16.5.09

O desígnio (parte II – final)

Leia a parte I.

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Bernardo estancou. Não dispôs-se, contudo, a se virar. A mulher que acabara de gritar seu nome, agora mais tranquila e menos arfante, voltou a falar atrás de si:

“Bernardo, seu doido…você iria pular?!”.

Ele volveu aos poucos, revelando o esgar num sorriso deslocado:

“Você acha mesmo que eu faria isso, Cora?”.

“Eu não sei. Talvez você esteja louco!”, sugeriu Cora, parecendo se irritar pelo comportamento do ex-marido.

“Talvez…”, murmurou, ainda carregando sarcasmo em seu sorriso de canto.

Cora respirou fundo. Ignoraria. Cansara de brigas com aquele homem, ali na sua frente estava somente mais um sujeito qualquer. Não possuía mais paciência para tolerar provocações. Foi com um suspiro que resolveu indagar:

“Por que me chamou até aqui, Bernardo?”.

“Eu…”, e ele tornou-se sério, “as possibilidades passam pela sua cabeça de vez em quando, Cora? Você imagina como tudo seria diferente se…? você sabe”.

Cora permaneceu em silêncio por alguns segundos, pensativa.

“Não…”.

“Não minta!”, irritou-se Bernardo, “Você sabe exatamente que tudo seria diferente, seríamos felizes, não estaríamos onde estamos!”.

“E onde estamos, Bernardo?”

“Na merda. Irritados, frustrados, ansiosos…na merda!”.

“Esse é o problema, Bernardo. Você está assim. Eu estou bem”, deteu-se por pouco tempo, analisando as consequências do que falaria, e prosseguiu: “Eu… eu tenho uma nova pessoa. É isso, contei. Gostaria que você não me incomodasse mais… agora se me dá li…”.

“…Vi uma garotinha hoje, Cora”. Ele não a ouvia,  “Tinha cachos, como você, como ela, mas era mais branquela. Eu tropecei nela, pedi desculpas, ela ficou me encarando, deu tchau, quase chorou. Você entende o que eu sinto, Cora?”. E reprimiu uma única lágrima que teimava em querer rolar sua face.

Cora observou-o atentamente, expressando incomensurável tristeza em seu rosto. Por fim, desabafou:

“Bernardo, isso tudo é passado. Nossa filha morreu. Morreu, entendeu? Você não faz idéia do que eu passei para ter noção disso, para me dar conta de como as coisas são, mas agora tudo está claro. Ela se foi, assim como nós. Acabou!”.

“Preciso da sua ajuda, Cora. Preciso. Quero aquela vida de volta. As possibilidades… preciso do seu perdão!”.

Cora se aproximou de Bernardo. A noite já se cerrara sobre os dois e uma amarelada lua os iluminava majestosa. Encararam-se demoradamente. Enfim, ela abraçou-o, sentindo sua camisa umedecer pelas lágrimas dele. Afastou-o carinhosamente e disse:

“Você tem que superar, Bernardo. Não estamos mais juntos nessa… Adeus”.

E foi embora, aliviada.

Bernardo observou-a ir-se, sentindo nos ombros o peso de todos os seus erros e de seu passado. Após alguns segundos que lhe pareceram séculos, aproximou-se mais uma vez do parapeito que o separava por vinte andares do chão. Olhou a lua e a rua. Não chorava mais.

“Na merda…”. E se dirigiu ao elevador.

Ao sair do prédio, andou ainda alguns quarteirões sem rumo, observando a mecanicidade daqueles robôs que o cercavam, obscurecidos por suas máscaras de normalidade, em contraste com as luzes das fachadas comerciais. Na cidade tudo parecia tão caloroso, o conglomerado humano, pronto para a inter-relação, as experiências de vida. Não. Tudo aquilo era um engano. Sob a falsa aparência cosmopolita, jazia, na cidade, a rigidez mais fria dos modos de se relacionar, uma ditadura do como se portar, os standards e status. Nada mais era natural, tampouco as emoções. Um mundo de seguranças e nenhuma possibilidade, a ordem era minimizar riscos. Bernardo deprimia-se por notar que por debaixo do manto que a embelezava, a cidade não passava de um amontoado de seres que não se suportavam. Passou a sentir nojo até mesmo da calçada em que pisava.

