16.12.09

Espuma

“Contar todos os detalhes? Você tem certeza? Por que isso te interessa tanto?”, ela perguntou, receosa. De pernas cruzadas, debruçava-se sobre a mesa, mão ao queixo, lívida em certa displicência, um olhar vago a cativar seu interlocutor.

“Tudo bem, atenderei ao seu pedido, vou contar todos os detalhes, não deixarei escapar nada”, decidiu.

E pôs-se a relatar:

“Era uma noite de sábado. Apesar de ser dia de trabalho, eu não estava me sentindo bem, de modo que decidi não sair. Sentia uma coisa estranha no peito, uma sensação sufocante, como se ondas do mar levassem meu coração embora e inundassem meu pulmão de espuma. Não é normal que eu não saia para trabalhar, ainda mais no sábado, porque eu definitivamente gosto do que faço, entende? Enfim, de qualquer maneira, esse sujeito me ligou. Eu não atendi de primeira, veja bem, deixei o celular se calar, mas ele voltou a tocar, aquela musiquinha infernal do AC/DC, não sei quem botou aquilo lá, acontece que eu não sei tirar. Eu acabei por atender, mais por irritação do que por necessidade ou vontade. Ele quis combinar algo, eu despistei, tentei adiar, quase cheguei ao ponto de dizer que estava com alguma doença, mas isso aruinaria minha carreira, que vive do boca a boca. Novamente, por irritação eu acabei aceitando: um encontro qualquer. A proposta era irresistível, como diria Don Vito. Ele me pegaria na esquina da Miller, ali pelo centro. Lá fui eu me arrumar, ainda com a sensação da espuma no peito. Não demorei tanto quanto você acha, sou rápida para essas coisas. O quê? Como eu estava? Hum, vejamos… eu usava um vestido preto tomara-que-caia curto, mas quase sem decote (minha tia sempre dizia que esconder era sempre o melhor caminho para fazê-los querer descobrir o que havia por baixo), um salto grande, daqueles que deixam minha bunda bem empinada, sabe? Cabelo solto, ondulado, batom vermelho. Nada muito novo, o de sempre, eu não estava inspirada, mas obviamente não estava desleixada. Eu desci até o local combinado. Ele passou lá no horário exato que combinou, um perfeito gentleman, não? Entrei no carro, então ele me beijou como nunca tinha feito antes, um beijo apaixonado, longo, arrebatador, geralmente ele evita esse tipo de coisa”.

Parou, olhando enviesada para um canto da memória. Sem esboçar surpresas, prosseguiu, olhando a pessoa que lhe ouvia, atenta, nos olhos:

“Gostei daquilo, parecia valer a pena o sábado triste. Ele seguiu sem dizer muitas palavras, embora eu tentasse conversar. Ele é inteligente, mas fala pouco. Acho que tem medo de descobrir que eu posso compreendê-lo além do óbvio. Fomos para um motel relativamente caro. Sim, isso mesmo, sem restaurante antes, mas não achei falta de educação, cada um tem a fome que precisa. Escuta, você acha que já está bom por aqui? …Tudo bem, eu continuo então. Saímos do carro e logo ao entrar no quarto, com um baque na porta, ele já se atirou sobre mim, por trás de mim, me enlaçando a cintura e me beijando o pescoço, o qual eu havia deixado propositalmente à mostra cinco segundos antes. Senti o membro dele crescer rapidamente. Membro, pau, pinto, pênis, eu realmente não sei que palavra usar, desculpa. Com ele ainda por trás, me acariciando a barriga, segurei o pescoço dele e lentamente fui me virando, até estar olhos nos olhos com o cliente. Beijamo-nos durante longo tempo, lembro que tinha muita baba envolvida. Ele puxou meu zíper e meu vestido foi deslizando lentamente até o chão. Ele ficou alguns bons minutos me comendo com os olhos, enquanto eu caminhava até a cama, uma cama redonda, olha que original. Despi ele, foi algo devagar, tinha certa magia nisso. Ficamos nos esfregando e depois ele me chupou, imagina só! E depois dizem que eu não sou uma acompanhante decente. Eu sou limpa. Com essas putinhas baratas de esquina ele não se atreveria a fazer isso. Ele tinha uma língua gentil, mas sem perder aquela brutalidade, sabe? Eu me contorcia e ele não parava, o que foi meio cruel. Depois disso eu o chupei também, sem piedade. O mais engraçado é que não era algo vulgar, algo feio, algo somente profissional, eu gostei de toda aquela experiência, a espuma parecia ter descido do peito para a minha barriga, eu me sentia bem e mal ao mesmo tempo, eu não sabia bem porquê. Definitivamente não era uma versão piorada de um filme pornô, era quase como uma transa decente, de apaixonados. Se bem que não sei se há diferença. Qual era o gosto dele? Você já teve a sensação, ao comer um doce, de que ele era meio salgado? Acho que era algo do tipo. Mas isso não faz diferença, porque após isso ele entrou em mim com tudo, sem delicadeza alguma, o que não foi de todo ruim. Fizemos pelo menos umas três posições diferentes, e eu cheguei até a pensar em fazer anal, eu cogitei deixar ele vir por trás e dizer aquelas palavras mágicas, ‘vou lambuzar seu pau todo de merda’, igual aquela putinha do livro do Rubem Fonseca, sabe?, aquele livro que você me indicou, mas achei que seria muito clichê e eu não estava assim com tanto ânimo aventureiro, embora tivesse gostado de cada segundo com aquele homem. Ao final, ficamos um tempo abraçados, foi um tempo bem curto, mas só de ficar perto dele, sei lá, foi como uma explosão, tínhamos acabado de fazer tudo aquilo e mesmo assim voltamos a fazer tudo de novo, o suor descendo em gotas, o corpo salgado dele, as mãos me apertando a cintura, os dentes na minha pele, a língua dele nos meus lábios. Eu estava pingando lá embaixo. O cheiro de sexo estava por todo lugar. Engraçado como o cheiro de sexo é característico, né? Quando cansamos, a madrugada já ia alta. Não tínhamos conversa, não queríamos beber, comer, nem nada. Ele me trouxe para casa, e eu só dormi. Dormi bem, acordei sem espuma alguma no corpo. Oi? Ah, sim, ele pagou, pagou bem”.

Os dois ficaram em silêncio durante longo tempo. Às vezes olhavam para baixo, para seus pés, para o chão, às vezes cruzavam os olhares, mas logo os descruzavam, insustentáveis que eram. Às vezes não olhavam lugar algum. O sol se punha lá fora, ao coro de cigarras. Então, ela quis dizer:

“Eu amo você como meu namorado, sabia?”.

“Sabia”, ele respondeu.

7.12.09

O olho mágico

A mulher não hesita. Tão logo ouve a terceira batida na porta, a lhe esmurrar o coração de sustos, desata a correr, desvairada, em busca de sobrevivência, guiada por seu corpo, imperativo, impiedoso. Roda a chave tantas vezes lhe é possível e em semelhante pressa afasta-se da porta, temerosa de que possa ser engolida. Os olhos arregalados têm a força dum Hércules e a vivacidade daquele que se sabe em perigo.

As batidas não cessam. Grassam em volume e desespero e a mulher, assim subtraída de sua sanidade, gira chaves, tranca janelas, corre cortinas e, hermética, isola toda e qualquer entrância de sua casa, sempre afobada, sempre suada, algo histérica.

