16.12.09

Espuma

“Contar todos os detalhes? Você tem certeza? Por que isso te interessa tanto?”, ela perguntou, receosa. De pernas cruzadas, debruçava-se sobre a mesa, mão ao queixo, lívida em certa displicência, um olhar vago a cativar seu interlocutor.

“Tudo bem, atenderei ao seu pedido, vou contar todos os detalhes, não deixarei escapar nada”, decidiu.

E pôs-se a relatar:

“Era uma noite de sábado. Apesar de ser dia de trabalho, eu não estava me sentindo bem, de modo que decidi não sair. Sentia uma coisa estranha no peito, uma sensação sufocante, como se ondas do mar levassem meu coração embora e inundassem meu pulmão de espuma. Não é normal que eu não saia para trabalhar, ainda mais no sábado, porque eu definitivamente gosto do que faço, entende? Enfim, de qualquer maneira, esse sujeito me ligou. Eu não atendi de primeira, veja bem, deixei o celular se calar, mas ele voltou a tocar, aquela musiquinha infernal do AC/DC, não sei quem botou aquilo lá, acontece que eu não sei tirar. Eu acabei por atender, mais por irritação do que por necessidade ou vontade. Ele quis combinar algo, eu despistei, tentei adiar, quase cheguei ao ponto de dizer que estava com alguma doença, mas isso aruinaria minha carreira, que vive do boca a boca. Novamente, por irritação eu acabei aceitando: um encontro qualquer. A proposta era irresistível, como diria Don Vito. Ele me pegaria na esquina da Miller, ali pelo centro. Lá fui eu me arrumar, ainda com a sensação da espuma no peito. Não demorei tanto quanto você acha, sou rápida para essas coisas. O quê? Como eu estava? Hum, vejamos… eu usava um vestido preto tomara-que-caia curto, mas quase sem decote (minha tia sempre dizia que esconder era sempre o melhor caminho para fazê-los querer descobrir o que havia por baixo), um salto grande, daqueles que deixam minha bunda bem empinada, sabe? Cabelo solto, ondulado, batom vermelho. Nada muito novo, o de sempre, eu não estava inspirada, mas obviamente não estava desleixada. Eu desci até o local combinado. Ele passou lá no horário exato que combinou, um perfeito gentleman, não? Entrei no carro, então ele me beijou como nunca tinha feito antes, um beijo apaixonado, longo, arrebatador, geralmente ele evita esse tipo de coisa”.

Parou, olhando enviesada para um canto da memória. Sem esboçar surpresas, prosseguiu, olhando a pessoa que lhe ouvia, atenta, nos olhos:

“Gostei daquilo, parecia valer a pena o sábado triste. Ele seguiu sem dizer muitas palavras, embora eu tentasse conversar. Ele é inteligente, mas fala pouco. Acho que tem medo de descobrir que eu posso compreendê-lo além do óbvio. Fomos para um motel relativamente caro. Sim, isso mesmo, sem restaurante antes, mas não achei falta de educação, cada um tem a fome que precisa. Escuta, você acha que já está bom por aqui? …Tudo bem, eu continuo então. Saímos do carro e logo ao entrar no quarto, com um baque na porta, ele já se atirou sobre mim, por trás de mim, me enlaçando a cintura e me beijando o pescoço, o qual eu havia deixado propositalmente à mostra cinco segundos antes. Senti o membro dele crescer rapidamente. Membro, pau, pinto, pênis, eu realmente não sei que palavra usar, desculpa. Com ele ainda por trás, me acariciando a barriga, segurei o pescoço dele e lentamente fui me virando, até estar olhos nos olhos com o cliente. Beijamo-nos durante longo tempo, lembro que tinha muita baba envolvida. Ele puxou meu zíper e meu vestido foi deslizando lentamente até o chão. Ele ficou alguns bons minutos me comendo com os olhos, enquanto eu caminhava até a cama, uma cama redonda, olha que original. Despi ele, foi algo devagar, tinha certa magia nisso. Ficamos nos esfregando e depois ele me chupou, imagina só! E depois dizem que eu não sou uma acompanhante decente. Eu sou limpa. Com essas putinhas baratas de esquina ele não se atreveria a fazer isso. Ele tinha uma língua gentil, mas sem perder aquela brutalidade, sabe? Eu me contorcia e ele não parava, o que foi meio cruel. Depois disso eu o chupei também, sem piedade. O mais engraçado é que não era algo vulgar, algo feio, algo somente profissional, eu gostei de toda aquela experiência, a espuma parecia ter descido do peito para a minha barriga, eu me sentia bem e mal ao mesmo tempo, eu não sabia bem porquê. Definitivamente não era uma versão piorada de um filme pornô, era quase como uma transa decente, de apaixonados. Se bem que não sei se há diferença. Qual era o gosto dele? Você já teve a sensação, ao comer um doce, de que ele era meio salgado? Acho que era algo do tipo. Mas isso não faz diferença, porque após isso ele entrou em mim com tudo, sem delicadeza alguma, o que não foi de todo ruim. Fizemos pelo menos umas três posições diferentes, e eu cheguei até a pensar em fazer anal, eu cogitei deixar ele vir por trás e dizer aquelas palavras mágicas, ‘vou lambuzar seu pau todo de merda’, igual aquela putinha do livro do Rubem Fonseca, sabe?, aquele livro que você me indicou, mas achei que seria muito clichê e eu não estava assim com tanto ânimo aventureiro, embora tivesse gostado de cada segundo com aquele homem. Ao final, ficamos um tempo abraçados, foi um tempo bem curto, mas só de ficar perto dele, sei lá, foi como uma explosão, tínhamos acabado de fazer tudo aquilo e mesmo assim voltamos a fazer tudo de novo, o suor descendo em gotas, o corpo salgado dele, as mãos me apertando a cintura, os dentes na minha pele, a língua dele nos meus lábios. Eu estava pingando lá embaixo. O cheiro de sexo estava por todo lugar. Engraçado como o cheiro de sexo é característico, né? Quando cansamos, a madrugada já ia alta. Não tínhamos conversa, não queríamos beber, comer, nem nada. Ele me trouxe para casa, e eu só dormi. Dormi bem, acordei sem espuma alguma no corpo. Oi? Ah, sim, ele pagou, pagou bem”.

