9.1.09

Acima das folhas uma rainha (parte 2)

Acompanhe:

Parte 1

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rosa vermelha

“O que tanto olha aí, Leandro?”

“Olhe bem, é uma bela rosa, não acha: vistosa, reservada, atraente?”, sugeriu Leandro, acariciando as pétalas, e, levantando-se de onde ajoelhara, estendeu os braços ao redor, “Aliás, tudo isso aqui, é um belo jardim”.

“Coisas da sogra, exigente…”.

“Que nada, é bom gosto!”.

“Se você acha. Eu também gosto, muito mesmo. Cuida bem dele, tá certo? é pra isso que te pagamos”, sentenciou, mordaz.

“Com todo prazer do mundo, dona”. E, destacando do caule um botão já florido e em vias de se exaurir em vida, entregou-o a Andrea Ortiz, que abandonara o tom mordaz para assumir uma face rubra e surpresa, à maneira da linda rosa, “Apesar de linda, tem seus perigos, os espinhos, mas já os retirei para a senhora, para não se machucar…”.

­•••

A lembrança abandonou-o tão rápido surgiu. Olhou-se no espelho indiferentemente, sem emoção, como só um homem sabe fazer. Estava nu. Seu olho, sombreado por uma disforme marca roxa, era a única lembrança que portava de uma enxurrada de socos e cotoveladas, lembranças deixadas com vigor por Joaquim.

“Incrível como esses filhos da puta sabem bater e não deixar marca”, constatou Leandro, ao examinar o resto do corpo.

Não pretendia dar queixa do policial. Perda de tempo crer que se tem direitos contra o Estado. Leandro acreditava que havia ganhado aquela batalha, pois fora libertado do interrogatório, e não preso. Não se prende ninguém sem acusações consistentes, pensava. E por mais que duvidassem dele, seguiu a lógica, estava claro que nenhuma prova possuíam.

“Vão me seguir como gato-e-rato, mas não vão me pegar. Sei que estão aí fora. Bastardos”, pensou consigo mesmo.

Foi quando a campainha tocou, precipitando-o.

Ao abrir a porta, Leandro encarou Batista sem piscar, mas não ousava supor que este fazia o mesmo, pois usava óculos de sol. Aliás, nada se podia supor sobre aquele homem, posto que era como uma rocha estática e enigmática, o que assustava Leandro. O bigode negro e espesso, que se sobressaltava da figura, bem penteado, subitamente se moveu:

“Só quero bater um papo, estou sozinho”, convidou-se Batista, voz tonitruante.

Leandro meneou a cabeça em direção à sala, rendido, mas sem totalmente se entregar:

“Bater é com vocês mesmo…”.

“Perdoe o meu parceiro, o Joaquim, sempre repreendo sua impulsividade”. Sentou-se, tirou os óculos e, lentamente, começou a limpá-los com o paletó. Tinha grandes olheiras. Continuou: “Já notou como é arrogante? Fala como se estivesse no século passado, na segunda pessoa, e nem sei se é do Sul. É cheio de modos, formalismos, e acha que pode sair batendo em qualquer um para conseguir o que deseja. Não é abominável?”.

“Percebi. É, sim, senhor.”.

“Não estou aqui para fazer-lhe mal, embora você esteja naturalmente com um pé atrás. Pode se tranquilizar”.

“Está aqui para que então?”

“Hoje fui informado de algo estranho. Pelo que parece, você e Andrea Ortiz eram bem… “próximos”, foi o que me disseram, você sabe, fofocas assim correm rápido, ainda mais quando é a respeito de uma senhora de tão alta estirpe”. E perscrutou Leandro, ansioso de sua reação. Frustrou-se, no entanto:

“Eu era próximo da Dona Andrea tanto quanto um jardineiro deve ser de quem o emprega”, pontuou impassivamente o jardineiro.

“Sim, entendo”, conformou-se Batista, “você sabe, preciso ter certeza, é um caso de repercussão nacional, a imprensa nos pressiona todo dia com essas manchetes espalhafatosas…´crime do século´ para cá, ´onde estará Andrea Ortiz?´ para lá” e emendou “agora vou me retirar. Gostaria de elogiar seu jardim, você tem uma linda roseira, sabia?”

“Obrigado, policial Batista”, respondeu secamente Leandro, com uma ponta de orgulho, porém.