De fora, vem lacrimoso um “Por favor, meu amor, abra esta porta! Por que me castiga desta maneira? Abra! Preciso de ajuda!”, que, entre palavras que mal se distinguem do choro e dos arranhões e dos murros, indaga, em voz masculina, mas frágil, convalescente.

Cobrindo os ouvidos com mãos convulsivas, a mulher enruga a face, como se com isso pudesse apagar a existência do homem que lhe suplica do outro lado da porta.

“Vá embora! Vá embora!”, grita num mantra, enfática em cada exclamação, parando vez ou outra para conferir se o silêncio por fim reina. Frustra-se, todavia.

“Me deixa entrar, me deixa entrar!”, implora, em prantos, o homem.

A mulher recua insegura. Recosta-se numa parede glacial, imaginando por que, dentre todos que se afiguravam conhecidos – e mesmo os desconhecidos - em sua vida, a desgraça fazia questão de deitar-se justamente em seu colo. Fervorosa em sua fé, acredita no desaparecimento daquele homem a qualquer momento, a qualquer custo. Mais sórdidas, porém, suas memórias algures originadas perfazem, traiçoeiras, nos corredores obscuros de sua mente, trilhas sinuosas, controversas em sua capacidade de separar aquele que roga daquela que ignora, muito embora próximos estivessem, só obstados por pesada porta.

Em verdade, a mulher lembra-se daquela língua desrespeitosa, de sua indolência em percorrer sua boca, em lamber seus dentes e em sugar parte por parte de seu corpo. Lembra-se daquelas grosseiras mãos que a arranhavam e a apertavam, como se suas carnes acossadas não tivessem outro propósito senão o de saciar a lascívia duma besta famélica. Lembra-se daquele bafo doce, da respiração cálida a entusiasmar-lhe a fronte. Lembra-se de cada gota de saliva que compartilharam em sua úmida paixão. Em agonia, recorda vez por vez as noites em que se amaram. Ele que agora lhe suplica e tanto geme.

Fora, ele balbucia palavras incompreensíveis, donde só se depreendem os “... entrar”, os “... amor”, os “... Deus”. Ela, ceifada de toda e qualquer sensação, cerra os olhos, comprime os ouvidos, crispa a boca. Só não deixa de respirar, ainda que o faça ardentemente. Quando decide abrir os olhos, já afeitos à terna escuridão, esquece-se de fazer o mesmo com todo o resto de seu corpo, tão afobado, tão suado, algo histérico.

Lágrimas nesses olhos, fixa na vista um canto insólito nunca antes percebido por ela em sua casa, onde uma aranha pacientemente espera por nova refeição, fazendo-se de morta. Nota, de longe, só ouvidos, um eco. É a televisão a tartamudear, com voz de âncora, em que pese toda esta literalidade, conjugada com a imediata metáfora a que recorre: “... são cinquenta e sete mortos ao todo; o Governo declara estado de calamidade e alerta toda a população: medidas simples podem evitar o contágio, como lavar as mãos frequentemente, usar máscaras e permanecer distante de aglomerações. Todo cuidado é pouco neste momento de desespero...”. Por instinto, resolve parar de ouvir, já que não o fazia deliberadamente. Seu mundo vai longe, embora seus olhos pousem ainda sobre a mesma aranha, tão paciente, enquanto fora, lá distante, ele grita e bate, grita e bate, grita e bate, desesperadamente.

Maximiliano Arosa*

28.11.09

Ícaro

Foi somente quando o fogo subiu que chegou a sentir algum remorso. Sua face ardia frente ao seu feito. O suor, incontido, singrava seu rosto despudoramente. À pele já não mais satisfaziam as peças de roupa, repudiadas, quentes de embaraço. Porém, foi apenas com as chamas lambendo os céus que chegou a sentir algum remorso.

Era um espetáculo, luminoso sem dúvida. Interessante fenômeno esse do fogo, algo que existe e inexiste simultaneamente. Algo ao qual queremos tocar, algo do qual não podemos desviar os olhos. Algo que fascina.

Mas mais que fascínio, o fogo traz destruição, por sua incapacidade de respeitar aquilo que lhe cerca. Intensidade é a palavra, e, por mais que a pudéssemos substituir por intrepidez, ainda assim não faríamos jus a esse poder devastador. Fascínio, destruição, e, sobretudo, frustração diante da inalcançabilidade que acomete a frágil matéria humana, tão pretensiosa, tão esvoaçante.

Antes não tivesse visto aquelas flamas. Agora que as via, não conseguia, por mais que tentasse, tornar o olhar para o lindo céu estrelado e libertador que o acobertava, para as luzes da cidade, trepidantes, para os olhares assombrados, alhures. Por mais que quisesse, não poderia fugir dos desígnios dos deuses e de seus olhos apaixonados, encarcerantes.

Não podia fazer nada perante o fogo. Nada. Não podia nem mesmo voltar atrás e salvar aqueles aos quais agora assassinava. Aqueles que gritam, gemem, sofrem. Eis porque, tão brilhante quanto o fogo que lhe aquecia a fronte, o remorso lhe remoía as entranhas, muito embora ambos o fascinassem.

10.10.09

Em memória de minha sereia

S6002499 Façam completo silêncio, paralisem os negócios, parem o que estão fazendo. Uma flor nasceu no asfalto? Não. O que aconteceu foi que o branco invadiu os muros do cemitério, o cemitério vizinho à minha casa.

Conformados, eles, os pobres pintores, pintam, em obediência cordeira, toda a extensão dos muros que circundam o cemitério. Sua evolução é gloriosa. Começam com um borrão, terminam na demão. Cobrem tudo de branco. Quando chego em casa, no desolador crepúsculo, me alumiam os olhos aquela brancura sem fim, que pouco mais que troça era ao início do dia. É um corretivo, prepotente, teimoso.

Ali antes figuravam desenhos, grafite, arte. Algum projeto cultural, desses que enchem de vida espaços mortos e já de antemão desculpo-me pelo irrepreensível trocadilho. O fato é que ali estavam sereia, golfinhos, caricaturas, gatos, monstros, o sol, os mortos em singela lembrança. Ali jazia a arte, de inúmeros artistas.

Mas Finados vem vindo, tão silencioso, com suas flores, velas, choros, sempre trazendo novos ceifados à sua moribunda sociedade. Algum sisudo ordenou a morte da arte? A Administração por bem entendeu não ser aquele o espaço adequado para cor e vida? A que triste fim prestam ordens estes pincéis em riste?

A idéia de branco traz em si um caminhão de referências: liberdade, esquecimento, bem-estar, apagado, recomeço, vazio, clareza, esclarecimento, leveza, inocência. Alvo. #FFFFFF. É a contraposição natural do preto, algo tão denso, pesado, triste e sério.

E assim, com toda esta arrogância da alvura, os pincéis de Finados apagaram toda a cor e a alegria que rodeava aquele espaço tão lúgubre. Foi-se embora minha sereia, varrida pela tinta do esquecimento, pela cor da pureza que suprime a tudo que não lhe deita respeito. Talvez sejam os mortos que ordenaram esta reforma em sua morada.

