16.5.09

O desígnio (parte II – final)

Leia a parte I.

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Bernardo estancou. Não dispôs-se, contudo, a se virar. A mulher que acabara de gritar seu nome, agora mais tranquila e menos arfante, voltou a falar atrás de si:

“Bernardo, seu doido…você iria pular?!”.

Ele volveu aos poucos, revelando o esgar num sorriso deslocado:

“Você acha mesmo que eu faria isso, Cora?”.

“Eu não sei. Talvez você esteja louco!”, sugeriu Cora, parecendo se irritar pelo comportamento do ex-marido.

“Talvez…”, murmurou, ainda carregando sarcasmo em seu sorriso de canto.

Cora respirou fundo. Ignoraria. Cansara de brigas com aquele homem, ali na sua frente estava somente mais um sujeito qualquer. Não possuía mais paciência para tolerar provocações. Foi com um suspiro que resolveu indagar:

“Por que me chamou até aqui, Bernardo?”.

“Eu…”, e ele tornou-se sério, “as possibilidades passam pela sua cabeça de vez em quando, Cora? Você imagina como tudo seria diferente se…? você sabe”.

Cora permaneceu em silêncio por alguns segundos, pensativa.

“Não…”.

“Não minta!”, irritou-se Bernardo, “Você sabe exatamente que tudo seria diferente, seríamos felizes, não estaríamos onde estamos!”.

“E onde estamos, Bernardo?”

“Na merda. Irritados, frustrados, ansiosos…na merda!”.

“Esse é o problema, Bernardo. Você está assim. Eu estou bem”, deteu-se por pouco tempo, analisando as consequências do que falaria, e prosseguiu: “Eu… eu tenho uma nova pessoa. É isso, contei. Gostaria que você não me incomodasse mais… agora se me dá li…”.

“…Vi uma garotinha hoje, Cora”. Ele não a ouvia,  “Tinha cachos, como você, como ela, mas era mais branquela. Eu tropecei nela, pedi desculpas, ela ficou me encarando, deu tchau, quase chorou. Você entende o que eu sinto, Cora?”. E reprimiu uma única lágrima que teimava em querer rolar sua face.

Cora observou-o atentamente, expressando incomensurável tristeza em seu rosto. Por fim, desabafou:

“Bernardo, isso tudo é passado. Nossa filha morreu. Morreu, entendeu? Você não faz idéia do que eu passei para ter noção disso, para me dar conta de como as coisas são, mas agora tudo está claro. Ela se foi, assim como nós. Acabou!”.

“Preciso da sua ajuda, Cora. Preciso. Quero aquela vida de volta. As possibilidades… preciso do seu perdão!”.

Cora se aproximou de Bernardo. A noite já se cerrara sobre os dois e uma amarelada lua os iluminava majestosa. Encararam-se demoradamente. Enfim, ela abraçou-o, sentindo sua camisa umedecer pelas lágrimas dele. Afastou-o carinhosamente e disse:

“Você tem que superar, Bernardo. Não estamos mais juntos nessa… Adeus”.

E foi embora, aliviada.

Bernardo observou-a ir-se, sentindo nos ombros o peso de todos os seus erros e de seu passado. Após alguns segundos que lhe pareceram séculos, aproximou-se mais uma vez do parapeito que o separava por vinte andares do chão. Olhou a lua e a rua. Não chorava mais.

“Na merda…”. E se dirigiu ao elevador.

Ao sair do prédio, andou ainda alguns quarteirões sem rumo, observando a mecanicidade daqueles robôs que o cercavam, obscurecidos por suas máscaras de normalidade, em contraste com as luzes das fachadas comerciais. Na cidade tudo parecia tão caloroso, o conglomerado humano, pronto para a inter-relação, as experiências de vida. Não. Tudo aquilo era um engano. Sob a falsa aparência cosmopolita, jazia, na cidade, a rigidez mais fria dos modos de se relacionar, uma ditadura do como se portar, os standards e status. Nada mais era natural, tampouco as emoções. Um mundo de seguranças e nenhuma possibilidade, a ordem era minimizar riscos. Bernardo deprimia-se por notar que por debaixo do manto que a embelezava, a cidade não passava de um amontoado de seres que não se suportavam. Passou a sentir nojo até mesmo da calçada em que pisava.

