14.3.09

A voz que enche e esvai

Sendo bem instruído, sabia corretamente pensar em Einstein enquanto a moeda subia lentamente, em movimento circular. Não subia lenta, obviamente, apenas o tempo era relativo, como preceituava o cientista. Relativo em sua capacidade de abrigar em tensão uma estréia no campo, o grito ensurdecedor da torcida, a cara de poucos-amigos dos capitães à sua frente e, não por menos, toda a insegurança de que poderia dispor aos seus 25 anos: isso tornava o tempo devagar para um juiz estreante. A moeda subiu, acompanhada de, ao menos, três olhares. E desceu, em toda sua glória de câmera lenta, vindo a repousar na fofa grama.

Aos olhos de Otávio e dos capitães que o acompanhavam, a sorte bradava: "Coroa!". "Bola", escolheu o goleiro-capitão vencedor. Sem escolha, preferiu o aclamado centroavante do outro time decidir por permanecer do lado do campo em que estava, onde gozava de boa sombra.

Acatando o formalismo de praxe, Otávio pregou-lhes um pequeno sermão, exigindo bom comportamento no jogo e prometendo coibir qualquer tentativa de deslealdade. Tentou não vacilar em voz e, ao mesmo tempo, passar um tom de companheirismo aos capitães, no que obteve um condescendente olhar de aprovação por parte dos representantes de cada time.

Posições tomadas. Bola no centro. Otávio deu uma olhada para os bandeirinhas, tudo ok; para o quarto árbitro, tudo ok. Nos bancos de reservas, tudo ok. Tudo parecia correto.

Cedendo a um instinto que nos faz olhar para baixo quando andamos pela corda bamba, Otávio vistoriou toda a extensão da arquibancada do estádio, girando sobre si. Uma massa uniforme dividida em duas cores digladiava-se numa guerra de hinos e coros, produzindo um só som, uma voz única, vibrante em seu poder de comunhão, escancarando a tensão de um clássico. Otávio sentiu-se diminuto, o que tentou reverter lembrando-se a si mesmo do poder de sua função, da autoridade que possuía ali dentro. Sabia, contudo, que sua origem era ali muito difamada, "coitada de minha mãe...", pensou. Será que se estivesse viva o apoiaria nessa escolha impulsiva de se tornar árbitro de futebol?

Por um átimo, pensou no desenlace que advira de um momento de dúvida: seguir uma carreira convencional? trabalhar? estudar? O pai, antes do acidente que o vitimara e junto sua mãe, o queria advogado, a mãe o queria feliz, ele não sabia o que queria, até que numa loucura qualquer decidiu enveredar pela seara da arbitragem. Curso após curso, jogo de várzea após jogo de várzea: série C, série B, campeonatos menores. Ascendeu, e com seus 25 anos chegara ali, numa grande partida. Orgulhava-se do fato de ter chegado nalgum lugar sem seus guias. Estaria feliz?

Apitou o início da partida.

Esse instante antes do apito inicial era singular para Otávio. Invadia-lhe um embrulho em toda a extensão de seu já enrolado intestino, seu coração parecia comprimir-se em busca de proteção, num único ponto, temeroso de bater uma vez mais sequer, sua respiração tornava-se fictícia, onde estava o ar? Como mantinha-se vivo assim? A resposta é que por ora e em todo jogo, supunha que só com o descomunal esforço de apitar com o fôlego que lhe restava o apito conseguiria se livrar daquela angustiante sensação. E então sobrevinha o efeito cascata: o tempo vagaroso apressava-se em correr para compensar sua anterior lentidão, o coração batia lépido, a respiração vinha em jorros, esquecia o embrulho no estômago e no intestino. O mundo se deslocava dele próprio para a bola, agora rolando; de seu umbigo para os jogadores sob sua custódia, sob o manto de suas decisões, o agasalho da justiça.

A partir daí, o resto era, para ele, de extrema facilidade. Corria, acompanhava de perto cada jogada, desviava de bolas que vinham em sua direção, apitava a infração, estufava seu peito, alongava sua coluna, sacava suas armas, uma vermelha, uma amarela, de passos firmes contava a distância da bola à barreira, era um paladino, um pilar de moderação entre forças díspares, em combate.