“Com que intuito ainda mantemos a sociedade?”, gritou olhando para o alto, assustando meia dúzia de transeuntes.

Dirigia-se para um ponto de ônibus quando a avistou do outro lado da rua. Apertou os olhos para enxergar melhor. Cabelos cacheados, faces coradas, a mão atada ao cuidado atroz da mãe. Era ela! A garotinha que lhe acenara. Parou. Alegrara-se em vê-la e, após breve decisão, pôs-se a segui-la cuidadosamente, tal qual silenciosa sombra.

Qual o motivo? Não saberia dizer. Simplesmente gostaria de ver a pequena criatura por mais tempo, perceber-lhe os mínimos detalhes. Não faria mal a ninguém.

Elas entraram numa cafeteria. Após alguns minutos, copiou-as, cabeça baixa, sentando em qualquer lugar que o permitisse vislumbrar a menina. Da cadeira em que estava, conseguia olhá-la transversalmente e, com sorte, não poderia ser notado. Pediu um expresso para não levantar suspeitas. Sorvia o amargor daquele café desatenciosamente: todo o seu ser transigia em atenção para aqueles cachos, aquela palidez, os dedinhos. Para ele, aqueles traços eram os mais belos. Quanta graça poderia haver em apenas uma coisinha! Mas tudo aquilo…

…tudo aquilo era apenas parecido com sua falecida filha. Não competia a Bernardo lembrar de sua morte neste momento. Já enterrara aquele episódio nas profundezas do esquecimento: seu Tártaro pessoal. E apesar de sua inexistência, como poderia fazer-se ainda tão presente? Mesmo naquela outra criança. Ali estavam suas características. Por vezes, as duas confundiam-se. Uma era outra. Em certo momento, eram a mesma pessoa. Aquela criança era sua filha.

Não. Ele sabia que não era sua filha. Pareciam-se somente. Sua filha estava morta. “Nossa filha morreu”, disse Cora. Um soco não teria sido mais brutal. Cora era passado. Sua filha era passado. O que restara ao presente de Bernardo? Merda? E quanto ao futuro? Nada? O certo era que aquela não era sua filha. Deveria se recompor, estava seguindo uma garotinha. Que espécie de homem era? Perturbou-se.

Correu ao banheiro e se olhou no espelho sujo. Por um átimo de segundo teve medo de não se ver refletido ali, o que seria natural, já que ele nada significava atualmente. Por que alguém invisível haveria de ter reflexo? Uma espécie de homem invisível, o nosso Bernardo: desaparecido atrás de uma mesa apilhada de papéis, destruído em meio a um relacionamento fracassado, morto após a perda de seu bem mais precioso. Como chegara a tal ponto? Conseguia se lembrar claramente de outros tempos: uma casa bonita, bem decorada. Havia um jardim, anões de cerâmica. Haveria um cachorro? Parece que sim, mas só durante algum tempo, ele não gostara das sujeiras do animal. Ah, ali estava sua esposa. Tão bela. Cora sempre fora bela. Amavam-se. E no colo de Cora havia aquele bebê, todo manhoso, que sempre ria ao ver o pai. Lembrava de criar aquele bebê com todo o zelo possível. Dia após dia, fralda após fralda. Ela cresceu, era já uma garotinha, sapeca. Muitos cachos, belos cachos negros. E então… simplesmente se fora. Morta. Sabia que estava morta, pois havia um atestado de óbito. Entendia de documentos. Era seu trabalho. Os documentos não mentem: rígidos em forma, seguros como prova. A filha estava morta. Havia também outro documento. Sim. A sentença do juiz, o mandado de averbação, uma certidão de separação. Daqui algum tempo, tinha certeza, seria interpelado por sua mulher. Ex-mulher. Ela irá pedir o divórcio. Insistirá que seja consensual. Não vivem mais juntos. Já partilharam os bens. Não há filhos. Tudo está certo para que dissolvam o amor, o casamento, uma existência. Com a bênção da lei, enfim declarados ex-marido e ex-mulher. Não há mais sua filha, somente uma garotinha ali, tomando milk-shake de cappuccino, cria de outro ser.

Não há mais nada na vida de Bernardo, há não ser a azeda esperança de uma vida melhor, num futuro longínquo e incerto.