“Com que intuito ainda mantemos a sociedade?”, gritou olhando para o alto, assustando meia dúzia de transeuntes.

Dirigia-se para um ponto de ônibus quando a avistou do outro lado da rua. Apertou os olhos para enxergar melhor. Cabelos cacheados, faces coradas, a mão atada ao cuidado atroz da mãe. Era ela! A garotinha que lhe acenara. Parou. Alegrara-se em vê-la e, após breve decisão, pôs-se a segui-la cuidadosamente, tal qual silenciosa sombra.

Qual o motivo? Não saberia dizer. Simplesmente gostaria de ver a pequena criatura por mais tempo, perceber-lhe os mínimos detalhes. Não faria mal a ninguém.

Elas entraram numa cafeteria. Após alguns minutos, copiou-as, cabeça baixa, sentando em qualquer lugar que o permitisse vislumbrar a menina. Da cadeira em que estava, conseguia olhá-la transversalmente e, com sorte, não poderia ser notado. Pediu um expresso para não levantar suspeitas. Sorvia o amargor daquele café desatenciosamente: todo o seu ser transigia em atenção para aqueles cachos, aquela palidez, os dedinhos. Para ele, aqueles traços eram os mais belos. Quanta graça poderia haver em apenas uma coisinha! Mas tudo aquilo…

…tudo aquilo era apenas parecido com sua falecida filha. Não competia a Bernardo lembrar de sua morte neste momento. Já enterrara aquele episódio nas profundezas do esquecimento: seu Tártaro pessoal. E apesar de sua inexistência, como poderia fazer-se ainda tão presente? Mesmo naquela outra criança. Ali estavam suas características. Por vezes, as duas confundiam-se. Uma era outra. Em certo momento, eram a mesma pessoa. Aquela criança era sua filha.

Não. Ele sabia que não era sua filha. Pareciam-se somente. Sua filha estava morta. “Nossa filha morreu”, disse Cora. Um soco não teria sido mais brutal. Cora era passado. Sua filha era passado. O que restara ao presente de Bernardo? Merda? E quanto ao futuro? Nada? O certo era que aquela não era sua filha. Deveria se recompor, estava seguindo uma garotinha. Que espécie de homem era? Perturbou-se.

Correu ao banheiro e se olhou no espelho sujo. Por um átimo de segundo teve medo de não se ver refletido ali, o que seria natural, já que ele nada significava atualmente. Por que alguém invisível haveria de ter reflexo? Uma espécie de homem invisível, o nosso Bernardo: desaparecido atrás de uma mesa apilhada de papéis, destruído em meio a um relacionamento fracassado, morto após a perda de seu bem mais precioso. Como chegara a tal ponto? Conseguia se lembrar claramente de outros tempos: uma casa bonita, bem decorada. Havia um jardim, anões de cerâmica. Haveria um cachorro? Parece que sim, mas só durante algum tempo, ele não gostara das sujeiras do animal. Ah, ali estava sua esposa. Tão bela. Cora sempre fora bela. Amavam-se. E no colo de Cora havia aquele bebê, todo manhoso, que sempre ria ao ver o pai. Lembrava de criar aquele bebê com todo o zelo possível. Dia após dia, fralda após fralda. Ela cresceu, era já uma garotinha, sapeca. Muitos cachos, belos cachos negros. E então… simplesmente se fora. Morta. Sabia que estava morta, pois havia um atestado de óbito. Entendia de documentos. Era seu trabalho. Os documentos não mentem: rígidos em forma, seguros como prova. A filha estava morta. Havia também outro documento. Sim. A sentença do juiz, o mandado de averbação, uma certidão de separação. Daqui algum tempo, tinha certeza, seria interpelado por sua mulher. Ex-mulher. Ela irá pedir o divórcio. Insistirá que seja consensual. Não vivem mais juntos. Já partilharam os bens. Não há filhos. Tudo está certo para que dissolvam o amor, o casamento, uma existência. Com a bênção da lei, enfim declarados ex-marido e ex-mulher. Não há mais sua filha, somente uma garotinha ali, tomando milk-shake de cappuccino, cria de outro ser.

