22.9.09

Um cavalo robusto

Com esse texto eu participei de um concurso de contos entre blogueiros cujo tema era “hábito de leitura”. Fui selecionado junto com mais quatro textos e, aparentemente, perdi para um texto que fazia referência a Macabéa. Ainda bem que eu nunca gostei de Clarice Lispector. Divirtam-se.

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“... ia pelos campos verdejantes da Terra Real, indiferente ao vento gélido que lhe açoitava a fronte, cavalgando seu cavalo robusto e de pelo vistoso, branco como a neve, veloz como um relâmpago. Subitamente, das trevas, surge o terrível dragão de escamas pretas do Vale Podre...!”.

A garotinha não pode conter uma exclamação e entrega-se atônita ao êxtase das palavras; mal respira e quase some sob o cobertor. Imersa em fábulas, seus devaneios galopam longe, como o cavalo da história que o avô lhe conta.

“Bia, não vai me dizer que você está com medo...”, inquire o velho homem, a rir-se.

“Não vô, não to com medo!”, mente a menina, ciente de que não convence.

O avô, pousando o livro aberto sobre a coxa, põe-se a mimar sua netinha com um cafuné que, se não o mais delicado, pelo menos o mais reconfortante se revela para a pequena, muito embora sejam mãos nodosas e tremelicantes que se prestam a lhe desembaraçar os cachos.

“Sabe, vô, eu adoro quando você lê para mim, nada consegue ser tão divertido!”, revela.

Neste instante, entra insuave pela porta o pai da garota, homem de densos óculos inquisidores, famoso por sua retidão. Vendo sua filha de olhos abertos, desata a bradar: “Isso são horas, seu Tomás? A menina precisa dormir. Bia, já para a cama!, amanhã você não pode perder sua aula de balé! Já não basta ter faltado semana passada? Ah se sua mãe fica sabendo. Volto logo e, quando entrar por esta porta, quero vê-la roncando aí nessa caminha. Entendido, senhorita?”.

“Eu já estou na cama. E não ronco!”.

“Você que pensa”. E bate a porta.

“Você viu, vovô? Que ódio!”, lamuria-se Bia, emburrada.

“Calma, calma, tigresa”, tenta pacificá-la Seu Tomás, “seu pai está certo, as horas já vão tarde e estou aqui a aborrecendo com estas histórias, você tem é que descansar”. Ele se levanta da beira da cama aos poucos e sente então a pequenina mão entre as suas, requisitando-o.

“Fica aqui, vô! Essas histórias me relaxam, continua contando, vai, por favor!”, suplica-lhe a neta, exibindo, vaidosa, seus compassivos olhos cor-de-mel, inevitáveis.

“Como eu poderia resistir a esses olhos, menina? Você é terrível!”, queixa-se, com razão, o velho.

Uma vez mais a porta se escancara, revelando uma mãe de boca crispada e convicção irrefutável: “Pai! Isso lá é hora de encher a cabeça da menina de fantasia? Na hora dos pesadelos, quem tem de agüentar o choro sou eu. Beatriz Soares...” - e por ouvir seu nome completo, Bia sabia que a coisa desandava - “... você sabe muito bem que tem aula de balé amanhã, olha a hora! Pai, sem essa de literatura com ela, é perda de tempo. Ela deve se ater às atividades dela, de preferência o xadrez e as aulas de matemática, não é, minha futura engenheirazinha?”, emenda dócil. E bate a porta.

Avô e neta se entreolham, cruzando olhos de cúmplices, e dão de ombros para o sermão, escusando, cada um à sua maneira, assumir a responsabilidade pela bronca levada.

“Sabe, Bia, sua mãe nunca teve muita paciência para histórias, sempre preferiu seus números e suas peças de Lego. Nunca percebeu, sedenta que era pelas coisas corretas e certeiras, como longínquas fantasias e sonhos impossíveis são capazes de levar alguém ao paraíso... de levar alguém a lugares inexplorados. Já você, diabinha, você é diferente. Onde estávamos mesmo? Ah, sim, o dragão de escamas pretas. O dragão de escamas pretas que solta fogo e cospe piche do Vale Podre!...”.

Os olhos da garota brilham. Dia vai e noite vem e o desejo que a move é apenas dar beijo e boa noite no pai e na mãe e correr para a cama, lépida, dentes-escovados, à espera da próxima história a ser contada por seu avô; curiosa pelo próximo mundo a ser descoberto, pelo próximo monstro a ser derrotado, pela próxima princesa a ser resgatada. Cada história é um desvão em que se infiltra e onde finca uma bandeira só sua, desbravadora que é. Sua coleção de mundos algures percorridos é vasta e colorida. Ama por demais o avô, que lhe oferta, com poucas e generosas palavras, proferidas antes de derradeiro sono que sempre lhe alcança, a possibilidade de, livremente, erigir sua própria criação: a imaginação. Não carece que alguém lhe mostre como dançar sua fantasia, como somar aventuras, como definir estratégias de ataques aos monstros vários, ameaçadores. E, sobretudo, no seu mundo não se faz necessário que seus pais decidam seu rumo, o rumo de Beatriz Soares. Imprescindível mesmo, apenas a presença do avô, sorrindo aquele sorriso bobo e cortês sob a barba piniquenta, pronto a sacudir seu manto de histórias, a costurar caprichos e a desvelar seu hábito de leitura, um cavalo robusto, branco e veloz, sempre indiferente a ventos gélidos.