Os dois ficaram em silêncio durante longo tempo. Às vezes olhavam para baixo, para seus pés, para o chão, às vezes cruzavam os olhares, mas logo os descruzavam, insustentáveis que eram. Às vezes não olhavam lugar algum. O sol se punha lá fora, ao coro de cigarras. Então, ela quis dizer:

“Eu amo você como meu namorado, sabia?”.

“Sabia”, ele respondeu.

7.12.09

O olho mágico

A mulher não hesita. Tão logo ouve a terceira batida na porta, a lhe esmurrar o coração de sustos, desata a correr, desvairada, em busca de sobrevivência, guiada por seu corpo, imperativo, impiedoso. Roda a chave tantas vezes lhe é possível e em semelhante pressa afasta-se da porta, temerosa de que possa ser engolida. Os olhos arregalados têm a força dum Hércules e a vivacidade daquele que se sabe em perigo.

As batidas não cessam. Grassam em volume e desespero e a mulher, assim subtraída de sua sanidade, gira chaves, tranca janelas, corre cortinas e, hermética, isola toda e qualquer entrância de sua casa, sempre afobada, sempre suada, algo histérica.

De fora, vem lacrimoso um “Por favor, meu amor, abra esta porta! Por que me castiga desta maneira? Abra! Preciso de ajuda!”, que, entre palavras que mal se distinguem do choro e dos arranhões e dos murros, indaga, em voz masculina, mas frágil, convalescente.

Cobrindo os ouvidos com mãos convulsivas, a mulher enruga a face, como se com isso pudesse apagar a existência do homem que lhe suplica do outro lado da porta.

“Vá embora! Vá embora!”, grita num mantra, enfática em cada exclamação, parando vez ou outra para conferir se o silêncio por fim reina. Frustra-se, todavia.

“Me deixa entrar, me deixa entrar!”, implora, em prantos, o homem.

A mulher recua insegura. Recosta-se numa parede glacial, imaginando por que, dentre todos que se afiguravam conhecidos – e mesmo os desconhecidos - em sua vida, a desgraça fazia questão de deitar-se justamente em seu colo. Fervorosa em sua fé, acredita no desaparecimento daquele homem a qualquer momento, a qualquer custo. Mais sórdidas, porém, suas memórias algures originadas perfazem, traiçoeiras, nos corredores obscuros de sua mente, trilhas sinuosas, controversas em sua capacidade de separar aquele que roga daquela que ignora, muito embora próximos estivessem, só obstados por pesada porta.

Em verdade, a mulher lembra-se daquela língua desrespeitosa, de sua indolência em percorrer sua boca, em lamber seus dentes e em sugar parte por parte de seu corpo. Lembra-se daquelas grosseiras mãos que a arranhavam e a apertavam, como se suas carnes acossadas não tivessem outro propósito senão o de saciar a lascívia duma besta famélica. Lembra-se daquele bafo doce, da respiração cálida a entusiasmar-lhe a fronte. Lembra-se de cada gota de saliva que compartilharam em sua úmida paixão. Em agonia, recorda vez por vez as noites em que se amaram. Ele que agora lhe suplica e tanto geme.

Fora, ele balbucia palavras incompreensíveis, donde só se depreendem os “... entrar”, os “... amor”, os “... Deus”. Ela, ceifada de toda e qualquer sensação, cerra os olhos, comprime os ouvidos, crispa a boca. Só não deixa de respirar, ainda que o faça ardentemente. Quando decide abrir os olhos, já afeitos à terna escuridão, esquece-se de fazer o mesmo com todo o resto de seu corpo, tão afobado, tão suado, algo histérico.

Lágrimas nesses olhos, fixa na vista um canto insólito nunca antes percebido por ela em sua casa, onde uma aranha pacientemente espera por nova refeição, fazendo-se de morta. Nota, de longe, só ouvidos, um eco. É a televisão a tartamudear, com voz de âncora, em que pese toda esta literalidade, conjugada com a imediata metáfora a que recorre: “... são cinquenta e sete mortos ao todo; o Governo declara estado de calamidade e alerta toda a população: medidas simples podem evitar o contágio, como lavar as mãos frequentemente, usar máscaras e permanecer distante de aglomerações. Todo cuidado é pouco neste momento de desespero...”. Por instinto, resolve parar de ouvir, já que não o fazia deliberadamente. Seu mundo vai longe, embora seus olhos pousem ainda sobre a mesma aranha, tão paciente, enquanto fora, lá distante, ele grita e bate, grita e bate, grita e bate, desesperadamente.

Maximiliano Arosa*