28.1.09

Pausa para brincadeira e Skoob

A Bruna do De lírio lilás foi vítima de uma dessas medonhas brincadeiras de blog, em que você é obrigado a fazer algo e passar adiante certa tarefa. Um vírus não seria tão eficiente. Para variar, fui indicado por ela para cumprir a corrente, que consiste em:

1-Agarrar o livro mais próximo;
2-Abrir na página 161;
3-Procurar 5ª frase completa;
4-Colocar a frase no blog;
5-Repassar pra 5 pessoas.

Depois que me mudei, não deixei mais nenhum livro sobre meu hack, estão todos guardados no armário ou na prateleira sobre minha cama (de casal, por sinal). Assim sendo, me senti no direito de pegar não o livro mais próximo (estavam todos igualmente à mesma distância), mas o que eu estou lendo: Amor nos tempos do cólera, do Gabriel García Márquez.

Aí vai:

"Aprendeu a fumar ao contrário, com a brasa dentro da boca, como fumavam os homens nas noites das guerras para não serem denunciados pela ponta incandescente do charuto."

Isso foi edificante, fiquei imaginando um soldado trapalhão querendo se manter escondido das tropas inimigas, fumando um cigarro ao contrário e queimando a língua. Iria ser bem discreto!

De qualquer maneira, gostaria de pegar carona na brincadeira proposta pela Bruna e oferecer uma dica a todos os leitores. Todos sabem que as redes sociais são uma realidade para lá de concreta no mundo virtual (tá, esse trocadilho foi horrível), assim sendo, já era hora que aparecesse uma rede social diferente do orkut (que foi tomado por patricinhas esdrúxulas e manos "ingnorantes"); algo mais culto, voltado para atividades mais construtivas. Surgiu então o Skoob, onde você pode dizer o que está lendo, o que vai ler, escrever resenhas e manter contato com pessoas de gosto semelhante ou não. Uma boa maneira de evitar ler aquele livro indicado por sua amiga que acha Dan Brown e Paulo Coelho o máximo. Ah, e o melhor: o site foi desenvolvido por brasileiros!

Para quem quiser me adicionar lá, sinta-se à vontade: clique aqui.

De resto, meus cinco amaldiçoados com a brincadeira do livro são: ninguém!

25.1.09

RelMIRPT: "Aniversário de 2 anos do blog"

Relato nº 90.666.999 da Missão de Investigação e Reconhecimento do Planeta Terra (MIRPT)

Ter>hum>pes>vhab>ztqm

É com grande orgulho que a equipe do MIRPT, após cansativo e desgastante trabalho de reconhecimento das peculiaridades desse planeta tão...azul que é o planeta Terra, vem desejar PARABÉNS aos 2 anos do blog Zaratustra tem que Morrer! Em nossa cruzada para decifrar todos os limites terrenos, a composição físico-química do planeta, a genealogia dos animais e, em especial, essa tremenda confusão que é a sociedade humana, acabamos por encontrar nesse universo paralelo virtual, denominado internet um "blog" singelo, diferente, preocupado em analisar a condição humana e relatar suas agruras e sofrimentos, evoluções e paixões, amores e lutas, ou seja, tudo aquilo de que não entendemos bulhufas e para o que somos pagos pela Sociedade Enciclopédica Universal para entender. Apesar disso, gostamos do ZTQM por estar sempre disposto a melhorar em prol de seus leitores. Nesses dois anos recém-completados, permeados de contos, crônicas, humor e besteiras, o blog persegue somente um objetivo: evoluir, como a sociedade humana deveria fazer...

Reiteramos que seu autor, um jovem terráqueo que insiste teimosamente em viajar conosco, não nos contemplou com nenhum tipo de propina para escrever este relato.

Parabéns por seus 2 anos, ZTQM!!!

bolo

22.1.09

Acima das folhas uma rainha (parte 3 - final)

Acompanhe: parte 1, parte 2

_______________

vitória-régia

O escritório de M. Ortiz trazia em si toda a opulência de um homem poderoso. Centenas de livros dispunham-se ao redor do espaço, todos grossos e sobriamente encapados, de modo a formar uma arquibancada de espectadores curiosos, atentos e rabugentamente inertes. O mogno revestia cada detalhe do ambiente: desde as estantes dos livros opressores até a grande mesa atrás da qual estava sentado o dono de tudo aquilo. Leandro não possuía a delicada arte feminina do detalhismo, assim sendo, ao entrar naquele escritório, foi apenas tomado de uma súbita e única reação de espanto, registrada em seu cérebro pela forma de um lugar desconfortável, soturno, de uma seriedade tamanha que dali deveriam se originar decisões das mais imprescindíveis para o comércio e a política mundiais. Mulher fosse, duma única vislumbrada teria notado o sofá, a mesa, as cadeiras regiamente almofadadas, o divã impecável, as estantes, os livros, os abajures, a cortina, a Montblanc, e, não menos importante, o retrato do casal Ortiz, com uma foto tirada no dia do casamento de ambos, ainda vestidos nos trajes cerimoniais.

O Sr. Ortiz olhava-o com desdém, sem nada dizer, nem ao menos convidando-o a se sentar.

"Você está despedido", anunciou o rico empresário, com voz gélida.

"P...por que, senhor?!", precipitou-se Leandro, surpreso.

M. Ortiz encarou-o inconformadamente, uma veia saltava de sua longa testa.

"Como ousa agir assim?! Acha mesmo que pode comer a minha mulher e mentir como se fosse uma criança mimada? Você é muito cara de pau!".

Leandro, que inicialmente ostentava uma expressão consternada, gradualmente passou a sustentar um ar petulante. Risonho, encarava Ortiz sem medo.