Acompanhou o oficial até a porta. Ao abri-la, notou que Joaquim estava parado ao lado de seu jardim. Sorria causticamente e, teatral, deu um aceno de mão a Leandro. Batista gritou:

“Joaquim! Você por aqui! está admirando o jardim do nosso amigo jardineiro? Estava agora mesmo elogiando a roseira dele”.

“Ah, é?”. Olhou ao derredor, sedento, e, ao achar o que procurava, mal se conteve: “Esta aqui?”.

Na primeira pisada, Leandro apenas arregalara os olhos, incrédulo. Caules quebrados. No segundo pisão, seu queixo caíra e as mãos pendiam sobre a cabeça, em sinal de desespero. Espinhos partidos. No terceiro golpe, flores destruídas, o jardineira gritava, insano. Batista, displicente, comentou:

“Que maldade, Joaquim. Onde já se viu destruir o jardim de um jardineiro tão dedicado…Leandro? Por que parar? É só uma brincadeira de Joaquim, acalme-se, pare de gritar. Aliás, sabia que rosas são as flores preferidas da desaparecida? Sabia, hein?”

Num momento racional, Leandro não saberia explicar o que aconteceu consigo naquele instante, provavelmente apenas responderia o que sua mente suporia mais óbvio para uma pergunta sem resposta “apaguei…”. A realidade, contudo, se configurava menos opaca, e se dera da seguinte maneira: os sons ao seu redor silenciaram, sua visão focou apenas dois alvos a sua frente, bem destacados e delimitados, seu cérebro parou de raciocinar e todo seu corpo parecia apenas obedecer uma ordem primal e natural, ditada por algo dentro do homem a muito adormecido e com forte sede de sangue: matar. Não sabendo de qual dos dois deveria dar cabo primeiro, acabou por escolher, talvez instintivamente, talvez por ordem de maior ódio, Joaquim.

Foi interrompido, no entanto, por Batista, que passara uma rasteira no descontrolado Leandro, incapaz de enxergar algo além de sua quase-vítima. Batista imobilizava Leandro com o joelho, pressionando-o para baixo com seu peso de pedregulho. Para deixá-lo ciente da situação, aproximou seu rosto da nuca do jardineiro, e sussurou ameaçador:

“É assim que você ataca suas vítimas, seu pervertido? Você se julga muito esperto, não é? Acha mesmo que não vamos pegá-lo? Está tudo na cara. Tudo o acusa, jardineiro de merda. Onde você escondeu o corpo dela? Hein? Diga algo! Chega de mentiras, assassino!”

•••

Olhavam-se através do espelho, deitados. Mais do que isso: admiravam-se. Em meio à ardente conjunção de corpos, aos fluídos e à fruição, ao calor do beijo molhado e ao carinho da leveza de seus dedos e arrepio de suas peles sensíveis, descobriram que podiam amar além do que julgavam ser amor. E sabiam ser amor além do que o tesão de uma recente paixão - o que de fato era - acusava. Era amor e era paixão, combinados, uma raridade. Saciavam a doce mixórdia num motel, longínquo.

“Estou preocupada”, queixou-se Andrea, levantando a cabeça e deitando-a no peito de Leandro.

“Por quê?”, ele questionou.

“Acho que ele sabe…”

(CONTINUA…)

Parte 3

6 comentários:

A_for_Anetta disse...

Saaaaaaaaaaai! Continua logoooo!

Eu também quero ler seus contos em um livro seu! Posso fazer a capa? x)

=****

Bruna Mitrano disse...

Acho que vira romance, vira livro.
Enredo muito bem trabalhado, falta isso em muitos dos ecritores contemporâneos.
Destaque mais uma vez para as flores, dando cor à realidade um tanto sombria dos personagens.
Gostei dos 'cortes', das mudanças temporais. Dos 'cortes' finais também, aguçando a curiosidade de nós leitores.
Acho que essa trama ainda vai se despetalar muito, vou esparar!

Bruna Mitrano disse...

*esperar

Laila disse...

Eu continuo achando que foi o Leandro!
obs.: Fico impressionada com a sua capacidade de prender o leitor.

Marina disse...

Mentira, né? Continua DE NOVO?? Isso é crueldade, hein?

Assim como Bruna (como não concordar?), gostei dos cortes. O jeito que as partes foram colocadas proporcionou uma riqueza textual ainda maior. E também acho que vira livro. Muito bom!

Abraço!

luzia regina disse...

Bela maneira de se trabalhar a ansiedade. Dá para imaginar pq alguns pacientes não conseguem aguardar a próxima semana para mais uma sesssão.