22.1.09

Acima das folhas uma rainha (parte 3 - final)

Acompanhe: parte 1, parte 2

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vitória-régia

O escritório de M. Ortiz trazia em si toda a opulência de um homem poderoso. Centenas de livros dispunham-se ao redor do espaço, todos grossos e sobriamente encapados, de modo a formar uma arquibancada de espectadores curiosos, atentos e rabugentamente inertes. O mogno revestia cada detalhe do ambiente: desde as estantes dos livros opressores até a grande mesa atrás da qual estava sentado o dono de tudo aquilo. Leandro não possuía a delicada arte feminina do detalhismo, assim sendo, ao entrar naquele escritório, foi apenas tomado de uma súbita e única reação de espanto, registrada em seu cérebro pela forma de um lugar desconfortável, soturno, de uma seriedade tamanha que dali deveriam se originar decisões das mais imprescindíveis para o comércio e a política mundiais. Mulher fosse, duma única vislumbrada teria notado o sofá, a mesa, as cadeiras regiamente almofadadas, o divã impecável, as estantes, os livros, os abajures, a cortina, a Montblanc, e, não menos importante, o retrato do casal Ortiz, com uma foto tirada no dia do casamento de ambos, ainda vestidos nos trajes cerimoniais.

O Sr. Ortiz olhava-o com desdém, sem nada dizer, nem ao menos convidando-o a se sentar.

"Você está despedido", anunciou o rico empresário, com voz gélida.

"P...por que, senhor?!", precipitou-se Leandro, surpreso.

M. Ortiz encarou-o inconformadamente, uma veia saltava de sua longa testa.

"Como ousa agir assim?! Acha mesmo que pode comer a minha mulher e mentir como se fosse uma criança mimada? Você é muito cara de pau!".

Leandro, que inicialmente ostentava uma expressão consternada, gradualmente passou a sustentar um ar petulante. Risonho, encarava Ortiz sem medo.

"Nos amamos! ficarei com ela. Você logo será um corno abandonado. Um rico corno abandonado! Nem com todo dinheiro do mundo vai conseguir extrair os chifres da sua cabeça, seu grande otário. Enquanto isso, mentalize bem, pois é uma imagem que ficará na sua cabeça pelo resto da sua vida, toda manhã, tarde e noite: estarei comendo a sua mulher, não, a minha mulher, com muita, muita força".

Cabisbaixo, Ortiz olhava seu tapete persa, quieto.

Leandro ia saindo, quando Ortiz resolveu falar, talvez para si mesmo: "sou um homem infeliz, casei com uma puta e não soube agradá-la...bem que tentei. Sou poderoso e poderia matá-lo, mas não o faço pois o dinheiro me limita. Se saio do trilho minha fortuna se esvai...um assassinato me deixaria pobre e não há como escondê-lo, estou cercado de traidores, de cobras vis, que me denunciariam ou me chantageariam, a troco de uma merreca, porém pela vida toda. Vá embora e leve aquela biscate, não ligo para aquela piranha nem para um pobre como você, que julga esse momento um êxtase, já que conseguiu enganar o rico. Você é peixe pequeno. Vá e se foda, prepare-se para quando ela começar a sentir saudade da ostentação".

O jardineiro ainda saiu rindo, esforço que lhe pareceu difícil de executar, posto que sentia ter estranhamente perdido aquela batalha com Ortiz. Ele vencera, não vencera? Algo dentro dele começou a incomodá-lo, uma estranha vontade de sumir com tudo...

•••

"Aqui estamos novamente, Sr. Leandro! E dessa vez contamos que você abra essa sua boca imunda, ok?"

Lembranças desagradavam Leandro. O passado era um problema, gostaria de esquecer tudo. "A culpa", julgava, "está me comendo por dentro". Queria ir logo para aquele lugar, vê-la, mas o presente ainda exigia sua participação, sua existência. Organize-se, organize-se!, pensava.

"Vocês tiraram a rainha-da-noite daqui...", constatou com voz morta, sentado e algemado.

"Jogamos fora aquela merda. Não tinha cabimento uma planta decorar uma sala de interrogatório, não acha?", disse Batista.

