelhas mais ordeiras. São tenras tal qual um manto de estrelas que cobrem dois amantes despropositados. Juro mesmo que são noites capazes de fazer cochilar o mais severo dos turrões.

Mas nem toda noite é assim.

Há noites em que não há escapatória. Somos estranhos e ninguém lembra o nosso nome. Women seem wicked.

Noites em que abrimos pesarosos o portão do prédio, pois nem mesmo o porteiro, o guardião da madrugada, ludibriou-se com nossas súplicas e ousou ter compaixão de nossa solidão.

Dirigimo-nos cabisbaixos ao elevador, onde um imenso espelho ri sadicamente de nossas falhas.

Deitamo-nos em camas grandes demais.

Adormecemos sem nenhum prazer nos lábios.

Abraçamos o vazio ao nosso lado.

Nossos narizes sentem falta de um perfume.

Essas não são noites doces e mágicas. Não há samba nem atrevimento. Não há riso nem contentamento.

Essas, meus companheiros, são noites amargas.

25.10.10

Duas mãos

Lembro que os exercícios de redação da época da escola pediam para delimitarmos certas características nos textos. Personagens, lugar, tempo, narrativa. De fato, ao pensar nisso, estou sentado defronte a uma mesa de cozinha, decorada com uma toalha barata e um vaso de flores de plástico, tão falsas quanto minhas tentativas em decorar meu apartamento. Minha bunda está sobre uma cadeira que só não cede pois consigo ser mais leve que o peso mínimo – e é bem pouco! – exigido para fazê-la despencar. Minha mãe as detesta.

Entre mim e as flores está um saco plástico. Dentro dele, jaz uma rosca doce embolorada. Foi feita pela namorada do meu avô, trazida pela minha mãe e habitante de minha geladeira há semanas.

O sol cai por detrás dos prédios. Da janela da cozinha, vejo a beleza do pôr-do-sol (que aqui assume as cores do pêssego) escondida atrás de prédios que surgem novíssimos todos os dias. Esse é o tempo.

Sei que estou aflito. Mas não sei bem porquê. Pode ser a faculdade, que me enfastia. Ou podem ser as mulheres, que exigem demais de mim. Pode ser os dois, ou até mesmo a eleição, que evidencia a ignorância de tantos. Pode ser meu talento, que me acompanhava com mais frequência antigamente, arremessando pedras num lago escuro, na outra margem, enquanto se afasta cada vez mais de mim rumo a uma foz que desconheço.

Não é nada disso ou é tudo isso. No entanto, a pedra-no-meu-sapato do momento é a rosca embolorada.

Esse pão-doce tão vistoso, tão suculento. Tenho certeza que estava saboroso, não fosse o fato de não ter comido sequer uma fatia deste amontoado de carboidratos.

Tenho certeza absoluta, também, que ele era perfeito. Fofo, dourado, cheio de açúcar. Todavia, agora estava como muitos de nós, não totalmente podre, mas cheio de manchas negras, dessas que assomam durante nossas vidas, que o enfeiavam. Digo, enfeavam. Nas aulas de redação da época da escola, a professora, que eu amava tanto, sempre riscava a palavra “enfeiava” e escrevia de vermelho em cima “enfeava”. Eu nunca gostei de errar.

Encarei perplexo aquele pedaço de rosca. Certamente eu cometera uma falta grave para com as crianças da África, para com os necessitados do mundo todo. Enquanto combaliam de fome, eu me dava ao luxo de desperdiçar tanta comida.

Levantei-me sem saber o motivo. Andei um passo para cá, outro para lá. Fechei a persiana da janela da cozinha. O sol de pêssego das seis me incomoda. Mas não adianta nada! Essa persiana é traiçoeira, pois nunca se fecha completamente. Se a fecho, ela se abre, se a abro, ela se fecha.

Voltei ao meu lugar na cadeira esquelética enquanto meus olhos eram bombardeados pela brincadeira da persiana, que deixava escapar lampejos do sol que se ia.

Tomei em minha mão o saco plástico da rosca para jogá-la no lixo, já conformado com meu pecado, quando uma mão magra, oriunda de um braço também magro, oposto ao meu, pousou sobre minha mão e a empurrou para baixo, impedindo que eu desse cabo daquele doce.

Segui o caminho daquela intromissão: uma mão esquerda, de dedos magros, como os meus, de unhas algumas cortadas e outras roídas, hábito que eu conseguira gloriosamente largar, mas que voltara sorrateiramente; uma pequena cicatriz transversal no dorso; punhos finos; braços longos e nem peludos nem pelados; um ombro largo; um pescoço comprido e, por fim, em contraste com as réstias troceiras permitidas pela persiana metida à besta, meu próprio rosto!

Eu estava sentado logo ali, em minha própria frente!

Pisquei, saracoteei a cabeça, belisquei meu, meu!, braço. Nada adiantou, eu realmente existia do lado de cá da mesa e, misteriosamente, também do lado de lá. Sei que não há nexo, mas me limitarei a chamar o eu intruso de “outro-eu”, e a mim chamarei de “eu” mesmo, o que não deixa de ser verdade.

“Olá, Victor”, disse o outro-eu, rindo com o canto da boca de um jeito que só o eu, digo, só eu sei rir.

“Olá…”, respondi confusa e educadamente.

“Você esperou muito tempo para que isso acontecesse, não é mesmo?”, o outro-eu prosseguiu.

“Esperei, é verdade, sempre achei que você fosse aparecer só quando eu, nós?, já estivesse velho, quando o tempo invariavelmente fosse me tratar como um louco, pois não há velhos excêntricos, apenas loucos gagás”.

“Pois bem, cá estou, muito antes do que você imaginava. Não é maravilhoso? Estamos livre”.

“Livres”, corrigi-o.

“As circunstâncias exigem que desconsideremos as regras de concordância verbal e nominal, Victor”, sentenciou o outro-eu, e prosseguiu, “Além do mais, perceba, quando eu falo, você fala também, e assim eu somos nós”.

“O que o traz aqui?”. E percebi que minha voz também saía pela boca dele.

“Estou preocupado conosco, sou uma espécie de aviso”.

“Aviso sobre o quê?”.

“Não é óbvio?”.

“É, você está certo. Mas o que fará, vai me dar um sermão, dizer que não posso viver essa vida, bla bla bla?”.

“Sim e não. Nós pode levar essa vida, mas, por Deus, aprenda a aceitá-la, então! Ou nos arrependa e viva pelo ‘bom’ caminho”.

“A maioria das pessoas pode seguir assim sem problemas, por que justo nós preciso decidir desde já?”.

“Ninguém mandou termos esse complexo de Alex DeLarge, se acharmos escolhidos de Deus, invencíveis, inigualáveis, irresistíveis! Temos que ser os primeiros de tudo, infelizmente”.

“Cortemos essa!”.

“Victor, quero fazer uma pergunta. Para. Escuta. Sim, sim, eu sei que é estranho ver nós próprio falando…”, e tive que me conter ante ao entusiasmo de me ver nos olhos de outro (?). “Agora: por que começou a se colocar como protagonista de seus próprios textos?”, questionou, arregalando os olhos. Eu estava extasiado de me ver!

“Uma questão de estilo…”.

“Bobagem! Conte-nos! Não vai nos dizer que seria auto-terapia?”.

“Nós não seria tão piegas, já não basta nossos pais tentando entender cada palavra, cada vírgula, cada ponto, cada acento, cada entrelinha desses malditos textos?”.

“Você tem razão, mas por que então?”.

“Eu acho que gosto de viver essas coisas. Veja só, estou encontrando eu mesmo na minha própria mesa de cozinha!”, trocei.

Nesse momento, o outro-eu arremessou o vaso de flores de plástico para o lado, causando uma grande sujeira no chão já sujo.

“Isso não é uma brincadeira! Não beberás. Não treparás. Não rirás. Não escutarás músicas malevólas no seu computador malévolo acaso não queiras me encontrar novamente!”, ameaçou o outro-eu.

“Ah, logo vejo que se somos dois, você é o diabo e sou o anjo”, e ri de mim mesmo.

“Não, você é o diabo e eu sou o anjo”, por algum motivo, eu, ele, também ria.

“Outro-eu, posso chamá-lo assim? Você sabe o que você é?”.

“O que somos?”.

“Só mais uma ideia de madrugada, uma ideia de insônia. Deveria saber disso”.

Ele me olhou um pouco trêmulo. Desviou o olhar tantas vezes lhe foi possível escolher lados para direcionar nossos olhos.

“Temos razão. Mas de qualquer maneira, ainda estou aqui. Só há uma maneira de me fazer ir embora”.

Nesta altura, reparei que a mão dele ainda repousava sobre a minha mão e que esta, por sua vez, ainda repousava sobre o saco plástico, já suado por meu nervosismo.

Entendi contrariado a mensagem do outro-eu. Ele olhou lânguido e com aquele maldito escárnio na boca (como só eu sei fazer) para uma faca que surpreendentemente havia surgido ao meu lado. Eu a tomei para mim. Tremia. O outro-eu me olhava apreensivo, mordendo o canto do lábio e franzindo a testa (como só eu sei fazer). Empunhei a faca. Tomei firmeza nestes meus braços magros, mas fortes quando sobre mim desce uma força inexplicável até mesmo para loucuras literárias.

E desferi um golpe certeiro sobre a rosca doce.

Comi-a salivando. Antes de chegar até o final, creio que chorei. Sempre estranhei as pessoas que choram enquanto comem, então talvez apenas as tenha imitado para que toda a cena ficasse um pouco mais dramática. A verdade é que enfiava goela abaixo não só um pão mofado, verde, cheio de fungos. Eu engolia junto o preço da sanidade. E quando lambi enojado a última migalha daquele saco plástico suado e pestilento, ele, o outro-eu, desapareceu, não sem antes me agarrar pela nuca e assegurar que ainda nos veríamos mais algumas vezes por aí.

Antes de partir, ele ficou bem na minha frente, de braços cruzados, assistindo aquele espetáculo grotesco. Igual a mim. Diferente de mim. Eu próprio. Sem rir, sem chorar, sem esboçar reação alguma. Apenas flegmático. Digo, fleumático. Na época dos exercícios de redação da escola, escrevi em um texto a palavra “flegmático”, para espanto da professora, que eu amava tanto. “É fleumático, Victor!”, ela asseverou. “Não, professora, eu também vi que existe flegmático”. “Você tem certeza?”, ela me perguntou. Ela sabia que eu estava certo. Ela sabia que podia confiar em mim. Ela não riscou nada de vermelho.

Aquela mulher sabia que podem existir duas palavras iguais, só um pouco diferentes, assim como podem existir dois personagens tão iguais quanto diferentes, mas assombrados pelo mesma medida de loucura.

14.10.10

O estranho mundo das floriculturas

Os dias atípicos me agradam. Não só porque afrontam o cotidiano, de tediosidade temerária, mas também porque ao final desses dias, sempre fico com a impressão que um pedaço de vida se criou. Que acresci mais um tijolinho na minha estrada rumo à morte. Um jogo interessante de mais e menos.

Em uma manhã desses dias atípicos, resolvi procurar uma floricultura. Queria presentear um affair por seu aniversário. Sou do tipo bobo, que ainda presenteia mulheres com flores e se presta a imaginar milhares de situações românticas. Um tipo em extinção, assumo.