Riu sem graça para si mesmo no espelho. Censurou-se pelo drama. Estava para se decidir quanto a algo, quando ouviu barulhos vindos da cafeteria. Uma gritaria, voz grossa, de homem. Alguns gritos desesperados, de mulheres. Distinguiu palavras: “passa”, “dinheiro”, “chão”. Era um assalto.

“Aí está o sucesso do contrato social”, pensou consigo mesmo, irônico. A digressão, porém, abalou-o. Não parecia conveniente que pensasse aquilo. Ali, provavelmente sob a mira de uma arma, chorando, estava sua filha. Não, não era sua filha, diabos. Que seja, havia uma garota ali, correndo perigo. De que adiantaria idealizar o mundo e os humanos se as coisas eram como eram?

O que teria feito se tivesse a chance de impedir que sua filha morresse?

Olhou novamente o espelho, ficando surpreso com a imagem refletida. Abriu os olhos com espanto. Desde quando estava ali? Parecia ter acordado neste exato momento. Sim, ele estava ali, achara-se. Um propósito, um desígnio.

Escancarou a porta do banheiro com um forte chute. O bandido, mais assustado que qualquer um no lugar, apenas um selvagem desesperado, pulou ao se dar conta de que havia mais uma pessoa ali. Como previsto, estava ameaçando a garotinha, que não parava de chorar. Mandava-a calar a boca, alternando a direção da arma da menina para sua mãe, que a agarrara.

Bernardo, resignado, caminhava rígido na direção do marginal. Encarava-o odiosamente, a ponto de trucidá-lo em pensamento. Arma em punho, o bandido mandou-lhe parar:

“Quietinho aí, irmão! Pra trás!”.

Ordenou novamente, sem efeito. Bernardo continuou caminhando, passos duros. Uma bala então voou, em meio a estrépido barulho, atingindo Bernardo no ombro. Ele se deteve por segundos. Olhou seu ombro, sangrava, olhou o bandido. Era novamente aquela sensação diante do parapeito do prédio: que tudo se danasse! Continuou andando. Outra bala voou, mas o marginal errara. A essa altura, já temia Bernardo como a um demônio. Vacilou, espantado por ter errado de tão perto o tiro. Foi a oportunidade de Bernardo, que pulou em cima dele. Babava de raiva. Começou a socar o bandido fervorosamente. Uma. Duas. Três. Quatro. Cinco. Seis vezes. Cada golpe um surdo som a preencher o ar, a perturbar a consciência de todos que assistiam ao massacre, a desconstituir a feição daquele que apanhava. Ao se cansar, Bernardo respirou por algum tempo, tomando folêgo para recomeçar: batia agora a cabeça do meliante contra o chão. Uma. Duas. Três. Quatro vezes. O sangue coloria o chão e as mãos de Bernardo. Sob si uma massa pastosa borbulhava em meio a sangue, osso e carne. Matara o assaltante.

Desmaiou.

Somente quem já esteve numa cama de hospital saberá a que me refiro. Acho graça de todas as histórias sobre a luz no fim do túnel, ou sobre a luz que convoca a pessoa quando esta está no limiar da morte. Não há luz no fim da vida. Há somente o ambiente hospitalar, suas fortes luzes e sua fixação pelo branco. De fato, quem acorda numa cama de hospital, sente-se ou em fim de vida ou no começo doutra. É ali onde são feitas promessas: “mudarei, prometo”. Ou onde se agradece pela nova oportunidade. Ou, ainda, onde se amaldiçoa todo o trabalho de Deus. A única luz é a do hospital, com seu ar divino, a revelar às pessoas: você está numa cama, descanse, e depois vá viver novamente.

Foi nesse estado em que Bernardo acordou. Meio tonto. Desorientado pela forte luz, as pupilas ainda muito dilatadas. Jurou ter visto sua filha ao seu lado. Estaria lhe guardando a alma, como um anjo?

“Oi, moço, você está acordado?”, perguntou uma doce voz.

Bernardo esfregou os olhos e abriu-os de vez. Ali estava a garotinha, observando-o curiosa, grandes olhos.

“Agora sim…”, respondeu.

“Meu nome é Victoria, obrigado por me salvar!”, e deu-lhe timidamente um beijo na bochecha.

