18.6.09

Ao ninho nunca mais voltarás

“Suas botas… suas botas são lindas!”, comentou com um sorriso demente no rosto.

O outro o fitou seriamente. E o fez longamente, pelo tempo que fosse necessário para constatar que aquilo não era um comentário aleatório ou uma piada.

“Você está alucinando, talvez seja pelo choque”, deduziu sem emoção.

“Não, suas botas realmente são lindas, e essa calça? Belo jeans. O sobretudo também, como tudo mais, lhe cai bem. A barba, o capuz, este longo cabelo que aí se esconde, ai ai ai. Você parece um Jesus Cristo fashion”.

O outro riu.

Estavam num elevador dos mais lentos, embalados por Tom Jobim, num clichê que beirava o ridículo.

“Tom Jobim, bossa nova… você gosta, Jesus moderno? Eu sinceramente detesto. Bossa nova é um defunto ao qual esqueceram de enterrar. Aliás, por que minha perna dói tanto?”. Tossiu sobre o torso da mão, que de repente tornou-se vermelho, “veja só, é sangue!”, constatou, ainda padecendo do sorriso demente.

“Tenha paciência, estamos chegando”, acalmou-lhe o outro com um leve tapa nas costas.

“Sabe, minha perna realmente dói muito, e tenho quase certeza de que algo está errado com uma de minhas costelas”.

“Tudo muito real, não é?”, riu-lhe enigmático o outro.

“Sim… você tem razão… já estive aqui antes, neste mesmo elevador, odiando o mesmo Jobim, suando frio… quando… ?”.

“Com certeza, pobre homem, deve ser porque você acabou de pular deste prédio”.

“Eu… pulei?”.

“Sem dúvida… ah, aqui estamos, trigésimo andar. Agora sim. Eu lhe diria para nunca mais ser tão afoito a ponto de não ir além do quinto andar, mas temo que isso nunca mais venha a lhe ocorrer”.

“Eu… pulei?”.

A porta do elevador se abriu, revelando um longo e convidativo corredor que terminava numa janela de proporções grandes. Aberta. O outro estendeu o braço em direção à janela, incitando a saída do homem ao seu lado.

“Agora vá, minha pobre criatura, termine o que começou. Voe, flutue, despenque”.

“Pular…pular…você não vem junto, meu Jesus?”, chorou o homem.

“Não, eu nunca consigo olhar essas coisas, é sempre tudo igual”, disse o outro, virando o rosto angustiado, enquanto a porta do elevador o estreitava mais e mais, até escondê-lo por completo. “Adeus e até!”, ainda conseguiu despedir-se abafadamente de dentro do elevador.

O homem olhou primeiro para a janela ao fim do corredor e depois para suas roupas rasgadas, sua perna ensanguentada, suas mãos esfoladas e, por último, para suas mortais convicções. Um corredor convidativo, convergindo de modo autoritário numa única janela, numa única saída.

Desceram, cada um na sua devida velocidade, cada um ouvindo um som diferente, fosse bossa nova ou o assobio do vento.

3 comentários:

A_for_Anetta disse...

Nossa, que bizarro! Oo

Mas um bom conto, pra variar!

=***

Bruna Mitrano disse...

Tem gente que diz que suicídio é cavardia. Discordo. Nada mais corajoso do que encarar a inexistância, nada mais assustador do que a inexistência. Admiro os suicidas...

Marina disse...

Admirar os suicidas? Essa é nova pra mim. Não, não é sarcasmo. Na minha opinião, quem não tem medo da morte só pode ser maluco. Sério. Eu não admiro malucos, não esse tipo de maluco.

Mas adorei o conto, pra variar. Suas cenas sempre inusitadas. Ontem, em frente ao "papel" do word fiquei pensando que gostaria de escrever alguma coisa impensável, como você faz. Não saiu nada, ou saiu a mesma coisa de sempre.

Ô inferno criativo! Beijos!