"Nos amamos! ficarei com ela. Você logo será um corno abandonado. Um rico corno abandonado! Nem com todo dinheiro do mundo vai conseguir extrair os chifres da sua cabeça, seu grande otário. Enquanto isso, mentalize bem, pois é uma imagem que ficará na sua cabeça pelo resto da sua vida, toda manhã, tarde e noite: estarei comendo a sua mulher, não, a minha mulher, com muita, muita força".

Cabisbaixo, Ortiz olhava seu tapete persa, quieto.

Leandro ia saindo, quando Ortiz resolveu falar, talvez para si mesmo: "sou um homem infeliz, casei com uma puta e não soube agradá-la...bem que tentei. Sou poderoso e poderia matá-lo, mas não o faço pois o dinheiro me limita. Se saio do trilho minha fortuna se esvai...um assassinato me deixaria pobre e não há como escondê-lo, estou cercado de traidores, de cobras vis, que me denunciariam ou me chantageariam, a troco de uma merreca, porém pela vida toda. Vá embora e leve aquela biscate, não ligo para aquela piranha nem para um pobre como você, que julga esse momento um êxtase, já que conseguiu enganar o rico. Você é peixe pequeno. Vá e se foda, prepare-se para quando ela começar a sentir saudade da ostentação".

O jardineiro ainda saiu rindo, esforço que lhe pareceu difícil de executar, posto que sentia ter estranhamente perdido aquela batalha com Ortiz. Ele vencera, não vencera? Algo dentro dele começou a incomodá-lo, uma estranha vontade de sumir com tudo...

•••

"Aqui estamos novamente, Sr. Leandro! E dessa vez contamos que você abra essa sua boca imunda, ok?"

Lembranças desagradavam Leandro. O passado era um problema, gostaria de esquecer tudo. "A culpa", julgava, "está me comendo por dentro". Queria ir logo para aquele lugar, vê-la, mas o presente ainda exigia sua participação, sua existência. Organize-se, organize-se!, pensava.

"Vocês tiraram a rainha-da-noite daqui...", constatou com voz morta, sentado e algemado.

"Jogamos fora aquela merda. Não tinha cabimento uma planta decorar uma sala de interrogatório, não acha?", disse Batista.

"Além do mais...", provocou Joaquim, "...você não veio aqui para jardinar".

"Era uma planta bonita...".

"Bonita como Andrea Ortiz?", comentou Joaquim, juntando os dedos e os beijando com um estalo.

Leandro olhou Joaquim e Batista com olhos de morte. Suava muito e respirava com dificuldade. Todo o seu corpo sentia um enorme mal-estar, consequência a qual ele não saberia detalhar a causa. Subitamente, ficou sereno, deu um sorriso ou outro, meneou a cabeça, como se estivesse a lembrar de ótimos momentos. Uma lágrima correu seu rosto. Uma única lágrima.

"Andrea e seu marido sempre tiveram uma relação difícil...", começou a relatar, ao que os policiais prontamente se aproximaram, sentando de frente a ele, "...ela era uma garota nada abastada, e ele só um ricaço emergente, doido para impressionar alguma mulher com sua grana. Ela foi a 'presa' dele...".

"Continue...".

"Durante o tempo em que lá trabalhei, pude constatar o fim de algo óbvio: eles não se amavam. Ele amava o dinheiro e ela amava o jeito que ele amava dinheiro. Logo a lua de mel dos dois teve fim e foi quando começaram as brigas. Todos os empregados viam, era grito o dia todo".

Parou, procurando se lembrar de algo, e então continuou:

"Eu a achava muito linda, e foi uma surpresa também para mim constatar que estava apaixonado por ela. Não demorou muito para eu perceber que ela também estava apaixonada. Começamos a sair escondidos, tivemos encontros em motéis, em lugares afastados. Um dia até fomos ao cinema. O que não sabíamos é que ele nos seguia, ou mandava alguém seguir. Quando ele descobriu, começou a agredi-la fisicamente, virou outra pessoa, um animal. Ela não suportava mais, resolvemos então fugir. Antes disso ele me chamou ao escritório dele e me demitiu, apenas isso. Fez com tanta calma que estranhei. Fui para minha casa e poucas horas depois me caiu a ficha de que toda aquela calma só poderia significar uma coisa: ele iria matá-la!...Voltei correndo para a mansão e descobri com os empregados que ele a tinha levado para a chácara que possuem...possuíam a 100km daqui".

Prosseguiu:

"Não tenho um carro muito veloz e temo por isso ter chegado tarde demais! Quando lá cheguei, percebi que ele não tinha levado nenhum segurança, ele estava só..."

Leandro agora olhava fixamente para o nada, como se estivesse em outro lugar, em outra dimensão. Falava apressadamente.

"Peguei-o pelo colarinho e o sacudi, gritando onde ela está, onde ela está. Ele parecia uma pedra, estava irreconhecível, mas tinha um sorriso na boca. Disse que agora estava livre da vagabunda, parecia um louco varrido. Fiquei assustado, implorei para ele contar onde a tinha levado, onde ela estava. Está morta, respondeu. Mortinha, mortinha, e ficava rindo. Eu me desesperei, me ajoelhei e implorei que me respondesse e ele vendo isso começou a me chutar, disse...ah...disse que a tinha queimado viva, que quase gozou enquanto ela gritava de dor, que adorou o cheiro de queimado da mulher, era doce e inebriante, ele disse. Por último, ele falou depois enterrei, tá enterrada perto daqui, agora é dos vermes. Eu corri para o carro, não aguentava mais aquilo, lá estava um facão que eu usava para o serviço, estava morrendo de raiva, então ele se assustou e correu, eu o alcancei e comecei a golpeá-lo, não sabia mais o que estava acontecendo comigo, estava cego".

Batista e Joaquim se entreolharam, calados. Leandro agora chorava desoladamente: "Estou tão arrependido!", gritou, por fim.