Victoria… e ali estava a mãe dela, o médico, a enfermeira, mais algumas pessoas desconhecidas, e pela fresta da porta do quarto até se vislumbrava Cora, com face conturbada, chorosa. Bernardo deitou novamente, fechou os olhos e pôs-se a chorar. Um choro calmo, sem sobressaltos, feito de lágrimas que descem calidamente e vão repousar eternamente no travesseiro, invisíveis. Um mundo inteiro de possibilidades, somatórias de fatores, movimentos, escolhas e livres-arbítrios o levara até aquela cama, mas um só desígnio fazia aquela vida valer a pena. Cada qual com o seu, cada qual responsável pelo seu pedaço de vida. Salvara-a, só isso importava. A presença de todos à sua volta o faziam recordar de sua humanidade. Bernardo não era mais um nada, achara, finalmente, sua ligação com o mundo. Abriu os olhos, deixou-os ser inundados com a luz hospitalar. Um novo começo, um futuro próximo e certo.

“De nada, mocinha…”.

8.5.09

Meus amigos

O seu Isidoro e a dona Vanda são meus ótimos amigos. Pelo menos assim o penso, pois eles tampouco me conhecem. Seu Isidoro e dona Vanda são um casal já idoso, no sentido enrugado da palavra, e, embora devam conhecer milhares de pessoas na relativamente nova cidade de Londrina, eles, provavelmente, nunca sequer me viram.

Aliás, é quase engraçado pensar que são mais velhos que a própria cidade em que vivem, que só possui 74 anos. O casal, contudo, deve ter lá seus 85 anos, vividos respiração após respiração.

Se eles não me conhecem, como posso chamá-los de amigo, então? vocês devem estar se perguntando. Não, já adianto que não sou carente e que muito menos possuo amigos imaginários. O simpático casal de velinhos existe de fato, quiçá até de direito. Com certeza não se chamam Isidoro e Vanda. Se chamassem, eu seria paranormal, e estaria apostando já na semana que vem na mega-sena. Isidoro e Vanda são nomes que eu inventei para eles, por falta de não lhes saber os nomes reais, e achei que assim combinava mais, não combina? Sintam-se à vontade para lhes chamar como lhes aprouverem.

O único contato que tenho com seu Isidoro e dona Vanda é através de uma janela encardida de ônibus, por exatos cinco segundos. Explico melhor, se é isto que todos querem, explicação: ao sair do estágio, ao não ser agraciado com alguma bondosa carona de companheiros de trabalho, pego um ônibus. Não pode ser qualquer ônibus, tem de ser um ônibus que passe ao lado da rua em que moro, para que eu evite perda de tempo. Tais ônibus, por obra do destino, passam numa determinada avenida, onde há uma casa antiga, bem cuidada, ainda inteirona, ares de anos 60/70, com jardim na frente e azulejos antigos na fachada, daqueles que não existem mais. Por exatos cinco segundos posso vislumbrar um casal de velhinhos sentados em cadeiras rústicas, na frente da casa, a olhar a movimentação da agitada avenida na hora do rush. Contemplam a cena pacientemente e de mãos dadas um ao outro.

São meus amigos. Seu Isidoro e dona Vanda. Amam-se tanto que durante os últimos trinta anos eles repetem o mesmo ato todo dia: após tomar seu café da tarde, sentam-se em suas cadeiras prediletas na frente de sua propriedade (que há tanto lhes pertence!) e ficam a admirar o cotidiano, quem sabe, por meia hora ou hora inteira, sem desgrudar as mãos, sem desenlaçar os dedos. Mal imaginam que desde abril de 2009 (“nunca imaginamos que chegaríamos até aqui, Vandinha…”) um rapaz lhes prestasse atenção e nutrisse por eles um sincero carinho.

Sou capaz disso pois seu Isidoro e dona Vanda estão ali por períodos que desconheço. Quantas mudanças não foram presenciadas por seus olhos? Quantos retratos de cidade e de vida já não lhes passaram pelas retinas? Com sua complacência, meu casal de amigos é mais sábio do que qualquer eremita isolado em topos de montanha, ou monges que fecham seus olhos para procurar dentro de si o que a vida lhes dispõe do lado de fora.

Já imaginaram vocês o que é olhar o mundo seguidamente e lhe notar as nuances, nos mais delicados detalhes? Talvez jamais paremos para agir dessa maneira.

Apenas um casal de velhinhos, sentados, quietos, faces para frente, rostos lívidos e curiosos, mãos entrelaçadas. Mãos entrelaçadas por tanto tempo…

São meus ótimos amigos.