Não foi tarefa fácil achar uma floricultura. A cidade, com sua objetividade de imensos prédios, asfalto e comércio predatório, acabou por obliterar as floriculturas. Essa cidade é própria dos construtivistas, qualquer poeta mais afeito à subjetividade a denegriria. Afinal, que graça tem a vida sem as flores?

Quando achei uma floricultura, alegrei-me. Era modesta, porém respirava aquele ar de leveza típico desses estabelecimentos. Encaravam-me ansiosas as bromélias, as orquídeas e as flores do deserto, entre tantas outras. Perguntei por girassois.

“Ih, moço, só se encomendar!”.

Como assim? Girassois são nobres por natureza, deveriam existir aqui a qualquer custo, como ousam não criar girassois?! Mas me limitei a questionar: “E a senhora sabe de algum outro lugar aqui perto que talvez tenha?”.

“No calçadão”, respondeu, enquanto dava atenção para um jovem rapaz que segurava uma carta na mão e me olhava de soslaio.

E até lá fui. Olhei detidamente as belas flores expostas, aspirei aqueles doces aromas (que lembram minha avó), atrás do bendito girassol. Porém também estava em falta.

“Nossa, o que acontece, não é época?”, indaguei.

“Não, senhor, é que tem que encomendar!”, tornou-me o vendedor.

Os girassois, aparentemente, eram muito valorizados. Talvez por orgulho não queriam se expor em lojas. Felicitam-se tão-somente em deitar suas pétalas ao sol, no campo, de onde acham que jamais deveriam sair. Mas, saindo, ao menos querem ser encomendados, sinal de sua nobreza e teimosia. Eu deveria imaginar. Uma flor que se curva apenas ao Sol é difícil de lidar.

Ao sair da loja, esbarrei em outro jovem rapaz, que me encarou durante alguns segundos. Desculpei-me e prossegui meu caminho.

Estava um tanto quanto desolado. Será que não encontraria o girassol? Tinha que ser o girassol. O girassol se encaixava. Ela só iria gostar do girassol. Não teria sentido se eu mandasse rosas ou hortênsias. A simbologia exigia o girassol, mas isso não vem ao caso. Affairs são affairs e o que envolve esse mundo de intimidade não deve revelar jamais seus segredos.

Lembrei da floricultura do velho mercado. Era algo profissional, com flores espalhadas por corredores, empilhadas, atulhadas umas aos lados das outras. Aquela floricultura obviamente teria o girassol. Provavelmente todas as flores desejavam estar naquela floricultura. Ser vendida ali com toda a certeza lhes traria um destino proveitoso: um amor conquistado, um feliz aniversário realmente feliz, uma condolência honrosa. O girassol estaria ali para atender meus intentos.

E estava. Eram logo cinco girassois disputando minha atenção. Escolhi o mais vistoso, o mais vaidoso, aquele que mais agradaria a garota. Mandei entregar. Paguei.

Ao meu lado, enquanto guardava o troco, notei mais um jovem rapaz. Escrevia uma carta. Provavelmente uma carta de amor. Ele me olhou de esguelha e sorriu.

“O grande Victor Hugo. Há tempos queremos conhecê-lo…”, disse num tom cordial.

Suspeitei.

“Como você sabe meu nome?”.

“Sabemos tudo sobre você. Onde mora, com quem fala, para quem escreve suas cartas de amor”.

“Quem é você?!”, indaguei já nervoso.

“Vamos lá fora”.

Puxou-me pelo braço, percorrendo os corredores tortos daquele mercado velho, onde fogões idosos se empilhavam sobre mercadorias tão velhas quanto, onde condimentos, bebidas e artigos de decoração estavam lado a lado, disputando atenção dos bolsos com dinheiro, onde caixas velhas serviam de bancos e mesas, onde o café era de um negror já esquecido. Puxou-me pela história.

Chegamos do lado de fora, onde a claridade ofuscou minhas retinas.

Quando me acostumei à luz, percebi que ao meu redor estavam os rapazes das floriculturas pelas quais tinha procurado frustradamente o girassol. Além de mais dez outros homens.

“Oh que bom, ele está aqui!”, comentaram entre si.

“Expliquem o que é isso, por favor”, exigi.

“Victor, somos um grupo muito restrito. Temos o observado e chegamos à conclusão de que talvez você queira se juntar a nós”.

“E do que se trata?”, perguntei curioso.

“Todos nós nos conhecemos em floriculturas, ou cafeterias, ou parques, ou joalherias. Em algum momento da vida, nos conhecemos enquanto gostávamos de alguém, nos reconhecemos pois éramos pessoas apaixonadas, em busca de uma pessoa. Nos reunimos para trocar experiências, dicas, para conhecer novas paixões. Não temos a hipocrisia de afirmar que vivemos por sucesso profissional ou por ideologias. Vivemos apenas pela paixão”, explicou um deles.

E prosseguiram:

“O C. aqui, presenteava suas amantes com colares lindíssimos, nos explicou tudo sobre jóias e o que elas mais adoram. O F. era um exímio conquistador, de uma cafeteria ou uma doceria, já conseguia emendar um motel, vai aprender muito com ele. O T. ali escreveu poemas lindíssimos sob a sombra de ipês, e suas mulheres se derretiam com suas doces palavras”.

Achei o papo esquisito, mas decidi seguir adiante:

“Eu não estou entendendo muito bem, mas… me explica algo, por que você falou tudo no passado? ‘Presenteava’?, ‘Era’?, ‘Escreveu’?”.

Então, os cenhos daqueles rapazes se agravaram. Abaixaram os olhares e pareceram comungar de um sentimento terrível, de uma dor incurável.

“É por isso que nos reunimos, Victor. Deixe-me perguntar, você acha que suas flores vão surtir o efeito desejado?”.

“Bem, eu acho que sim, é um lindo girassol, que mulher não gostaria de recebê-lo…?”.

“Você tem certeza?”, e todos me olhavam atentos.

Senti-me acuado.

“Bem, talvez não… na verdade estou mandando essas flores como última tentativa… confesso que esta peleja é difícil…”.

“Exatamente, Victor. Ela gostará da flor, gostará sim. Mas ela não ficará com você. Já a analisamos. Sabemos disso por experiência. Aqui somos todos assim. Somos amados uma vez ou outra, escolhidos intermitentemente. Mas nunca somos aqueles que durarão para sempre. Nós apenas somos aqueles que as presenteiam, que as fazem ficar felizes com o mundo, consigo mesmas. Somos como drogas que elas só usam em tempos de desespero. É a nossa sina, o fardo de ser uma espécie em extinção”.

Tive de ceder. Ele tinha razão, era exatamente assim.

Naquele dia, juntei-me ao grupo, sob as vivas de todos os integrantes: um membro novo significa que a paixão não morreu, que ainda pode ser carregada por mais um tempo, até que o futuro nos extinga ou nos consagre mártires em meio a brutos e cafajestes, que se aproveitam do desejo feminino de castigar seu sentimento de culpa para fazer sua própria fortuna. Tantos segredos eu poderia aprender com aqueles renomados artistas do amor! Vivemos pela paixão, não pelas mulheres. Mulheres mudam, envelhecem, morrem, perdem a graça. Mas a paixão, ah… esse é um sentimento que se renova, um sentimento eterno e imortal, não importa a mulher que o provoque.

Eu bem sabia que um dia atípico me traria um novo pedaço de vida para refrescar meu coração.

20.9.10

Os sonhadores

A verdade nunca é simples, bem, ela é. A verdade é que nós o matamos. Pelo silêncio nós consentimos ... pois não podíamos continuar. Por Ares, por que deveríamos seguir em frente… para ser eliminados no fim como Cleitus? Depois de todo esse tempo, para dar a nossa riqueza aos bajuladores asiáticos que desprezávamos? Misturando as raças? Harmonia? Ah, ele falou destas coisas. Eu nunca acreditei em seu sonho. Nenhum de nós acreditou. Essa é a verdade de sua vida. Os sonhadores nos exaurem. Eles devem morrer antes que nos matem com seus sonhos malditos.

Esta fala é proferida por Ptolomeu no filme Alexandre, de 2004, dirigido por Oliver Stone e estrelado por Colin Farrel.

“Alexandre” me impressiona sob diferentes maneiras, mas com toda certeza nunca deixo de me surpreender com a capacidade que esse filme tem de demonstrar, emocionadamente, quão inexorável é a ascensão e a queda que podem acometer qualquer homem.

Há diferentes tipos de homens andando sobre esse planeta neste exato momento. Muitos nasceram por nada, irromperam em vida e deitar-se-ão em seu leito de morte grafados com o signo do vazio, da inutilidade. São peões em um complexo jogo de xadrez.

Outros poucos, contudo, conseguem elevar sua existência de modo a deixar rastros atrás de si, rastros que perduram durante eras, capazes de guiar as pessoas aonde elas jamais conseguiriam chegar sozinhas.

Por que motivos existimos senão para tentar deixar estas marcas? Por que deveríamos permitir o tempo consumir tudo, sem lançar um grito à História, que ecoe durante décadas, séculos, milênios depois que tenhamos ido embora?

Por isso mesmo, admiro os sonhadores. Aqueles que fixam o olhar no horizonte e imaginam, idealizam. Fluem sua ambição e com isso são capazes de mover montanhas.

Não interessa o que idealizam. Não nos deixemos acometer de moralismos. As grandes mentes têm licença para empreenderem quaisquer atos. De que outra maneira a vida teria graça? De que outra maneira se faria História? Fatos são fatos e não podemos deixar que pré-julgamentos nos inibam de reconhecer a grandeza de um homem.

É por isso que no mesmo saco dos sonhadores é possível encontrar Gandhi, Churchill, Einstein, Alexandre, Lula, Bismarck, Marcola. Até mesmo Hitler foi eleito “Homem do Ano” pela revista Time, ora.

Explico: a despeito das convenções, que enterram o potencial humano, os sonhadores não se atêm a preceitos morais, pois eles mesmos são aptos a construir a moral do mundo ideal. É notável que Marcola é um bandido. Mas sua visão o levou a perceber a situação dos carcerários, a ausência do Poder Público: um caminho livre à sua frente. Com sua ambição, criou uma facção poderosa, e é patente que em seu tempo, teve a capacidade de ditar o rumo das coisas. Ainda que um sonho degenerado, é inegável que este homem alcança o que deseja.

Tão melhor seria se todos os sonhadores transformassem suas frustrações em força construtiva, num aprendizado digno.

Temos um exemplo claro bem à nossa frente e ele se chama Luís Inácio Lula da Silva. Lula teve muitas portas fechadas em sua trajetória: a da oportunidade de ter uma infância digna, a dos patrões capitalistas, a dos generais políticos, a da elite preconceituosa. Sempre teimou. E hoje dita toda a política brasileira, sendo o presidente mais popular da História de nosso país. Seu governo deixará raízes profundas, tal qual Getúlio e Juscelino.

No “Alexandre” de Stone há duas cenas marcantes: a primeira, da ascensão, mostra um jovem imperador adentrando a cidade da Babilônia, sob a aclamação dos súditos conquistados, em meio a pétalas e oferendas. Ele fecha seus olhos e goza aquele momento sublime, enquanto a câmera se aproxima mudando lentamente seu eixo, num efeito vertiginoso que expressa a sensação de poder que o conquistador sentia naquele momento.