Assim como a vida daqueles que ali repousam, assim como a frágil memória que estes deixam para o mundo, tudo se esvaiu, e só restou a brancura de um mundo sem graça, com um fim óbvio.

22.9.09

Um cavalo robusto

Com esse texto eu participei de um concurso de contos entre blogueiros cujo tema era “hábito de leitura”. Fui selecionado junto com mais quatro textos e, aparentemente, perdi para um texto que fazia referência a Macabéa. Ainda bem que eu nunca gostei de Clarice Lispector. Divirtam-se.

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“... ia pelos campos verdejantes da Terra Real, indiferente ao vento gélido que lhe açoitava a fronte, cavalgando seu cavalo robusto e de pelo vistoso, branco como a neve, veloz como um relâmpago. Subitamente, das trevas, surge o terrível dragão de escamas pretas do Vale Podre...!”.

A garotinha não pode conter uma exclamação e entrega-se atônita ao êxtase das palavras; mal respira e quase some sob o cobertor. Imersa em fábulas, seus devaneios galopam longe, como o cavalo da história que o avô lhe conta.

“Bia, não vai me dizer que você está com medo...”, inquire o velho homem, a rir-se.

“Não vô, não to com medo!”, mente a menina, ciente de que não convence.

O avô, pousando o livro aberto sobre a coxa, põe-se a mimar sua netinha com um cafuné que, se não o mais delicado, pelo menos o mais reconfortante se revela para a pequena, muito embora sejam mãos nodosas e tremelicantes que se prestam a lhe desembaraçar os cachos.

“Sabe, vô, eu adoro quando você lê para mim, nada consegue ser tão divertido!”, revela.

Neste instante, entra insuave pela porta o pai da garota, homem de densos óculos inquisidores, famoso por sua retidão. Vendo sua filha de olhos abertos, desata a bradar: “Isso são horas, seu Tomás? A menina precisa dormir. Bia, já para a cama!, amanhã você não pode perder sua aula de balé! Já não basta ter faltado semana passada? Ah se sua mãe fica sabendo. Volto logo e, quando entrar por esta porta, quero vê-la roncando aí nessa caminha. Entendido, senhorita?”.

“Eu já estou na cama. E não ronco!”.

“Você que pensa”. E bate a porta.

“Você viu, vovô? Que ódio!”, lamuria-se Bia, emburrada.

“Calma, calma, tigresa”, tenta pacificá-la Seu Tomás, “seu pai está certo, as horas já vão tarde e estou aqui a aborrecendo com estas histórias, você tem é que descansar”. Ele se levanta da beira da cama aos poucos e sente então a pequenina mão entre as suas, requisitando-o.

“Fica aqui, vô! Essas histórias me relaxam, continua contando, vai, por favor!”, suplica-lhe a neta, exibindo, vaidosa, seus compassivos olhos cor-de-mel, inevitáveis.

“Como eu poderia resistir a esses olhos, menina? Você é terrível!”, queixa-se, com razão, o velho.

Uma vez mais a porta se escancara, revelando uma mãe de boca crispada e convicção irrefutável: “Pai! Isso lá é hora de encher a cabeça da menina de fantasia? Na hora dos pesadelos, quem tem de agüentar o choro sou eu. Beatriz Soares...” - e por ouvir seu nome completo, Bia sabia que a coisa desandava - “... você sabe muito bem que tem aula de balé amanhã, olha a hora! Pai, sem essa de literatura com ela, é perda de tempo. Ela deve se ater às atividades dela, de preferência o xadrez e as aulas de matemática, não é, minha futura engenheirazinha?”, emenda dócil. E bate a porta.

Avô e neta se entreolham, cruzando olhos de cúmplices, e dão de ombros para o sermão, escusando, cada um à sua maneira, assumir a responsabilidade pela bronca levada.

“Sabe, Bia, sua mãe nunca teve muita paciência para histórias, sempre preferiu seus números e suas peças de Lego. Nunca percebeu, sedenta que era pelas coisas corretas e certeiras, como longínquas fantasias e sonhos impossíveis são capazes de levar alguém ao paraíso... de levar alguém a lugares inexplorados. Já você, diabinha, você é diferente. Onde estávamos mesmo? Ah, sim, o dragão de escamas pretas. O dragão de escamas pretas que solta fogo e cospe piche do Vale Podre!...”.

Os olhos da garota brilham. Dia vai e noite vem e o desejo que a move é apenas dar beijo e boa noite no pai e na mãe e correr para a cama, lépida, dentes-escovados, à espera da próxima história a ser contada por seu avô; curiosa pelo próximo mundo a ser descoberto, pelo próximo monstro a ser derrotado, pela próxima princesa a ser resgatada. Cada história é um desvão em que se infiltra e onde finca uma bandeira só sua, desbravadora que é. Sua coleção de mundos algures percorridos é vasta e colorida. Ama por demais o avô, que lhe oferta, com poucas e generosas palavras, proferidas antes de derradeiro sono que sempre lhe alcança, a possibilidade de, livremente, erigir sua própria criação: a imaginação. Não carece que alguém lhe mostre como dançar sua fantasia, como somar aventuras, como definir estratégias de ataques aos monstros vários, ameaçadores. E, sobretudo, no seu mundo não se faz necessário que seus pais decidam seu rumo, o rumo de Beatriz Soares. Imprescindível mesmo, apenas a presença do avô, sorrindo aquele sorriso bobo e cortês sob a barba piniquenta, pronto a sacudir seu manto de histórias, a costurar caprichos e a desvelar seu hábito de leitura, um cavalo robusto, branco e veloz, sempre indiferente a ventos gélidos.

23.7.09

Astronauta

Um dólar. Um dólar bastava, enrolado, obviamente. Um dólar, magicamente, conduzia-o a um mundo livre e cheio de maravilhosas sensações, um dólar a sugar cada partícula do milagroso pó. Da mesa ao nariz, primeiro hermeticamente enfileirada, depois dispersa, ou melhor dizendo, aspirada, entregue ao corpo humano, seu cálice, seu hospedeiro.

"Aspirações e aspirações!", bradou o vocalista teatralmente, ao que foi acompanhado de gargalhadas.

O baterista, mais sisudo, logo se cansou: "Que perda de tempo, vamos logo fazer esse show".

O vocalista escolheu a loira que lhe pareceu mais aprazível dentre tantas e tascou-lhe de pronto um beijo que já ao cinema não mais escandalizava. Era para dar sorte.

No palco eram energia: a explosão de uma catarse, o espírito de uma geração, o estigma do impossível. Tudo aquilo que se quer ser, mas que é inalcançável aos meros mortais.

Logo, porém, o vocalista viu estrelas na platéia e lembrou que era homem. Não que era homem no sentido sexual, coisa que habitualmente comprovava, dentro e fora dos camarins, mas sim homem em sua acepção mais simples, mais essencial. Quem dera tivesse pensado "sou simplesmente um homem!". Infelizmente, viu estrelas.

Estrelas lembravam-lhe a infância, que lhe rememoravam a condição humana. Por que estariam na platéia estrelas que costumavam estar no céu, no céu de sua meninice, céu que se vislumbrava deitado no quintal, costas à grama, a imaginar o que seria da vida, o que seria do futuro, quão brilhante futuro.