"Além do mais...", provocou Joaquim, "...você não veio aqui para jardinar".

"Era uma planta bonita...".

"Bonita como Andrea Ortiz?", comentou Joaquim, juntando os dedos e os beijando com um estalo.

Leandro olhou Joaquim e Batista com olhos de morte. Suava muito e respirava com dificuldade. Todo o seu corpo sentia um enorme mal-estar, consequência a qual ele não saberia detalhar a causa. Subitamente, ficou sereno, deu um sorriso ou outro, meneou a cabeça, como se estivesse a lembrar de ótimos momentos. Uma lágrima correu seu rosto. Uma única lágrima.

"Andrea e seu marido sempre tiveram uma relação difícil...", começou a relatar, ao que os policiais prontamente se aproximaram, sentando de frente a ele, "...ela era uma garota nada abastada, e ele só um ricaço emergente, doido para impressionar alguma mulher com sua grana. Ela foi a 'presa' dele...".

"Continue...".

"Durante o tempo em que lá trabalhei, pude constatar o fim de algo óbvio: eles não se amavam. Ele amava o dinheiro e ela amava o jeito que ele amava dinheiro. Logo a lua de mel dos dois teve fim e foi quando começaram as brigas. Todos os empregados viam, era grito o dia todo".

Parou, procurando se lembrar de algo, e então continuou:

"Eu a achava muito linda, e foi uma surpresa também para mim constatar que estava apaixonado por ela. Não demorou muito para eu perceber que ela também estava apaixonada. Começamos a sair escondidos, tivemos encontros em motéis, em lugares afastados. Um dia até fomos ao cinema. O que não sabíamos é que ele nos seguia, ou mandava alguém seguir. Quando ele descobriu, começou a agredi-la fisicamente, virou outra pessoa, um animal. Ela não suportava mais, resolvemos então fugir. Antes disso ele me chamou ao escritório dele e me demitiu, apenas isso. Fez com tanta calma que estranhei. Fui para minha casa e poucas horas depois me caiu a ficha de que toda aquela calma só poderia significar uma coisa: ele iria matá-la!...Voltei correndo para a mansão e descobri com os empregados que ele a tinha levado para a chácara que possuem...possuíam a 100km daqui".

Prosseguiu:

"Não tenho um carro muito veloz e temo por isso ter chegado tarde demais! Quando lá cheguei, percebi que ele não tinha levado nenhum segurança, ele estava só..."

Leandro agora olhava fixamente para o nada, como se estivesse em outro lugar, em outra dimensão. Falava apressadamente.

"Peguei-o pelo colarinho e o sacudi, gritando onde ela está, onde ela está. Ele parecia uma pedra, estava irreconhecível, mas tinha um sorriso na boca. Disse que agora estava livre da vagabunda, parecia um louco varrido. Fiquei assustado, implorei para ele contar onde a tinha levado, onde ela estava. Está morta, respondeu. Mortinha, mortinha, e ficava rindo. Eu me desesperei, me ajoelhei e implorei que me respondesse e ele vendo isso começou a me chutar, disse...ah...disse que a tinha queimado viva, que quase gozou enquanto ela gritava de dor, que adorou o cheiro de queimado da mulher, era doce e inebriante, ele disse. Por último, ele falou depois enterrei, tá enterrada perto daqui, agora é dos vermes. Eu corri para o carro, não aguentava mais aquilo, lá estava um facão que eu usava para o serviço, estava morrendo de raiva, então ele se assustou e correu, eu o alcancei e comecei a golpeá-lo, não sabia mais o que estava acontecendo comigo, estava cego".

Batista e Joaquim se entreolharam, calados. Leandro agora chorava desoladamente: "Estou tão arrependido!", gritou, por fim.