A outra cena mostra um imperador experiente, já cheio de vícios e orgulhos, que contra a vontade de todos quer sempre ir a Leste, perseguir o fim do mundo, aumentando as fronteiras de seu império. Numa batalha contra indianos, é ferido mortalmente junto de seu célebre cavalo, Bucéfalo. Cai ao chão e então desce sobre a tela uma cortina vermelha: vermelho do sangue que deixa claro que Alexandre é um homem e não um mito; que é mortal e não um deus. Vermelho que lembra a ele que o Sol que tanto admira não nasceu justamente para iluminar seu dia. É a cena da queda, o início do fim de um jovem imperador.

Morreu Alexandre e, tendo conquistado a Europa e a Ásia, pôde conquistar também a morte. Dizem que fracassou nos seus objetivos, mas seu fracasso foi nada mais que sucesso. Com sua política, fundou as raízes da cultura ocidental, até hoje sendo conhecido como o Pai do Ocidente.

Os sonhos de Alexandre não enxergaram fronteiras. Os de ninguém precisam enxergar. Seja um sonho pequeno ou sonho grande, a extensão de nossas conquistas é o quão longe pode ir nossa ambição. É o quanto de ideais podemos enxergar no horizonte.

É o quão significativa podemos tornar nossa ascensão e nossa queda.

13.9.10

A balança

Há eras imemoriáveis, localizadas num tempo que as mentes humanas não conhecem senão pela forma de mitos distorcidos, deformados e desbotados, existiu um semideus de nome Hércules ou Héracles, que supostamente possuía força sobrehumana. Era filho de Zeus, o deus supremo do Olimpo, com uma mortal.

Em certa altura de sua vida, após algumas frustrações pela indecisão entre ser mortal ou imortal, Hércules foi incumbido pelo oráculo de Delfos a cumprir doze tarefas que o redimiriam de sua desonra. Nada mais justo, tendo em vista que as tarefas haviam sido preparadas por seu maior inimigo.

A nós, basta saber que a primeira tarefa do semideus era matar um terrível leão, o Leão da Nemeia.

Esse Leão era um monstro cujo ímpeto por sangue o tornava uma criatura perigosa. Sua pele era intransponível e seu rugido ensurdecedor. Todos o temiam.

Ao encontrá-lo, Hércules tentou matá-lo com lanças e flechas, não obtendo sucesso. Após luta incansável, conseguiu derrotar o monstro enforcando-o. Arrancou sua pele indestrutível e passou a usá-la como proteção.

O que a mitologia não conta, e isso foi coisa que ouvi certa vez de um homem obscuro, cheio de mágoas, é que o Leão da Nemeia comoveu certa parte dos deuses do Olimpo. Por que a natureza deveria ser privada de uma de suas maiores forças pelo simples egoísmo de um semideus qualquer que só se interessa por sua redenção?, pensaram.

O felino foi então ressuscitado.

Em sua nova vida, o Leão da Nemeia não se sentia muito bem. A floresta parecia ter se esquecido de seus encantos. Não conseguia mais atemorizar os outros animais. Não podia mais correr livre e rápido como o próprio ar. Não caçava mais com o vigor de outrora. Algo incomodava o leão.

Após reflexão, percebeu que a derrota para Hércules lhe amputara o orgulho, o que é o mesmo que a alma do leão.

Ele não poderia mais correr, caçar, matar, dilacerar, copular, bocejar, qualquer coisa que fosse, com o brilho de antes, pois para cada ato em que fosse se esmerar, a lembrança de Hércules e de seus braços o enforcando lhe voltavam à memória, e um medo indescritível lhe invadia o ânimo.

O Leão se tornou solitário. Não era mais um monstro e tampouco podia ser um leão normal qualquer. Transitava no limbo entre dois mundos extremos e isso o deprimia. Finalmente, decidiu vagar em busca de respostas.

Certa vez, em um povoado qualquer, encontrou uma bela moça, cujos cabelos cintilavam à luz dos girassois, e logo se encantou por ela. Ela não lhe desviava o olhar como os outros camponeses, nem fugia ante sua passagem. A moça não o temia, pelo contrário, parecia compreendê-lo, e isso felicitava o Leão, que estava cansado da solidão que lhe fora imposta pela nova vida.

A moça sempre trazia consigo uma balança dourada. Ao aproximar-se dela, o Leão a rodeou, a cheirou, afagou-a com sua juba e ela nada fez. Prostrando-se na frente dela, o leão esperou que dissesse algo, e então ela retrucou:

“Você é um belo leão e percebo que quer que eu siga pelas florestas da Grécia ao seu lado”.

O felino assentiu.

“Mas, primeiramente, terá de passar num teste. Dê-me seu coração e o colocarei nesta balança. Se seu coração pesar menos que o puro ar o qual você tanto amava sentir em sua orgulhosa juba, serei sua. Caso contrário, terá de ir embora”.

O Leão aceitou sem pestenejar. Tinha convicção de que seu coração era mais leve que o ar. Seu pai era Tifão, deus dos ventos, ora!

Não me perguntem como o Leão conseguiu entregar seu próprio coração para a garota, mas ele conseguiu.

Infelizmente, o coração do Leão já não era mais leve como o ar. Onde outrora só existia a pureza de um instinto cego, agora havia o ressentimento, a dor, o medo e a necessidade de encontrar alguém que lhe afirmasse que sim, ele era um leão, não era?

A moça nada disse. Decepcionara-se

O Leão tentou argumentar: explicou ser filho de um deus, que era muito respeitado, que gostava dela mais que tudo, que não haveria como seu coração ser pesado e denso, não! seu coração era puro, puro como a natureza. Por que ela exigia tanto dele?

Mas aos olhos da moça aquelas súplicas nada mais eram do que rugidos assustadores e presas enormes que lhe ameaçavam. No fundo, ela não mais compreendia o Leão.

Ela se virou e foi embora. E durante muito tempo o Leão a observou se afastar, enquanto cintilavam de longe seu cabelo de girassol e a balança dourada.

O Leão da Nemeia amaldiçoou tudo e todos. Hércules, sua pele indestrutível, os deuses que o reviveram, a moça pela qual se apaixonara. De que adiantava ser um monstro se uma simples moça conseguira dissolver seu coração numa balança?

Vagou sozinho pela relva, sob sóis ardentes e quartos-de-lua brilhantes, durante muito tempo, rugindo um chamado de tristeza, de comiseração. Chamava por alguém, por algo, mas ninguém respondia, pois todos sabem que não se responde ao chamado de um leão triste. Todos na floresta sabem que não existe um leão triste. Leões são vivos, alegres, comem e se saciam vorazmente e matar é a sua vida. O Leão da Nemeia já não conseguia matar, depois que provara daquele sentimento, de que adiantava matar? Um leão triste é um fantasma, dizem.

Afinal de contas, aquele ali já tinha morrido, não tinha?

9.9.10

Esperando por alguém

Em 1905, Einstein apresentou ao mundo sua Teoria da Relatividade Restrita, baseada no conceito de que o espaço-tempo se apresenta sob quatro dimensões, três espaciais e uma temporal. O estudo ainda previa a física do movimento na ausência de campos gravitacionais. Dez anos depois, formulou a Teoria Geral da Relatividade, aprofundando seus estudos anteriores e generalizando a questão da relatividade em relação ao movimento e aos referenciais inerciais. O ponto fulcral dessa estupenda análise é a de que a gravitação é um efeito da geometria do espaço-tempo, capaz de curvá-lo.

As teorias de Einsten tiveram impactos profundos na concepção humana sobre o tempo e o espaço. Fosse arte, ciência ou um simples pensamento individual. Não sem menos relevo que tais proposições físicas, o sociólogo Boaventura de Souza Santos condensou estudos sociológicos a respeito do tempo no brilhante artigo “A crise do contrato social” (Reinventando a democracia), o qual li ainda no primeiro ano de curso.

Souza Santos relaciona a crise (ou “fragmentação”) das instituições na sociedade atual à uma turbulência paradigmática de disfunção do espaço-tempo estatal (o tempo oficial), forçado a coexistir com novos e instáveis tempos, representantes de novos direitos, novas coercitividades e novas violências.

Para entender essa complexa observação é preciso compreender o papel do Estado moderno, nascido à luz da Revolução Francesa, baseado na tripartição dos Poderes e calcado na República. Sua primazia como legislador, executor e julgador, outrora máxima e pouco limitada, padece de uma fraqueza sem precedentes, perdendo terreno para o poder de multinacionais, entidades paraestatais, organizações criminosas, formas locais de poder, entre outros subcentros que perquirem as prerrogativas estatais às quais a não muito tempo atrás se submetiam.

A existência de novas necessidades, crescentes e ilimitadas, da sociedade de consumo, inserida agora num contexto virtual da cibernética, ou mesmo o tempo das destruições das riquezas naturais, são exemplos das distorções trazidas ao tempo estatal, um tempo ultrapassado, caduco, como, por exemplo, o tempo nada razoável de um processo, ou mesmo a duração de um mandato presidencial e as exigências de uma burocracia.

Quantas vezes não nos pegamos imaginando que há algum tempo atrás, as coisas não pareciam ser tão rápidas quanto agora…

Einstein, ainda que não sozinho, revelou uma nova perspectiva do tempo para o ser humano. Essa relativização, por mais que soe atentatória e imprevisível, foi capaz de nos tornar mais humildes em relação à nossa ignorância. Não há tempo oficial, não há referencial absoluto. Alguns argumentarão que não há que se falar em humildade, partindo-se do fato de que tais estudos originaram bombas capazes de nos dizimar milhares de vezes, um poder quase divino. Mas não lembra essa força e mesmo seu significado abstrato, ainda que, porventura, inexistisse, que somos tão pequenos em relação ao universo?

Somos pequenos também em relação uns aos outros e por vezes nos esquecemos que a relatividade igualmente se dá no campo intersubjetivo. Gritamos, amamos, choramos, transamos, vivemos em nosso próprio tempo, que obviamente não é o tempo certeiro do próximo, daquele, desse ou de um qualquer.

Os apaixonados viverão a consumação de seu coração em velocidades que beiram à da luz, que Einstein precisou em aproximadamente 300.000 km/h. Outros, mais complacentes, observam a vida passar com a placidez que uma margem registra a fluidez do rio que lhe banha.

Eu me apequeno, respeitoso à relatividade das coisas, ciente que nada é absoluto e, por isso mesmo, capaz de dispender o dobro de esforço para alcançar as coisas que me atraem. Eu, em respeito à teoria da relatividade, a Einstein, a Boaventura, ao Universo e a todas às paixões, esperarei pacientemente a sua decisão.

3.9.10

ZtqM acadêmico

Orgulhosamente apresento o excelente trabalho da mestre Marilene Alencastro da Silva, cuja dissertação teve como tema: “A geração digital espelhada nos blogs: combinações e imagens”.

http://www.ppgeufsc.com.br/ferramentas/ferramentas/tese_di/313.pdf

Marilene, que defendeu a dissertação acima na Federal de Santa Catarina, faz um verdadeiro apanhado sobre como a internet e os blogs modificaram a vida dos jovens e quais consequências resultaram a partir daí, focando principalmente o impacto sócio-político que essas vozes isoladas causam na sociedade.

