7.12.09

O olho mágico

A mulher não hesita. Tão logo ouve a terceira batida na porta, a lhe esmurrar o coração de sustos, desata a correr, desvairada, em busca de sobrevivência, guiada por seu corpo, imperativo, impiedoso. Roda a chave tantas vezes lhe é possível e em semelhante pressa afasta-se da porta, temerosa de que possa ser engolida. Os olhos arregalados têm a força dum Hércules e a vivacidade daquele que se sabe em perigo.

As batidas não cessam. Grassam em volume e desespero e a mulher, assim subtraída de sua sanidade, gira chaves, tranca janelas, corre cortinas e, hermética, isola toda e qualquer entrância de sua casa, sempre afobada, sempre suada, algo histérica.

De fora, vem lacrimoso um “Por favor, meu amor, abra esta porta! Por que me castiga desta maneira? Abra! Preciso de ajuda!”, que, entre palavras que mal se distinguem do choro e dos arranhões e dos murros, indaga, em voz masculina, mas frágil, convalescente.

Cobrindo os ouvidos com mãos convulsivas, a mulher enruga a face, como se com isso pudesse apagar a existência do homem que lhe suplica do outro lado da porta.

“Vá embora! Vá embora!”, grita num mantra, enfática em cada exclamação, parando vez ou outra para conferir se o silêncio por fim reina. Frustra-se, todavia.

“Me deixa entrar, me deixa entrar!”, implora, em prantos, o homem.

A mulher recua insegura. Recosta-se numa parede glacial, imaginando por que, dentre todos que se afiguravam conhecidos – e mesmo os desconhecidos - em sua vida, a desgraça fazia questão de deitar-se justamente em seu colo. Fervorosa em sua fé, acredita no desaparecimento daquele homem a qualquer momento, a qualquer custo. Mais sórdidas, porém, suas memórias algures originadas perfazem, traiçoeiras, nos corredores obscuros de sua mente, trilhas sinuosas, controversas em sua capacidade de separar aquele que roga daquela que ignora, muito embora próximos estivessem, só obstados por pesada porta.

Em verdade, a mulher lembra-se daquela língua desrespeitosa, de sua indolência em percorrer sua boca, em lamber seus dentes e em sugar parte por parte de seu corpo. Lembra-se daquelas grosseiras mãos que a arranhavam e a apertavam, como se suas carnes acossadas não tivessem outro propósito senão o de saciar a lascívia duma besta famélica. Lembra-se daquele bafo doce, da respiração cálida a entusiasmar-lhe a fronte. Lembra-se de cada gota de saliva que compartilharam em sua úmida paixão. Em agonia, recorda vez por vez as noites em que se amaram. Ele que agora lhe suplica e tanto geme.

Fora, ele balbucia palavras incompreensíveis, donde só se depreendem os “... entrar”, os “... amor”, os “... Deus”. Ela, ceifada de toda e qualquer sensação, cerra os olhos, comprime os ouvidos, crispa a boca. Só não deixa de respirar, ainda que o faça ardentemente. Quando decide abrir os olhos, já afeitos à terna escuridão, esquece-se de fazer o mesmo com todo o resto de seu corpo, tão afobado, tão suado, algo histérico.

Lágrimas nesses olhos, fixa na vista um canto insólito nunca antes percebido por ela em sua casa, onde uma aranha pacientemente espera por nova refeição, fazendo-se de morta. Nota, de longe, só ouvidos, um eco. É a televisão a tartamudear, com voz de âncora, em que pese toda esta literalidade, conjugada com a imediata metáfora a que recorre: “... são cinquenta e sete mortos ao todo; o Governo declara estado de calamidade e alerta toda a população: medidas simples podem evitar o contágio, como lavar as mãos frequentemente, usar máscaras e permanecer distante de aglomerações. Todo cuidado é pouco neste momento de desespero...”. Por instinto, resolve parar de ouvir, já que não o fazia deliberadamente. Seu mundo vai longe, embora seus olhos pousem ainda sobre a mesma aranha, tão paciente, enquanto fora, lá distante, ele grita e bate, grita e bate, grita e bate, desesperadamente.

Maximiliano Arosa*

6 comentários:

V.H. de A. Barbosa disse...

Maximiliano Arosa é um pseudônimo meu.

karen disse...

puta que pariu, que texto! perdi o fôlego!

A_for_Anetta disse...

Eu achei que você já tinha postado oO Enfim, como eu disse quando li da primeira vez: maravilhoso! (vc e o texto x) )

=***

Natália Oliveira disse...

"Mais sórdidas, porém, suas memórias algures originadas perfazem, traiçoeiras, nos corredores obscuros de sua mente, trilhas sinuosas, controversas em sua capacidade de separar aquele que roga daquela que ignora, muito embora próximos estivessem, só obstados por pesada porta."

Uau! Emocionante! =)
(vc sabe q eu nao lembro o nome da figura de linguagem, né?rs)

grraquino disse...

Abre essa porta, Maria! Abre essa pooortaaaaaa! Me dá o que é meu, Maria, abre essa portaaaa!

foguinlebeau disse...

Imagine como seria se Deus convivesse e amasse estes que supostamente criou,
O amor ao Deus mata, mata o proprio Deus, e o fez!

O amor humano é possessivo, e por conseguinte, também é destrutivo.

Criamos Deus e depois o matamos.