No final de cada partida, desagradava 50% de todos os presentes no estádio. Por diversas vezes culpavam-lhe pela derrota. Por apenas duas vezes no passado, em 147 partidas, seu erro havia interferido no resultado do jogo. E apenas ele tinha noção disso. Fora de sua consciência, seus erros haviam tomado ares de ingenuidade, ninguém ligava para aquilo, era um bom juiz, ninguém notara suas escorregadas. Um prodígio.

Era nessa atmosfera de consagração que permeava seu pensamento sobre o futebol: alegria. Um meio de reunir as massas, de planificar desejos, de encontrar identidade entre raças, credos, e classes diferentes. Futebol era a arma da paz. Como se regozijava ao ver as pessoas discutindo o esporte, passando suas impressões, desenvolvendo pensamento crítico quanto a atuações e dinâmicas de times, cartolas, jogadores. Agora até as mulheres gostavam de futebol. Futebol não via fronteiras, era a unificação tão almejada pelos humanistas. Um fenômeno estudado até por sociólogos.

Triste, entretanto, é o poder de um acontecimento. Um único acontecimento que, isolado, desdobra-se numa conjuntura de efeitos, movimentos e ações, que culmina num resultado ou em alguns deles. Maior que o poder da capacidade humana de construir algo com base em ideais de comunhão, é a capacidade do tempo e do ocaso de destruir tudo assistidos pela ordem natural das coisas.

É um desses acontecimentos que irá matar Otávio em menos de quatro horas.

Pensa que é apenas mais um lance do jogo, uma circunstância: não entende que a mão que o zagueiro usa disfarçadamente para afastar a bola do gol é a mesma que segurará a pá que jogará terra sobre seu caixão. Ouvem-se gritos, Otávio não viu nada, viu apenas a bola bater na barriga do zagueiro, o auxiliar também não enxergou nada, estava encoberto. Alguns jogadores reclamam. A bola sai. É apenas tiro de meta. A torcida adversária quer pênalti, novamente o grito que cria tensão, a voz única. Jogadores o cercam, querem justiça. Gritam, bradam. Outros jogadores surgem para proteger o suposto infrator, o mão-na-bola. Otávio precisa ser rápido, caso contrário, a situação fugirá de controle: estufa o peito, pede respeito, mostra o cartão amarelo para o jogador mais exaltado do time adversário. Em pouco tempo consegue botar ordem. A TV mostra no replay a mão do jogador tocando sutilmente a bola dentro da grande área. Torcedores sentados em sofás indignam-se, mas não podem fazer nada.

A despeito da decisão tomada, uma dúvida martela a cabeça do árbitro: "e se o infeliz tivesse tocado na bola?". Imaginou o Lance! criticando-o no dia seguinte, o noticiário de esportes mostrando sua conduta errada e ligando isso a um provável resultado modificado no jogo. A torcida pegaria no seu pé pelo resto da vida. O que seria de sua carreira? Aquele 0 a 0 parecia-lhe sufocante.

Olhou o quarto árbitro e pela sua face julgou que havia mesmo cometido um erro. "Quem é ele para me repreender?". "O que falariam os jornais?". "Eu realmente devo ter prejudicado o resultado, bem nessa partida...".

Foi com olhos de devoção à Providência que Otávio encarou uma jogada que se deu aos 43 do segundo tempo: a equipe que se julgava lesada pela decisão do juiz atacava novamente, com perigo, quando o mesmo zagueiro mão-na-bola dividiu de maneira mais rude a bola com o atacante. Este, empregando seus conhecimentos teatrais, lançou-se por terra, dando ecos graves a uma jogada banal. Otávio teve poucos segundos para decidir o que fazer, já sentindo os olhos dos milhares de torcedores sobre si. Agiu nele um sentido de compensação, ligado a uma concepção equivocada de justiça, que muito ajudou no intuito do destino de dar cabo de sua vida. Apitou a falta.

Dessa vez ignorou as reclamações. Deu seus passos da bola à barreira, onde, com spray, desenhou a linha onde os jogadores deveriam permanecer distantes da bola.