•••

Na saída do tribunal, o alvoroço de jornalistas engoliu Leandro entre perguntas, algumas cretinas outras pertinentes. A nuvem de indagações permeou a mente do jardineiro, que, entretanto, não havia escutado nenhuma: "Como o senhor se sente após ser absolvido?", "O que o senhor fará daqui em diante?", "Como foi matar o Sr. Ortiz?", "Como era Andrea na cama?", "O senhor irá posar nu?", "O senhor acha a decisão do Júri justa?", "O senhor realmente se considera inocente?", "O que o senhor sentiu quando viu que a polícia tinha encontrado um corpo carbonizado sem nenhuma chance de ser reconhecido?".

Leandro apenas sorria. Estava livre. Entrou no carro que o esperava e partiu a toda velocidade.

"Sem nenhuma chance de ser reconhecido", aquilo flutuou durante horas em sua cabeça. Estava livre.

Alguns meses depois, ao passo em que ia pacientemente tentando reestruturar sua vida, fugindo de jornalistas, de transeuntes indignados com o que tinha feito, de ameaças anônimas e de manifestações de apoio - e inclusive, até de algumas cantadas e cortejos - Leandro conseguiu se estabelecer em um novo bairro, gozando de certo anonimato. Tinham se esquecido dele, seu rosto voltara à condição de normalidade, tinha adquirido o ar de habitualidade de maneira a ninguém mais perturbá-lo, exceto um ou outro maníaco que o tinha por alvo ou por ídolo. Foi nessa época, e somente nessa época, em que conseguiu se misturar em meio à massa uniforme da incognoscibilidade, que julgou possível realizar um desejo que o perseguia há tempos, consumindo sua alma dia após dia. Finalmente poderia ir lá.

Pegou seu carro ainda de madrugada, às vésperas do amanhecer e, socando o volante, obrigou o carro a pegar no tranco. Dirigiu-o cuidadosamente por uma estrada já conhecida. Estava elétrico e mal continha sua ansiedade. Contudo, havia aprendido no tempo em que passara na cadeia, aguardando a decisão do Júri, a controlar suas emoções. A atitude era lógica, visto que se não aprendesse a domar ansiedade e frustração, seria consumido ali mesmo, dentro de sua cela, tanto por seu coração acelerado e sua vontade de gritar, quanto pelas paredes que o oprimiam vorazmente.

Ao chegar no local, estacionou desajeitadamente o carro. O sol espreguiçava seus primeiros raios, e não pôde deixar de soltar um gemido de excitação quando examinou bem o cenário: o lago imóvel, coberto por uma leve neblina, a refletir o sol nascente, e a atrair para si um tanto de árvores que se localizavam em suas margens, árvores que se curvavam em direção ao lago como a reverenciá-lo, como a reverenciá-la. A beleza dela.

Focou sua visão sobre as protagonistas do lago, aquelas que, únicas, chamavam a atenção para seu tamanho, sua desenvoltura, sua capacidade de flutuar sobre as águas. Leandro sabia que aquele espetáculo era inerte e eterno. As vitórias-régias ali estavam antes dele e estariam ali ainda durante muito tempo, a abrir suas flores durante a noite e oferecê-las aos céus, em sinal da mítica amizade entre água e ar.

Encarou-as durante um bom tempo, feliz.

"Andrea, meu amor, perdoe-me. Isso tudo foi, infelizmente, necessário. A mentira foi necessária, entenda. Tive de indicar onde estava o corpo da Beatriz. Foi um mal necessário. Beatriz era minha antiga mulher, querida, já lhe contei sobre ela. Não...não sinta ciúmes, amo você, muito! Você precisava ver, eles caíram como patos. Eu a havia eternizado tempos atrás. Ela ardeu como a própria chama da vida, um fogaréu imenso, iluminaria um descampado inteiro. E então a enterrei perto de sua chácara, tamanha a sorte, ainda nem a conhecia! Pelas fotos nos jornais, havia lírios lindos sobre ela, eu mesmo os plantei, sabia que a beleza dela daria belas flores. Eles pensaram que era você, não imaginava que ela estava tão irreconhecível. Ou vai ver que a pressão pública era tamanha que eles se sentiram gratos de ter só um corpo para mostrar, para fingir que haviam resolvido algo. Tanto faz, o importante é que agora estou livre e você também, meu amor. Você está eternizada, olha só que belas flores você nos deu!".

Conversou com Andrea por horas. Ao terminar, retirou uma rosa de uma mala e a lançou sobre a vitória-régia, que a apanhou bem em seu centro, onde ficou deitada, bela e vistosa. Leandro foi embora, agora lívido e complementado em sua ansiedade: sentia-se novamente bem. Andrea, no entanto, permaneceu imóvel, fria e em decomposição, morta por aquele que acreditava ser o amor de sua vida, abaixo das águas, presa por pedras, a servir de matéria orgânica para toda as criaturas lacustres, e, em especial, de adubo para o espetáculo das vitórias-régias.

•••

EPÍLOGO

A campainha soou alto e, por estar entediada, Larissa correu divertidamente para atendê-la:

"Mãe! Tem um jardineiro na porta oferecendo seus serviços! Vamos pedir para ele cuidar das bromélias? Elas estão tão acabadinhas!"

"Tá certo, filha, cuida dele aí que estou ocupada fazendo a unha..."

Larissa abriu o portão e foi se encontrar com o recém-chegado, para lhe dar instruções, não sem antes passar na frente do espelho e ajeitar seu cabelo.

"Olá, mocinha, meu nome é Augusto, o seu jardim está precisando de cuidado...mas dá para ver, se me permite dizer, que é um belo jardim!". Observou Augusto, escancarando uma longa fileira de dentes brancos.

Larissa sorriu tolamente, havia gostado da espontaneidade do sujeito e de seu encantador sorriso, além disso, a cara dele...não a havia visto em algum lugar?

