10.10.09

Em memória de minha sereia

S6002499 Façam completo silêncio, paralisem os negócios, parem o que estão fazendo. Uma flor nasceu no asfalto? Não. O que aconteceu foi que o branco invadiu os muros do cemitério, o cemitério vizinho à minha casa.

Conformados, eles, os pobres pintores, pintam, em obediência cordeira, toda a extensão dos muros que circundam o cemitério. Sua evolução é gloriosa. Começam com um borrão, terminam na demão. Cobrem tudo de branco. Quando chego em casa, no desolador crepúsculo, me alumiam os olhos aquela brancura sem fim, que pouco mais que troça era ao início do dia. É um corretivo, prepotente, teimoso.

Ali antes figuravam desenhos, grafite, arte. Algum projeto cultural, desses que enchem de vida espaços mortos e já de antemão desculpo-me pelo irrepreensível trocadilho. O fato é que ali estavam sereia, golfinhos, caricaturas, gatos, monstros, o sol, os mortos em singela lembrança. Ali jazia a arte, de inúmeros artistas.

Mas Finados vem vindo, tão silencioso, com suas flores, velas, choros, sempre trazendo novos ceifados à sua moribunda sociedade. Algum sisudo ordenou a morte da arte? A Administração por bem entendeu não ser aquele o espaço adequado para cor e vida? A que triste fim prestam ordens estes pincéis em riste?

A idéia de branco traz em si um caminhão de referências: liberdade, esquecimento, bem-estar, apagado, recomeço, vazio, clareza, esclarecimento, leveza, inocência. Alvo. #FFFFFF. É a contraposição natural do preto, algo tão denso, pesado, triste e sério.

E assim, com toda esta arrogância da alvura, os pincéis de Finados apagaram toda a cor e a alegria que rodeava aquele espaço tão lúgubre. Foi-se embora minha sereia, varrida pela tinta do esquecimento, pela cor da pureza que suprime a tudo que não lhe deita respeito. Talvez sejam os mortos que ordenaram esta reforma em sua morada.

Assim como a vida daqueles que ali repousam, assim como a frágil memória que estes deixam para o mundo, tudo se esvaiu, e só restou a brancura de um mundo sem graça, com um fim óbvio.