•••

Na saída do tribunal, o alvoroço de jornalistas engoliu Leandro entre perguntas, algumas cretinas outras pertinentes. A nuvem de indagações permeou a mente do jardineiro, que, entretanto, não havia escutado nenhuma: "Como o senhor se sente após ser absolvido?", "O que o senhor fará daqui em diante?", "Como foi matar o Sr. Ortiz?", "Como era Andrea na cama?", "O senhor irá posar nu?", "O senhor acha a decisão do Júri justa?", "O senhor realmente se considera inocente?", "O que o senhor sentiu quando viu que a polícia tinha encontrado um corpo carbonizado sem nenhuma chance de ser reconhecido?".

Leandro apenas sorria. Estava livre. Entrou no carro que o esperava e partiu a toda velocidade.

"Sem nenhuma chance de ser reconhecido", aquilo flutuou durante horas em sua cabeça. Estava livre.

Alguns meses depois, ao passo em que ia pacientemente tentando reestruturar sua vida, fugindo de jornalistas, de transeuntes indignados com o que tinha feito, de ameaças anônimas e de manifestações de apoio - e inclusive, até de algumas cantadas e cortejos - Leandro conseguiu se estabelecer em um novo bairro, gozando de certo anonimato. Tinham se esquecido dele, seu rosto voltara à condição de normalidade, tinha adquirido o ar de habitualidade de maneira a ninguém mais perturbá-lo, exceto um ou outro maníaco que o tinha por alvo ou por ídolo. Foi nessa época, e somente nessa época, em que conseguiu se misturar em meio à massa uniforme da incognoscibilidade, que julgou possível realizar um desejo que o perseguia há tempos, consumindo sua alma dia após dia. Finalmente poderia ir lá.

Pegou seu carro ainda de madrugada, às vésperas do amanhecer e, socando o volante, obrigou o carro a pegar no tranco. Dirigiu-o cuidadosamente por uma estrada já conhecida. Estava elétrico e mal continha sua ansiedade. Contudo, havia aprendido no tempo em que passara na cadeia, aguardando a decisão do Júri, a controlar suas emoções. A atitude era lógica, visto que se não aprendesse a domar ansiedade e frustração, seria consumido ali mesmo, dentro de sua cela, tanto por seu coração acelerado e sua vontade de gritar, quanto pelas paredes que o oprimiam vorazmente.

Ao chegar no local, estacionou desajeitadamente o carro. O sol espreguiçava seus primeiros raios, e não pôde deixar de soltar um gemido de excitação quando examinou bem o cenário: o lago imóvel, coberto por uma leve neblina, a refletir o sol nascente, e a atrair para si um tanto de árvores que se localizavam em suas margens, árvores que se curvavam em direção ao lago como a reverenciá-lo, como a reverenciá-la. A beleza dela.

Focou sua visão sobre as protagonistas do lago, aquelas que, únicas, chamavam a atenção para seu tamanho, sua desenvoltura, sua capacidade de flutuar sobre as águas. Leandro sabia que aquele espetáculo era inerte e eterno. As vitórias-régias ali estavam antes dele e estariam ali ainda durante muito tempo, a abrir suas flores durante a noite e oferecê-las aos céus, em sinal da mítica amizade entre água e ar.

Encarou-as durante um bom tempo, feliz.

"Andrea, meu amor, perdoe-me. Isso tudo foi, infelizmente, necessário. A mentira foi necessária, entenda. Tive de indicar onde estava o corpo da Beatriz. Foi um mal necessário. Beatriz era minha antiga mulher, querida, já lhe contei sobre ela. Não...não sinta ciúmes, amo você, muito! Você precisava ver, eles caíram como patos. Eu a havia eternizado tempos atrás. Ela ardeu como a própria chama da vida, um fogaréu imenso, iluminaria um descampado inteiro. E então a enterrei perto de sua chácara, tamanha a sorte, ainda nem a conhecia! Pelas fotos nos jornais, havia lírios lindos sobre ela, eu mesmo os plantei, sabia que a beleza dela daria belas flores. Eles pensaram que era você, não imaginava que ela estava tão irreconhecível. Ou vai ver que a pressão pública era tamanha que eles se sentiram gratos de ter só um corpo para mostrar, para fingir que haviam resolvido algo. Tanto faz, o importante é que agora estou livre e você também, meu amor. Você está eternizada, olha só que belas flores você nos deu!".

