2.2.09

Encontro atribulado

Ela se aproximou languidamente no melhor estilo cinematográfico, em câmera lenta, embora tristemente a realidade fosse de estética inferior ao cinema. Não importava: na visão dele, era como se o tempo tivesse parado momentaneamente para aquela deusa caminhar em sua direção, passo a passo, rebolado a rebolado. Examinou-a vorazmente e constatou alegre que algumas mulheres preservam o bom senso na maneira de se vestir, não se vendendo à vulgaridade e, de sobra, ainda assim, conseguindo exalar sensualidade por cada poro de seus belos corpos.

"Por favor, pode se sentar", sugeriu ele, num misto de solicitude e obediência ao olhar da mulher, que ordenava em cor-de-mel justamente que ele oferecesse tal pedido.

"Obrigada", disse, em meio à fatal cruzada de pernas e ao movimento da cabeça que jogaria seus cabelos de lado, enfeitiçando o pobre homem.

Podiam observar pessoas ao redor, caminhando, falando, apressando-se, trombando umas nas outras, embora elas estranhamente não os incomodassem, como se não existissem. Aquele era sem dúvida um momento privado, um presente do mundo dado a cada um dos dois. Ambos sairiam ganhando algo com aquele encontro.

"Eu gostaria de ouvir você falar sobre você mesma, pode ser?", sugeriu Hermes.

"Sem dúvida, senhor Hermes...".

"Vejo que já me conhece pelo nome, ora. Mas faço questão que me chame de Hermes, somente, ou mesmo de você, nada de senhor, ok?", brincou o homem, entre um sorriso que se esforçava para ser encantador.

"Como quiser, Hermes, quem me contou seu nome foi uma amiga sua, a Débora...meu nome é Elaine, tenho 25 anos, solteira, sou formada em Secretariado Executivo. Já viajei para a Argentina e a Austrália, tenho uma vida um tanto quanto atribulada quando se trata de trabalho, afinal, quem não tem? Ah, e se interessar ao sen...a você, falo inglês, espanhol e francês".

"Uau, quantas qualidades! Viajou a passeio ou a trabalho? Adoro a Austrália, mas só conheço Sidney".

"Depende, na Argentina participei de um curso para a faculdade; na Austrália, foi au pair. Adorei visitar ambos os países, aprende-se muito conhecendo outras culturas, povos, costumes. Conheci Sidney também, além de Melbourne. Não dá vontade de voltar sempre e sempre?".

Hermes não ligava muito para o conteúdo das frases de Elaine, apesar de prestar atenção em cada vírgula de suas sentenças. No entanto, interessava-lhe mais o movimento da boca da moça, seus lábios sobriamente avermelhados com batom, sua maneira de pender levemente a cabeça para a esquerda quando encerrava o que dizia, e como seus dedos cruzavam-se timidamente enquanto repousavam tensos sobre seu regaço, numa tentativa de aliviar a vergonha inerente aos primeiros encontros.

Notando os olhos inquisitórios do homem com o qual decidira passar um momento junto, Elaine resolveu comentar:

"Você parece ser um homem muito observador, Hermes, o que você faz?".

"Eu cuido de alguns afazeres numa multinacional, papel administrativo, um faz-tudo burocrático. Uma multinacional de grande porte, devo dizer". Ria, brincalhão.

"Parece importante", observou a mulher, com um sorriso de deboche.

"Pagam bem, estão sempre atrás de gente interessante, como você".

"Ah, é? Obrigada. Tanto pelo 'interessante' quanto pelo 'pagam bem'...me agradam tais coisas", agradeceu, perdida entre enrubescer e aproveitar a chance oferecida.

"Inclusive, pagam bem o suficiente para que eu possa levá-la para tomar um café", arrematou Hermes, fixando-a nos olhos, sorriso enigmático.

"Não gosto de café...", soltou Elaine, esfriando os ânimos do homem à sua frente, sem mais sorrisos no rosto.

"Poxa, uma pena...me desculpe, não foi apropri...".

"Gosto de vodka".

Hermes olhou Elaine de maneira ostensiva. Aquela fileira de dentes brancos que sorriam para ele, em conjunto com aquele olhar de cositas más, configuravam um convite mais claro e explanatório do que um outdoor contendo letras garrafais exposto numa avenida. Ciente de que não precisaria mais observar nenhum aspecto naquela maravilhosa e talentosa garota, regozijou-se em anunciar:

"Pois bem, senhorita Elaine, haja vista sua excelente formação, seu domínio em três línguas e sua capacidade para dar conta de múltiplas tarefas e de demonstrar pró-atividade, gostaria de lhe informar que está contratada!".

E Elaine não disfarçou seu bonito sorriso de felicidade, o qual só foi coberto com suas delicadas mãos após alguns segundos, em sinal de incredulidade, tal qual miss vencendo concurso. Fora do escritório, emparedado com vidro, viam-se outros funcionários, a correr, a se apressar, a trombrar um nos outros, a fazer sua rotina de trabalho de multinacional. Mas ali dentro, não se via, não se ouvia e não se reparava em nenhum deles. Era um encontro privado. Só sorrisos e uma promessa de noitada.

6 comentários:

Marina disse...

Bela entrevista de emprego. Emprego? Sei lá, existem tantas tarefas estranhas para se fazer num só emprego, não é? E tanta gente disposta a fazer...

Barbarella disse...

Café a Elaine não aceitou, mas se fosse uma cervejinha bem gelada numa bodega, certeza que ela ia..haha

Ou não.

**

Gabriel Leite disse...

E haja vodka na noitada! rs
bacana seu texto.

Você faz contos? Crônicas? Ou mistura ficção com realidade?

Nina Franco disse...

olha
acho que vc tá mais pra romancista do que pra adEvogado!

A_for_Anetta disse...

Gostei do seu texto. Não gosto quando desdenha do seu talento. Você nasceu pra ser mais que um seja-lá-qual-for-sua-função-no-mundo-judiciário. E mesmo quando você não acredita, eu acredito em você.

=***

Bruna Mitrano disse...

Também não gostei do seu protagonista, estamos quites!rsrs

Ótimo texto, como sempre. Ótima crítica.

Desde o início, quando apareceram os clichês cinematográficos, eu sabia que teria algo além, que aquilo era uma espécie de "jogo" pra ludibriar o leitor e surpreendê-lo no final. É importante que o texto faça isso.

Então..cadê o próximo?!