Tive a honra de ser um dos entrevistados que ajudaram a compor os estudos de Marilene, fornecendo detalhes sobre as motivações que me levaram a criar e a manter o Zaratustra tem que morrer, bem como sobre minha visão a respeito dos jovens atuais.

A autora achou por bem preservar a identidade dos blogueiros entrevistados, portanto, quem quiser conferir os trechos em que esse blog aparece, pesquise pela palavra “Vinicius”.

Aproveito para registrar aqui meus parabéns à mais nova mestre, cujo trabalho merece os mais proveitosos elogios.

29.8.10

O amor não vale um número de telefone

A primeira vez em que vi aquele número de telefone gravado no meu celular, uma dúvida me corroeu as certezas: que eco é esse? Um eco que parecia me transportar a lugares os quais já não lembrava mais ter visitado. Eu não pudera atender à chamada pois estava com amigos, comemorando o aniversário no final do dia, e quando percebi a ligação, era por demais tarde.

Aquele número não me era estranho, eu o conhecia de algum lugar, porém, de onde? Apesar da família extensa e dum número razoável de amizades, nem tantas pessoas haviam me ligado desde então, felicitando-me pelos 22 anos. Quem seria aquele número?

Quando essa pessoa retornou, mais tarde, estava em aula. Não observei o número, mas quando ouvi a voz dela, os fatos me vieram à mente como um raio. Era ela. Era ela que havia ligado.

Ela falava rapidamente, sem prender a respiração, como se tivesse calculado cada palavra. Eu silenciava, não por desídia, mas por absoluta falta de imaginação: o tempo em que vasculhava minha mente atrás de palavras para dizer algo não conferiam com o tempo que ela esperava por uma resposta. O silêncio entremeava minha lentidão e assim ela entendia que eu queria me expressar: ignorando-a.

Desejou-me felicidades, saúde, prosperidade. Eu não saberia dizer se aquilo era falso ou verdadeiro. Julguei ser verdadeiro, afinal de contas, ela é péssima tentando ser uma filha da puta.

Quando consegui achar as palavras, só me restou pedir que ela me ligasse posteriormente, ou que eu ligasse para ela, ou que nos falássemos de alguma maneira. Não seria possível, ela alegou, iria sair com amigas mais tarde.

Houve tempos em que demonizava essas amigas, para mim eram sempre a encarnação da lascívia e da luxúria que a tomavam de mim, que a carregavam para longe dos meus braços protetores. Infelizmente, o tempo tem o terrível efeito de nos fazer sentir pena de nós mesmos no passado, e é um tanto quanto cruel que nosso eu no futuro sempre e indubitavelmente dirá sobre o nosso eu de agora, “mas que ingênuo…”, como se ele, de alguma forma temporalmente absurda, não tivesse culpa nisso também.

Agora tanto me faz se ela sai com fulana ou com sicrano, o ponto em que quero chegar é que já não lembrava mais do número de telefone dela. Aquele eco perturbador nada mais era do que um grito vindo lá do passado, da época em que eu era ingênuo, tão ingênuo quanto sou hoje – e, no entanto, só acharei isso amanhã -, me escancarando uma verdade inconveniente, a qual custei a acreditar: acabou.

23.8.10

Distâncias

Eu sempre olhei aquela imagem com uma certa admiração. Ficava encostado no velho ipê que nunca florescia, já preparado, com a carabina ao ombro, o canivete ao bolso e meu pequeno chapéu de palha sobre a cabeça de cabelos os quais detestava pentear. Esperava-o. Vislumbrava aquele velho colocar suas pesadas botas de couro, sentado sob a soleira da porta, enquanto batia os calcanhares na terra poeirenta que tornava minha mãe histérica.

Em seguida ele conferia se tudo estava nos conformes e se não havíamos esquecido nada. Essa era uma indagação que me fazia rosnando mais de uma vez, talvez por desconfiança de que eu não seria capaz de fazer algo certo. Eu fazia, mas tinha a impressão de que sempre faltava algo, por quê?

Embrenhávamo-nos na mata seca como dois guarás de língua para fora, sedentos de ação. Lembro que amava pisar aquele chão batido, desviando dos galhos e folhas que pudessem estalar sob meus pés e denunciar nossa intrusa presença para o resto dos animais, coisa que ele jamais perdoaria de minha parte. Por isso eu me esmerava tanto em ser um bom aprendiz de caçador.

Eu o seguia onde ele ia. Seu instinto era meu deus, pois nele depositava minha fé infantil. Amava como ele parava, ouvia, cheirava, descobria rastros do animal que caçávamos. Adorava como ele tocava nas árvores e como sentia a terra em suas palmas, como se tivesse nascido diretamente dela.

Aquelas árvores sempre me foram estranhas, lembravam-me elefantes dependurados e esquecidos há milênios por algum gigante que aprontava diabruras naquelas matas. Elefantes ressequidos, que perderam suas generosas reservas de carne e gordura, mas que mantinham a casca grossa e intacta, como a barba daquele a quem seguia.

O cerrado era o mundo onde ele era meu deus, e me embrenhar naquelas paragens seguindo aquele a quem obedecia era meu êxtase. Ele andava com seu passo firme sempre à frente - e eu tinha mesmo que correr para alcançá-lo, mas jamais conseguia. A mata parecia se abrir perante seu temperamento, mas dificultava minha missão, teimosa.

Subitamente ele parou, fazia isso com um punho fechado em riste, sinal que eu devia identificar como “Pare e fique quieto”. Eu entendia tudo e obedecia calado. Comecei a olhar em volta, à procura do motivo que havia prendido sua atenção e após detida paciência, consegui avistar a jaguatirica que se camuflava entre os arbustos secos, comendo um veado de feições resignadas.

Era excepcionalmente linda e talvez até o mais orgulhoso dos leões invejasse aquela pelugem brilhante. Não era só eu que estava fascinado, meu acompanhante também a olhava com um brilho selvagem. Vi mesmo que ele lambia os beiços.

Deitamo-nos silenciosamente sobre a relva e carregamos as carabinas, prendendo a respiração para não prejudicar a pontaria. Ele estava um tanto quanto afastado de mim, melhor escondido atrás de uma pedra.

Ele mirou. Mas não atirou. Fiquei o observando alguns segundos, nos quais ele parecia meditar. Então olhou para mim, com um sorriso estranho, e me apontando dois dedos rígidos, guiou meu olhar para a jaguatirica. Ele queria que eu a matasse.

Me senti honrado e sem delongas apontei. A jaguatirica se deleitava com sua refeição e eu apenas teria que atirar. Eu devia atirar. Ele ficaria orgulhoso. Eu mirei, porém, não consegui. Por que mesmo eu deveria matar aquele animal? Para que ele serviria? Era um presente, um troféu, comida?

O nervosismo tomou conta de mim e, desatento, acabei batendo o pé trêmulo num galho estrepitante. A jaguatirica percebeu furiosa minha intrusão e teria fugido para preservar sua vida, não fosse o cheiro de medo que ela detectou no ar seco.

O cheiro do medo que significa mais carne para se saciar. Ao invés de fugir, o gato fez é correr em minha direção, para apanhar o desgraçado que ousava atrapalhar seu lanche. Esbugalhei os olhos, petrificado de pavor, não conseguia atirar, não conseguia correr. Só conseguia paralisar.

Mas eu sabia em meu íntimo que havia mais alguém presente, alguém invisível para a jaguatirica, porque predador tão exímio quanto ela. Sabia que a qualquer minuto o deus atiraria para matá-la, para subjugá-la, para me proteger. Mas ele demorava a atirar, o tempo passava e eu me encontrava mais e mais diante da morte. Eu quase perdi a fé.

Eu cheguei a vislumbrar aquelas presas enormes a poucos centímetros do meu rosto, quando um balaço certeiro e de ruído ensurdecedor jogou a jaguatirica a alguns metros longe de mim.

Levantando vitorioso detrás de seu esconderijo, o predador da carabina dirigiu-se até sua presa e, forte que era, a tomou pelos braços, erguendo-a orgulhoso acima dos ombros.

Voltamos à velha casa à beira do cerrado sem que ele tivesse me detido um olhar de preocupação. Eu, encabulado, seguia-o com meus passos rápidos, sem que no entanto conseguisse alcançá-lo, ele sempre estava à frente, inatingível.

Sentia inveja da jaguatirica, só não sabia dizer se do fato de ela estar em seus braços ou pelo fato de estar…

Aquele era meu pai.

28.7.10

O burro total

A Revista Istoé de 28 de Julho de 2010 traz em seu bojo reportagem intitulada “O herdeiro de Eike Batista”. A matéria aborda a vida e os planos de Thor Batista, 19 anos, filho do bilionário brasileiro, o “oitavo homem mais rico do mundo”, com Luma de Oliveira, a “eterna musa do Carnaval”.

Senti-me compelido a escrever sobre o garoto, um rapaz loiro, de sobrancelhas grossas e feições brutas.

Aparentemente, Thor é um bon-vivant, que divide seu tempo entre musculação constante, noitadas caras e uma faculdade de Economia no Ibmec. É fácil observar que vive à sombra do pai, um homem poderoso. Não por menos, o nome do garoto é inspirado num deus nórdico: Thor, deus do trovão, que possuía um poderoso martelo e só perdia em beleza e força para Odin, seu pai.

Em condições semelhantes, e que me fez despertar a justa atenção para a reportagem, está Bernardo Bertrand, personagem fictício do livro A imortalidade de Milan Kundera, escritor tcheco. Bernardo Bertrand era neto de Arthur Bertrand, deputado francês que, obcecado em ecoar sua vida e sua reputação pela eternidade, como aparentemente todo ser humano deseja, batizou seu filho, o pai de Bernardo, de Bertrand Bertrand. Um nome que não poderia deixar de ser indiferente a ninguém e que era, nas palavras de Kundera, “bonito como uma berceuse”.

Bertrand Bertrand, por sua vez, sob o fardo de possuir um nome dobrado, que o fazia carregar em igual proporção seu senso de responsabilidade perante os outros, instruiu-se a sempre fazer o bem pela humanidade. Não imaginava, contudo, que distinguir o bem do mal fosse tarefa tão árdua, pelo que, a despeito da repetição silábica de seu poderoso nome, tornava-o tão comum quanto qualquer homem, embora não se desse conta desse fato corriqueiro. É por isso que seu filho também teve de suportar uma sina, e veio a ser chamado Bernardo Bertrand, uma conjunção sonora tão bela que não foi surpresa o garoto ter acabado com um emprego numa emissora de rádio.

Na rádio, o papel de Bernardo era fazer entrevistas com celebridades. Numa crítica brilhante, Kundera demonstra o poder daquele que se dá ao luxo de perguntar, ao invés de ser aquele que tem de responder. Bernardo era aquele tipo de sujeito tão afeito com sua condição de superioridade, de ter sido criado numa família distinta, de se sentir mais responsável que a maioria para fazer valer sua reputação, que foi com profunda indignação que reagiu quando recebeu uma correspondência (diploma) anônima, mas obviamente remetida por um desafeto, com os dizeres: “Bernardo Bertrand é promovido a burro total”.

Indispensável ressaltar que essa ferida nunca sarou no pobre Bernardo. Tão convicto. Tão poderoso. Mas até um homem que está acima de todos tem de saber que alguém lá embaixo, entre as formigas, o tem por burro total.