Conversou com Andrea por horas. Ao terminar, retirou uma rosa de uma mala e a lançou sobre a vitória-régia, que a apanhou bem em seu centro, onde ficou deitada, bela e vistosa. Leandro foi embora, agora lívido e complementado em sua ansiedade: sentia-se novamente bem. Andrea, no entanto, permaneceu imóvel, fria e em decomposição, morta por aquele que acreditava ser o amor de sua vida, abaixo das águas, presa por pedras, a servir de matéria orgânica para toda as criaturas lacustres, e, em especial, de adubo para o espetáculo das vitórias-régias.

•••

EPÍLOGO

A campainha soou alto e, por estar entediada, Larissa correu divertidamente para atendê-la:

"Mãe! Tem um jardineiro na porta oferecendo seus serviços! Vamos pedir para ele cuidar das bromélias? Elas estão tão acabadinhas!"

"Tá certo, filha, cuida dele aí que estou ocupada fazendo a unha..."

Larissa abriu o portão e foi se encontrar com o recém-chegado, para lhe dar instruções, não sem antes passar na frente do espelho e ajeitar seu cabelo.

"Olá, mocinha, meu nome é Augusto, o seu jardim está precisando de cuidado...mas dá para ver, se me permite dizer, que é um belo jardim!". Observou Augusto, escancarando uma longa fileira de dentes brancos.

Larissa sorriu tolamente, havia gostado da espontaneidade do sujeito e de seu encantador sorriso, além disso, a cara dele...não a havia visto em algum lugar?

6 comentários:

A_for_Anetta disse...

Gostei bastante, li rápido tentando desvendar o final. Achei que ela ainda estivesse viva... Pelo menos serviu de adubo para belas plantas. É só o que nos resta né? Ser adubo.

Beijo, meu escritor favorito x)

Bruna Mitrano disse...

Ficou ótimo, V.H!!
"rabugentamente" foi o melhor advérbio que já vi.
Mais uma vez você considerou o olhar feminino e o comparou com o masculino, belo detalhe.
Muito boa as reviravoltas da sua narrativa. Eu já estava acreditando na inocência do jardineiro. Uma baita criatividade, moço!
A vitória-régia é mesmo A rainha, até no nome. E ela é indiscutivelmente linda.
Bacana que, especialmente nesses três textos que compõem o "Acima das folhas uma rainha", você não deixou a desejar nenhuma vez nem quanto à forma nem quanto ao conteúdo.
Destaque para o não-fim. Essa coisa cinematográfica de insinuar uma continuação, mais uma flor para o jardim sob água.

Rapaz, abandone o Direito e vá viver de Literatura!

Marina disse...

Só agora fui ver que a continuação tinha finalmente saído. Muito intesessante o conto. Sabe quando você fica imaginando... Primeiro, pensei que ele que a tinha matado, depois pensei que ela estava viva e ele ia se encontrar com ela. Devia ter permanecido no meu primeiro palpite, mas nem assim teria adivinhado. Muito bom mesmo.

Abraço!

luzia regina disse...

Gostei do deboche dirigido à mídia, reporteres interessados na fofoca - a interrogação sobre a possibilidade de posar nú, adorei. Gosto quando vc critica esse pedaço de povo que se acha.
Gosto sempre da palpitação que seus contos provocam, seus personagens cutucam meus sentimentos, mas definitivamente deste Leandro psicopata eu não gostei.

Laila disse...

Aha! Eu sabia que ele era culpado!
Mas isso é o que menos importa. O interessante é o enredo, a construção toda da história. Coisa que se eu tivesse uma editora, publicaria sem medo.
=)
"Ela ardeu como a própria chama da vida, um fogaréu imenso, iluminaria um descampado inteiro"
Incrível essa.
Quando eu crescer quero escrever assim também.

Borealis disse...

Gostei bastante...

Mas como pode alguém confessar um assassinato e permanecer livre?

isso não tá certo, heim. e olha que vc é advogado! haha, me explica como pode isso..

ele poderia ter ficado um tempo preso (um tempo relativamente curto)e depois que fosse solto, iria enfim ver a amada...