Futuro que eram estrelas, inúmeras estrelas brancas e brilhantes, supernovas ou anãs, que fossem, mas tão fáceis de alcançar e tão baratas que se vendiam logo ao primeiro dólar que lhes molestava; estrelas tão vagabundas que, aspirando a alcançá-las em sua infinitude, aspirou-as demais e morreu, no palco, após o refrão, que na boca de todos estava.

18.7.09

O gosto da saudade

O gosto da saudade tem gosto de Cotuba.

E tanto faz se é Cotuba, se é Arco-Íris, se é caçulinha ou o que seja, o importante é frisar: saudade tem gosto e é de Cotuba. Saudade gaseificada, doce, com aquele átimo de amargor teimoso, só a lembrar, "sou especial, sou única entre todas".

É a saudade da minha terra. Terra que, por não ser terra de fato, palpável, e nem dar o melhor guaraná (coisa que pertence ao norte), só pode me proporcionar uma saudade industrializada, com rótulo e código de barra, ingredientes e local de fabricação, data de validade e lote. Mesmo assim, é a melhor das saudades.

Cotuba é uma guaraná. Só existe na cidade em que cresci e, por mais estranho que pareça, pelo visto só é exportada para China e Japão, a julgar pelos arabescos emaranhados e confusos que lhe infestam o rótulo. Muito dificilmente verá uma Cotuba a lhe seduzir nas bonitas prateleiras do supermercado, nos outros cantos desse Brasil.

É a saudade que acompanha o almoço da mãe, e a saudade da própria mãe; é a saudade das brincadeiras na casa do vô, e a saudade da avó falecida, bem como do louro velho, mas ainda rodopiante; saudade de pai, que não cozinha bem, mas que faz o carinho correto; saudade dos amigos, de besteiras, de pizzarias. Só saudade.

Quantas pessoas no mundo podem dizer "eu consigo sentir o gosto da saudade". Poucas. A algumas é amarga, a outras, muito convém, doce noutras, insípida em muitos. Saudade é coisa a ser apreciada cuidosamente. De que outra maneira se daria valor às coisas? A saudade é o motor do apreço.

E se estiver, um dia quem sabe, leitor, passando pelo sertão riopretense, sente, descanse e aprecie sua saudade preferida ao sabor de Cotuba. A terra lhe agradece.

11.7.09

Um tiro na noite

Não saberia dizer o que foi aquilo. Cavalos corriam avenida abaixo com suas enormes narinas a bafejar um temor inconstante, de proporções vis. Eram centenas, assustados. Época muita estranha para o mundo. Quando todos olhavam relapsos para si mesmos, mas detidamente para os outros, para os lados, para trás, olhos esbugalhados. Época estranha.

Cobras lépidas mexiam-se sob meu cobertor, quando e se eu conseguia dormir, o que era raro. Carros disparavam, o cheiro de borracha queimada fixava em minha narina as tentativas de inúmeros ataques. Oh os ataques. Quase ninguém descansava. A tensão dificultava a respiração do ar, o ar ocre.

Jurei ter visto uma dezena ou duas de pessoas espumando pela boca, cachorros incontidos que eram, correndo e se coçando. Nessa época, eu mesmo olhava para os lados, para trás, para você e para mim. Olhava tudo, com medo de perder algo, com medo de algo.

O padre parecia vagar sobre o chão, deslizando de maneira suspeita, um séquito de marias atrás de si, cruzes para o ar. As ruas agitavam-se. Casas eram seguras? Velas queimavam. O cemitério brilhava, mais que a cidade em si.

Meu sobretudo me cobria do mundo, me protegia da demência de um povo que me encarava. Me escondia de olhares inquisidores, famintos. Eu corria ou parava. Eu sempre tentava respirar.

Era definitivamente uma época estranha para o mundo.

25.6.09

O Dia A (Influenza A H1N1)

Letras marcam dias históricos. Tanto é assim que o início da derrota de Hitler no continente Europeu se deu no Dia D, quando da invasão norte-americana na Normandia. Há também referências ao Dia Z, o dia que simboliza o fim do mundo (z de zumbi).

Hoje vivi o Dia A, uma data, infelizmente, histórica para Londrina. “A” de Influenza A(H1N1). A famosa “gripe suína”.

O fato ocorreu enquanto eu estava tendo aula, pelo período da manhã. A matéria era Direito Administrativo e a classe não se empolgava muito com as lições da professora. Súbito, uma garota entrou na sala e deu a notícia: “Estão suspendendo todas as aulas por causa da gripe!”.

Balbúrdia. A professora ainda tentou conter o barulho, mas fora da sala já se ouviam gritos de “Porco! Porco!”, algo ensurdecedor, com a diferença de que aquilo não significava uma vitória do Palmeiras. Tosses foram fingidas por gracejo. A aula estava, logicamente, perdida.

Daí até o papel oficial trazido por outra aluna para que a professora assinasse não demorou muito. Aulas suspensas até segunda ordem. Motivo: alguns alunos do curso de Agronomia tinham suspeita de conter a gripe, além do fato de 24 pessoas estarem em quarentena. A gripe chegou a eles de avião, para variar. Um contágio que ficou evidente desde o episódio americano do “Antraz”.

Mochilas arrumadas, dúvidas sobre o fim do bimestre (haverá prova? trabalhos a entregar?), saíram todos da classe. Muitos alunos se dirigiam à saída do Centro em que estudo. A pressa parecia geral. “É pra tanto?”, indagavam alguns. Ninguém sabia, mas o melhor a fazer era ir embora.

O dia estava nublado, o que lhe conferia ares de filmes apocalípticos. Todos os carros tentavam sair ao mesmo tempo e os pontos de ônibus estavam apinhados. Algumas pessoas corriam para não perder o ônibus mais próximo. O restaurante estava vazio. Definitivamente não era algo que se vê todo dia.

Como havia sido tomada a decisão? Ninguém ao menos sabia que a gripe havia chegado à Londrina, mas nos bastidores, com certeza, isso estava evidente. Talvez uma reunião sorumbática tenha ocorrido entre reitor, médicos e Vigilância Sanitária e a sugestão veio pesada: “Recomendamos esvaziar a universidade, Sr. Reitor”. Talvez o Reitor apenas tenha tomado uma decisão sensata. O fato é que uma comunidade de 26 mil pessoas teve de ser esvaziada por conta de suspeitas.

A OMS classificou a gripe suína como pandemia há poucos dias atrás. Vamos vivenciar mais uma gripe espanhola? Esta já apareceu por este blog, certa vez, para explicar a origem do termo “Saúde!” (leia aqui). Tornaremos a dar a este termo o significado sombrio que lhe pertence?

Espero sinceramente que tudo não passe de uma simples suspeita. Já me felicito por não ter que ir à aula amanhã apresentar um horrendo seminário de Direito Comercial. A expectativa é de que eu não tenha que andar mascarado pela bela e peculiar cidade de Londrina.

Deixo, por último, um clipping de notícias para que verifiquem, por si mesmos, a situação a qual conferi de perto:

http://portal.rpc.com.br/jl/online/conteudo.phtml?tl=1&id=899219&tit=Londrina-tem-5-caso-suspeito-de-gripe-A-e-60-pessoas-estao-em-quarentena

http://www.bonde.com.br/folhadelondrina/?id_folha=2-1--7590-20090625

http://www.londrix.com.br/noticias.php?id=59315

Saúde para vocês.

