11.7.09

Um tiro na noite

Não saberia dizer o que foi aquilo. Cavalos corriam avenida abaixo com suas enormes narinas a bafejar um temor inconstante, de proporções vis. Eram centenas, assustados. Época muita estranha para o mundo. Quando todos olhavam relapsos para si mesmos, mas detidamente para os outros, para os lados, para trás, olhos esbugalhados. Época estranha.

Cobras lépidas mexiam-se sob meu cobertor, quando e se eu conseguia dormir, o que era raro. Carros disparavam, o cheiro de borracha queimada fixava em minha narina as tentativas de inúmeros ataques. Oh os ataques. Quase ninguém descansava. A tensão dificultava a respiração do ar, o ar ocre.

Jurei ter visto uma dezena ou duas de pessoas espumando pela boca, cachorros incontidos que eram, correndo e se coçando. Nessa época, eu mesmo olhava para os lados, para trás, para você e para mim. Olhava tudo, com medo de perder algo, com medo de algo.

O padre parecia vagar sobre o chão, deslizando de maneira suspeita, um séquito de marias atrás de si, cruzes para o ar. As ruas agitavam-se. Casas eram seguras? Velas queimavam. O cemitério brilhava, mais que a cidade em si.

Meu sobretudo me cobria do mundo, me protegia da demência de um povo que me encarava. Me escondia de olhares inquisidores, famintos. Eu corria ou parava. Eu sempre tentava respirar.

Era definitivamente uma época estranha para o mundo.

4 comentários:

Lígia Silva disse...

esse texto me lembra uma discussão que tive com um amigo, sobre o que aconteceria se tivéssemos um blecaute mundial no temido ano de 2012...

Marina disse...

Isso parece um futuro do que temos hoje. Eu vivo com medo de sair na rua e, pelo que posso ver alguma vezes, nem mesmo em casa estamos seguros. Vivo com medo de perder alguém, perder momentos. Será que sou eu ou é o mundo que enlouqueceu?

joao disse...

¬¬

A_for_Anetta disse...

Isso mistura o filme de zumbi e aquele dia do tiro?! Meu único medo é ficar sozinha no mundo, sozinha mesmo.

=*****