20.1.09

Minha

Quinta-feira, 23/10/98

Sinto que estou cada vez mais perto dela. Seu cheiro impregna minha imaginação a todo instante e até nos sonhos ela vem me fazer companhia. Ontem acordei cheio de porra na cueca, o que me soou humilhante; no mínimo involuntário.

Ontem também percebi, por força da ciência, que estamos ligados um ao outro. Deu-se de forma estatística, em que analisei um evento e, por sua repetição, pude induzir o resultado. Método limpo, pura matemática, com uma pitada de espiritualidade. Uma semana depois de ter me mudado para o apartamento ao lado do dela, comecei a ouvir barulho de descarga toda vez que eu ia ao banheiro. Era eu terminar de mijar, e ouvia a descarga dela. Ou estava escovando os dentes e idem. Ou eu havia acabado de dar descarga e em seguida ela fazia o mesmo. Peguei um bloco de anotações e comecei a registrar a frequência disso: fomos ao banheiro ao mesmo tempo 57 vezes em três semanas. Estamos ligados.

Por conta disso, a imagem dela defecando começou a frequentar meu imaginário. Chega a ser excitante pensar que, enquanto estou ali sentado, colocando para fora meu bolo fecal, ela está a apenas uma parede de distância de mim, de costas, fazendo a mesma coisa, talvez não lendo os mesmos livros que eu, ou completando os mesmos quadrados das palavras cruzadas, mas ainda assim está ali, igual a mim, esperando por mim. Mole, duro, consistente, mau-cheiroso, marrom, amarelo, avermelhado, pastoso, pequeno, grande, grosso, fino, curvo, reto, rachado, incólume. Como será a bosta dela? A bosta diz muito sobre uma pessoa, e não há como pensar que ela não faz essas coisas. Sinto pena dos rapazes que julgam que seus amores não defecam. É belo, ora. É a natureza funcionando. Ao invés de a imaginar santa e sem cu, prefiro pensar que ela faz um lindo cocô, uma obra de arte, como o primeiro cocô de um bebê num penico, em que todos comemoram felizes a proeza da criança.

Talvez já amanhã eu comece meu próximo passo: a aproximação. Ela será minha, sem dúvida. Esforcei-me semana retrasada para parecer aprazível aos seus olhos no elevador e acho que isso surtiu efeito. Ela me cumprimenta sorridente agora, aquela fileira de dentes brancos os quais lamberei com vontade logo logo. É fácil: nada de conversas sobre o tempo, ser original, falar algo que a faça lembrar de você mais tempo do que o necessário para o esquecimento, ser ousado mas não tarado. No cotidiano veloz que nos toma é impossível uma impressão durar muito, mas um esforço a mais já conseguiu me marcar. Ah, o sorriso dela...

Segui-a durante dois dias, conheço seu trabalho, a casa de sua mãe, e até nome, residência, idade e religião do imbecil que a corteja. Ela não gosta dele, sei que não. É só um mané. Tomara que não fique em meu caminho...

Os próximos dias revelarão se obtive sucesso ou não, diário, espero voltar com boas notícias.

15.1.09

Meme literário

Memes são recursos novos aqui no Zaratustra tem que Morrer. Inéditos. Não vou muito com a cara deles pois me cheiram àquelas maldições que constantemente passavam no flog e aqueles caderninhos de meninas de 10 anos que, querendo saber sobre a vida das pessoas e saciar suas pequeninas curiosidades demoníacas, organizavam um verdadeiro interrogatório nas muitas páginas dos cadernos de brochura. Acho que foi aí que tive o primeiro contato com a palavra idem, que nos dias de hoje me atormenta devido às regras da ABNT para citações.

De qualquer maneira, esse meme é sobre um bom assunto: literatura. A pessoa que o passou a mim, mesmo não o fazendo diretamente, foi a Marina, do blog Do fundo do mar.

 

1. Livro/Autor(a) que marcou sua infância:

As Fábulas de Esopo, lógico. De que outra maneira eu aprenderia tão rigorosamente como se interpretar uma metáfora? ou como um texto, em toda a sua desenvoltura e estrutura, deve conter um objetivo em si, ou, mais simplificadamente, para crianças, uma moral? Não há como não achar uma aplicação prática em histórias tais quais A raposa e a uva, A tartaruga e o lobo, e por aí vai. Atualmente, capitalistas transformaram essas histórias em uma espécie de auto-ajuda "do-it-yourself" para alcançar maiores lucros e ser alguém "respeitável" nessa complexa sociedade em que vivemos. Oh.

2. Livro/Autor(a) que marcou sua adolescência:

Fico dividido entre Machado de Assis e George Orwell. Ambas as escolhas se devem a capacidade destes autores de saber desnudar a realidade diante de nossos olhos tão afeitos à ingenuidade e à cegueira. É triste, no entanto, que coloquem Machado para ser lido tão cedo nas escolas brasileiras. Os pobres aborrecentezinhos mal sabem desvendar as linhas truncadas, a ironia fina e a metalinguagem da pessoa que julgo ser o maior escritor brasileiro. Guimarães Rosa que me perdoe, apesar de também ser incrível. No tocante a Orwell, considero-o um gênio, por saber fazer poesia com coisas sérias e tristes. É assim que vejo 1984: uma grande angústia e desespero presos dentro do ser, incapazes de se libertar devido à brutalidade de "botas" que massacram o pobre coitado. Um dos poucos livros que me fizeram chorar.