18.6.09

Ao ninho nunca mais voltarás

“Suas botas… suas botas são lindas!”, comentou com um sorriso demente no rosto.

O outro o fitou seriamente. E o fez longamente, pelo tempo que fosse necessário para constatar que aquilo não era um comentário aleatório ou uma piada.

“Você está alucinando, talvez seja pelo choque”, deduziu sem emoção.

“Não, suas botas realmente são lindas, e essa calça? Belo jeans. O sobretudo também, como tudo mais, lhe cai bem. A barba, o capuz, este longo cabelo que aí se esconde, ai ai ai. Você parece um Jesus Cristo fashion”.

O outro riu.

Estavam num elevador dos mais lentos, embalados por Tom Jobim, num clichê que beirava o ridículo.

“Tom Jobim, bossa nova… você gosta, Jesus moderno? Eu sinceramente detesto. Bossa nova é um defunto ao qual esqueceram de enterrar. Aliás, por que minha perna dói tanto?”. Tossiu sobre o torso da mão, que de repente tornou-se vermelho, “veja só, é sangue!”, constatou, ainda padecendo do sorriso demente.

“Tenha paciência, estamos chegando”, acalmou-lhe o outro com um leve tapa nas costas.

“Sabe, minha perna realmente dói muito, e tenho quase certeza de que algo está errado com uma de minhas costelas”.

“Tudo muito real, não é?”, riu-lhe enigmático o outro.

“Sim… você tem razão… já estive aqui antes, neste mesmo elevador, odiando o mesmo Jobim, suando frio… quando… ?”.

“Com certeza, pobre homem, deve ser porque você acabou de pular deste prédio”.

“Eu… pulei?”.

“Sem dúvida… ah, aqui estamos, trigésimo andar. Agora sim. Eu lhe diria para nunca mais ser tão afoito a ponto de não ir além do quinto andar, mas temo que isso nunca mais venha a lhe ocorrer”.

“Eu… pulei?”.

A porta do elevador se abriu, revelando um longo e convidativo corredor que terminava numa janela de proporções grandes. Aberta. O outro estendeu o braço em direção à janela, incitando a saída do homem ao seu lado.

“Agora vá, minha pobre criatura, termine o que começou. Voe, flutue, despenque”.

“Pular…pular…você não vem junto, meu Jesus?”, chorou o homem.

“Não, eu nunca consigo olhar essas coisas, é sempre tudo igual”, disse o outro, virando o rosto angustiado, enquanto a porta do elevador o estreitava mais e mais, até escondê-lo por completo. “Adeus e até!”, ainda conseguiu despedir-se abafadamente de dentro do elevador.

O homem olhou primeiro para a janela ao fim do corredor e depois para suas roupas rasgadas, sua perna ensanguentada, suas mãos esfoladas e, por último, para suas mortais convicções. Um corredor convidativo, convergindo de modo autoritário numa única janela, numa única saída.

Desceram, cada um na sua devida velocidade, cada um ouvindo um som diferente, fosse bossa nova ou o assobio do vento.

16.5.09

O desígnio (parte II – final)

Leia a parte I.

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Bernardo estancou. Não dispôs-se, contudo, a se virar. A mulher que acabara de gritar seu nome, agora mais tranquila e menos arfante, voltou a falar atrás de si:

“Bernardo, seu doido…você iria pular?!”.

Ele volveu aos poucos, revelando o esgar num sorriso deslocado:

“Você acha mesmo que eu faria isso, Cora?”.

“Eu não sei. Talvez você esteja louco!”, sugeriu Cora, parecendo se irritar pelo comportamento do ex-marido.

“Talvez…”, murmurou, ainda carregando sarcasmo em seu sorriso de canto.

Cora respirou fundo. Ignoraria. Cansara de brigas com aquele homem, ali na sua frente estava somente mais um sujeito qualquer. Não possuía mais paciência para tolerar provocações. Foi com um suspiro que resolveu indagar:

“Por que me chamou até aqui, Bernardo?”.

“Eu…”, e ele tornou-se sério, “as possibilidades passam pela sua cabeça de vez em quando, Cora? Você imagina como tudo seria diferente se…? você sabe”.

Cora permaneceu em silêncio por alguns segundos, pensativa.

“Não…”.

“Não minta!”, irritou-se Bernardo, “Você sabe exatamente que tudo seria diferente, seríamos felizes, não estaríamos onde estamos!”.

“E onde estamos, Bernardo?”

“Na merda. Irritados, frustrados, ansiosos…na merda!”.

“Esse é o problema, Bernardo. Você está assim. Eu estou bem”, deteu-se por pouco tempo, analisando as consequências do que falaria, e prosseguiu: “Eu… eu tenho uma nova pessoa. É isso, contei. Gostaria que você não me incomodasse mais… agora se me dá li…”.

“…Vi uma garotinha hoje, Cora”. Ele não a ouvia,  “Tinha cachos, como você, como ela, mas era mais branquela. Eu tropecei nela, pedi desculpas, ela ficou me encarando, deu tchau, quase chorou. Você entende o que eu sinto, Cora?”. E reprimiu uma única lágrima que teimava em querer rolar sua face.

Cora observou-o atentamente, expressando incomensurável tristeza em seu rosto. Por fim, desabafou:

“Bernardo, isso tudo é passado. Nossa filha morreu. Morreu, entendeu? Você não faz idéia do que eu passei para ter noção disso, para me dar conta de como as coisas são, mas agora tudo está claro. Ela se foi, assim como nós. Acabou!”.

“Preciso da sua ajuda, Cora. Preciso. Quero aquela vida de volta. As possibilidades… preciso do seu perdão!”.

Cora se aproximou de Bernardo. A noite já se cerrara sobre os dois e uma amarelada lua os iluminava majestosa. Encararam-se demoradamente. Enfim, ela abraçou-o, sentindo sua camisa umedecer pelas lágrimas dele. Afastou-o carinhosamente e disse:

“Você tem que superar, Bernardo. Não estamos mais juntos nessa… Adeus”.

E foi embora, aliviada.

Bernardo observou-a ir-se, sentindo nos ombros o peso de todos os seus erros e de seu passado. Após alguns segundos que lhe pareceram séculos, aproximou-se mais uma vez do parapeito que o separava por vinte andares do chão. Olhou a lua e a rua. Não chorava mais.

“Na merda…”. E se dirigiu ao elevador.

Ao sair do prédio, andou ainda alguns quarteirões sem rumo, observando a mecanicidade daqueles robôs que o cercavam, obscurecidos por suas máscaras de normalidade, em contraste com as luzes das fachadas comerciais. Na cidade tudo parecia tão caloroso, o conglomerado humano, pronto para a inter-relação, as experiências de vida. Não. Tudo aquilo era um engano. Sob a falsa aparência cosmopolita, jazia, na cidade, a rigidez mais fria dos modos de se relacionar, uma ditadura do como se portar, os standards e status. Nada mais era natural, tampouco as emoções. Um mundo de seguranças e nenhuma possibilidade, a ordem era minimizar riscos. Bernardo deprimia-se por notar que por debaixo do manto que a embelezava, a cidade não passava de um amontoado de seres que não se suportavam. Passou a sentir nojo até mesmo da calçada em que pisava.