A reportagem da Istoé traz o seguinte trecho:

“Tino para os negócios ele mostrou cedo. Na adolescência, aproveitava os dias de temporal para dar carona aos colegas da escola em seu guarda-chuva, cobrando R$ 1 por viagem do pátio à cantina. A história é contada entre sorrisos pela mãe. ‘Desde pequeno ele sabe fazer dinheiro’, diz Luma”.

Eu juro que nunca senti tanta pena de uma pessoa.

A despeito de sua mesada polpuda, de suas namoradas do quilate de Nicole Bahls e semelhantes, de possuir um helicóptero à disposição, de já ter sentado à mesma mesa de Lula, do sheik de Abu Dhabi e outras figuras poderosas, Thor, o deus à sombra do pai, nada mais é do que um rapaz assustado, acossado por um império que não lhe pertence mas que clama por sua futura responsabilidade. O nome de seu pai está grafado em seu DNA assim como no peso de seu futuro, que não vai embora depois da agitada vida noturna que consome os príncipes cariocas. Um garoto que é aplaudido por vender solidariedade a crianças, ainda que a R$ 1, não pode viver senão sob o signo da ganância, da indiferença. Thor, o deus menor, está fadado à burguesia mais nojenta que reside nos trópicos. A uma elite que brinca de cassino na bolsa de valores e presenteia suas crias com Porsches e Lamborghinis.

Criado em berço de ouro e ignorante quanto à realidade que o cerca, Thor provavelmente vive num mundo de fantasias. Um mundo surreal, onde tudo é possível. Uma matrix definida pela economia, que o blinda com seguranças, câmeras e cercas, e o encerra numa jaula de poucas possibilidades, onde se torna um raquítico, muito embora malhe todo dia. Um raquítico acorrentado, à espera do pai lhe passar a coroa. Um rei escravo.

O verdadeiro deus Thor, segundo reza a mitologia nórdica, será morto pela cobra Jormungand, filha de Loki, durante o Ragnarok (Apocalipse), que o enrolará sobre si e destilará seu veneno contra o filho do deus supremo. O Thor tupiniquim também tem seus dias contados, não sua preciosa vida, mas sim suas crenças limitadas, quando perceber que dentro de seu mundinho restrito, ele não passa de um burro total.

24.7.10

Vampiros verdadeiros

Devo avisar o leitor, de antemão, que pretendo falar sobre vampiros nesse texto. O alerta é recomendável, uma vez que é possível que todos já estejam saturados desse assunto. De fato, é só ligar a TV para ver inúmeras séries sobre vampiros. Nas livrarias, os livros dedicados a esses seres noturnos enfileiram-se orgulhosos nas prateleiras mais visíveis. É no cinema, contudo, que têm causado alarde, e é justamente de cinema que falarei aqui.

Saí do cinema nesta última sexta-feira um tanto quanto estupefato. Assistira a um filme sobre vampiros. Eclipse? Não, não ousaria gastar meu dinheiro com isso. Assisti a um filme chamado Sede de Sangue, do aclamado diretor sul-coreano Park Chan-wook (Oldboy, Lady Vingança…).

O filme fala a respeito de um padre coreano extremamente ético que, em uma atitude de penitência e voluntarismo, alista-se para ser cobaia num experimento que analisa os efeitos causados por um vírus no corpo humano. Sofrendo de hemorragia e sabendo que seus dias estavam contados, o padre passa por uma transfusão de sangue e acaba tendo injetado acidentalmente em seu corpo sangue de vampiro.

O que se segue a partir daí é uma quebra progressiva de todos os valores nos quais o padre acreditava. “Agora tenho sede de todos os pecados”, confessa o padre-vampiro a seu superior. O embate moral a que é submetido o lança numa espiral de sexo, violência, fetichismo, desejos e, como não poderia deixar de ser para um predador, morte.

O filme é de longe um dos mais fracos de Park. A edição é confusa e um pouco de concisão à montagem teria caído bem para o resultado final. No entando, do ponto de vista simbólico, a obra é rica, e não pude deixar de notar o contraponto em que há entre Sede de Sangue e Crepúsculo.

Crepúsculo nada mais é do que a platonização da ideia do vampiro, do sombrio. As trevas nos livros de Stephanie Meyer glamurizam-se por rostinhos esteticamente perfeitos e atitudes aristocráticas de seus seres que supostamente haveriam de ser monstros. Crepúsculo reflete a contemporaneidade em relação ao mito do vampiro: os vampiros cederam ao politicamente correto. Não caçam, não matam, não agridem, não almejam poder. São seres mutilados e reprimidos. Desprezam suas habilidades e a condenam como um fardo. Edward recusa o sexo com uma humana, pois aparentemente tem consciência. Romeu e Julieta não teriam sido mais piegas, muito embora Crepúsculo não passe de uma versão quixotesca da obra shakesperiana. Não por menos, a ideia que o livro e filme passam é a de que um casal de vampiros pode ser feliz eternamente.

Já Sede de Sangue inverte esse papel e resgata o sentido do mito do vampiro, de sua simbologia mais sorumbática. A iniciar pelo fato de ser um filme oriental, contrapondo-se ao conjunto de valores ocidentais de castidade presentes na obra americana. Sede de Sangue traz uma protagonista doentia, desvirtuada, que brinca de matar o marido enquanto este dorme e não se exime de transar com um padre, enquanto tenta se convencer de que não é tímida. Muito diferente da menininha sem sal de Crepúsculo, que virginalmente não se decide entre um vampiro e um lobisomem.

O padre de Sede de Sangue, por sua vez, a despeito de seu desespero e dúvida entre respeitar a fé da Santa Sé e seguir seu instinto animal recém-adquirido (ou recém-acordado?), não titubeia quando tem de se alimentar: vai se virando como pode, roubando sangue de pessoas em coma, de suicidas, até que não resiste e… mata.

O realismo da obra coreana é como uma mão podre e descarnada que puxa o romantismo de Crepúsculo para baixo, para que a necessidade do pensamento ocidental de estabelecer padrões de comportamento e ideais longínquos como castidade, respeito, amor impossível, entre outros, nunca mais invadam o covil de um dos seres mais demoníacos que existe no imaginário humano, o vampiro.

Há uma diferença brutal entre os beijos não dados no folhetim americano e entre o filme coreano, onde o casal apaixonado, visceralmente, usa e abusa de suas línguas, lambendo pés, mãos, feridas, sangue e, inclusive, axilas. O corpo é a âncora do realismo do verdadeiro vampiro. Ele vive pelo corpo, pelo prazer, pela sede. Por sua vez, no romantismo vampiresco de Meyer, os vampiros se acham superiores demais para violar uma humana sonsa. Os vampiros apaixonados de Crepúsculo vivem eternamente se amando, numa reedição do impossível. O casal de Sede de Sangue, diante do fato de que terão de viver um ao lado do outro pela eternidade, passa a se agredir mutuamente, a se odiar, a se sabotar. Alguém tem dúvida de qual cenário se tornaria realidade no caso de imortais se amarem?

Fiquei estupefato, é verdade. Mas não com as condições doentias e insanas a que os personagens de Sede de Sangue são submetidos. Muitos foram os descontentes que saíram do cinema, acusando o filme de antiestético e de mau-gosto. Não, eu não ligo para o visceral. O que me deixou surpreso, em verdade, foi que me descobri um defensor ferrenho de Sede de Sangue, de sua brutalidade, de suas conjunções carnais, de sua escatologia.

Prefiro mil vezes a baixeza do instinto humano ao elevado senso de racionalismo que julga poder controlar nossas mentes, e que tem falhado sistematicamente nessa tarefa. A razão não é tudo!

E você, de que lado está?

9.6.10

Dois dons

Eu tenho dois dons. Um deles é escrever, o outro, ajudar as pessoas. Não quero me gabar, apenas digo isso para exaltar que se há uma ou duas coisas em que eu posso ser útil nesse mundo é escrevendo e ajudando pessoas.

Ajudar pessoas é algo que está no meu DNA, tendo em vista que sou filho de psicólogos. Escrever, no entanto, é algo que desenvolvi sozinho, independente de aulas de redação ou outro ensinamento qualquer. É um dom nato.

Gosto de lidar com os problemas alheios. Nada me recompensa mais do que a satisfação de saber que ajudei um ser humano. Sou altruísta por convicção e por não conseguir imaginar que seja possível viver ignorando as dificuldades que cercam aqueles que amo e aqueles que me chamam a atenção.

Escrever, contudo, não me traz prazer certeiro. Escrever implica em sentir dor ou mesmo um prazer doentio. Quando escrevo, esqueço o mundo. Ao terminar um texto, dou-me conta de que muitas horas passaram, não comi nada, não tomei nada, mal respirei. Escrever é como arrancar um câncer de mim. Benigno ou maligno. O objetivo direto da minha escrita é extirpar das minhas entranhas as percepções mais sinceras e mais controvertidas que possuo sobre a humanidade, sobre meus pares. Escrever para mim é esbofetear rostos, pois não aprecio a acomodação.

De um dom ou outro, portanto, nada sobra para mim. Meus dons me fazem um servo das pessoas e não reclamo disso. No entanto, não posso ignorar minha própria existência e meus próprios desejos. É possível ajudar os outros enquanto o próprio altruísta está se despedaçando ou não suporta mais o mundo em suas costas?

No filme Violação de Privacidade, estrelado por Robin Willians e Jim Caviezel, que trata de um futuro onde os humanos tem uma espécie de câmera instalada no cérebro desde crianças, que registra todas as visões da pessoa e, quando esta morre, são editadas por um editor (Robin Willians) para que sejam exibidas no funeral, por exemplo, ou que se faça um filme, como uma dessas gravações de parto, há uma cena que muito admiro. Robin Willians e Jim Caviezel se encontram e este interpela aquele a respeito de seus atos. A responsabilidade de se exaltar o indivíduo e de esconder os erros deste durante sua vida cabe ao editor, o que motivava a revolta de Caviezel. O personagem de Willians acredita, não sem uma leve entonação de frustração em sua voz e seus olhos, que é um “devorador de pecados” (sin eater), alguém que lava os mortos de seus vícios e os toma para si. Um grande fardo, que o torna desprezível para o resto da sociedade.

A cena em questão ilustra bem o ponto abordado. Aquele que ajuda se sacrifica, esquece-se: some em meio a um espectro de dor, um mar negro cujo único navio permitido a singrá-lo é daquele que o enfrenta impiedosamente, de um capitão que, dentro de sua cabine iluminada, sabe quais ondas superar.

Isso não é possível eternamente. O capitão não pode esquecer de seus deveres para consigo mesmo.

Aquele que devora pecados tem de estar preparado para adoecer. Chagas inúmeras surgirão em seu corpo, reflexo da exaustão a que é levado pelos combates que assume. Os pecados alheios não morrem com o pecador, eles se apossam do devorador, e o vitimam cruelmente.

Houve quem amaldiçoasse meus dons. Houve portos em que atraquei por amor, sedento de sentir algo por mim, e não pelos outros. Essas paragens me traíram, cuspiram em minha face. Nomearam “medíocre” minha escrita e “sem brilho” meu altruísmo. Hoje, quando navego em mares longínquos, lembro com desdém desse amor deformado, e regozijo-me de explorar outros horizontes, principalmente quando ouço notícias que não me despertam outra coisa senão nojo por quem um dia ousei amar.