3. Autor(a) que mais admira:

Aqui também me divido: fico entre Rubem Fonseca e Milan Kundera. O primeiro por seu histórico de vida, um delegado que passou a escrever, e de forma brilhante, adianto. Cada história sua, cheias de mistério, violência, instinto, aquele ar soturno, são como um longo fôlego tomado antes de se dar conta do óbvio: o ser humano é cruel. Recomendo a leitura do livro 64 Contos de Rubem Fonseca e A grande arte. Milan Kundera é um escritor tcheco do século XX, famoso por seu A insustentável leveza do ser. Não há como resumir um livro desses, é simplesmente uma aula, uma aula sobre a vida, sobre sentimentos, amores, dores, a relação da linguagem com a sociedade e as sensações, e até história e geopolítica. Kundera parece ser alguém que entende o ser humano, de cabo a rabo. Outro que me fez chorar. De depressão. Livro pesadíssimo.

4. Autor(a) contemporâneo:

Colocaria Rubem Fonseca aqui novamente, por seu ultrarealismo. Tenta-me colocar, também, Gabriel Garcia Márquez e José Saramago, por sua "latinidade" e variedade de temáticas.

5. Leu e não gostou:

Queridinhos dos aficcionados por rankings de bestsellers da Veja: Marcos Zusak e Khaled Hosseini. Não li A menina que roubava livros, livro em que, provavelmente, Zusak está mais maduro como autor, já que todos falam bem do livro. Porém, a obra dele lida por mim, Eu sou o mensageiro, é a perfeita tradução de: "tenho 18 anos e quero ser escritor!!!", sem, no entanto, saber nada sobre escrever. Tenta ser moderninho mas acaba sendo patético. O caçador de pipas, de Khaled Hosseini, é um amontoado de clichês que não me comoveram nem por um segundo. Não vou nem citar Dan Brown para não ser repetitivo.

6. Lê e relê:

Ficção científica. Qualquer coisa de Isaac Asimov. Já leram a trilogia Fundação? Também cito Robert Heinlein com seu Um estranho numa terra estranha, que foi uma de minhas melhores leituras (o melhor final que já li, junto de Admirável mundo novo). Leio e releio Voltaire também, para ter em mente sempre o significado da palavra "sarcasmo". E na esteira desse sarcasmo hilário, a fantástica obra de Douglas Adams: Guia do mochileiro das galáxias e suas continuações.

7. Manias:

Antes de começar um livro sigo sempre um leve ritual de ler primeiro as informações sobre o autor e a obra. Depois escolho uma página qualquer, ao acaso, e leio algumas partes, para ver se o estilo do autor me é aprazível. Se eu gostar do livro, vou me preparar para ler seu final como se estivesse me preparando para encontrar a menina mais linda da cidade: é a parte mais especial do livro, a que vai me deixar deprimido, como usualmente acontece, tanto pelo texto acabar de forma triste, como pelo fato do livro ter acabado; ou que me deixará feliz, no caso de acontecer algo extremamente bom aos protagonistas. Vou confessar que adoro quando isso acontece. Autores são meio sádicos, sempre fazendo seus personagens sofrerem.

8. Quero ler em 2009:

Em 2009 darei seguimento às leituras de Saramago e Gabriel Garcia. Encontro nos dois similaridades à minha maneira de escrever. Ando lendo Amor nos tempos do cólera, ao que será seguido, provavelmente, por O evangelho segundo Jesus Cristo, do Saramago. Gostaria também de ler O Filho Eterno, de Cristovão Tezza, que ganhou muitos prêmios em 2008. Umberto Eco, Douglas Adams, Carlos Ruiz Zafón, entre outros, também estão na mira. Além dos livros de Direito...argh...

 

Bem, é só. Também não irei passar esse meme adiante. Mas para quem se interessar por ele, sinta-se à vontade e mande ver no ctrl c+ctrl v, é uma boa experiência!

12.1.09

Morte e vida: eternos

Desde que o mundo é mundo, as culturas de diferentes povos tentam definir, à sua maneira, o papel da vida e da morte e suas influências no cotidiano das pessoas e em sua religião, dentre outros aspectos.

Aprende-se, na escola ou em qualquer ensinamento mais aprofundado da vida, que, primeiramente, os homens pré-históricos nem enterravam seus mortos, deixavam-nos apodrecendo a céu aberto. Aprende-se como os egípcios cultuavam a morte, com suas mumificações, Livro dos Mortos, Anubis, esperança de que o morto retornasse à vida. Os gregos, por sua vez, desenvolveram o conceito de Hades e Elíseos, paisagens tão bem definidas nas palavras de Dante, que vão desde o Caronte até Giudecca, passando, inclusive, pelo rio Estige, onde perdemos consciência do que fizemos em vida. Os cristãos vieram com o Paraíso, o Limbo e o Inferno. Os ateus enterraram tudo isso e esclareceram, convictos e apoiados por suas crenças científicas, como apenas viramos comida de verme depois da morte. É interessante notar que cada conceito de morte importa um tipo de vida e vice-versa, numa relação de causalidade: o que se faz em vida, ecoa na morte.

No entanto, é indiferente ao contexto cultural, científico, social e religioso com que se analisa a morte e a vida que eu e alguns amigos, no dia 17 de Agosto de 2008, comemorávamos meu vigésimo aniversário. A festa, inicialmente caseira, com direito a bolo, torta, parabéns para você e esse tipo de ritual, logo se tornou uma bela comemoração, assim que saímos de casa e nos dirigimos ao Zerão, um parque público com pista de caminhada aqui de Londrina. Neste dia houve um show, bancado por um excelente programa de incentivo à cultura da Prefeitura, da banda Terra Celta, aberto ao público.

Foi um belo show. Apenas quem conhece a banda sabe que tipo de energia contém uma festa dessa: é um belo remédio contra depressão e uma forma fantástica de se integrar socialmente. No show do Terra Celta, todos dançam, desde a senhora mais circunspecta até o metaleiro mais rabugento. Todos parecem ser contagiados por algo tão simples e primordial: a comemoração da felicidade, a celebração da vida. Você já se deu conta de que está vivo hoje?