Não há mais nada na vida de Bernardo, há não ser a azeda esperança de uma vida melhor, num futuro longínquo e incerto.

Riu sem graça para si mesmo no espelho. Censurou-se pelo drama. Estava para se decidir quanto a algo, quando ouviu barulhos vindos da cafeteria. Uma gritaria, voz grossa, de homem. Alguns gritos desesperados, de mulheres. Distinguiu palavras: “passa”, “dinheiro”, “chão”. Era um assalto.

“Aí está o sucesso do contrato social”, pensou consigo mesmo, irônico. A digressão, porém, abalou-o. Não parecia conveniente que pensasse aquilo. Ali, provavelmente sob a mira de uma arma, chorando, estava sua filha. Não, não era sua filha, diabos. Que seja, havia uma garota ali, correndo perigo. De que adiantaria idealizar o mundo e os humanos se as coisas eram como eram?

O que teria feito se tivesse a chance de impedir que sua filha morresse?

Olhou novamente o espelho, ficando surpreso com a imagem refletida. Abriu os olhos com espanto. Desde quando estava ali? Parecia ter acordado neste exato momento. Sim, ele estava ali, achara-se. Um propósito, um desígnio.

Escancarou a porta do banheiro com um forte chute. O bandido, mais assustado que qualquer um no lugar, apenas um selvagem desesperado, pulou ao se dar conta de que havia mais uma pessoa ali. Como previsto, estava ameaçando a garotinha, que não parava de chorar. Mandava-a calar a boca, alternando a direção da arma da menina para sua mãe, que a agarrara.

Bernardo, resignado, caminhava rígido na direção do marginal. Encarava-o odiosamente, a ponto de trucidá-lo em pensamento. Arma em punho, o bandido mandou-lhe parar:

“Quietinho aí, irmão! Pra trás!”.

Ordenou novamente, sem efeito. Bernardo continuou caminhando, passos duros. Uma bala então voou, em meio a estrépido barulho, atingindo Bernardo no ombro. Ele se deteve por segundos. Olhou seu ombro, sangrava, olhou o bandido. Era novamente aquela sensação diante do parapeito do prédio: que tudo se danasse! Continuou andando. Outra bala voou, mas o marginal errara. A essa altura, já temia Bernardo como a um demônio. Vacilou, espantado por ter errado de tão perto o tiro. Foi a oportunidade de Bernardo, que pulou em cima dele. Babava de raiva. Começou a socar o bandido fervorosamente. Uma. Duas. Três. Quatro. Cinco. Seis vezes. Cada golpe um surdo som a preencher o ar, a perturbar a consciência de todos que assistiam ao massacre, a desconstituir a feição daquele que apanhava. Ao se cansar, Bernardo respirou por algum tempo, tomando folêgo para recomeçar: batia agora a cabeça do meliante contra o chão. Uma. Duas. Três. Quatro vezes. O sangue coloria o chão e as mãos de Bernardo. Sob si uma massa pastosa borbulhava em meio a sangue, osso e carne. Matara o assaltante.

Desmaiou.