Sei dos meus dons e do papel que tenho de desempenhar nesse planeta. Sei que existo e que não posso sumir em meio a essa missão. Sei dos meus limites e sei do gosto que tenho por essa empreitada. Escreverei e ajudarei com paixão. Sei o suficiente para começar meus passos, mas quero saber muito mais.

Não falharei, prometo.

7.6.10

Clara Crocodilo se foi

O feriado de Corpus Christi me trouxe de companhia dois velhos amigos que ficariam alguns dias em Londrina para o encontro de estudantes de Ciências Sociais da região Sul. Hospedei-os, por mais que meu apartamento mal me comporte.

Vejo-os poucas vezes no ano, um mora em Curitiba, o outro em São Paulo. Com sorte, consigo vê-los no interior paulista, de onde venho. Lá tínhamos nossa turma, um amontoado de trinta pessoas que eram conhecidas como “nuvem negra”, em decorrência do fato que quase sempre usávamos roupa preta. Foram tempos bons, ainda que pareçam ingênuos.

Desses trinta, eu realmente só tenho amizade com três. Dois deles são os que vieram para cá.

Acompanhava-me já há algum tempo um vinil do Arrigo Barnabé e sua extinta banda Sabor de Veneno, Clara Crocodilo, emprestado de um desses amigos. Para quem não sabe, Arrigo Barnabé é um artista londrinense muito cultuado, que fez sua carreira em sampa, e que, musicalmente, é uma das únicas coisas experimentais desse país tão monótono.

Não sei precisar quanto tempo esse vinil ficou comigo, mais de ano, provavelmente. Muitos podem pensar que é falta de educação pegar algo emprestado durante tanto tempo. Esse amigo, porém, manteve para si meu Apanhador no Campo de Centeio durante bons três anos. Mas não é vingança o que motivou eu manter a bolacha entre meus vinis durante tanto tempo.

Aquele vinil significava mais para mim. Era uma maneira de retornar a lugares aos quais não pertenço mais, a uma adolescência cheia de vivências, de experiências, ao seio de uma turma que me acolheu independentemente de todos os meus trejeitos. Aquele vinil era uma forma de nunca esquecer o que fui e de sempre lembrar para onde correr, quando as coisas apertassem.

Mas Clara Crocodilo se foi. E junto dele (sim, porque Clara era um office boy), algumas idealizações também partiram. Tive de devolver o vinil ao amigo saudoso do dodecafonismo de Arrigo. Obviamente eu não diria a ele tudo o que o vinil significa, pois sei que ele fica mais feliz em posse do disco. Uma vez ele me disse que tem uma relação quase erótica com seus discos. Prefiro não entender isso.

Vejo nos dois amigos frustrações semelhantes às minhas. Querem explorar um mundo novo que se desenha à frente de suas vidas, com oportunidades infinitas, mas ao mesmo tempo não conseguem soltar a mão do passado, pois sabem que devem respeito aquilo que viveram, e sabem que nesse mesmo mundo cheio de oportunidades, dificilmente encontrarão sinceridade e amor que encontravam naquela turma, ainda que seja a turma restrita a quatro pessoas realmente comprometidas com uma amizade.

A ideia machadiana de atar as pontas do passado e presente, que Bentinho perseguia doentemente, talvez se revele cristalina aqui. Um dos lados tem de ceder, infelizmente. E quase sempre é o passado que fica para trás, coisa natural.

Enquanto postergamos essa decisão, vamos vivendo de ideais, crentes de que os laços jamais desatarão, que as amizades sempre se fortalecerão e que a vida jamais imporá condições cruéis à concretização de nossos sonhos. Vivemos esses ideais por medo ou por esperança, com vinis ou livros guardados num canto confortável, somente esperando um momento para que sejam apreciados, para que façam florescer as melhores memórias. Por isso e por muito mais, sentirei saudades de você, Clara Crocodilo.

Adeus, Clara.

17.5.10

A incompreensão

A incompreensão é, provavelmente, a arma mais letal existente no planeta Terra.

Esse planetinha azul tão perdido no Universo, que possui em sua superfície uma forma de vida intrigante, os louváveis humanos. É de se imaginar que fossem capazes de se entenderem, de se amarem, de se compreenderem, haja vista seu grau de inteligência.

Mas não somos.

E não somos em decorrência de nossas imperfeições, em virtude dessa maldição chamada comunicação. O ser humano precisa se comunicar, tendo em vista ser um animal gregário, mas o faz com tanta imperfeição que só consegue colher destruição, amargor, corrupção, tristeza e ódio de suas tentativas de se fazer ouvir.

Se cientes do que transmitem, ou cautelosos em conhecer de uma expressão, jamais haveria dor.

A incompreensão reside, no entanto, no descompasso entre aquilo que dizemos, aquilo que queremos dizer, aquilo que escutamos e aquilo que interpretamos.

Nessa confusão reside ainda nosso inseparável egoísmo que manipula esse mundo de informação da maneira que bem desejar.

Algumas pessoas não se sintonizam numa frequência capaz de captar os anseios da outra. Oh, isso é tão comum em relacionamentos…

A incompreensão me desencoraja a tentar novos diálogos. Os pontos de interrogação que pairam sobre a cabeça das pessoas são, no mínimo, frustrantes para alguém que gosta de ser compreendido de primeira.

Imaginem quantas guerras, quantas dores, quantos mal-entendidos, quantos corações partidos não teriam sido evitados se as pessoas fossem apenas um pouco mais sinceras em fazer conhecer suas intenções, seus anseios?

Não há olhos, ouvidos e bocas suficientes nesse mundo que me façam crer na palavra como salvação. Ou eu estaria sendo paradoxal?

Talvez minhas palavras só não tenham encontrado os ouvidos certos ainda.

Até lá grito em busca de resposta, um som mudo mutilado pela incompreensão, arma fatal.

25.4.10

Essência

Acho engraçado, muito embora seja aquele riso forçado, como algumas pessoas não sabem se compreender. Por mais que o “Conheça-te a ti mesmo” socrático tenha mais de dois milênios de existência, as pessoas ainda teimam em ignorar seus próprios sinais, seus próprios alertas, surdas que são aos seus anseios mais profundos.

É importante que o indivíduo estabeleça uma relação de essencialidade entre si e a natureza. Um homem que não se compreende como membro de um ambiente vasto, do qual não passa de um ponto desprezível, não sabe se compreender, e vive sua vida em superficialidade, como um cão que corre atrás do próprio rabo.

A essência da natureza reside em seus componentes mais básicos, os elementos, os animais, a vegetação: um espírito próprio moto-contínuo, ao qual os cristãos chamam Deus, os muçulmanos Alá e por aí vai. Estar em sintonia com esse cenário, e fujo aqui de qualquer ideia ambientalista eco-chata, é estar bem consigo mesmo.

Compreendendo-me, sempre admirei os leões e o fogo, em particular.

A graça destes felinos é insuperável, sua interdependência como bando, onde cada um sabe sua função e todos tomam conta um do outro, é o segredo de seu sucesso como predadores. Rei da floresta, é a legenda da imponência, da violência, o que não o deixa menos belo. Um leão é como Deus e o diabo no mesmo ser, reflexo da verdade em si, posto que temos uma ideia estúpida de associar a imagem de “Deus” ao maniqueísmo “bem/mal”. Mesmo tendo por objetivo matar Zaratustra, ao menos este sabia há muito tempo que Deus está além do bem e do mal.

Já o fogo surpreende por sua imaterialidade. Tido por uns como agente da destruição, prefiro encará-lo como poder de renovação. O fogo destroi, para que algo novo surja em seguida. Assim o é no cerrado. É premente: sem ele não teríamos a possibilidade de iluminar as trevas, de nos aquecermos, de nos confortarmos. Mesmo assim, à semelhança dos altruístas que trazem inúmeros bens para o mundo, sacrificando-se em prol do progresso, da evolução, o fogo guarda seus perigos, e aproximar-se dele significa queimar-se, magoar-se. Aproximar-se do altruísta significa estar ao lado de alguém que sempre vai queimar os mais próximos… em prol daqueles que necessitam de ajuda.

Não à toa, muito embora me identifique com esses elementos citados, é na água que sinto-me livre. E foi com um leão destituído de seu trono que compreendi a tristeza da vida.

Eu não tinha mais que oito anos, um rapazote. Em minha cidade natal havia um bosque, com um zoológico modesto,  mas que possuía animais altivos em cativeiro. Excitava-me sobretudo o rugido do leão, que eu ouvia desde longe, ainda na entrada do bosque. A possibilidade de me deparar com aquele animal era extasiante, tamanho meu fascínio pelos leões. Começava meu itinerário sempre pelos símios, todos tão sem-graça, para que o último animal a ser visto fosse o felino, assim a expectativa cresceria, o que parece razoável para uma criança de oito anos.

A jaula do leão, contudo, era muito pequena. E aquele animal já aparentava sinais de idade avançada. Era magro, cabisbaixo, enrugado, com as costelas todas à mostra sob a pelugem escassa. Andava agitado em certos momentos, como que num desespero perpétuo, mas, subitamente, estancava, e ficava parado, resignado com a ideia de que nunca sairia daquelas grades. Sua falta de ânimo era gritante, e as crianças ao meu redor zombavam dele. Chamavam-no feio, velho, tedioso. “Faz alguma coisa, animal idiota”, disse um. Eu, parado como ele, cabisbaixo como ele, triste como ele, ouvia em silêncio. E me entristecia.

O leão da jaula de minha cidade sempre foi um fantasma para mim. Um aviso sombrio de que feras também adoecem, também falecem. Rei morto, rei posto, diz o ditado. Nunca foi fácil para mim perder. Mas eu tento aprender, paulatinamente, que há coisas das quais temos que abrir mão.

Esse leão preso impregnou-se em mim de tal maneira que durante muito cresci sob o signo das grades. Infelizmente, temo dizer que cresci preso em mim mesmo, quando poderia ter voado tão mais alto…

Foi a água, repito, que me apresentou a liberdade.

Por mais que sentisse-me preso nesta carcaça que é meu corpo, sempre tímido perante os olhos do mundo, sempre de joelhos perante o julgamento dos leões mais fortes, dos elefantes mais sábios, das girafas mais esbeltas, respirando o ar livre com a sofreguidão de quem se encontra preso numa caixa apertada, na água sinto-me liberto, capaz de jogar por terra grilhões invisíveis, que só existem na minha cabeça. A natação me ajuda a esquecer inúmeros problemas. Na natação, minha única preocupação é chegar ao outro lado da piscina.

A água é paz para quem sempre teve o fardo de queimar aqueles que estavam ao redor.

À minha essência, pois, agradeço. Conhecer a mim mesmo pode não ter me trazido felicidade instantânea, mas não há alegria maior do que olhar ao redor do mundo e estar feliz com o ar que respiro sadio e com a pessoa que eu sou, alguém capaz de correr livre, de atacar, de defender e de rugir tão alto quanto todos possam ouvir, como um leão sem grades.

18.4.10

Desejo

eva

Homens sábios não titubeiam ao andar na selva. Eu não sou um homem sábio, razão pela qual chamei a atenção daquela cobra desnecessariamente.

