12.2.09

Nunca pensou que cresceria

É nesse Davi que teimam em pensar. O sujeito carrancudo, jogado ao lado, ombros curvados, saculejando no bonde apinhado de trabalhadores, a olhar para o lado de fora mas a olhar para nada. Pensativo que só. Era esse mesmo Davi que vinha retornando de uma jornada de oito horas trabalhadas numa repartição velha e mal-ventilada qualquer, daquelas que melhor traduzem o sentido da palavra burocracia.

Olhava a paisagem se desenrolando constante sob seus olhos: carros, motos, postes, a Pão-pão, a Casa de Carnes, a morada do seu Zé, uma igreja qualquer de nome comprido, a loja de construções. Estava na hora de descer. Ou seria de crescer? É que vinha pensando na infância. Puxou a campainha e, segundos depois, lutando contra a gravidade da freada nada sutil do motorista, desceu do bonde, paletó num braço, maleta preta no outro.

Aquela cara séria sempre foi coisa do Davi. Os vizinhos, fazendo pouco caso, davam oi, boa-noite, como-vai, tudo-bem, salve-Davi, ou qualquer outro cumprimento que forçasse o homem a destrancar aquela sisudez toda e lhes notar a existência.

É na infância que vinha pensando enquanto andava pelo bairro. O certo do errado, os porquês, o pode-não-pode, as brincadeiras, o temor reverente pelos pais, aquela atmosfera meio escura, meio apagada, de mistérios infinitos e proporcionalidades angustiantes, como felicidades extasiantes e dores que batiam fundo. Tinha por crença que crianças sofrem, mas ninguém se dá conta disso.

Mais ou menos nessa altura, avistou o boteco da região e indeciso resolveu entrar. Meia dúzia ali se encontrava, entre ébrios contumazes e spleens de plantão. Algumas moscas irrequietas voavam teimosas em volta da lâmpada. Maneco, caneta na orelha e sempre limpando o balcão com o mesmo pano, ao ver Davi logo emendou "Taí quem não vem faz tempo". Davi se limitou a um muxoxo e olhando para um canto do estabelecimento indagou "Que que tá tocando aí, Maneco?", "Tom Uei... Tom Uetz...peraí" e, buscando a capa do vinil que descansava ao lado da vitrola, retornou sábio "Tom Waits". Davi gostou do som. Uma voz rouca, estranhamente acolhedora, familiar, um som calmo, porém tenso, um ar de fim-de-mundo. Pediu uma Brahma, que veio acompanhada dum copo americano.

Chegou em casa nem bêbado nem sóbrio. A mulher, assistindo novela, não fez questão de se levantar e beijá-lo. Os três filhos, escondidos alhures, não o recepcionaram felizes com abraços, gritando "Papai!". Tudo estava como sempre. Sempre fora assim? Não lembrava, só sabia que estava acomodado com tudo, e assim lhe parecia certo, afinal de contas, não tinha mais tanta paciência.

Puxou folgadamente a gravata e foi para o quintal. Vez em quando fumava e foi o que fez na hora, já que o céu estrelado o convidava a fazer isso. A fumaça ascendia espiralada e se tornava mais hora menos hora a Via Láctea lá longe, a qual ele gostava de admirar. Fazia isso também quando era criança, mas sem o cigarro, seu pai o espancaria. A infância.

As memórias, no entanto, foram sepultadas pelo grito da mulher: "Ô Davi! Não tá ouvindo eu chamar, não? Olha a hora que já é, vai botar as crianças pra dormir que eu ainda preciso lavar a louça". Apagou o cigarro e subiu as escadas do modesto sobrado. As crianças zoneavam em suas camas e a muito custo conseguiu fazê-las escovar os dentes e enfiar os pijamas nelas. Obteve êxito ao ameaçá-las com a vinda da mãe, de cinta na mão. Obedeceram na hora.

Tradição que já ia caducando, mas a qual, no entanto, Davi ainda insistia em realizar por uma ingenuidade de pai (sem notar que seus filhos pouco caso faziam disso), era a de ler um livro para as crianças dormirem. Tinha consigo toda uma coleção de livros, até mesmo infantis, pois gostava muito de ler e de se informar. Esopo, Rubem Alves, Monteiro Lobato, Saint-Exupéry, Ruth Rocha. Pareciam-lhe muito instrutivos. Pôs-se logo a ler, a meia luz, com voz de pai. Era A menina e o pássaro encantado.

Lia mais para si mesmo, pois as crianças acabavam por adormecer da exaustão de suas peripécias. Gostava muito de ler. Ultimamente, tinha uma gostosa saudade por tudo que o lembrava infância. Seus filhos, contudo, pouco se importavam com qualquer tipo de ritual pai-filhos. Seu pai era a mãe.

Foi para o quarto sentindo ombros de Atlas e por pouco não cedeu à tentação de deitar na cama de roupa e tudo e adormecer para sempre. Fez mais um esforcinho, porém, e tirou a roupa, tomou uma ducha, escovou os dentes, ajeitou o travesseiro e deu um beijo estalado na bochecha da mulher. Ela reclamava de contas atrasadas e da vizinha que lhe parecia invejosa. Foi adormecendo lentamente, sentindo os membros morrerem, a cabeça se distanciar, o mundo ficar longe, "amanhã tem mais trabalho, amanhã tenho que pagar umas contas, amanhã tenho que falar parabéns pro Freitas...". Dormiu, por fim, não sem antes se lembrar de que fazia dois anos que ele e sua esposa não faziam sexo.

