28.11.09

Ícaro

Foi somente quando o fogo subiu que chegou a sentir algum remorso. Sua face ardia frente ao seu feito. O suor, incontido, singrava seu rosto despudoramente. À pele já não mais satisfaziam as peças de roupa, repudiadas, quentes de embaraço. Porém, foi apenas com as chamas lambendo os céus que chegou a sentir algum remorso.

Era um espetáculo, luminoso sem dúvida. Interessante fenômeno esse do fogo, algo que existe e inexiste simultaneamente. Algo ao qual queremos tocar, algo do qual não podemos desviar os olhos. Algo que fascina.

Mas mais que fascínio, o fogo traz destruição, por sua incapacidade de respeitar aquilo que lhe cerca. Intensidade é a palavra, e, por mais que a pudéssemos substituir por intrepidez, ainda assim não faríamos jus a esse poder devastador. Fascínio, destruição, e, sobretudo, frustração diante da inalcançabilidade que acomete a frágil matéria humana, tão pretensiosa, tão esvoaçante.

Antes não tivesse visto aquelas flamas. Agora que as via, não conseguia, por mais que tentasse, tornar o olhar para o lindo céu estrelado e libertador que o acobertava, para as luzes da cidade, trepidantes, para os olhares assombrados, alhures. Por mais que quisesse, não poderia fugir dos desígnios dos deuses e de seus olhos apaixonados, encarcerantes.

Não podia fazer nada perante o fogo. Nada. Não podia nem mesmo voltar atrás e salvar aqueles aos quais agora assassinava. Aqueles que gritam, gemem, sofrem. Eis porque, tão brilhante quanto o fogo que lhe aquecia a fronte, o remorso lhe remoía as entranhas, muito embora ambos o fascinassem.