2.5.09

O desígnio (parte I)

A já quase idosa Dona Alvida, como que por estranho prazer, soltou uma lágrima ou duas, e pôs-se a prosear sobre seu assunto favorito, sua vida sofrida:

“Mas o senhor sabe, lá em casa é eu mais três filho, num tem marido, num tem quem ajude, trabalho de doméstica e ganho uma merreca por mês, realmente é difícil demais…”.

Ao que uma voz sorumbática sentenciou, vinda de trás de uma mesa empilhada de papéis velhos:

“Isso não me interessa, senhora”.

Dona Alvida encolheu-se. Olhou para um lado, em seguida para o outro, como que a envergonhar-se da repreensão. Cogitou um barraco, deixava sempre claro a todos que não aceitava desaforo, mas a onipotência daquele homem sem alegria no rosto a alertava, ainda que instintivamente, a não soltar um pio. Ele prosseguiu:

“O documento da senhora sai em cinco dias, entendeu? Exatos cinco dias. Quando retornar, a senhora pode retirá-lo na secretaria, não precisa vir até mim. É só, senhora, até, obrigado, tchau”.

E a senhora obedeceu, cara amarrada.

Bernardo suspirou pesaroso. Afundou-se na cadeira velha e olhou a pilha de papéis velhos e as paredes descascadas de sua sala na repartição pública. Tomou o resto do café frio que jazia na xícara sem, no entanto, lhe opor qualquer crítica. Não era novidade que pensasse: “Odeio esse trabalho”.

O relógio acusava a hora do almoço, um alívio entre dois opressores períodos de pura burocracia. Levantou-se lépido, vestiu o sobretudo e saiu de cabeça baixa. Não queria dar ois ou forçar sorrisos.

Caminhava aleatoriamente entre as pessoas, quase uma sombra autônoma em plena luz do dia. Via rostos, olhos, narizes, orelhas, bocas, corpos aqui e acolá. O que o ligava ao resto do mundo? Não sabia fazer essa distinção. Ouso dizer, não se vislumbrava como ser humano. “O que é ser humano, afinal de contas?”. O caminho até o restaurante infestava-se de desconhecidos, pessoas cujos desígnios confrontavam-se com a passagem de Bernardo. Não passavam de uma somatória de fatores de movimentos e escolhas, prerrogativas do livre arbítrio, que os haviam levado a cruzar seu maldito caminho com o do nosso homem em questão. Escolhas e movimentos que, para Bernardo, nada tinham de individualidade, de pessoal. Era tão difícil pensar o outro como alguém. Eram só obstáculos, que trombavam, respiravam, falavam ao celular, comiam e corriam, beijavam e se despediam. Nada diferente de formigas, com seus afazeres, seus encontros e seu seguir em frente. Começou, então, a se sentir aflito, cercado. De dentro de si, uma onda de irritação ameaçava explodi-lo, até que tropeçou em algo.

“Cuidado por onde anda, criatura…!”.

E então percebeu que a criatura se tratava de uma pequena garota, de cabelos densamente cacheados, olhos grandes e vidrados, bochechas coradas e salientes. Era apenas uma criança e ameaçava chorar pelo susto do tropeço e pela rudeza do homem que lhe ralhava.

Bernardo emudeceu e seu desassossego tornou-se visível. Coçou a cabeça, olhou para os lados em busca de apoio, para baixo por vergonha, e para cima por não saber o que fazer. De qualquer maneira, não pôde evitar, sob muito esforço, um:

“Desculpa, mocinha…”. E foi sincero.

A mãe da menina surgiu de algum lugar e reprovou Bernardo com algum olhar censurador, mesmo sem ter visto nada do que ocorrera. Puxou sua filha pela mão e seguiu seu caminho, mas a menininha continuou olhando para trás, mão na boca, olhos curiosos e, por fim, como que convencida de que deveria proceder daquela maneira, abanou a mão para Bernardo, dando-lhe adeus.

Bernardo assistiu à despedida durante algum tempo, imóvel, vendo as duas desaparecem atrás de movimentos e escolhas, desígnios mecânicos e sem propósitos. Quando nada da garota lhe sobrou na vista, voltou a si, demorando ainda alguns segundos até se lembrar de que seu objetivo máximo era, por ora, chegar ao restaurante e aproveitar seu horário de almoço.

Durante a refeição, por vezes lembrava-se da visão da garotinha, tão educada e indulgente, e metia-se em pensamentos longínquos, que lhe caçavam a alma e o olhar e os lançavam numa profundidade perdida, inexplorada, onde guardava segredos que até a ele pareciam circundados de mistério. Mudara o foco do rabugentismo usual, embora não tivesse deixado de manifestar quietude e misantropia, para uma espécie de saudosismo perdido, com reflexos, inclusive, em um deslocado sorriso no canto de sua boca há tanto inutilizada, um sorriso quase imperceptível. Eram memórias.

Ao sair do restaurente, caminhou com ar vago até uma cabine telefônica. Na carteira de couro esfarelento achou um cartão telefônico, com sorte teria algumas unidades de crédito. Teclou os números que nunca haveriam de lhe escapar da memória e ao “alô” do outro lado da linha, após segundos de silêncio, resolveu responder “sou eu”, por falta de algo mais elaborado a dizer. Há horas, saliento, em que a loquacidade torna a existência inútil. Há pessoas (e entre elas momentos) que tornam o uso das palavras algo desnecessário. Para eles, basta um olhar, um suspiro, um gesto, e tudo está dito. Palavras em instantes assim estragam a magia do laço invisível que liga os seres humanos e constituem a quebra dessa capacidade de compreensão que extrapola a linguagem e nos envolve num mundo desconhecido de vivências e experiências marcantes entre dois ou mais seres pensantes.