Despertou de um sonho gostoso (mas do qual jamais se lembraria) ao ser sacudido pela mulher às seis horas da manhã, como todo dia, mas sem sorriso de hortelã. Se arrumou, bebeu café amargo e logo tomou o bonde, que lhe parecia já um velho amigo.

Era pensativo que observava o lado de fora do bonde. Parecia outro mundo. Pessoas rindo, pessoas gritando, guardas de trânsito, trombadinhas, casais, lojas, passarinhos, a fiação elétrica. Tudo parecia alheio à sua família. No mundo de fora do bonde não havia sua mulher nem seus filhos. Não havia cobrança nem patrão. Não havia repartição fedendo a mofo. Não havia nada, mas ao mesmo tempo, o nada lhe configurava o tudo.

Foi quase sem querer que brincando com sua bolsa descobriu A menina e o pássaro encantado lá dentro. Havia posto por engano lá o livro e foi automaticamente da hipnose de fora do ônibus que passou os olhos para o livro lido anteriormente aos filhos. Uma garota que tinha por amigo um pássaro mágico, que encantava o mundo. Um dia resolve aprisioná-lo e ele perde seu encanto. Uma bonita parábola sobre liberdade e saudade, que é resolvida quando a menina solta da gaiola seu amigo.

Um estranho sorriso estampou a cara de Davi.

Nunca mais retornou à sua casa.

12 comentários:

Barbarella disse...

Poxa, tadinhos dos filhos dele. A esposa era chata, mas devia ser a falta de sexo...

É. Mas quem nunca teve vontade de fazer igual ao Davi e sumir.

**

Natália Oliveira disse...

Uau!!!
Curti demais o conto!O estilo é muito leve, e muito imaginativo, não sei se fui só eu, mas ao invés de ler, tive a impressão de assistir a tudo isso como num filme. Só hj descobri q vc me 'acompanha' no twitter, estou t seguindo tb =).

Amei o texto, de verdade, meus parabéns.

Laila disse...

Eu também tive a impressão de assistir a um filme, mas achei que isso fosse só impressão porque acabei de desligar a televisão (andei assistindo Ensaio sobre a Cegueira). Gostei bastante do conto, mas fiquei esperando uma atitude diferente do Davi.

A_for_Anetta disse...

Crianças sofrem e quando crescemos nos esquecemos disso. Talvez por isso Davi tenha abandonado seus filhos. Talvez Davi ainda seja uma criança que sofra, e talvez as crianças nunca liguem muito para o sofrimento de outras crianças, já não lembro mais se ligava ou não...
Mas também quero fugir como ele, e quem não quer.

=****

Janaína Moraes disse...

Nossa como vc escreve.
Sou lá da comunidade do Skoob, coloquei lá pra gente visitar os blogs e comentar, se aceitar, visita tbm.

Bjosmilinka

Stephanie disse...

talvez o maior problema seja conciliar os desejos de ter uma casa, uma família e a necessidade de libertadade, de meninice que cada um guarda dentro de si

porque crescer não é abrir não da fantasia e da capacidade de brincar, ser responsável não é encaretar - mas entre a conta, a vizinha invejosa e a mulher frustrada fica difícil lembrar disso, né

belo conto, Vitor.
=)

beijo

Marina disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marina disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marina disse...

Que estranho, jurava que tinha comentado esse texto. Li faz até um tempinho. Enfim...

Estava falando justamente sobre isso em outro blog. Passamos tanto tempo vivendo neste mundo seco que ficamos anestesiados com tudo em volta. Terminamos sem perceber o que poderíamos ter vivido, se parássemos de nos importar tanto em manter essa rotina, que rouba a nossa liberdade.

Nosso maior bem é nosso livre-arbítrio, nossa liberdade. Obrigações existem, mas a maior obrigação da vida é ser feliz.

É um lindo texto, V.H. Beijos!

Stephanie disse...

Vitor,

tem um presentinho pra você lá no meu blog.

beijo

Bruna Mitrano disse...

Ah, a infância, ela outra vez.
Esses momentos de epifania são indispensáveis. Mandar tudo pra aquele lugar e fugir pra Shangrilá.

Não vou elogiar a estrutura do conto porque você já sabe que escreve bagaraleo. Gostei muito das imagens, ficou bem visual, bela pintura com palavras. E também das alusões (destaque para a referência à música do Chico, amo).
Excelente escolha de autores. Sou apaixonada por literatura infanto-juvenil, apesar de ter sido uma crinça que não lia (sim, li depois de grande coisas de criança..rs)

Vc tá escrevendo cada vez mais. Pára não. Faz livro.

Abraço, V.H.! ;)

Bruna Mitrano disse...

Sim, as crinças sofrem, os adultos que não compreendem. Lembro que com 9 anos quase morri de amores por um menininho, entrei em depressão, de verdade, com atestado médico, e minha mãe me espancou horrores porque segundo ela depressão era doença pra adultos e no meu caso era frescura mesmo...aff