                                                                                             

Terra Celta @ Zerão (17/08/2008): dança e diversão regados a cerveja e rum, mesmo no Inverno, estação símbolo da morte (assista ao vídeo após terminar a leitura)

O show começou no final da tarde e só terminou quando estava bem escuro, não por cansaço de ninguém, mas simplesmente porque faltava luz no local. Ao término, de modo a me envergonhar, fui erguido no ar por algumas pessoas, e então cantaram parabéns para você novamente, dessa vez acompanhado de todos os presentes no espetáculo.

De pernas cansadas e camisetas suadas, resolvemos voltar para casa, todos extasiados pela experiência do recente show. Enquanto caminhávamos, avistamos, do outro lado da avenida, um ônibus de uma faculdade particular de Londrina, conhecida por suas terríveis notas no MEC, lotado de estudantes que haviam ganhado algum campeonato de esporte, em um canto qualquer. Eles desciam do ônibus e gritavam em coro, comemorando seu título. Após me certificar de que entre as pessoas de minha turma todas estudavam em universidade pública, caçoei dos pobres ganhadores, entoando uma canção que aprendera mordazmente tempos atrás (não citarei o nome da faculdade):

Ô _____ ! Só pra lembrar:

Dia 5 tem boleto pra pagar!

Apesar da idiotice da brincadeira, ali estavam apenas alguns saudáveis jovens, brincando, se divertindo, comemorando a vida. De qualquer maneira, ainda sinto pena dos caçoados, que silenciaram sua comemoração após nossa pequena baderna.

Continuamos andando, e foi então que ocorreu uma intrigante contradição. Ao nosso lado esquerdo estava um cemitério, e do outro lado se encontrava uma funerária, que sempre acolhe pessoas que perderam alguém, dispostas em alguns bancos de sua varanda. Famílias desconsoladas e de olhos vermelhos e inchados.

O silêncio se instalou subitamente entre minha turma. Uma incauta de nosso bando, por descuido, ainda falava alto no instante, pois não avistara os condoídos que ali se encontravam, a chorar seu morto. O safanão que ela recebeu de uma outra pessoa de nossa turma, para que se inteirasse da situação, foi digno de um puxão-de-orelha severamente maternal. Calou na hora.

Ali estava o fim da celebração da vida e da felicidade. A despeito da comemoração de meu mais um ano de vida, de um alegre show, da dança de deixar as pernas doloridas, do álcool, da gozação com outras pessoas e da própria condição de juventude, que supostamente ignoraria qualquer convenção e desrespeitaria qualquer ato solene de nossa sociedade, numa amostra de imaturidade e rebeldia, havíamos, no lugar disso, nos calado, em respeito à dor alheia, em prol de algo que sabíamos sério, não sério como um assunto acadêmico, uma decisão política ou acontecimento global, mas sério no sentido inescapável da palavra, no sentido da inevitabilidade de um fato, que sabemos que irá ocorrer a cada um de nós. Nossa própria maneira de lidar com a morte, após a exacerbação de nossa alegria em vida, era permanecermos quietos, cabeças baixas, reflexões internas.

Este fato ficou gravado em minha mente como um símbolo da maneira com que minha geração lida com a morte: um fato alheio, estranho, tão presente e tão real, como prega a mídia, tão perigosa e ameaçadora, como nos fazem crer os programas policiais, tão solene e simbólica, como se depreende dos poemas aprendidos para o vestibular. A morte ganhou contornos burocráticos, banalizada em meio a homicídios, latrocínios, guerras de facções, guerras entre israelenses e palestinos, guerra, guerra, erros policiais, PMs que atiram a torto e a direito, bandidos menores de 18 anos de idade, que matam por diversão.

E em sua confusão semântica, mais do que anunciada e estudada, acabamos por esquecer o que é, de fato, a morte: apenas mais um capricho da Natureza, tanto quanto a vida, que fazemos valer menos do que alguns trocados. Menos do que uma boa lembrança de que se está vivo e pronto para viver. Pensamos mais em dinheiro e sexo do que no fato de que vivemos e vamos morrer. Ou talvez seja por isso mesmo que pensamos tanto em dinheiro e sexo?

Não me interessa o que vem após a morte. Não me condiz saber como irei morrer. A única coisa que me interessa, e digo isso porque quero saber como devo me portar na hora de estar morto, é saber o que resulta da morte, qual dos dois lados, daquela famosa máscara de teatro grega que bem nos define, a persona, deve prevalecer: riso ou choro?

9.1.09

Acima das folhas uma rainha (parte 2)

Acompanhe:

Parte 1

______________

rosa vermelha

“O que tanto olha aí, Leandro?”

“Olhe bem, é uma bela rosa, não acha: vistosa, reservada, atraente?”, sugeriu Leandro, acariciando as pétalas, e, levantando-se de onde ajoelhara, estendeu os braços ao redor, “Aliás, tudo isso aqui, é um belo jardim”.

“Coisas da sogra, exigente…”.

“Que nada, é bom gosto!”.

“Se você acha. Eu também gosto, muito mesmo. Cuida bem dele, tá certo? é pra isso que te pagamos”, sentenciou, mordaz.

“Com todo prazer do mundo, dona”. E, destacando do caule um botão já florido e em vias de se exaurir em vida, entregou-o a Andrea Ortiz, que abandonara o tom mordaz para assumir uma face rubra e surpresa, à maneira da linda rosa, “Apesar de linda, tem seus perigos, os espinhos, mas já os retirei para a senhora, para não se machucar…”.

­•••

A lembrança abandonou-o tão rápido surgiu. Olhou-se no espelho indiferentemente, sem emoção, como só um homem sabe fazer. Estava nu. Seu olho, sombreado por uma disforme marca roxa, era a única lembrança que portava de uma enxurrada de socos e cotoveladas, lembranças deixadas com vigor por Joaquim.

