12.1.09

Morte e vida: eternos

Desde que o mundo é mundo, as culturas de diferentes povos tentam definir, à sua maneira, o papel da vida e da morte e suas influências no cotidiano das pessoas e em sua religião, dentre outros aspectos.

Aprende-se, na escola ou em qualquer ensinamento mais aprofundado da vida, que, primeiramente, os homens pré-históricos nem enterravam seus mortos, deixavam-nos apodrecendo a céu aberto. Aprende-se como os egípcios cultuavam a morte, com suas mumificações, Livro dos Mortos, Anubis, esperança de que o morto retornasse à vida. Os gregos, por sua vez, desenvolveram o conceito de Hades e Elíseos, paisagens tão bem definidas nas palavras de Dante, que vão desde o Caronte até Giudecca, passando, inclusive, pelo rio Estige, onde perdemos consciência do que fizemos em vida. Os cristãos vieram com o Paraíso, o Limbo e o Inferno. Os ateus enterraram tudo isso e esclareceram, convictos e apoiados por suas crenças científicas, como apenas viramos comida de verme depois da morte. É interessante notar que cada conceito de morte importa um tipo de vida e vice-versa, numa relação de causalidade: o que se faz em vida, ecoa na morte.

No entanto, é indiferente ao contexto cultural, científico, social e religioso com que se analisa a morte e a vida que eu e alguns amigos, no dia 17 de Agosto de 2008, comemorávamos meu vigésimo aniversário. A festa, inicialmente caseira, com direito a bolo, torta, parabéns para você e esse tipo de ritual, logo se tornou uma bela comemoração, assim que saímos de casa e nos dirigimos ao Zerão, um parque público com pista de caminhada aqui de Londrina. Neste dia houve um show, bancado por um excelente programa de incentivo à cultura da Prefeitura, da banda Terra Celta, aberto ao público.

Foi um belo show. Apenas quem conhece a banda sabe que tipo de energia contém uma festa dessa: é um belo remédio contra depressão e uma forma fantástica de se integrar socialmente. No show do Terra Celta, todos dançam, desde a senhora mais circunspecta até o metaleiro mais rabugento. Todos parecem ser contagiados por algo tão simples e primordial: a comemoração da felicidade, a celebração da vida. Você já se deu conta de que está vivo hoje?

                                                                                             

Terra Celta @ Zerão (17/08/2008): dança e diversão regados a cerveja e rum, mesmo no Inverno, estação símbolo da morte (assista ao vídeo após terminar a leitura)

O show começou no final da tarde e só terminou quando estava bem escuro, não por cansaço de ninguém, mas simplesmente porque faltava luz no local. Ao término, de modo a me envergonhar, fui erguido no ar por algumas pessoas, e então cantaram parabéns para você novamente, dessa vez acompanhado de todos os presentes no espetáculo.

De pernas cansadas e camisetas suadas, resolvemos voltar para casa, todos extasiados pela experiência do recente show. Enquanto caminhávamos, avistamos, do outro lado da avenida, um ônibus de uma faculdade particular de Londrina, conhecida por suas terríveis notas no MEC, lotado de estudantes que haviam ganhado algum campeonato de esporte, em um canto qualquer. Eles desciam do ônibus e gritavam em coro, comemorando seu título. Após me certificar de que entre as pessoas de minha turma todas estudavam em universidade pública, caçoei dos pobres ganhadores, entoando uma canção que aprendera mordazmente tempos atrás (não citarei o nome da faculdade):

Ô _____ ! Só pra lembrar:

Dia 5 tem boleto pra pagar!

Apesar da idiotice da brincadeira, ali estavam apenas alguns saudáveis jovens, brincando, se divertindo, comemorando a vida. De qualquer maneira, ainda sinto pena dos caçoados, que silenciaram sua comemoração após nossa pequena baderna.

Continuamos andando, e foi então que ocorreu uma intrigante contradição. Ao nosso lado esquerdo estava um cemitério, e do outro lado se encontrava uma funerária, que sempre acolhe pessoas que perderam alguém, dispostas em alguns bancos de sua varanda. Famílias desconsoladas e de olhos vermelhos e inchados.

O silêncio se instalou subitamente entre minha turma. Uma incauta de nosso bando, por descuido, ainda falava alto no instante, pois não avistara os condoídos que ali se encontravam, a chorar seu morto. O safanão que ela recebeu de uma outra pessoa de nossa turma, para que se inteirasse da situação, foi digno de um puxão-de-orelha severamente maternal. Calou na hora.

