25.6.09

O Dia A (Influenza A H1N1)

Letras marcam dias históricos. Tanto é assim que o início da derrota de Hitler no continente Europeu se deu no Dia D, quando da invasão norte-americana na Normandia. Há também referências ao Dia Z, o dia que simboliza o fim do mundo (z de zumbi).

Hoje vivi o Dia A, uma data, infelizmente, histórica para Londrina. “A” de Influenza A(H1N1). A famosa “gripe suína”.

O fato ocorreu enquanto eu estava tendo aula, pelo período da manhã. A matéria era Direito Administrativo e a classe não se empolgava muito com as lições da professora. Súbito, uma garota entrou na sala e deu a notícia: “Estão suspendendo todas as aulas por causa da gripe!”.

Balbúrdia. A professora ainda tentou conter o barulho, mas fora da sala já se ouviam gritos de “Porco! Porco!”, algo ensurdecedor, com a diferença de que aquilo não significava uma vitória do Palmeiras. Tosses foram fingidas por gracejo. A aula estava, logicamente, perdida.

Daí até o papel oficial trazido por outra aluna para que a professora assinasse não demorou muito. Aulas suspensas até segunda ordem. Motivo: alguns alunos do curso de Agronomia tinham suspeita de conter a gripe, além do fato de 24 pessoas estarem em quarentena. A gripe chegou a eles de avião, para variar. Um contágio que ficou evidente desde o episódio americano do “Antraz”.

Mochilas arrumadas, dúvidas sobre o fim do bimestre (haverá prova? trabalhos a entregar?), saíram todos da classe. Muitos alunos se dirigiam à saída do Centro em que estudo. A pressa parecia geral. “É pra tanto?”, indagavam alguns. Ninguém sabia, mas o melhor a fazer era ir embora.

O dia estava nublado, o que lhe conferia ares de filmes apocalípticos. Todos os carros tentavam sair ao mesmo tempo e os pontos de ônibus estavam apinhados. Algumas pessoas corriam para não perder o ônibus mais próximo. O restaurante estava vazio. Definitivamente não era algo que se vê todo dia.

Como havia sido tomada a decisão? Ninguém ao menos sabia que a gripe havia chegado à Londrina, mas nos bastidores, com certeza, isso estava evidente. Talvez uma reunião sorumbática tenha ocorrido entre reitor, médicos e Vigilância Sanitária e a sugestão veio pesada: “Recomendamos esvaziar a universidade, Sr. Reitor”. Talvez o Reitor apenas tenha tomado uma decisão sensata. O fato é que uma comunidade de 26 mil pessoas teve de ser esvaziada por conta de suspeitas.

A OMS classificou a gripe suína como pandemia há poucos dias atrás. Vamos vivenciar mais uma gripe espanhola? Esta já apareceu por este blog, certa vez, para explicar a origem do termo “Saúde!” (leia aqui). Tornaremos a dar a este termo o significado sombrio que lhe pertence?

Espero sinceramente que tudo não passe de uma simples suspeita. Já me felicito por não ter que ir à aula amanhã apresentar um horrendo seminário de Direito Comercial. A expectativa é de que eu não tenha que andar mascarado pela bela e peculiar cidade de Londrina.

Deixo, por último, um clipping de notícias para que verifiquem, por si mesmos, a situação a qual conferi de perto:

http://portal.rpc.com.br/jl/online/conteudo.phtml?tl=1&id=899219&tit=Londrina-tem-5-caso-suspeito-de-gripe-A-e-60-pessoas-estao-em-quarentena

http://www.bonde.com.br/folhadelondrina/?id_folha=2-1--7590-20090625

http://www.londrix.com.br/noticias.php?id=59315

Saúde para vocês.

18.6.09

Ao ninho nunca mais voltarás

“Suas botas… suas botas são lindas!”, comentou com um sorriso demente no rosto.

O outro o fitou seriamente. E o fez longamente, pelo tempo que fosse necessário para constatar que aquilo não era um comentário aleatório ou uma piada.

“Você está alucinando, talvez seja pelo choque”, deduziu sem emoção.

“Não, suas botas realmente são lindas, e essa calça? Belo jeans. O sobretudo também, como tudo mais, lhe cai bem. A barba, o capuz, este longo cabelo que aí se esconde, ai ai ai. Você parece um Jesus Cristo fashion”.

O outro riu.

Estavam num elevador dos mais lentos, embalados por Tom Jobim, num clichê que beirava o ridículo.

“Tom Jobim, bossa nova… você gosta, Jesus moderno? Eu sinceramente detesto. Bossa nova é um defunto ao qual esqueceram de enterrar. Aliás, por que minha perna dói tanto?”. Tossiu sobre o torso da mão, que de repente tornou-se vermelho, “veja só, é sangue!”, constatou, ainda padecendo do sorriso demente.

“Tenha paciência, estamos chegando”, acalmou-lhe o outro com um leve tapa nas costas.

“Sabe, minha perna realmente dói muito, e tenho quase certeza de que algo está errado com uma de minhas costelas”.

“Tudo muito real, não é?”, riu-lhe enigmático o outro.

“Sim… você tem razão… já estive aqui antes, neste mesmo elevador, odiando o mesmo Jobim, suando frio… quando… ?”.

“Com certeza, pobre homem, deve ser porque você acabou de pular deste prédio”.

“Eu… pulei?”.

“Sem dúvida… ah, aqui estamos, trigésimo andar. Agora sim. Eu lhe diria para nunca mais ser tão afoito a ponto de não ir além do quinto andar, mas temo que isso nunca mais venha a lhe ocorrer”.

“Eu… pulei?”.

A porta do elevador se abriu, revelando um longo e convidativo corredor que terminava numa janela de proporções grandes. Aberta. O outro estendeu o braço em direção à janela, incitando a saída do homem ao seu lado.

“Agora vá, minha pobre criatura, termine o que começou. Voe, flutue, despenque”.

“Pular…pular…você não vem junto, meu Jesus?”, chorou o homem.

“Não, eu nunca consigo olhar essas coisas, é sempre tudo igual”, disse o outro, virando o rosto angustiado, enquanto a porta do elevador o estreitava mais e mais, até escondê-lo por completo. “Adeus e até!”, ainda conseguiu despedir-se abafadamente de dentro do elevador.

O homem olhou primeiro para a janela ao fim do corredor e depois para suas roupas rasgadas, sua perna ensanguentada, suas mãos esfoladas e, por último, para suas mortais convicções. Um corredor convidativo, convergindo de modo autoritário numa única janela, numa única saída.

Desceram, cada um na sua devida velocidade, cada um ouvindo um som diferente, fosse bossa nova ou o assobio do vento.