“Com que intuito ainda mantemos a sociedade?”, gritou olhando para o alto, assustando meia dúzia de transeuntes.

Dirigia-se para um ponto de ônibus quando a avistou do outro lado da rua. Apertou os olhos para enxergar melhor. Cabelos cacheados, faces coradas, a mão atada ao cuidado atroz da mãe. Era ela! A garotinha que lhe acenara. Parou. Alegrara-se em vê-la e, após breve decisão, pôs-se a segui-la cuidadosamente, tal qual silenciosa sombra.

Qual o motivo? Não saberia dizer. Simplesmente gostaria de ver a pequena criatura por mais tempo, perceber-lhe os mínimos detalhes. Não faria mal a ninguém.

Elas entraram numa cafeteria. Após alguns minutos, copiou-as, cabeça baixa, sentando em qualquer lugar que o permitisse vislumbrar a menina. Da cadeira em que estava, conseguia olhá-la transversalmente e, com sorte, não poderia ser notado. Pediu um expresso para não levantar suspeitas. Sorvia o amargor daquele café desatenciosamente: todo o seu ser transigia em atenção para aqueles cachos, aquela palidez, os dedinhos. Para ele, aqueles traços eram os mais belos. Quanta graça poderia haver em apenas uma coisinha! Mas tudo aquilo…

…tudo aquilo era apenas parecido com sua falecida filha. Não competia a Bernardo lembrar de sua morte neste momento. Já enterrara aquele episódio nas profundezas do esquecimento: seu Tártaro pessoal. E apesar de sua inexistência, como poderia fazer-se ainda tão presente? Mesmo naquela outra criança. Ali estavam suas características. Por vezes, as duas confundiam-se. Uma era outra. Em certo momento, eram a mesma pessoa. Aquela criança era sua filha.

Não. Ele sabia que não era sua filha. Pareciam-se somente. Sua filha estava morta. “Nossa filha morreu”, disse Cora. Um soco não teria sido mais brutal. Cora era passado. Sua filha era passado. O que restara ao presente de Bernardo? Merda? E quanto ao futuro? Nada? O certo era que aquela não era sua filha. Deveria se recompor, estava seguindo uma garotinha. Que espécie de homem era? Perturbou-se.

Correu ao banheiro e se olhou no espelho sujo. Por um átimo de segundo teve medo de não se ver refletido ali, o que seria natural, já que ele nada significava atualmente. Por que alguém invisível haveria de ter reflexo? Uma espécie de homem invisível, o nosso Bernardo: desaparecido atrás de uma mesa apilhada de papéis, destruído em meio a um relacionamento fracassado, morto após a perda de seu bem mais precioso. Como chegara a tal ponto? Conseguia se lembrar claramente de outros tempos: uma casa bonita, bem decorada. Havia um jardim, anões de cerâmica. Haveria um cachorro? Parece que sim, mas só durante algum tempo, ele não gostara das sujeiras do animal. Ah, ali estava sua esposa. Tão bela. Cora sempre fora bela. Amavam-se. E no colo de Cora havia aquele bebê, todo manhoso, que sempre ria ao ver o pai. Lembrava de criar aquele bebê com todo o zelo possível. Dia após dia, fralda após fralda. Ela cresceu, era já uma garotinha, sapeca. Muitos cachos, belos cachos negros. E então… simplesmente se fora. Morta. Sabia que estava morta, pois havia um atestado de óbito. Entendia de documentos. Era seu trabalho. Os documentos não mentem: rígidos em forma, seguros como prova. A filha estava morta. Havia também outro documento. Sim. A sentença do juiz, o mandado de averbação, uma certidão de separação. Daqui algum tempo, tinha certeza, seria interpelado por sua mulher. Ex-mulher. Ela irá pedir o divórcio. Insistirá que seja consensual. Não vivem mais juntos. Já partilharam os bens. Não há filhos. Tudo está certo para que dissolvam o amor, o casamento, uma existência. Com a bênção da lei, enfim declarados ex-marido e ex-mulher. Não há mais sua filha, somente uma garotinha ali, tomando milk-shake de cappuccino, cria de outro ser.

Não há mais nada na vida de Bernardo, há não ser a azeda esperança de uma vida melhor, num futuro longínquo e incerto.

Riu sem graça para si mesmo no espelho. Censurou-se pelo drama. Estava para se decidir quanto a algo, quando ouviu barulhos vindos da cafeteria. Uma gritaria, voz grossa, de homem. Alguns gritos desesperados, de mulheres. Distinguiu palavras: “passa”, “dinheiro”, “chão”. Era um assalto.

“Aí está o sucesso do contrato social”, pensou consigo mesmo, irônico. A digressão, porém, abalou-o. Não parecia conveniente que pensasse aquilo. Ali, provavelmente sob a mira de uma arma, chorando, estava sua filha. Não, não era sua filha, diabos. Que seja, havia uma garota ali, correndo perigo. De que adiantaria idealizar o mundo e os humanos se as coisas eram como eram?

O que teria feito se tivesse a chance de impedir que sua filha morresse?

Olhou novamente o espelho, ficando surpreso com a imagem refletida. Abriu os olhos com espanto. Desde quando estava ali? Parecia ter acordado neste exato momento. Sim, ele estava ali, achara-se. Um propósito, um desígnio.

Escancarou a porta do banheiro com um forte chute. O bandido, mais assustado que qualquer um no lugar, apenas um selvagem desesperado, pulou ao se dar conta de que havia mais uma pessoa ali. Como previsto, estava ameaçando a garotinha, que não parava de chorar. Mandava-a calar a boca, alternando a direção da arma da menina para sua mãe, que a agarrara.

Bernardo, resignado, caminhava rígido na direção do marginal. Encarava-o odiosamente, a ponto de trucidá-lo em pensamento. Arma em punho, o bandido mandou-lhe parar:

“Quietinho aí, irmão! Pra trás!”.

Ordenou novamente, sem efeito. Bernardo continuou caminhando, passos duros. Uma bala então voou, em meio a estrépido barulho, atingindo Bernardo no ombro. Ele se deteve por segundos. Olhou seu ombro, sangrava, olhou o bandido. Era novamente aquela sensação diante do parapeito do prédio: que tudo se danasse! Continuou andando. Outra bala voou, mas o marginal errara. A essa altura, já temia Bernardo como a um demônio. Vacilou, espantado por ter errado de tão perto o tiro. Foi a oportunidade de Bernardo, que pulou em cima dele. Babava de raiva. Começou a socar o bandido fervorosamente. Uma. Duas. Três. Quatro. Cinco. Seis vezes. Cada golpe um surdo som a preencher o ar, a perturbar a consciência de todos que assistiam ao massacre, a desconstituir a feição daquele que apanhava. Ao se cansar, Bernardo respirou por algum tempo, tomando folêgo para recomeçar: batia agora a cabeça do meliante contra o chão. Uma. Duas. Três. Quatro vezes. O sangue coloria o chão e as mãos de Bernardo. Sob si uma massa pastosa borbulhava em meio a sangue, osso e carne. Matara o assaltante.

Desmaiou.