Não é um animal de grandes feitos. Uma cobra é apenas um réptil com algumas propriedades interessantes de defesa. É ágil, escorregadia, forte, venenosa. As metáforas que a envolvem são tão múltiplas quanto suas diabruras.

Eu não devia ter pisado naquele galho seco, mas pisei. Há quem diga que é de propósito que cometemos os maiores erros. As maiores cagadas. Perdão por falar cagada, eu não sou um homem sábio.

O crepúsculo descia lento e opressivo sobre o dia quente e cansativo, descortinando atrás de si uma onda negra de mistérios insolúveis, a noite.

Eu atravessava cautelosamente a selva. A cobra passaria por mim sem maiores delongas, a fim de procurar por seus ratinhos, jantar costumeiro. Ainda assim, jamais saberemos o motivo, pisei no galho seco.

Engraçado como, mesmo estando sob o gozo de nossa lúcida razão, paralisamos de medo perante o incomum. Não há reação suficiente no mundo para evitar um ataque certeiro da víbora.

Foi assim que ela me deu o bote, investida fatal. Senti a dor, a queimação, a vergonha daquele veneno. Após alguns segundos, até que me senti confortável. Mas, assim como não há reação suficiente ante o desconhecido, não há conforto o bastante para espantar nossas agruras, teimosas em seus desígnios.

Deve ser por eu não ser sábio que ela, além de tudo, resolver enrolar-se em volta do meu corpo quente e esmagar-me, num massacre que cheira à lei da natureza. Cheiro acre de morte.

Eu definitivamente não sou um homem sábio.

11.4.10

Tudo para você, Sophia

Dia desses sonhei com Sophia. Poucos sabem, mas Sophia é um sonho antigo meu, o que merece uma explicação mais acalentada de minha parte.

Antes, diferenciar um sonho doutro. O sonho “antigo” é o sonho acordado, é um objetivo, um alvo. O sonho que tive num certo “dia” foi sonho de sono mesmo, brincadeiras da mente.

Sophia é tanto um sonho quanto outro. Esclareço: há já alguns anos tenho por mim que um dos objetivos da minha vida é ter uma filha, Sophia. “Mas que nome clichê”, dirão, o que não me surpreenderia. Sophia é seu nome e o porquê disso exige um pouco de entendimento religioso e grego, que não etimológico, mas uma compreensão filosófica acerca da Sabedoria e de misticismos gnósticos. Papo que não cumpre lograr por ora.

Vejam bem, Sophia é apenas um “projeto”, um sonho que trago em mim, e de tão forte minha crença nela, tive o prazer de sonhar com a pimpolha enquanto estive de viagem semanas atrás.

No sonho, podia ver a mim mesmo – o que é raro nos meus sonhos – cuidando de minha futura filha. Ela ainda era bebê, coisa de meses, e brincávamos juntos. Eu a pegava no colo, a levantava no ar, ria de suas coxas gordinhas, me deleitava com suas gargalhadas e as fofas bochechas. Eu estava feliz.

Acordei em êxtase. Há tempos não me sentia tão bem ao despertar, e o fazia rindo. Meu corpo estava relaxado e por poucos instantes senti uma calma esperança de que tudo daria certo no mundo. Minha filha existiria. Existirá.

Entristece-me o pensamento relativamente majoritário dos dias atuais de que não devemos procriar, para que se evite incluir mais pessoas entre as “desgraças” com as quais já convivemos. Argumentam tais pessoas que não vale a pena inserir um ser humano num mundo tão cheio de desigualdes, violência, poluição, pobreza. Discordo sinceramente desse pensamento. De que outra maneira posso salvar o mundo futuro senão gerando e educando minha prole e passando adiante meus valores mais honrosos? Eu não posso me omitir.

Não me preocupo com quem seja sua mãe, que gerará, ao meu lado, nossa pequena mocinha. Certamente será alguém que amarei. Não me preocupo em que mundo nascerá minha filha. Ela terá de suplantá-lo. Não me preocupo com os perigos que nos cercarão. Eu a ajudarei a dar cabo deles.

A minha única preocupação é nunca trazer à vida esta bênção de Deus. Uma bênção chamada Sophia.

26.3.10

Dezenove

Seus olhos se altercavam impacientes. Sabia que deveria chegar ao local antes das dezenove, mas o tempo lhe contrapunha as vontades, avançando vigorosamente. Estava parado perante uma viela que se estendia infinitamente e é isso que seus olhos ávidos examinavam.

Gotas de chuva lhe embaralhavam a visão vez ou outra enquanto enxergava a entrada fétida do beco fumegante, incrustado entre duas construções sóbrias de tijolos nus, invisível aos guarda-chuvas escuros como a noite que se aproximavam ao redor e que de lá vinham e que de cá iam, num movimento infinito, que assomava o homem e o tornava ainda mais impaciente.

A viela era um atalho, e para onde tinha de ir, ali era o meio mais rápido de se seguir.

Molhado e convicto, decidiu prosseguir, embrenhar-se naquele corredor escuro e úmido de desdobramentos misteriosos, onde ninguém em vida parecia ter pisado. Nenhum dos transeuntes apressados notava o local. Ele vacilou por um instante, decidindo encarar o atalho.

Uma mão, contudo, o detém. Mão descarnada, de dedos exageradamente compridos e unhas de esmalte descascado. O olhar dele segue o braço que se sobrepõe à mão, e depois o corpo que se oculta sobre o braço: é uma loira de feições traiçoeiras, de cabelo ensebado e olhar assustado. Assim como ele, não tinha guarda-chuva, e não parecia incomodar-se com a garoa que lhe varria a maquiagem. Com o braço que não se aferroava ao pulso dele, ela segurava uma bolsa surrada como se tivesse um filhote sob as asas para proteger.

“Não vai por aí, não, senhor. Tem um doido aí, ele tentou me roubar, veio para cima de mim, vai saber o que queria, eu tive medo, não sei se ele está armado. Tinha cara de louco. Não vai, não”, preconizava, a boca trêmula.

E soltou-lhe o braço, dando-se conta de que o segurava.

O homem encarou-a confuso, incapaz de formular uma resposta, hesitando sobre como juntar adequadamente as sílabas. Virou-se para prosseguir em direção ao desconhecido, mas volveu para tentar se comunicar, ao menos se desculpar. Sem sucesso. Virou-se, pois, novamente, e entrou na viela, sibilando um ok entre os dentes amarelos que mal se abriam e deixando a loira para trás.

Era mais escuro do que imaginava. As gotas de chuva que lhe estapeavam a face pareciam mais densas em comparação as que caíam lá fora e acreditava piamente que se se olhasse no espelho naquele momento, ver-se-ia coberto de piche e não de água.

Caminhou alguns passos com dificuldade, tendo por norte que, ao menos daquela maneira, chegaria antes das dezenove. Parecia ter de reaprender a andar, uma perna atrás da outra, numa cadência corajosa, coordenada.

Vagava por aquele beco sorumbático com seus olhos arregalados, imbuído de uma tensão que lhe possuía profanamente o corpo. Enquanto caminhava, cerrava os pulsos com força, receoso de que algo o atacasse a qualquer momento.

Ao pisar no chão pegajoso, ouvia barulho de vidro moído, e ao longe, um gato gemia de horror. Sombras aqui e acolá projetavam-se ameaçadoras, só desvencilhando-se de seu caminho quando as gotas negras de água retumbavam nas hastes de metal que brotavam ameaçadoras do chão e das paredes, vigas provavelmente abandonadas de uma construção infrutífera.

Certa hora, decidiu olhar para trás e nada mais viu, o mundo decidira fechar-se atrás de si, e não notava mais sinal de guarda-chuvas trombando apressados nem da mulher desesperada. Lembrava-se ainda de seu olhar suplicante. Talvez aquela coitada tivesse visto o próprio diabo. Ela ao menos tinha onde se segurar, pensou, lembrando-se da bolsa. Ele tinha as mãos nuas. Cobertas de piche.

Elevando seu olhar, tinha a certeza de estar sendo vigiado. Janelas que nunca se abriam pareciam esconder olhares de corujas e outros seres vigilantes que espreitavam para ver o final daquela criatura que tinha pressa em chegar ao outro lado daquela passagem. Tinha pressa para chegar antes das dezenove.

Talvez devesse ter se atrasado. Talvez devesse ter dado ouvidos àquela louca. Mas era tarde demais, só havia um caminho de ida e um de volta, mas não saberia retornar. Suas pernas desobedeciam.

Outro barulho de vidro moído, então, penetrou-lhe o ouvido.

Não ousou virar a cabeça. Ao se movimentar, notava que seu algoz também o fazia, seguindo-o. Sempre sutil, sempre envolto pelas sombras, sempre oculto. Um bafo de morte lhe veio às narinas.

A adrenalina tomou-lhe o corpo. Suas pernas tremiam, as mãos gotejavam. Não sentia seu ventre. O coração explodia dentro de si. Suas unhas já encravavam-se em sua palma.

Começou a caminhar mais e mais rápido, movido pela íntima esperança de que o outro lado daquela viela logo surgiria. Seu perseguidor havia abandonado a timidez de seus passos maliciosos e passara a imprimir uma marcha pesada atrás daquele estrangeiro. Desesperado, agora ouvia claramente os passos ensurdecedores daquele que viria a lhe tomar o corpo, a lhe machucar, quiçá matá-lo, e levar consigo tudo o que ele possuía.

Enquanto corria, julgava ver em cantos escuros meia dúzia de seres abjetos que lhe riam a desgraça e incitavam o monstro a alcançá-lo. Suas pernas pareciam querer tropeçar. Era uma presa agora. Quando deveria ceder?

Súbito, enxergou um movimento adiante. E outro. Eram veículos cruzando a rua, logo mais. O mundo exterior já escurecera, o que, ainda assim, o tornava mais claro do que o lugar em que estava. A noite tranquila o esperava logo ali.

Estaria a salvo.

Entretanto, quis olhar um pouco para trás, para ter certeza de que tinha passado por tudo aquilo, para saber que tinha se livrado de uma violência que o assolava pelas minúcias de seu cotidiano aparentemente pacato, uma vida a qual todos julgavam segura, mas que momento após momento escondia uma sombra de desespero que tornava o mais paciente dos cidadãos em uma presa acuada, temerosa. Estava cheio de tensão e cansado de viver refém do medo. Estava cansado de sentir as pernas trêmulas e o coração agitado toda vez que se aproximava de alguém que aparentava perigo. Quem sabe ao menos se visse a cara do sujeito que lhe perseguia, não poderia dar um basta nisso tudo?

Olhou uma última vez para a luz que se aproximava, para as buzinas tão ternas que já embalavam seus ouvidos, para as luzes dos postes que mais pareciam guardiães, para os transeuntes que se assemelhavam a irmãos. Estacou e virou-se lentamente para encarar aqueles passos pesados e aquela respiração ruidosa da besta que o perseguia…

Ali perto, ninguém notava aquela viela escura. Eram dezenove horas.

7.3.10

Ainda um Errado

Um cabeludo impulsivo. Nunca imaginei que fosse um sujeito assim que mudaria minha concepção sobre o Direito.