Um chute, um gooooooooooooooooooooooooooool. Novamente a voz única, vibrante.

A insatisfação da equipe adversária era evidente. Dos 44 aos 47 minutos, tempo em que acabou o jogo, Otávio novamente pensou em Einstein. Saiu do campo escoltado pela Polícia Militar.

Tomou uma ducha, não conversou com o resto da equipe, vestiu um terno e saiu, já pensava em como escreveria seu relatório sobre o jogo.

Às 20:15 pegou sua namorada para jantar no restaurante onde costumavam se encontrar. Passaram momentos divertidos. A moça, ciente do erro de Otávio no jogo que assistira pela TV, esforçou-se em levar os assuntos para longe do mérito esportivo. Otávio já se sentia mais aliviado. Comeram spaghetti à parisiense, tomaram vinho branco, fizeram planos.

Ao saírem do estabelecimento, dirigiram-se para o carro, ao que ouviram pelas costas:

"O senhor é o Otávio Macedo?".

"Si...", e Otávio já se arrependia de concordar, ao se virar e notar o brasão do time que havia prejudicado no boné de um rapaz esquálido, de face chupada e bigode por fazer, acompanhado de outro rapaz e de uma garota, que gostava de futebol.

Os tiros foram surdos e quentes. Doeram logo no primeiro contato, tão à queima-roupa, tão passionais. Os jovens gritavam impropérios, pareciam felizes agora, mas uma felicidade tensa, nervosa, tresvairada. A voz não era única, era uma diversidade de gritos, de desespero, de ajuda, de risos, de fuga. Antes de seu coração comprimir-se em busca de proteção e de sua respiração fugir para o nada, Otávio sentiu uma profunda tristeza, "comunhão...paz...fronteiras...", foram suas últimas palavras.

7 comentários:

A_for_Anetta disse...

Coitado dele... Por isso não gosto de futebol =x

Mas gostei do texto, temática bem diferente!

=***

Marina disse...

Gosto de futebol, até faço piada de time e coisa e tal. Mas sou contra fanatismos de qualquer tipo. Não por gerar violência, o que é óbvio, mas porque é idiotice mesmo. Acho bizarra a maneira como uma pessoa é capaz de ter uma vida medíocre e ficar nas nuvens porque o time está na primeira divisão. Até me lembrou a música 'pelas tabelas' de Chico Buarque.

Quem nunca teve vontade de matar um árbitro? Mas só os fanáticos levam os desejos insanos às últimas. Nesse mundo de Deus, é o único ser que, na opinião do torcedor, jamais receberá o perdão divino. Bom, toda profissão tem sua cruz.

Ótimo texto.

Natália Oliveira disse...

"Quem nunca teve vontade de matar um árbitro? Mas só os fanáticos levam os desejos insanos às últimas".
Não os fanáticos, mas os doentes a meu ver.

No mais, o texto é ótimo. Amo a atmosfera de sentimento, não sei se mais alguém ,mas eu vibro a cada frase sua.

Gabriel Leite disse...

Eu gosto de quem gosta de futebol. Acho natural esse fascínio, essa empolgação, essa paixão pelo time. Acho bonito, mesmo...

Sobre o conto, adoro o seu talento de descrição. E não falo da descrição física, mas da descrição emocional dos personagens. Formidável!

Jr. disse...

bendito feeling! =)

futebol não me agrada de maneira alguma, acho que pela exacerbação com qual é tratado, a super valorização de jogadores/times, enfim...
legal que vc escreve sobre assuntos variados, e os textos sempre riquíssimos em detalhes.

não demore para atualizar
até

Laila disse...

Ahh eu gosto de futebol
Não que seja meu programa de domingo preferido, mas é legal
=)
gostei da ambientação e principalmente do lado emocional contido do texto: perfeito, como sempre.

luzia regina disse...

Texto lindo, quente...talvez a morte tenha toda esta pulsação e temperatura.
Não discuto futebol, meus olhos se movimentam sem muito entender. Mas me incomoda não poder errar, ninguém mais pode, tá proibido.Minha geração odeia este não poder.
Talvez alguém ainda me dê um tiro porque acendo um cigarro.
Antes disso pretendo continuar me encantando com suas histórias.