Somente quem já esteve numa cama de hospital saberá a que me refiro. Acho graça de todas as histórias sobre a luz no fim do túnel, ou sobre a luz que convoca a pessoa quando esta está no limiar da morte. Não há luz no fim da vida. Há somente o ambiente hospitalar, suas fortes luzes e sua fixação pelo branco. De fato, quem acorda numa cama de hospital, sente-se ou em fim de vida ou no começo doutra. É ali onde são feitas promessas: “mudarei, prometo”. Ou onde se agradece pela nova oportunidade. Ou, ainda, onde se amaldiçoa todo o trabalho de Deus. A única luz é a do hospital, com seu ar divino, a revelar às pessoas: você está numa cama, descanse, e depois vá viver novamente.

Foi nesse estado em que Bernardo acordou. Meio tonto. Desorientado pela forte luz, as pupilas ainda muito dilatadas. Jurou ter visto sua filha ao seu lado. Estaria lhe guardando a alma, como um anjo?

“Oi, moço, você está acordado?”, perguntou uma doce voz.

Bernardo esfregou os olhos e abriu-os de vez. Ali estava a garotinha, observando-o curiosa, grandes olhos.

“Agora sim…”, respondeu.

“Meu nome é Victoria, obrigado por me salvar!”, e deu-lhe timidamente um beijo na bochecha.

Victoria… e ali estava a mãe dela, o médico, a enfermeira, mais algumas pessoas desconhecidas, e pela fresta da porta do quarto até se vislumbrava Cora, com face conturbada, chorosa. Bernardo deitou novamente, fechou os olhos e pôs-se a chorar. Um choro calmo, sem sobressaltos, feito de lágrimas que descem calidamente e vão repousar eternamente no travesseiro, invisíveis. Um mundo inteiro de possibilidades, somatórias de fatores, movimentos, escolhas e livres-arbítrios o levara até aquela cama, mas um só desígnio fazia aquela vida valer a pena. Cada qual com o seu, cada qual responsável pelo seu pedaço de vida. Salvara-a, só isso importava. A presença de todos à sua volta o faziam recordar de sua humanidade. Bernardo não era mais um nada, achara, finalmente, sua ligação com o mundo. Abriu os olhos, deixou-os ser inundados com a luz hospitalar. Um novo começo, um futuro próximo e certo.

“De nada, mocinha…”.

8.5.09

Meus amigos

O seu Isidoro e a dona Vanda são meus ótimos amigos. Pelo menos assim o penso, pois eles tampouco me conhecem. Seu Isidoro e dona Vanda são um casal já idoso, no sentido enrugado da palavra, e, embora devam conhecer milhares de pessoas na relativamente nova cidade de Londrina, eles, provavelmente, nunca sequer me viram.

Aliás, é quase engraçado pensar que são mais velhos que a própria cidade em que vivem, que só possui 74 anos. O casal, contudo, deve ter lá seus 85 anos, vividos respiração após respiração.

Se eles não me conhecem, como posso chamá-los de amigo, então? vocês devem estar se perguntando. Não, já adianto que não sou carente e que muito menos possuo amigos imaginários. O simpático casal de velinhos existe de fato, quiçá até de direito. Com certeza não se chamam Isidoro e Vanda. Se chamassem, eu seria paranormal, e estaria apostando já na semana que vem na mega-sena. Isidoro e Vanda são nomes que eu inventei para eles, por falta de não lhes saber os nomes reais, e achei que assim combinava mais, não combina? Sintam-se à vontade para lhes chamar como lhes aprouverem.

O único contato que tenho com seu Isidoro e dona Vanda é através de uma janela encardida de ônibus, por exatos cinco segundos. Explico melhor, se é isto que todos querem, explicação: ao sair do estágio, ao não ser agraciado com alguma bondosa carona de companheiros de trabalho, pego um ônibus. Não pode ser qualquer ônibus, tem de ser um ônibus que passe ao lado da rua em que moro, para que eu evite perda de tempo. Tais ônibus, por obra do destino, passam numa determinada avenida, onde há uma casa antiga, bem cuidada, ainda inteirona, ares de anos 60/70, com jardim na frente e azulejos antigos na fachada, daqueles que não existem mais. Por exatos cinco segundos posso vislumbrar um casal de velhinhos sentados em cadeiras rústicas, na frente da casa, a olhar a movimentação da agitada avenida na hora do rush. Contemplam a cena pacientemente e de mãos dadas um ao outro.

São meus amigos. Seu Isidoro e dona Vanda. Amam-se tanto que durante os últimos trinta anos eles repetem o mesmo ato todo dia: após tomar seu café da tarde, sentam-se em suas cadeiras prediletas na frente de sua propriedade (que há tanto lhes pertence!) e ficam a admirar o cotidiano, quem sabe, por meia hora ou hora inteira, sem desgrudar as mãos, sem desenlaçar os dedos. Mal imaginam que desde abril de 2009 (“nunca imaginamos que chegaríamos até aqui, Vandinha…”) um rapaz lhes prestasse atenção e nutrisse por eles um sincero carinho.

Sou capaz disso pois seu Isidoro e dona Vanda estão ali por períodos que desconheço. Quantas mudanças não foram presenciadas por seus olhos? Quantos retratos de cidade e de vida já não lhes passaram pelas retinas? Com sua complacência, meu casal de amigos é mais sábio do que qualquer eremita isolado em topos de montanha, ou monges que fecham seus olhos para procurar dentro de si o que a vida lhes dispõe do lado de fora.

Já imaginaram vocês o que é olhar o mundo seguidamente e lhe notar as nuances, nos mais delicados detalhes? Talvez jamais paremos para agir dessa maneira.

Apenas um casal de velhinhos, sentados, quietos, faces para frente, rostos lívidos e curiosos, mãos entrelaçadas. Mãos entrelaçadas por tanto tempo…

São meus ótimos amigos.

2.5.09

O desígnio (parte I)

A já quase idosa Dona Alvida, como que por estranho prazer, soltou uma lágrima ou duas, e pôs-se a prosear sobre seu assunto favorito, sua vida sofrida:

“Mas o senhor sabe, lá em casa é eu mais três filho, num tem marido, num tem quem ajude, trabalho de doméstica e ganho uma merreca por mês, realmente é difícil demais…”.

Ao que uma voz sorumbática sentenciou, vinda de trás de uma mesa empilhada de papéis velhos:

“Isso não me interessa, senhora”.

Dona Alvida encolheu-se. Olhou para um lado, em seguida para o outro, como que a envergonhar-se da repreensão. Cogitou um barraco, deixava sempre claro a todos que não aceitava desaforo, mas a onipotência daquele homem sem alegria no rosto a alertava, ainda que instintivamente, a não soltar um pio. Ele prosseguiu:

“O documento da senhora sai em cinco dias, entendeu? Exatos cinco dias. Quando retornar, a senhora pode retirá-lo na secretaria, não precisa vir até mim. É só, senhora, até, obrigado, tchau”.

E a senhora obedeceu, cara amarrada.

Bernardo suspirou pesaroso. Afundou-se na cadeira velha e olhou a pilha de papéis velhos e as paredes descascadas de sua sala na repartição pública. Tomou o resto do café frio que jazia na xícara sem, no entanto, lhe opor qualquer crítica. Não era novidade que pensasse: “Odeio esse trabalho”.

O relógio acusava a hora do almoço, um alívio entre dois opressores períodos de pura burocracia. Levantou-se lépido, vestiu o sobretudo e saiu de cabeça baixa. Não queria dar ois ou forçar sorrisos.