Não sei se anuncio novidade, mas eu curso Direito na Estadual de Londrina já há quatro anos. Quem acompanha o blog há algum tempo sabe da minha relação conflituosa com as leis e a Justiça em geral. Já cheguei a publicar texto descendo a lenha em coisas que eu considerava inconcebíveis, como a personalidade da maioria dos alunos, a didática dos professores e a atuação dos ministros do STF, por exemplo.

Os últimos tempos, contudo, revelavaram uma faceta desconhecida desse mundo que eu quase vim a abandonar.

O cabeludo impulsivo a que me refiro é apenas uma ponta de muitas surpresas que me abriram os olhos e me animaram o espírito para seguir nesse caminho de conhecimento e futuramente de profissão. O cabeludo, que em verdade só me remete há tempos longínquos, quando eu também era um cabeludo impulsivo, não é ninguém mais que Jerry Kellerman.

jerry kellerman “Do you wanna hit a lawyer, hein?!”

Jerry Kellerman é o protagonista do seriado Raising the Bar (AXN, toda sexta, 22h), uma série exibida na TNT norte-americana que retrata o cotidiano forense de uma turma de amigos que se formaram juntos, mas que atuam em lados opostos da Justiça, uns como defensores públicos, outros como promotores de justiça.

Como mencionei, quase desisti do curso. Não era possível que não houvesse debate numa sala de aula de Direito. Não entrava na minha cabeça que a decoreba ainda existisse no mundo. Eu não aceitava essa ideia grotesca de que o estudante de Direito obrigatoriamente tinha de ser um playboy que ouve sertanejo e que passa mais tempo na academia ou pensando na balada do final de semana do que discutindo os problemas que nos cercam (isso se aplica às patricinhas também).

Mas o tempo passou. Tive paciência e teimei. Olhando mais atentamente a dinâmica do curso, notei que essa imagem que me saltava aos olhos era falsa. Os playboys existem, mas só estão em evidência pois requerem sempre a atenção para si. Uma vez calados, há uma infinidade de pessoas diferentes e interessantes para se conhecer. Pessoas dispostas a fazer algo pelo mundo, por mais que isso soe utópico.

Jerry Kellerman é um exemplo do que podem vir a se tornar essas pessoas. Avesso a ternos bem alinhados, sempre acompanhado de sua bolsa surrada, descabelado e inconsequente, Kellerman não hesita em falar o que pensa, em atingir o que almeja. Não repete frases prontas, não quer sair na coluna social, não desiste de lutar pelos seus clientes. Enquanto assistia a série, lembrei de um estágio que fazia num lugar chamado Promotoria de Justiça das Comunidades, que atendia pessoas pobres prestando assessoria jurídica na área cível. A relação de comprometimento que Kellerman e os outros personagens que atuam na defensoria criavam com as pessoas que precisavam dele me reavivaram a boa sensação que dava ajudar alguém que estava desesperado.

Choros, risos, súplicas, agradecimentos, confiança, descontentamento. Cada cliente atendido era um novo universo, uma nova história, um novo problema a ser solucionado. Dediquei-me a eles, embora o tenha feito por pouco tempo, haja vista que esse programa de atendimento foi extinto em Londrina (vejam só que consideração as autoridades dispensam aos mais pobres).

Vi-me em Kellerman, alguém que luta até o final. Alguém que colhe um “obrigado” de um cliente como a retribuição de todo o suor e dedicação despendidos. Muitas pessoas, mais que auxílio na Justiça, só queriam alguém para ouvir seus problemas.

Kellerman, os estágios - onde pude lidar de modo real com os problemas - e muitas outras pessoas diferentes do curso me ajudaram a reencarar o Direito, a enxergar sua real beleza. A beleza está em trilhar um caminho sinuoso, mas completamente diferente daqueles já massivamente trilhados. Cada pessoa que possui voz própria e pensamentos distintos me cativa e me faz ter orgulho de vir a ser um profissional dessa área um dia.

Há tempos queria escrever esse texto. Sei que, como eu, há várias pessoas espalhadas pelas salas de Direito desse Brasil. Sofrem caladas, vendo ao redor pessoas com mentalidade de ensino médio*, mais interessadas no próprio umbigo do que em fazer algo de útil pela sociedade.

A todos os diferentes, dedico esse texto e os parabenizo caso consigam seguir em frente e atingir seus objetivos. Nunca desistam!

E se quiser assistir Raising the Bar, clique aqui.

27.2.10

Minha escrita pesa uma tonelada

Terminei recentemente um conto sobre a história de três pacatos jovens que retornam de uma – eu realmente detesto essa palavra - “balada”, e passam na casa da garota da turma (os outros dois são homens) para descansar.

Eu escrevi o texto em um momento de raiva. Escrever é uma ótima forma de se expressar. Se você, leitor, nunca tentou, passe a cultivar esse hábito. É aliviante. Obviamente eu ainda não o publiquei. O insight pode vir dessa tensão toda, mas a técnica há de ser trabalhada, as frases reescritas, os pontos adicionados. Qualquer dia ele aparece por estas bandas.

Acontece que a história assume contornos nada agradáveis aos olhos estetas da nossa juventude colorida. É um conto pesado, realista, denso, visceral. A minha escrita pesa uma tonelada. Na melhor influência de Rubem Fonseca, Milan Kundera, Dostoiévski, entre outros.

Já adianto este detalhe pois, relendo meus últimos textos, tenho percebido muita violência, sexo, mortes e outras agruras.

“Mas por que você não escreve coisas mais leves, Victor?”, perguntariam as moçoilas fãs de Crepúsculo, açodadas em seu mundinho de classe-média romantizada.

Simples. Se quer ler coisas bonitinhas e engraçadinhas, basta achar um dos milhares de blogs que existem no Brasil destinados a essa finalidade. Blogs com historinhas sobre amor, solidão, paixão, baladas, continhos policiais mergulhados numa infinidade de clichês insuportáveis. Geralmente se tratam de a) garotos com alguma habilidade para a escrita e que a usam para conquistar meninas ou; b) meninas que só sabem escrever quando estão sofrendo, o que é patético.

“Credo, Victor, mas sua vida é assim tão ruim para escrever essas coisas?”. Não, lógico que não. Ninguém precisa vivenciar para escrever, basta ter imaginação. A vivência é um passo além e, confesso, acho injusto livros autobiográficos. Sempre são considerados geniais. Cristovão Tezza que o diga. Eu sou normal, eu acho… Sou universitário. Faço estágio e detesto estudar como muitos. Gosto de sair e beber. Rock, heavy metal, música clássica e música eletrônica são minhas predileções. Mas alguns ainda teimam em achar que eu sou um alienígena que mora numa toca e é insensível ao contato humano.

Bem, aparentemente, imaginação todos têm. Uns para o kitsch, outros para o horrendo. Se estiver acostumado com a dor, leitor, aqui é seu lugar. Sofra e cresça, assim como cansa de ensinar a vida.

20.2.10

Desvirtudes (parte III – final)

cadeira diretor

Confira também:

Parte I / Parte II

Relato estas memórias não apenas como digressões no meu exercício de desembaraço. Boa parte disso, preferencialmente partes das gravações e curiosidades ocorridas no set, eram lembranças das quais eu, de fato, recordava enquanto me trocava no camarim. Era a noite de estreia de toda esta saga pela qual me afligi e bem sei eu a ansiedade que me torturava. Enquanto abotoava os últimos botões e penteava meu desgrenhado cabelo, pensava em cada cena dirigida por mim com toda a dedicação possível. As cenas da ruiva, caracterizada como santa, mas revelada uma puta. As da morena, completamente pervertida (ah, como gostei da cena em que ela pula no colo de K.!) e as da mulata, sempre tão frágil a resistir aos assédios masculinos, mas uma força potente na hora do sexo. Brinco que todos suamos neste trabalho, à sua maneira. Minha decepção, única, predigo, foi a de não poder contar com alguma cena com as garotas de Titorelli, as endiabradas, pequenas lolitas.

Recordo-me com um aperto no coração que, ao dar uma última olhadela ao espelho, meu velho espelho, desinibi-me por completo da sensação juvenil de ansiedade que me corroia, pois acabara de pensar em todas as pessoas que haviam prometido comparecer à estreia de meu filme. Isaac, meus fãs, conhecidos, artistas, críticos, amigos, a imprensa (o que julguei um milagre). Angustiava-me esperando o momento em que os surpreenderia e os chocaria com minha readaptação, porém, concomitantemente, a certeza de que todos lá estariam assegurava o regozijo que sentiria pelo meu trabalho realizado. Minhas mãos gelavam. Certa hora, desvairava imaginando como seria formada a plateia no caso de vivermos no Admirável Mundo Novo de Huxley, com suas crianças sendo instigadas à promiscuidade em idade tão tenra. Eu seria um deus.

Súbito, lembro bem, um contrarregra qualquer pôs-se a socar a porta, afobado. “Cinco minutos, senhor!”, disse convicto. Aquiesci, engolindo um seco. Era meu grande momento. Optara pelo discurso blasfemo afinal. Se os aterrorizaria, que o fizesse desde o princípio. Fitei meu reflexo por mais uma vez: do sapato lustroso à gravata bem delineada, julgava estar tudo em pompa. Dei um adeus à poeira e ao limbo e uma grande reverência ao espelho que tanto me suportara, um verdadeiro parceiro. Enfiei a mão aos bolsos do paletó e achei um cantil prateado. Sorvi sedento o que estivesse alcoólico dentro dele. Suspirei e saí.

Os corredores do cine, obscuros e estreitos, imergiam-me num denso pesadelo. Percorri-os durante tempo infindável, acima, abaixo, adiante. Distante, julgava ouvir o murmúrio de toda minha querida platéia, ansiosa. Percorri aqueles corredores como o lutador que adentra o ringue, como o ator que entra em cena, como o perdido que sai afinal do labirinto. Obstinara-me em fazer valer minha visão, louca que fosse, ao mundo normal. Que estranhassem, que prejulgassem, que criticassem. Era meu trabalho, fruto de meu esforço, pedra angular da arte distorcida que pretendia erigir. Percorri os corredores negros com passos surdos, engolfados pelo estrondo do que viria a ser milhares de aplausos.

Quando finalmente abri as cortinas do palco e a luz onírica embalou minhas pupilas, vi somente dez cabeças espalhadas pelas cadeiras que, em coro e vazias, ofendiam-me.

Não havia quase ninguém.

A decepção devoradora ceifou-me a expectativa, como um Cérbero voraz a degolar almas no inferno. Posteriormente, no entanto, e de modo ágil, enalteço, este sentimento infantil cedeu ao meu cinismo contumaz: a ralé jamais estaria preparada para minha arte. Erotismo, para a pretensa corja, nada mais é do que pecado entre quatro paredes. Tão exposta à luz do dia em seus debates sobre negócios, esportes, arte convencional, seus filhos e seus problemas conjugais, mas tão recôndita quando trata de suas fantasias. São por demais insípidos. Quanta hipocrisia demanda nossa reprimida sociedade liberal para que tudo permaneça em sua neurótica higidez? A mim, parecem o personagem Kaminer de O Processo, deformado por uma distorção crônica de um músculo facial, que o fazia sorrir cretinamente o tempo inteiro. Tanto faz. Creio mesmo, após o susto inicial, ter me conformado, sarcástico, com as idéias distantes, já em outras paragens: tinha em mente mais uma nova sacanagem para filmar. Um sucesso daqueles...