24.2.09

Pepeto fala para

Não é de se espantar que sonhos inspirem textos. Ouso dizer que os inspiram até em demasia, coisa que me faz penar enquanto escrevo esta singela crônica. A despeito do clichê, no entanto, sinto-me na obrigação de desenvolver um texto a partir de um determinado sonho que tive, pois isso nada mais é do que desenvolver a mim mesmo, e vocês entenderão o porquê logo mais.

Se levarmos em conta meu pensamento ignorante de que há uma relação inversamente proporcional entre o que você vive e o que você sonha, é perfeitamente compreensível o fato de que meus sonhos sejam pobres em detalhes. Vivo intensamente, mesmo não estrelando trama de novela, e meus olhos, que dispõe da paciente arte da contemplação, são meus principais auxiliares em variadas tarefas: desde o ato de escrever e detalhar, até vislumbrar paixões nacionais em movimento de rebolado.

Com tanto para se ver, quase nunca tenho o que sonhar, ou talvez minha "vida real" seja o próprio sonho? Enfim, a crônica não é o espaço para tergiversações Lynchianas.

Mas dessa vez, houve um sonho mais elaborado. Um desses caprichos que inspiram textos.

Nele, eu, enquanto consciência e imagem e semelhança de mim mesmo, encontrava eu mesmo, pequeno, criança. Um encontro sem palavras, de olhares profundos e familiarizados, de envolvimento terno e sereno. Julgo até um encontro de aprendizados recíprocos. Reparei que meu eu pequeno segurava em mãos uma guitarra de plástico, colorida, um brinquedo de infância.

Não lembro mais que isso. Nunca lembro dos meus sonhos, o que não deixa de ser um fato tão ruim quanto os sonhos sem imagens do protagonista inominado de Vastas emoções e pensamentos imperfeitos, de Rubem Fonseca.

A falta de memória onírica, entretanto, não configura um empecilho para o papel de musa do meu sonho. Musa inspiradora. Pelo contrário, o volume de informações projetado em minha mente foi suficiente para que eu ligasse o sonho a um momento da minha vida, ou melhor, a vários deles, o que não deixa de ser lógico, pois assim encaro a finalidade do sonho: um indício, que aponta para algo, cujo resultado mostrar-se-á mais cedo ou mais tarde.

Este garoto pequeno, de tênis, calça jeans, camiseta listrada, cabelo bagunçado e guitarra em mãos, além de ser um retrato de um indie mirim, nada mais foi do que o começo da desistência.

Esta mesma criança, de cara emburrada e gênio explosivo, em seus ínfimos 4...5 anos, já compunha seu hit Pepeto fala pára*, com melodia de meu pai e letra própria, uma música em que versava seu amor pelo leite com Nescau.

Gosto para música, fica aqui comprovado, sempre tive. Anos depois, no entanto, ao ser defrontado com uma oferta de fazer um curso de piano, desisti. Sem nem tentar.

O garoto da guitarra também era bom de bola. Jogava de meia direita, era mais de passes do que de gols (o que mais tarde veio a configurar minha característica de mais auxiliar do que de me aparecer). Pôde fazer algumas aulas de futebol, mas, passado um tempo, e dados uns chutes, desistiu.

Filho de pai craque em castelhano, pôde cursar Espanhol com belíssima professora. Poucas lições após o básico do básico da língua de nossos hermanos latinos, todavia, desistiu.

E assim desistiu do curso de informática, do Inglês, de Brasília, de São Paulo, da USP, até mesmo de pessoas.

O menino da guitarra cresceu, sem guitarra, e esteve, inclusive, em sonho observando outro menino, este com guitarra em mãos e ambições diversas na cabeça lúdica e sem preocupações.

Este menino crescido, até poucos dias atrás, queria desistir de outras coisas. Um exemplo: do seu curso de Direito. Manteve-se, contudo, firme. Não desistiu, não arredou pé. Nisso viu, com ar de alívio, um atrasado amadurecimento no que toca a projetos pessoais. Felicitou-se e até se propôs a escrever crônica.

