20.1.09

Minha

Quinta-feira, 23/10/98

Sinto que estou cada vez mais perto dela. Seu cheiro impregna minha imaginação a todo instante e até nos sonhos ela vem me fazer companhia. Ontem acordei cheio de porra na cueca, o que me soou humilhante; no mínimo involuntário.

Ontem também percebi, por força da ciência, que estamos ligados um ao outro. Deu-se de forma estatística, em que analisei um evento e, por sua repetição, pude induzir o resultado. Método limpo, pura matemática, com uma pitada de espiritualidade. Uma semana depois de ter me mudado para o apartamento ao lado do dela, comecei a ouvir barulho de descarga toda vez que eu ia ao banheiro. Era eu terminar de mijar, e ouvia a descarga dela. Ou estava escovando os dentes e idem. Ou eu havia acabado de dar descarga e em seguida ela fazia o mesmo. Peguei um bloco de anotações e comecei a registrar a frequência disso: fomos ao banheiro ao mesmo tempo 57 vezes em três semanas. Estamos ligados.

Por conta disso, a imagem dela defecando começou a frequentar meu imaginário. Chega a ser excitante pensar que, enquanto estou ali sentado, colocando para fora meu bolo fecal, ela está a apenas uma parede de distância de mim, de costas, fazendo a mesma coisa, talvez não lendo os mesmos livros que eu, ou completando os mesmos quadrados das palavras cruzadas, mas ainda assim está ali, igual a mim, esperando por mim. Mole, duro, consistente, mau-cheiroso, marrom, amarelo, avermelhado, pastoso, pequeno, grande, grosso, fino, curvo, reto, rachado, incólume. Como será a bosta dela? A bosta diz muito sobre uma pessoa, e não há como pensar que ela não faz essas coisas. Sinto pena dos rapazes que julgam que seus amores não defecam. É belo, ora. É a natureza funcionando. Ao invés de a imaginar santa e sem cu, prefiro pensar que ela faz um lindo cocô, uma obra de arte, como o primeiro cocô de um bebê num penico, em que todos comemoram felizes a proeza da criança.

Talvez já amanhã eu comece meu próximo passo: a aproximação. Ela será minha, sem dúvida. Esforcei-me semana retrasada para parecer aprazível aos seus olhos no elevador e acho que isso surtiu efeito. Ela me cumprimenta sorridente agora, aquela fileira de dentes brancos os quais lamberei com vontade logo logo. É fácil: nada de conversas sobre o tempo, ser original, falar algo que a faça lembrar de você mais tempo do que o necessário para o esquecimento, ser ousado mas não tarado. No cotidiano veloz que nos toma é impossível uma impressão durar muito, mas um esforço a mais já conseguiu me marcar. Ah, o sorriso dela...

Segui-a durante dois dias, conheço seu trabalho, a casa de sua mãe, e até nome, residência, idade e religião do imbecil que a corteja. Ela não gosta dele, sei que não. É só um mané. Tomara que não fique em meu caminho...

Os próximos dias revelarão se obtive sucesso ou não, diário, espero voltar com boas notícias.

9 comentários:

renato jspdt disse...

Victor.... genial a crônica...ou verdade??? parabéns.... caso seja verdade, tens um amigo torcendo para a união destes cocòs.....

Bruna Mitrano disse...

Muito bom!!! Adorei as coisa dos cocôs, porque não soou abjeto, ficou delicado até.

Só acho que tem algo errado nessa data. Vc não pode ter escrito isso com 10 anos!!rs

Ah, desculpe o sumiço, andei viajando, nos dois sentidos (estava precisando fugir). Já tirei o atraso lendo seus últimos textos.

Abraço, V.H.!

Bruna Mitrano disse...

*a coisa dos

A_for_Anetta disse...

Se não fosse a Barcelona, a velha do ap ao lado, eu até ficaria com ciumes... HUAHAUHAUAHUAHUA

V.H. de A. Barbosa disse...

hahaha, isso é só um conto, povo. Inspirado no fato de que a velinha minha vizinha, apelidada de Barcelona, sempre tá indo no banheiro na mesma hora que eu. O resto é imaginação e influência do escritor Rubem Fonseca.

Bruna Mitrano disse...

ah, então a data também é fictícia? legal esse recurso, nem tinha pensado nisso!

e tira logo esse tênis que a chuva não espera!rs (aqui no caso não só espera como cai com a mesma intensidade há 2 dias, já tomei vários banhos, já até perdeu a graça)

Jr. disse...

se uma velha já o faz escrever assim, imagina as mais novas haha

adriana disse...

Victor, soy tu prima hermana... la hija de Gustavo alias Pachu, hermano de tu papa... me llamo Adriana y feliz de conocerte a travez de tus escritos...realmente tenes un don hermoso...
Ojala podamos conocernos ya sea en brasil, paraguay o en chile..(vivo en viña del mar) te mando un beso enorrrrrrrme.... con mucho cariño.

adriana disse...

Victor, soy tu prima hermana... la hija de Gustavo alias Pachu, hermano de tu papa... me llamo Adriana y feliz de conocerte a travez de tus escritos...realmente tenes un don hermoso...
Ojala podamos conocernos ya sea en brasil, paraguay o en chile..(vivo en viña del mar) te mando un beso enorrrrrrrme.... con mucho cariño.