“Incrível como esses filhos da puta sabem bater e não deixar marca”, constatou Leandro, ao examinar o resto do corpo.

Não pretendia dar queixa do policial. Perda de tempo crer que se tem direitos contra o Estado. Leandro acreditava que havia ganhado aquela batalha, pois fora libertado do interrogatório, e não preso. Não se prende ninguém sem acusações consistentes, pensava. E por mais que duvidassem dele, seguiu a lógica, estava claro que nenhuma prova possuíam.

“Vão me seguir como gato-e-rato, mas não vão me pegar. Sei que estão aí fora. Bastardos”, pensou consigo mesmo.

Foi quando a campainha tocou, precipitando-o.

Ao abrir a porta, Leandro encarou Batista sem piscar, mas não ousava supor que este fazia o mesmo, pois usava óculos de sol. Aliás, nada se podia supor sobre aquele homem, posto que era como uma rocha estática e enigmática, o que assustava Leandro. O bigode negro e espesso, que se sobressaltava da figura, bem penteado, subitamente se moveu:

“Só quero bater um papo, estou sozinho”, convidou-se Batista, voz tonitruante.

Leandro meneou a cabeça em direção à sala, rendido, mas sem totalmente se entregar:

“Bater é com vocês mesmo…”.

“Perdoe o meu parceiro, o Joaquim, sempre repreendo sua impulsividade”. Sentou-se, tirou os óculos e, lentamente, começou a limpá-los com o paletó. Tinha grandes olheiras. Continuou: “Já notou como é arrogante? Fala como se estivesse no século passado, na segunda pessoa, e nem sei se é do Sul. É cheio de modos, formalismos, e acha que pode sair batendo em qualquer um para conseguir o que deseja. Não é abominável?”.

“Percebi. É, sim, senhor.”.

“Não estou aqui para fazer-lhe mal, embora você esteja naturalmente com um pé atrás. Pode se tranquilizar”.

“Está aqui para que então?”

“Hoje fui informado de algo estranho. Pelo que parece, você e Andrea Ortiz eram bem… “próximos”, foi o que me disseram, você sabe, fofocas assim correm rápido, ainda mais quando é a respeito de uma senhora de tão alta estirpe”. E perscrutou Leandro, ansioso de sua reação. Frustrou-se, no entanto:

“Eu era próximo da Dona Andrea tanto quanto um jardineiro deve ser de quem o emprega”, pontuou impassivamente o jardineiro.

“Sim, entendo”, conformou-se Batista, “você sabe, preciso ter certeza, é um caso de repercussão nacional, a imprensa nos pressiona todo dia com essas manchetes espalhafatosas…´crime do século´ para cá, ´onde estará Andrea Ortiz?´ para lá” e emendou “agora vou me retirar. Gostaria de elogiar seu jardim, você tem uma linda roseira, sabia?”

“Obrigado, policial Batista”, respondeu secamente Leandro, com uma ponta de orgulho, porém.

Acompanhou o oficial até a porta. Ao abri-la, notou que Joaquim estava parado ao lado de seu jardim. Sorria causticamente e, teatral, deu um aceno de mão a Leandro. Batista gritou:

“Joaquim! Você por aqui! está admirando o jardim do nosso amigo jardineiro? Estava agora mesmo elogiando a roseira dele”.

“Ah, é?”. Olhou ao derredor, sedento, e, ao achar o que procurava, mal se conteve: “Esta aqui?”.

Na primeira pisada, Leandro apenas arregalara os olhos, incrédulo. Caules quebrados. No segundo pisão, seu queixo caíra e as mãos pendiam sobre a cabeça, em sinal de desespero. Espinhos partidos. No terceiro golpe, flores destruídas, o jardineira gritava, insano. Batista, displicente, comentou:

“Que maldade, Joaquim. Onde já se viu destruir o jardim de um jardineiro tão dedicado…Leandro? Por que parar? É só uma brincadeira de Joaquim, acalme-se, pare de gritar. Aliás, sabia que rosas são as flores preferidas da desaparecida? Sabia, hein?”

Num momento racional, Leandro não saberia explicar o que aconteceu consigo naquele instante, provavelmente apenas responderia o que sua mente suporia mais óbvio para uma pergunta sem resposta “apaguei…”. A realidade, contudo, se configurava menos opaca, e se dera da seguinte maneira: os sons ao seu redor silenciaram, sua visão focou apenas dois alvos a sua frente, bem destacados e delimitados, seu cérebro parou de raciocinar e todo seu corpo parecia apenas obedecer uma ordem primal e natural, ditada por algo dentro do homem a muito adormecido e com forte sede de sangue: matar. Não sabendo de qual dos dois deveria dar cabo primeiro, acabou por escolher, talvez instintivamente, talvez por ordem de maior ódio, Joaquim.

Foi interrompido, no entanto, por Batista, que passara uma rasteira no descontrolado Leandro, incapaz de enxergar algo além de sua quase-vítima. Batista imobilizava Leandro com o joelho, pressionando-o para baixo com seu peso de pedregulho. Para deixá-lo ciente da situação, aproximou seu rosto da nuca do jardineiro, e sussurou ameaçador:

“É assim que você ataca suas vítimas, seu pervertido? Você se julga muito esperto, não é? Acha mesmo que não vamos pegá-lo? Está tudo na cara. Tudo o acusa, jardineiro de merda. Onde você escondeu o corpo dela? Hein? Diga algo! Chega de mentiras, assassino!”

•••

Olhavam-se através do espelho, deitados. Mais do que isso: admiravam-se. Em meio à ardente conjunção de corpos, aos fluídos e à fruição, ao calor do beijo molhado e ao carinho da leveza de seus dedos e arrepio de suas peles sensíveis, descobriram que podiam amar além do que julgavam ser amor. E sabiam ser amor além do que o tesão de uma recente paixão - o que de fato era - acusava. Era amor e era paixão, combinados, uma raridade. Saciavam a doce mixórdia num motel, longínquo.