2.5.09

O desígnio (parte I)

A já quase idosa Dona Alvida, como que por estranho prazer, soltou uma lágrima ou duas, e pôs-se a prosear sobre seu assunto favorito, sua vida sofrida:

“Mas o senhor sabe, lá em casa é eu mais três filho, num tem marido, num tem quem ajude, trabalho de doméstica e ganho uma merreca por mês, realmente é difícil demais…”.

Ao que uma voz sorumbática sentenciou, vinda de trás de uma mesa empilhada de papéis velhos:

“Isso não me interessa, senhora”.

Dona Alvida encolheu-se. Olhou para um lado, em seguida para o outro, como que a envergonhar-se da repreensão. Cogitou um barraco, deixava sempre claro a todos que não aceitava desaforo, mas a onipotência daquele homem sem alegria no rosto a alertava, ainda que instintivamente, a não soltar um pio. Ele prosseguiu:

“O documento da senhora sai em cinco dias, entendeu? Exatos cinco dias. Quando retornar, a senhora pode retirá-lo na secretaria, não precisa vir até mim. É só, senhora, até, obrigado, tchau”.

E a senhora obedeceu, cara amarrada.

Bernardo suspirou pesaroso. Afundou-se na cadeira velha e olhou a pilha de papéis velhos e as paredes descascadas de sua sala na repartição pública. Tomou o resto do café frio que jazia na xícara sem, no entanto, lhe opor qualquer crítica. Não era novidade que pensasse: “Odeio esse trabalho”.

O relógio acusava a hora do almoço, um alívio entre dois opressores períodos de pura burocracia. Levantou-se lépido, vestiu o sobretudo e saiu de cabeça baixa. Não queria dar ois ou forçar sorrisos.

Caminhava aleatoriamente entre as pessoas, quase uma sombra autônoma em plena luz do dia. Via rostos, olhos, narizes, orelhas, bocas, corpos aqui e acolá. O que o ligava ao resto do mundo? Não sabia fazer essa distinção. Ouso dizer, não se vislumbrava como ser humano. “O que é ser humano, afinal de contas?”. O caminho até o restaurante infestava-se de desconhecidos, pessoas cujos desígnios confrontavam-se com a passagem de Bernardo. Não passavam de uma somatória de fatores de movimentos e escolhas, prerrogativas do livre arbítrio, que os haviam levado a cruzar seu maldito caminho com o do nosso homem em questão. Escolhas e movimentos que, para Bernardo, nada tinham de individualidade, de pessoal. Era tão difícil pensar o outro como alguém. Eram só obstáculos, que trombavam, respiravam, falavam ao celular, comiam e corriam, beijavam e se despediam. Nada diferente de formigas, com seus afazeres, seus encontros e seu seguir em frente. Começou, então, a se sentir aflito, cercado. De dentro de si, uma onda de irritação ameaçava explodi-lo, até que tropeçou em algo.

“Cuidado por onde anda, criatura…!”.

E então percebeu que a criatura se tratava de uma pequena garota, de cabelos densamente cacheados, olhos grandes e vidrados, bochechas coradas e salientes. Era apenas uma criança e ameaçava chorar pelo susto do tropeço e pela rudeza do homem que lhe ralhava.

Bernardo emudeceu e seu desassossego tornou-se visível. Coçou a cabeça, olhou para os lados em busca de apoio, para baixo por vergonha, e para cima por não saber o que fazer. De qualquer maneira, não pôde evitar, sob muito esforço, um:

“Desculpa, mocinha…”. E foi sincero.

A mãe da menina surgiu de algum lugar e reprovou Bernardo com algum olhar censurador, mesmo sem ter visto nada do que ocorrera. Puxou sua filha pela mão e seguiu seu caminho, mas a menininha continuou olhando para trás, mão na boca, olhos curiosos e, por fim, como que convencida de que deveria proceder daquela maneira, abanou a mão para Bernardo, dando-lhe adeus.

Bernardo assistiu à despedida durante algum tempo, imóvel, vendo as duas desaparecem atrás de movimentos e escolhas, desígnios mecânicos e sem propósitos. Quando nada da garota lhe sobrou na vista, voltou a si, demorando ainda alguns segundos até se lembrar de que seu objetivo máximo era, por ora, chegar ao restaurante e aproveitar seu horário de almoço.

