3.1.09

Acima das folhas uma rainha (parte 1)

epiphyllum oxypetalus

"Um cacto", pensou. Era de fato o que ali estava, no canto cru sem reboco nem toque de felicidade da sala de interrogatório da 8ª Delegacia de Polícia da cidade. O único alento de beleza e naturalidade no minúsculo e feio cômodo de puro concreto era o cacto. Banhava-se em sua refeição noturna de luz de lua através de uma fresta a que com despojo ousavam nomear janela, tal qual prisioneiro que duma estreita abertura recebe seu alimento e comunica-se com outro mundo, o nosso mundo.

Epiphyllum oxypetalum. Era a "rainha-da-noite" e Leandro sabia disso, mesmo algemado, mesmo de um olho roxo e sangue de ferro na boca. Talvez não soubesse latim, mas por amar as plantas sabia muito sobre elas, até por isso, outrossim, entre outros motivos, fosse jardineiro. Noturna por excelência, a belle de nuit florescia graciosa numa parte do dia ambientada miticamente por vampiros, lobisomens, e nem tão fantasiosamente por libertinos, viciados, estupradores e prostitutas de tipos vários. Leandro encantava-se com a rainha-da-noite: a despeito de sua própria condição de cacto, a planta trajava-se da mais cálida aparência. Era uma mulher, guerreira e decidida: famas de durona, agressiva, sob um manto de feminilidade e fragilidade inerente. Leandro, por outras experiências que não a jardinagem, sabia que por mais que uma mulher negue veementemente ser um sexo frágil, é, na verdade, debaixo de inúmeras cascas, uma criança que clama por atenção e amor. Da mesma forma, embora constituída por folhas retorcidas, longas e desengonçadas, e com flores tão arrojadas, alvas, vistosas e prestes a fincar garras no ar, a Epiphyllum oxypetalum é uma dessas coisas da noite que fascinam, como uma paixão fugidia ou um céu estrelado. Uma planta mulher guerreira, cheia de contrastes, a vagar na indecisão hipnotizante entre sutileza e brutalidade (de uma paixão).

Era pena que vossa majestade estivesse entronada num vaso preto de plástico, alçada às alturas por um enferrujado arame preso em ganchos no teto. A única peça a embelezar o ambiente inóspito. Tão presa lá quanto Leandro.

Tudo isso foi pensado pelo jardineiro antes de levar o quinto soco, desta vez no diafragma, para complicar as coisas, talvez para facilitar a vida dos policiais que o interrogavam.

Para si, intimamente, entretanto, Leandro prometera não abrir a boca, o que significava não dizer nada contraditório para não fazer o jogo de seus algozes. Mantinha convicta tal resolução, por mais que lhe faltasse o ar, por mais que sangrasse aqui e acolá, sabia que permaneceria assim mesmo perdendo dentes e durante quaisquer outros atos da vasta coleção de espécies de tortura inventadas pelo civilizado homem. Isso não o impedia, contudo, de saber escapar dessa enrascada:

"O seu cacto...ele precisa de cuidados, senhor", emendou, mal abrindo a boca, após estrépito tapa.

Joaquim, policial novo, viril, de rígido conhecimento e abalado senso de justiça, olhou ingenuamente a planta e depois incrédulo para Leandro. Não a havia notado ainda, vindo a lembrar depois que reclamara do vegetal dias atrás, por lhe atravancar o caminho durante os interrogatórios. Respirou fundo, enquanto puxava uma cadeira e sentava-se junto do jardineiro, milimetricamente perto:

"Meu amigo, talvez seja melhor começares a me ajudar. Quero respostas e sei que as tem, caboclo, portanto, perguntar-te-ei algumas questões e tu as responderá rapidamente, ok?"

Leandro assentiu, enjoado.

"Qual teu nome?"

"Leandro Moreira"

"Idade?"

"33"

"Profissão?"

"Jardineiro"

"Onde trabalhavas?"

"Na casa da família Ortiz"

"Como a casa era?"

"Grande, bonita"

"Há quanto lá trabalhava?"

"Do..dois anos"

"Mataste alguém?"

"Não!"

"Soubeste que a sra Ortiz sumiu?"

"Me contaram"

"Quem?"

"A empregada da casa e depois os jornais, a TV..."

"Soubeste que o sr Ortiz foi encontrado em pedaços?"

"Sim...dias depois, pela TV"

"O que sentiste?"

"Pena, eram tão boas pessoas, eu admirava eles senhor!"

"Responde-me então, pobre homem, por que os mataste?!"

"Não..Não fiz isso senhor..."

"Confessa, melhor para ti!"

"Não posso confessar o que não fiz senhor!"

Um soco acertou a orelha direita, o outro o baço, abafados. O pedaço de homem à frente de Joaquim arfava e babava, aparentemente fora de si. A rainha-da-noite a tudo assistia, bela e impávida, além de fria, da mesma maneira que se encontrava Batista, parceiro de Joaquim, que contemplava o interrogatório encostado no canto oposto do cacto, na aresta do cubículo, ar grave, sisudez ressaltada por bigode espesso e negro, braços cruzados, também banhado em luz de lua.

Leandro, por esta altura, para si e somente para si, pensava qual seria o melhor tipo de solo para acomodar a rainha-da-noite num jardim, que julgava inconcebível faltar em sua coleção. Amava as plantas.

(CONTINUA...)

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Acompanhe:

parte 2

parte 3

7 comentários:

Bruna Mitrano disse...

Bacana a mudança do olhar: primeiro o do jardineiro, depois o do policial (dos policiais, na verdade, tem o outro que observa). Narrativa muito bem elaborada. Gostei muito mesmo desse texto, a forma como você considerou as características da planta e as das mulheres (quem te deu o direito de revelar nosso segredo assim?rs). Nem sempre é fácil fazer com que o narrador expresse tão bem as observações e sensações(no caso, nas entrelinhas) dos personagens, mas você conseguiu, foi super sensível aos detalhes. Eu não mudaria nada nele, está completinho.

Anônimo disse...

clamamos pela continuacao, preferencialmente num bloco de folhas de papel com capa, onde um V.H. esteja estampado! 2009 jah comecou...

Anônimo disse...

Empolgante!
Muito bem elaborada e que vocabulário!

Laila disse...

Uau! Nome científico!
Ok, brincadeira.

Nossa, eu achei este conto lindo. Um dia, se Deus quiser, eu chego lá também.
obs.: Tenho minhas suspeitas de que foi o Leandro mesmo que matou pelo menos um dos dois!

Marina disse...

Uau! Estou babando mais que Leandro enquanto apanha. Só fiquei chateada quando, tarde demais, li a palavrinha "continua". Cadê????

Abraço, V.H.! E um feliz 2009 para você!

Jr. disse...

concordo com Michelle!

A_for_Anetta disse...

Ana, o cacto! UHAUAHUA

Poxa, agora entendi porque você queria comprar um cacto. Tudo faz sentido!

Vou continuar lendo o texto e depois comento x*