“Estou preocupada”, queixou-se Andrea, levantando a cabeça e deitando-a no peito de Leandro.

“Por quê?”, ele questionou.

“Acho que ele sabe…”

(CONTINUA…)

Parte 3

3.1.09

Acima das folhas uma rainha (parte 1)

epiphyllum oxypetalus

"Um cacto", pensou. Era de fato o que ali estava, no canto cru sem reboco nem toque de felicidade da sala de interrogatório da 8ª Delegacia de Polícia da cidade. O único alento de beleza e naturalidade no minúsculo e feio cômodo de puro concreto era o cacto. Banhava-se em sua refeição noturna de luz de lua através de uma fresta a que com despojo ousavam nomear janela, tal qual prisioneiro que duma estreita abertura recebe seu alimento e comunica-se com outro mundo, o nosso mundo.

Epiphyllum oxypetalum. Era a "rainha-da-noite" e Leandro sabia disso, mesmo algemado, mesmo de um olho roxo e sangue de ferro na boca. Talvez não soubesse latim, mas por amar as plantas sabia muito sobre elas, até por isso, outrossim, entre outros motivos, fosse jardineiro. Noturna por excelência, a belle de nuit florescia graciosa numa parte do dia ambientada miticamente por vampiros, lobisomens, e nem tão fantasiosamente por libertinos, viciados, estupradores e prostitutas de tipos vários. Leandro encantava-se com a rainha-da-noite: a despeito de sua própria condição de cacto, a planta trajava-se da mais cálida aparência. Era uma mulher, guerreira e decidida: famas de durona, agressiva, sob um manto de feminilidade e fragilidade inerente. Leandro, por outras experiências que não a jardinagem, sabia que por mais que uma mulher negue veementemente ser um sexo frágil, é, na verdade, debaixo de inúmeras cascas, uma criança que clama por atenção e amor. Da mesma forma, embora constituída por folhas retorcidas, longas e desengonçadas, e com flores tão arrojadas, alvas, vistosas e prestes a fincar garras no ar, a Epiphyllum oxypetalum é uma dessas coisas da noite que fascinam, como uma paixão fugidia ou um céu estrelado. Uma planta mulher guerreira, cheia de contrastes, a vagar na indecisão hipnotizante entre sutileza e brutalidade (de uma paixão).

Era pena que vossa majestade estivesse entronada num vaso preto de plástico, alçada às alturas por um enferrujado arame preso em ganchos no teto. A única peça a embelezar o ambiente inóspito. Tão presa lá quanto Leandro.

Tudo isso foi pensado pelo jardineiro antes de levar o quinto soco, desta vez no diafragma, para complicar as coisas, talvez para facilitar a vida dos policiais que o interrogavam.

Para si, intimamente, entretanto, Leandro prometera não abrir a boca, o que significava não dizer nada contraditório para não fazer o jogo de seus algozes. Mantinha convicta tal resolução, por mais que lhe faltasse o ar, por mais que sangrasse aqui e acolá, sabia que permaneceria assim mesmo perdendo dentes e durante quaisquer outros atos da vasta coleção de espécies de tortura inventadas pelo civilizado homem. Isso não o impedia, contudo, de saber escapar dessa enrascada:

"O seu cacto...ele precisa de cuidados, senhor", emendou, mal abrindo a boca, após estrépito tapa.

Joaquim, policial novo, viril, de rígido conhecimento e abalado senso de justiça, olhou ingenuamente a planta e depois incrédulo para Leandro. Não a havia notado ainda, vindo a lembrar depois que reclamara do vegetal dias atrás, por lhe atravancar o caminho durante os interrogatórios. Respirou fundo, enquanto puxava uma cadeira e sentava-se junto do jardineiro, milimetricamente perto:

"Meu amigo, talvez seja melhor começares a me ajudar. Quero respostas e sei que as tem, caboclo, portanto, perguntar-te-ei algumas questões e tu as responderá rapidamente, ok?"

Leandro assentiu, enjoado.

"Qual teu nome?"

"Leandro Moreira"

"Idade?"

"33"

"Profissão?"

"Jardineiro"

"Onde trabalhavas?"

"Na casa da família Ortiz"

"Como a casa era?"

"Grande, bonita"

"Há quanto lá trabalhava?"

"Do..dois anos"

"Mataste alguém?"

"Não!"

"Soubeste que a sra Ortiz sumiu?"

"Me contaram"

"Quem?"

"A empregada da casa e depois os jornais, a TV..."

"Soubeste que o sr Ortiz foi encontrado em pedaços?"

"Sim...dias depois, pela TV"

"O que sentiste?"

"Pena, eram tão boas pessoas, eu admirava eles senhor!"

"Responde-me então, pobre homem, por que os mataste?!"

"Não..Não fiz isso senhor..."

"Confessa, melhor para ti!"

"Não posso confessar o que não fiz senhor!"

Um soco acertou a orelha direita, o outro o baço, abafados. O pedaço de homem à frente de Joaquim arfava e babava, aparentemente fora de si. A rainha-da-noite a tudo assistia, bela e impávida, além de fria, da mesma maneira que se encontrava Batista, parceiro de Joaquim, que contemplava o interrogatório encostado no canto oposto do cacto, na aresta do cubículo, ar grave, sisudez ressaltada por bigode espesso e negro, braços cruzados, também banhado em luz de lua.

Leandro, por esta altura, para si e somente para si, pensava qual seria o melhor tipo de solo para acomodar a rainha-da-noite num jardim, que julgava inconcebível faltar em sua coleção. Amava as plantas.

(CONTINUA...)

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