Somente quem já esteve numa cama de hospital saberá a que me refiro. Acho graça de todas as histórias sobre a luz no fim do túnel, ou sobre a luz que convoca a pessoa quando esta está no limiar da morte. Não há luz no fim da vida. Há somente o ambiente hospitalar, suas fortes luzes e sua fixação pelo branco. De fato, quem acorda numa cama de hospital, sente-se ou em fim de vida ou no começo doutra. É ali onde são feitas promessas: “mudarei, prometo”. Ou onde se agradece pela nova oportunidade. Ou, ainda, onde se amaldiçoa todo o trabalho de Deus. A única luz é a do hospital, com seu ar divino, a revelar às pessoas: você está numa cama, descanse, e depois vá viver novamente.

Foi nesse estado em que Bernardo acordou. Meio tonto. Desorientado pela forte luz, as pupilas ainda muito dilatadas. Jurou ter visto sua filha ao seu lado. Estaria lhe guardando a alma, como um anjo?

“Oi, moço, você está acordado?”, perguntou uma doce voz.

Bernardo esfregou os olhos e abriu-os de vez. Ali estava a garotinha, observando-o curiosa, grandes olhos.

“Agora sim…”, respondeu.

“Meu nome é Victoria, obrigado por me salvar!”, e deu-lhe timidamente um beijo na bochecha.

Victoria… e ali estava a mãe dela, o médico, a enfermeira, mais algumas pessoas desconhecidas, e pela fresta da porta do quarto até se vislumbrava Cora, com face conturbada, chorosa. Bernardo deitou novamente, fechou os olhos e pôs-se a chorar. Um choro calmo, sem sobressaltos, feito de lágrimas que descem calidamente e vão repousar eternamente no travesseiro, invisíveis. Um mundo inteiro de possibilidades, somatórias de fatores, movimentos, escolhas e livres-arbítrios o levara até aquela cama, mas um só desígnio fazia aquela vida valer a pena. Cada qual com o seu, cada qual responsável pelo seu pedaço de vida. Salvara-a, só isso importava. A presença de todos à sua volta o faziam recordar de sua humanidade. Bernardo não era mais um nada, achara, finalmente, sua ligação com o mundo. Abriu os olhos, deixou-os ser inundados com a luz hospitalar. Um novo começo, um futuro próximo e certo.

“De nada, mocinha…”.

6 comentários:

Bruna Mitrano disse...

V.H., nem sei o que dizer, tá muito bom.
Uma atitude que muda tudo, um momento que podia ter sido desprezado. O sentir-se vivo novamente.
Você expôs tanta coisa num único conto, sensações diversas. Gostei muito.

Laila disse...

Tenho a impressão de que você gosta de fazer contos em tempo não-linear. É ótimo: ficamos com a impressão de um suspense incessante e completamente presos às voltas da história.
Muito bom mesmo.
(E desta vez errei o palpite. Não era a filha dele - apesar de se parecer com ela)

A_for_Anetta disse...

Lindo, muito lindo. Estou realmente sem palavras, pelo texto em si, pela sua forma de se expressar, pela técnica e pela beleza. Você surpreende a cada conto.

"Por debaixo do manto que a embelezava, a cidade não passava de um amontoado de seres que não se suportavam" isso ficou na minha cabeça.

=***

Marina disse...

Gostei da parte "Com a bênção da lei, enfim declarados ex-marido e ex-mulher". Adoro essas expressões curiosas que aparecem de vez em quando nos seus textos. Sou péssima em narração por causa disso, acho que me faltam essas observações de efeito.

É uma bela história. Pensei que ele fosse morrer, mas acho que seria clichê demais para um texto seu. rs

Natália Oliveira disse...

Ah V.H., pq eu demoro tanto pra voltar aqui,né?..... textotá surpreedente, confesso que na hora em q ele fala com a ex-esposa, achei q tivesse sido um aborto, coisa de juventude sei lá. Ta muito bom,d vdd. Um abraço!

re disse...

..."Um choro calmo, sem sobressaltos, feito de lágrimas que descem calidamente e vão repousar eternamente no travesseiro, invisíveis".... Muito lindo! Com certeza vc será um excelente psicanalista, além de escritor. Vc capta e descreve com muita sensibilidade a humanidade das nossas "merdas".