A resposta de Bernardo, portanto, que deveria, numa concepção ideal, tornar existente a comunicação, além de dar-lhe seguimento, simplesmente produziu mais silêncio. Não esperando nada além disso, resolveu ir adiante, ainda econômico: “Preciso te ver, me encontre naquele lugar, às 18h30”. E desligou.

O resto do dia na repartição mostrou-se igual a qualquer outro dia em que trabalhava: maçante, improdutivo e, sobretudo, nada instrutivo. Acompanhava, dia após dia, inúmeras pessoas que simplesmente vinham atrás de algum documento, sem o qual suas vidas inúteis não poderiam prosseguir. Não lhes dispensava mais atenção do que mereciam nem tratamento mais digno do que lhes convinham para simplesmente terem um pedido satisfeito. O print e o carimbo, para Bernardo, nada mais eram do que o apertar de parafusos e o rosquear de porcas do século XXI, e já quase se julgava um insandecido Charles Chaplin. Pôde desligar-se daquele mundo de formalidades, contudo, pela simples lembrança de um aceno de mão.

Às 17h59 registrou sua saída no ponto eletrônico e às 18h24 já estava no topo do edifício ao qual dera, pela primeira vez, um longo beijo em sua ex-esposa. Nunca se esqueceria disso. Fora no entardecer do dia em que passeara com ela pela quarta vez, após conhecê-la em todos os gostosos detalhes que competem aos apaixonados saberem. Levara-a lá por conhecer o porteiro e adorar a vista que pertencia aquele lugar. Ventava forte e ele a agasalhara. À essa altura, sem trocadilho, ela já o fitava admirada, e para prolongar o irreal momento, confidenciou o desejo de debruçar-se sobre o parapeito da cobertura e olhar para baixo, com o intuito de conhecer a sensação. Ele segurou-lhe a mão e aos poucos ela foi inclinando a cabeça para baixo. Por gozação, Bernardo a sacudiu levemente e, com o susto, ela prontamente o agarrou buscando proteção, enfiando a cara no peito do rapaz. Foi o estopim. Quando voltaram a se encarar, não puderam evitar o beijo.

Era aquela vista vertiginosa que Bernardo buscava agora. A mesma vista que, embora fatal, nada mais fizera do que selar dois corações e aproximar dois desígnios, conquanto não tivesse o condão de enlaçá-los, como se comprovou mais tarde. Debruçou-se sobre o parapeito e olhou longamente para baixo. Tentador. Deixaria aquela queda lhe tragar com toda a volúpia do mundo. Sim, ah se deixaria! Pularia! Que se danassem todos os problemas do mundo, toda aquela falta de amor, toda a decepção e a degeneração dos bons dias, toda sua frustração…Pularia…

“Bernardo!”, gritou uma voz assustada atrás de si…

(CONTINUA)

________

Parte II, final

11 comentários:

R. disse...

UAU *-*
quando continuuuuar me avise!

meu Deus como consegue escrever TANTO e tão bem :D

Laila disse...

APOSTO que a ex-mulher é a mãe da menininha!!!
Esta história está, como sempre, maravilhosa. E dessa vez ainda mais empolgante que a outra série. Mal posso esperar pela continuação!

Bruna Mitrano disse...

Adoro teus narradores, teus protagonistas (a complexidade psicológica) e teus temas.

A ex-mulher foi?
Aguardo o próximo capítulo!

...

(só vou aceitar um elogio seu no dia em que eu conseguir escrever melhor que vc..rsrs)

A_for_Anetta disse...

Escritor na madrugada, ficou muito bom (por mais que meus elogios pareçam mais puxa-saquisse de namorada apaixonada mas eu admiro você de verdade, você deve saber disso). Espero ansiosa a continuação, como seus fãs (é bom que você pense neles quando tiver em crise, você tem talento, menino!)

beijo!

Natália Oliveira disse...

'Há pessoas (e entre elas momentos) que tornam o uso das palavras algo desnecessário. Para eles, basta um olhar, um suspiro, um gesto, e tudo está dito'. É só um pedacinho-inho do texto todo bom... Que bom conhecer suas letras!

Marina disse...

Ia citar o mesmo trecho da pessoa acima, mas desisti justamente por isso. Que fique registrado que adorei o trecho. Não vou elogiar o texto e coisa e tal porque estou esperando o final para concluir um pensamento. E que a escrita está impecável todo mundo já sabe. OK, agora vou parar de ser chata. Hehe.

Às vezes, me vejo no lugar do protagonista, fazendo um trabalho mecânico, sem perceber nem apreciar o que estou fazendo. Mas depois percebo que sou humana demais para me desligar totalmente das pessoas com as quais estou lidando. Não dá.

E penso comigo mesma... Às vezes, queria fazer qualquer coisa que não precisasse lidar com pessoas, pelo menos naquelas manhãs de segunda-feira em que você não está bem para fazer o bem. Mas você vai lá e faz.

Abraço e estou à espera do final.

Marina disse...

Agora que li o comentário de Laila acima... Se ela fosse a mãe da menininha, acho que ele a reconheceria, quando a viu na rua, não? O.O

Barbarella disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Barbarella disse...

oie..

não boicotei não..hahahahaha é que eu sou devagar mesmo.

mas você falar que eu tenho criatividade, poxa, queria ter metade da sua, que já estava de ótimo tamanho, além de você sempre escrever muito bem..

Mas esse Bernado hein... que estress... mas eu entendo ele, coisas da vida.

**

Fabio Rocha disse...

Nome de blog interessante. :)

luzia regina disse...

"... Há horas, saliento, em que a loquacidade torna a existência inútil. Há pessoas ....

Especialmente, todo este parágrafo que pincei um trechinho é muito lindo e extremamente poético.