23.7.09

Astronauta

Um dólar. Um dólar bastava, enrolado, obviamente. Um dólar, magicamente, conduzia-o a um mundo livre e cheio de maravilhosas sensações, um dólar a sugar cada partícula do milagroso pó. Da mesa ao nariz, primeiro hermeticamente enfileirada, depois dispersa, ou melhor dizendo, aspirada, entregue ao corpo humano, seu cálice, seu hospedeiro.

"Aspirações e aspirações!", bradou o vocalista teatralmente, ao que foi acompanhado de gargalhadas.

O baterista, mais sisudo, logo se cansou: "Que perda de tempo, vamos logo fazer esse show".

O vocalista escolheu a loira que lhe pareceu mais aprazível dentre tantas e tascou-lhe de pronto um beijo que já ao cinema não mais escandalizava. Era para dar sorte.

No palco eram energia: a explosão de uma catarse, o espírito de uma geração, o estigma do impossível. Tudo aquilo que se quer ser, mas que é inalcançável aos meros mortais.

Logo, porém, o vocalista viu estrelas na platéia e lembrou que era homem. Não que era homem no sentido sexual, coisa que habitualmente comprovava, dentro e fora dos camarins, mas sim homem em sua acepção mais simples, mais essencial. Quem dera tivesse pensado "sou simplesmente um homem!". Infelizmente, viu estrelas.

Estrelas lembravam-lhe a infância, que lhe rememoravam a condição humana. Por que estariam na platéia estrelas que costumavam estar no céu, no céu de sua meninice, céu que se vislumbrava deitado no quintal, costas à grama, a imaginar o que seria da vida, o que seria do futuro, quão brilhante futuro.

Futuro que eram estrelas, inúmeras estrelas brancas e brilhantes, supernovas ou anãs, que fossem, mas tão fáceis de alcançar e tão baratas que se vendiam logo ao primeiro dólar que lhes molestava; estrelas tão vagabundas que, aspirando a alcançá-las em sua infinitude, aspirou-as demais e morreu, no palco, após o refrão, que na boca de todos estava.

6 comentários:

A_for_Anetta disse...

*-*

Demais esse texto! Bem que você disse no twitter que estava mais pra Lynch, tenho que concordar. Mas eu gosto dele!

Adorei, mesmo!

Marina disse...

Uma sequência de imagens que nos faz acreditar que a pessoa sentiu isso tudo mesmo. Ninguém descreveria melhor essa cena. Mas não vou babar mais, OK? =P

Bruna Mitrano disse...

Essas estrelas vagabundas, que às vezes são as únicas, nesse céu de mentira..aff
Gostei do duplo sentido da palavra "estrela".

Thiago José. disse...

Gostei muito do seu blog. Confesso que li pouco, pela falta de tempo, mas do pouco já deu pra tirar muito.

Fico feliz em saber que você também faz Direito, eu estou indo pro 3° periodo agora, no começo ainda... Gostaria muito de poder misturar o Direito com artes, literatura e etc... e não uma ciencia pura como a proposta de Kelsen. Creio que você também concorda comigo, ou não. Mas ficou a mensagem.

Abraços.

Thiago José. disse...

Eu estudo na Federal Fluminense(UFF). Vou pegar suas recomendações dos autores e vou tentar articular lá na faculdade também para que possamos fazer grupos parecidos com os daí, e ter uma formação mais interdisciplinar e plural!

É isso cara, abração, passarei sempre por aqui!

Bruno Portella disse...

Marina me indicou esse.

Gosto de como descreve - sou fã de descrições. Ainda mais das bem feitas.

Grande blogue, parabéns.

http://sandubadequeijo.wordpress.com