Durante a refeição, por vezes lembrava-se da visão da garotinha, tão educada e indulgente, e metia-se em pensamentos longínquos, que lhe caçavam a alma e o olhar e os lançavam numa profundidade perdida, inexplorada, onde guardava segredos que até a ele pareciam circundados de mistério. Mudara o foco do rabugentismo usual, embora não tivesse deixado de manifestar quietude e misantropia, para uma espécie de saudosismo perdido, com reflexos, inclusive, em um deslocado sorriso no canto de sua boca há tanto inutilizada, um sorriso quase imperceptível. Eram memórias.

Ao sair do restaurente, caminhou com ar vago até uma cabine telefônica. Na carteira de couro esfarelento achou um cartão telefônico, com sorte teria algumas unidades de crédito. Teclou os números que nunca haveriam de lhe escapar da memória e ao “alô” do outro lado da linha, após segundos de silêncio, resolveu responder “sou eu”, por falta de algo mais elaborado a dizer. Há horas, saliento, em que a loquacidade torna a existência inútil. Há pessoas (e entre elas momentos) que tornam o uso das palavras algo desnecessário. Para eles, basta um olhar, um suspiro, um gesto, e tudo está dito. Palavras em instantes assim estragam a magia do laço invisível que liga os seres humanos e constituem a quebra dessa capacidade de compreensão que extrapola a linguagem e nos envolve num mundo desconhecido de vivências e experiências marcantes entre dois ou mais seres pensantes.

A resposta de Bernardo, portanto, que deveria, numa concepção ideal, tornar existente a comunicação, além de dar-lhe seguimento, simplesmente produziu mais silêncio. Não esperando nada além disso, resolveu ir adiante, ainda econômico: “Preciso te ver, me encontre naquele lugar, às 18h30”. E desligou.

O resto do dia na repartição mostrou-se igual a qualquer outro dia em que trabalhava: maçante, improdutivo e, sobretudo, nada instrutivo. Acompanhava, dia após dia, inúmeras pessoas que simplesmente vinham atrás de algum documento, sem o qual suas vidas inúteis não poderiam prosseguir. Não lhes dispensava mais atenção do que mereciam nem tratamento mais digno do que lhes convinham para simplesmente terem um pedido satisfeito. O print e o carimbo, para Bernardo, nada mais eram do que o apertar de parafusos e o rosquear de porcas do século XXI, e já quase se julgava um insandecido Charles Chaplin. Pôde desligar-se daquele mundo de formalidades, contudo, pela simples lembrança de um aceno de mão.

Às 17h59 registrou sua saída no ponto eletrônico e às 18h24 já estava no topo do edifício ao qual dera, pela primeira vez, um longo beijo em sua ex-esposa. Nunca se esqueceria disso. Fora no entardecer do dia em que passeara com ela pela quarta vez, após conhecê-la em todos os gostosos detalhes que competem aos apaixonados saberem. Levara-a lá por conhecer o porteiro e adorar a vista que pertencia aquele lugar. Ventava forte e ele a agasalhara. À essa altura, sem trocadilho, ela já o fitava admirada, e para prolongar o irreal momento, confidenciou o desejo de debruçar-se sobre o parapeito da cobertura e olhar para baixo, com o intuito de conhecer a sensação. Ele segurou-lhe a mão e aos poucos ela foi inclinando a cabeça para baixo. Por gozação, Bernardo a sacudiu levemente e, com o susto, ela prontamente o agarrou buscando proteção, enfiando a cara no peito do rapaz. Foi o estopim. Quando voltaram a se encarar, não puderam evitar o beijo.

Era aquela vista vertiginosa que Bernardo buscava agora. A mesma vista que, embora fatal, nada mais fizera do que selar dois corações e aproximar dois desígnios, conquanto não tivesse o condão de enlaçá-los, como se comprovou mais tarde. Debruçou-se sobre o parapeito e olhou longamente para baixo. Tentador. Deixaria aquela queda lhe tragar com toda a volúpia do mundo. Sim, ah se deixaria! Pularia! Que se danassem todos os problemas do mundo, toda aquela falta de amor, toda a decepção e a degeneração dos bons dias, toda sua frustração…Pularia…

“Bernardo!”, gritou uma voz assustada atrás de si…

(CONTINUA)

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Parte II, final