Ali estava o fim da celebração da vida e da felicidade. A despeito da comemoração de meu mais um ano de vida, de um alegre show, da dança de deixar as pernas doloridas, do álcool, da gozação com outras pessoas e da própria condição de juventude, que supostamente ignoraria qualquer convenção e desrespeitaria qualquer ato solene de nossa sociedade, numa amostra de imaturidade e rebeldia, havíamos, no lugar disso, nos calado, em respeito à dor alheia, em prol de algo que sabíamos sério, não sério como um assunto acadêmico, uma decisão política ou acontecimento global, mas sério no sentido inescapável da palavra, no sentido da inevitabilidade de um fato, que sabemos que irá ocorrer a cada um de nós. Nossa própria maneira de lidar com a morte, após a exacerbação de nossa alegria em vida, era permanecermos quietos, cabeças baixas, reflexões internas.

Este fato ficou gravado em minha mente como um símbolo da maneira com que minha geração lida com a morte: um fato alheio, estranho, tão presente e tão real, como prega a mídia, tão perigosa e ameaçadora, como nos fazem crer os programas policiais, tão solene e simbólica, como se depreende dos poemas aprendidos para o vestibular. A morte ganhou contornos burocráticos, banalizada em meio a homicídios, latrocínios, guerras de facções, guerras entre israelenses e palestinos, guerra, guerra, erros policiais, PMs que atiram a torto e a direito, bandidos menores de 18 anos de idade, que matam por diversão.

E em sua confusão semântica, mais do que anunciada e estudada, acabamos por esquecer o que é, de fato, a morte: apenas mais um capricho da Natureza, tanto quanto a vida, que fazemos valer menos do que alguns trocados. Menos do que uma boa lembrança de que se está vivo e pronto para viver. Pensamos mais em dinheiro e sexo do que no fato de que vivemos e vamos morrer. Ou talvez seja por isso mesmo que pensamos tanto em dinheiro e sexo?

Não me interessa o que vem após a morte. Não me condiz saber como irei morrer. A única coisa que me interessa, e digo isso porque quero saber como devo me portar na hora de estar morto, é saber o que resulta da morte, qual dos dois lados, daquela famosa máscara de teatro grega que bem nos define, a persona, deve prevalecer: riso ou choro?

6 comentários:

A_for_Anetta disse...

Acho que nossas conversas sobre reencarnação, o que há depois da morte e outros assuntos póstumos nunca chegarão a alguma conclusão. Morar ao lado de um cemitério me faz pensar mais na morte e me faz querer viver mais. A morte por si não me assusta, o que assusta é a dor que ela causa aos que ficam. A cena do enterro ontem não sai da minha cabeça...

"As pessoas que a gente ama deviam morrer com todas as suas coisas." (Amor nos tempos de cólera)

=***

Marina disse...

Tenho minhas crenças e não critico a de ninguém, mas não consigo encarar nem a minha, nem a morte de outra pessoa com riso. Mesmo que seja inevitável e que talvez até seja alguma coisa boa, quem sabe? Na dúvida, não vou rir. Não sinto essa felicidade para conseguir rir.

Mas como assim você vem falar de morte na ocasião do seu aniversário?? Francamente, né? Parabéns, V.H.! Vamos comemorar tomando uma (virtualmente, porque eu estou meio longe)? =PP

Ah, faculdade pública rules! Bons tempos em que eu saía tirando onda com os outros.

Marina disse...

Kkkkkkkkkkkk!! Finge que não viu meu lapso. Pior que eu acho que vi a data, mas não raciocinei que não estávamos em agosto... Gente, que horror, eu estou cada vez pior! Enfim, disfarça. Vamos comemorar... hã... o ano novo. Hauhauahuahu!

Talvez eu ria na minha morte. Tô rindo até com desgraça hoje.

Jr. disse...

sempre vi a morte como libertação, então acho que eu estaria sorrindo.
engraçado como vc tem uma tendência pra esses assuntos, né? haha

karen disse...

(não li ainda, prometo que depois volto pra ler.)
talvez eu tenha resultados pífios no vestibular por causa das minhas diversões. :)

Bruna Mitrano disse...

Sabe, penso muito sobre vida/ morte, simplesmente porque não entendo. Quando toco nesse assunto, e não é raro, as pessoas costumam supor que sou uma chata "deprê". Já irritei pessoas com isso. Acontece que não tenho a idéia cristã da morte. Acho que nem existe morte de fato, existe vida que vai embora. Penso em morte porque desejo viver muito; qualitativamente, no caso.

Seu aniversário deve ter sido bem divertido! queria que tivesse isso aqui no Rio, as pessoas encontrando ao acaso uma banda no meio de uma praça e dançando sem medo. E essa banda parece interessante.

Eu geralmente penso em morte/vida no dia do meu aniversário também. Mas penso muito mais quando vejo o mar, porque ele parece infitino, aí me faz pensar em eternidade.