8.5.09

Meus amigos

O seu Isidoro e a dona Vanda são meus ótimos amigos. Pelo menos assim o penso, pois eles tampouco me conhecem. Seu Isidoro e dona Vanda são um casal já idoso, no sentido enrugado da palavra, e, embora devam conhecer milhares de pessoas na relativamente nova cidade de Londrina, eles, provavelmente, nunca sequer me viram.

Aliás, é quase engraçado pensar que são mais velhos que a própria cidade em que vivem, que só possui 74 anos. O casal, contudo, deve ter lá seus 85 anos, vividos respiração após respiração.

Se eles não me conhecem, como posso chamá-los de amigo, então? vocês devem estar se perguntando. Não, já adianto que não sou carente e que muito menos possuo amigos imaginários. O simpático casal de velinhos existe de fato, quiçá até de direito. Com certeza não se chamam Isidoro e Vanda. Se chamassem, eu seria paranormal, e estaria apostando já na semana que vem na mega-sena. Isidoro e Vanda são nomes que eu inventei para eles, por falta de não lhes saber os nomes reais, e achei que assim combinava mais, não combina? Sintam-se à vontade para lhes chamar como lhes aprouverem.

O único contato que tenho com seu Isidoro e dona Vanda é através de uma janela encardida de ônibus, por exatos cinco segundos. Explico melhor, se é isto que todos querem, explicação: ao sair do estágio, ao não ser agraciado com alguma bondosa carona de companheiros de trabalho, pego um ônibus. Não pode ser qualquer ônibus, tem de ser um ônibus que passe ao lado da rua em que moro, para que eu evite perda de tempo. Tais ônibus, por obra do destino, passam numa determinada avenida, onde há uma casa antiga, bem cuidada, ainda inteirona, ares de anos 60/70, com jardim na frente e azulejos antigos na fachada, daqueles que não existem mais. Por exatos cinco segundos posso vislumbrar um casal de velhinhos sentados em cadeiras rústicas, na frente da casa, a olhar a movimentação da agitada avenida na hora do rush. Contemplam a cena pacientemente e de mãos dadas um ao outro.

São meus amigos. Seu Isidoro e dona Vanda. Amam-se tanto que durante os últimos trinta anos eles repetem o mesmo ato todo dia: após tomar seu café da tarde, sentam-se em suas cadeiras prediletas na frente de sua propriedade (que há tanto lhes pertence!) e ficam a admirar o cotidiano, quem sabe, por meia hora ou hora inteira, sem desgrudar as mãos, sem desenlaçar os dedos. Mal imaginam que desde abril de 2009 (“nunca imaginamos que chegaríamos até aqui, Vandinha…”) um rapaz lhes prestasse atenção e nutrisse por eles um sincero carinho.

Sou capaz disso pois seu Isidoro e dona Vanda estão ali por períodos que desconheço. Quantas mudanças não foram presenciadas por seus olhos? Quantos retratos de cidade e de vida já não lhes passaram pelas retinas? Com sua complacência, meu casal de amigos é mais sábio do que qualquer eremita isolado em topos de montanha, ou monges que fecham seus olhos para procurar dentro de si o que a vida lhes dispõe do lado de fora.

Já imaginaram vocês o que é olhar o mundo seguidamente e lhe notar as nuances, nos mais delicados detalhes? Talvez jamais paremos para agir dessa maneira.

Apenas um casal de velhinhos, sentados, quietos, faces para frente, rostos lívidos e curiosos, mãos entrelaçadas. Mãos entrelaçadas por tanto tempo…

São meus ótimos amigos.

6 comentários:

Bruna Mitrano disse...

Quero amigos como Seu Isidoro e Dona Vanda, não vou mudar os nomes não, muito bons esses, nomes de vô e vó.

"no sentido enrugado da palavra" ficou sensacional!

Essa calma dos velhos nos ensina tanta coisa. Muito lindos teus amigos.

Marina disse...

Queria acabar minha vida assim, um dia; com alguém sentado sempre ao meu lado, de mãos entrelaçadas, apreciando as mudanças do mundo. Ainda acrescento: com a casa cheia de filhos e netos, nos almoços de domingo. Não tenho inveja dos seus amigos, ainda. Espero nunca ter.

"No sentido enrugado da palavra" foi mesmo ótimo!

Laila disse...

Eu também nutro certa simpatia por velhinhos. Tem uma senhora que eu considero uma "amiga desconhecida". Ela passa todos os dias pela rua do colégio mais ou menos no mesmo horário. Não sei o que ela faz, mas parece que tudo nela exala classe e elegância. Não confundir com dinheiro: parece estar escrito nas roupas dela que ela é pobre, mas ela a da de um jeito, olha as pessoas e o mundo de um jeito que parece uma rainha.

Henrique Hemidio disse...

Bom texto!

luzia regina disse...

Lá no meu antigo local de trabalho, na rua que eu diariamente estacionava, também descobri um casal de velhinhos, 92 e 88 anos, Dona Alma e "Senhorzinho" - eu o chamava assim pq não conseguia guardar o nome dele, ela fumava e ele lia jornal todas as manhãs..., aparentemente um casal cheio de raguetices. Acabei parando conversando, me preocupando com eles, com a ausência dela quando estava no hospital e hoje tão longe daquela rua sinto muita falta destas criaturinhas que eu não encontro mais. As vezes nós passamos, encostamos e nos afastamos, ficamos somente a olhar ou a recordar... é mais fácil.

A_for_Anetta disse...

Lindo texto, Victor. Muito bem escrito, você tem evoluido muito!

Sua linguagem chega a ser fotográfica, juro que consegui ver o casalzinho sentado na casa antiga. Você deveria escrever roteiros, fikdik!

=***