E aprender a não desistir, quem diria, quem lhe ensinou foi uma criança esperançosa, de guitarra de plástico colorida em mãos e cabelo bagunçado.

_________

* "Pepeto" era a forma pela qual eu era chamado por meu pai. O para com acento é minha revolta pessoal com o fim do acento diferencial.

7 comentários:

A_for_Anetta disse...

Você era uma criança linda x)

O Pepeto nunca deveria ter desistido dos seus sonhos, mas ele não morreu, está ai em algum lugar dentro de você esperando que você o liberte. Você pode ser o que quiser, e enquanto estiver ao seu lado não deixarei que desista.

Você é maravilhoso, mas ás vezes esquece disso.

Marina disse...

Nunca um sonho me ensinou alguma coisa, que eu lembre. Que bom que você soube aprender consigo mesmo, com o seu inconsciente. Outros só entendem quando a vida começa a lhe pregar peças.

(Você não está só na sua revolta contra o fim do acento diferencial.)

Barbarella disse...

Até na hora de sonhar você és profundo hein Pepeto.

Eu sempre sonho, dormindo ou acordada. Mas é dormindo que aprendo com eles, quando meu mais profundo se aflora.

Bjos

Natália Oliveira disse...

Grande Pepeto, dando lições no marmanjo, num momento tão inusitado!rs... Compartilho de sua revolta.... Pára e lingüiça pra sempre!!! \o/

Gabriel Leite disse...

Ficou muito bom esse texto!

"O menino da guitarra cresceu, sem guitarra, e esteve, inclusive, em sonho observando outro menino, este com guitarra em mãos e ambições diversas na cabeça lúdica e sem preocupações."

Esse parágrafo, pra mim, diz tudo. A forma como o encontro entre o ser e o era transforma. Vivo imaginando esses encontros, mas tenho medo do que posso descobrir.

Bruna Mitrano disse...

"Hey, mãe, eu tenho uma guitarra elétrica, durante muito tempo isso foi tudo que eu queria ter...Mas agora, lá fora, o mundo todo é uma ilha...".
Quando a guitarra era de mentira, quando a gente nem imaginava o que era ser indie, tudo fazia mais sentido...

Que coisa mais linda esse teu texto, VH.

Eu penso em desistir todos os dias, é sério. Meu amigo disse que sou uma eterna insatisfeita (não encarei como ofensa, apesar de ter sido a intenção). Quase desistir é necessário p'ra que a gente tenha cada vez mais certeza, é o que acho.

Também já abandonei tanta coisa...

Eu vivo pedindo ajuda à Bruna criança. Ela aparece geralmente quando estou acordada, apesar de eu, diferente do personagem do Rubem Fonseca (senti até pena quando ele descreveu sua falta de sonhos) sonhar muito. Acho que é sinal de que eu estou vivendo pouco, o que você falou faz todo sentido.

Ai, quero de volta minha floresta no quintal, minhas fadas e bruxas, minha irrealidade inconsciente!!! A gente pode tentar, mas nada supera o prazer de viver a ficção (sem pensar sobre).

Essa sua crônica me comoveu, pensar em infância é tão sério.

Laila disse...

"tergiversações Lynchianas."
Espero um dia ver um post tradutório =)
Bom, agora vamos ao comentário profundo para o texto profundo. Vira e mexe nós nos submetemos a aluguns interrogatórios internos feitos pelas crianças que fomos (os meus geralmente são no Natal). Nestes interrogatórios nos sentimos na obrigação de prestar contas para quem fomos do que somos, do que fizemos com a quantidade absurda de sonhos que tivemos. E às vezes nessa prestação de contas acabamos ouvindo sermões destas crianças tão inteligentes que fomos (como, por sinal, a maioria é).