Caminhava aleatoriamente entre as pessoas, quase uma sombra autônoma em plena luz do dia. Via rostos, olhos, narizes, orelhas, bocas, corpos aqui e acolá. O que o ligava ao resto do mundo? Não sabia fazer essa distinção. Ouso dizer, não se vislumbrava como ser humano. “O que é ser humano, afinal de contas?”. O caminho até o restaurante infestava-se de desconhecidos, pessoas cujos desígnios confrontavam-se com a passagem de Bernardo. Não passavam de uma somatória de fatores de movimentos e escolhas, prerrogativas do livre arbítrio, que os haviam levado a cruzar seu maldito caminho com o do nosso homem em questão. Escolhas e movimentos que, para Bernardo, nada tinham de individualidade, de pessoal. Era tão difícil pensar o outro como alguém. Eram só obstáculos, que trombavam, respiravam, falavam ao celular, comiam e corriam, beijavam e se despediam. Nada diferente de formigas, com seus afazeres, seus encontros e seu seguir em frente. Começou, então, a se sentir aflito, cercado. De dentro de si, uma onda de irritação ameaçava explodi-lo, até que tropeçou em algo.

“Cuidado por onde anda, criatura…!”.

E então percebeu que a criatura se tratava de uma pequena garota, de cabelos densamente cacheados, olhos grandes e vidrados, bochechas coradas e salientes. Era apenas uma criança e ameaçava chorar pelo susto do tropeço e pela rudeza do homem que lhe ralhava.

Bernardo emudeceu e seu desassossego tornou-se visível. Coçou a cabeça, olhou para os lados em busca de apoio, para baixo por vergonha, e para cima por não saber o que fazer. De qualquer maneira, não pôde evitar, sob muito esforço, um:

“Desculpa, mocinha…”. E foi sincero.

A mãe da menina surgiu de algum lugar e reprovou Bernardo com algum olhar censurador, mesmo sem ter visto nada do que ocorrera. Puxou sua filha pela mão e seguiu seu caminho, mas a menininha continuou olhando para trás, mão na boca, olhos curiosos e, por fim, como que convencida de que deveria proceder daquela maneira, abanou a mão para Bernardo, dando-lhe adeus.

Bernardo assistiu à despedida durante algum tempo, imóvel, vendo as duas desaparecem atrás de movimentos e escolhas, desígnios mecânicos e sem propósitos. Quando nada da garota lhe sobrou na vista, voltou a si, demorando ainda alguns segundos até se lembrar de que seu objetivo máximo era, por ora, chegar ao restaurante e aproveitar seu horário de almoço.

Durante a refeição, por vezes lembrava-se da visão da garotinha, tão educada e indulgente, e metia-se em pensamentos longínquos, que lhe caçavam a alma e o olhar e os lançavam numa profundidade perdida, inexplorada, onde guardava segredos que até a ele pareciam circundados de mistério. Mudara o foco do rabugentismo usual, embora não tivesse deixado de manifestar quietude e misantropia, para uma espécie de saudosismo perdido, com reflexos, inclusive, em um deslocado sorriso no canto de sua boca há tanto inutilizada, um sorriso quase imperceptível. Eram memórias.

Ao sair do restaurente, caminhou com ar vago até uma cabine telefônica. Na carteira de couro esfarelento achou um cartão telefônico, com sorte teria algumas unidades de crédito. Teclou os números que nunca haveriam de lhe escapar da memória e ao “alô” do outro lado da linha, após segundos de silêncio, resolveu responder “sou eu”, por falta de algo mais elaborado a dizer. Há horas, saliento, em que a loquacidade torna a existência inútil. Há pessoas (e entre elas momentos) que tornam o uso das palavras algo desnecessário. Para eles, basta um olhar, um suspiro, um gesto, e tudo está dito. Palavras em instantes assim estragam a magia do laço invisível que liga os seres humanos e constituem a quebra dessa capacidade de compreensão que extrapola a linguagem e nos envolve num mundo desconhecido de vivências e experiências marcantes entre dois ou mais seres pensantes.

A resposta de Bernardo, portanto, que deveria, numa concepção ideal, tornar existente a comunicação, além de dar-lhe seguimento, simplesmente produziu mais silêncio. Não esperando nada além disso, resolveu ir adiante, ainda econômico: “Preciso te ver, me encontre naquele lugar, às 18h30”. E desligou.

O resto do dia na repartição mostrou-se igual a qualquer outro dia em que trabalhava: maçante, improdutivo e, sobretudo, nada instrutivo. Acompanhava, dia após dia, inúmeras pessoas que simplesmente vinham atrás de algum documento, sem o qual suas vidas inúteis não poderiam prosseguir. Não lhes dispensava mais atenção do que mereciam nem tratamento mais digno do que lhes convinham para simplesmente terem um pedido satisfeito. O print e o carimbo, para Bernardo, nada mais eram do que o apertar de parafusos e o rosquear de porcas do século XXI, e já quase se julgava um insandecido Charles Chaplin. Pôde desligar-se daquele mundo de formalidades, contudo, pela simples lembrança de um aceno de mão.

Às 17h59 registrou sua saída no ponto eletrônico e às 18h24 já estava no topo do edifício ao qual dera, pela primeira vez, um longo beijo em sua ex-esposa. Nunca se esqueceria disso. Fora no entardecer do dia em que passeara com ela pela quarta vez, após conhecê-la em todos os gostosos detalhes que competem aos apaixonados saberem. Levara-a lá por conhecer o porteiro e adorar a vista que pertencia aquele lugar. Ventava forte e ele a agasalhara. À essa altura, sem trocadilho, ela já o fitava admirada, e para prolongar o irreal momento, confidenciou o desejo de debruçar-se sobre o parapeito da cobertura e olhar para baixo, com o intuito de conhecer a sensação. Ele segurou-lhe a mão e aos poucos ela foi inclinando a cabeça para baixo. Por gozação, Bernardo a sacudiu levemente e, com o susto, ela prontamente o agarrou buscando proteção, enfiando a cara no peito do rapaz. Foi o estopim. Quando voltaram a se encarar, não puderam evitar o beijo.

Era aquela vista vertiginosa que Bernardo buscava agora. A mesma vista que, embora fatal, nada mais fizera do que selar dois corações e aproximar dois desígnios, conquanto não tivesse o condão de enlaçá-los, como se comprovou mais tarde. Debruçou-se sobre o parapeito e olhou longamente para baixo. Tentador. Deixaria aquela queda lhe tragar com toda a volúpia do mundo. Sim, ah se deixaria! Pularia! Que se danassem todos os problemas do mundo, toda aquela falta de amor, toda a decepção e a degeneração dos bons dias, toda sua frustração…Pularia…

“Bernardo!”, gritou uma voz assustada atrás de si…

(CONTINUA)

________

Parte II, final

23.3.09

relMIRPT: "crise"

Relato nº1.020.340.001 da Missão de Investigação e Reconhecimento do Planeta Terra (MIRPT)

Ter>hum>eco

Os meios de comunicação terrestre não versam sobre outra coisa: "crise, crise e crise". Intrigados, resolvemos descobrir do que se trata a tal crise, imaginando que o fim da humanidade estivesse próximo, devido à dimensão propalada pela "mídia". Inicialmente, pensávamos que o planeta Terra estivesse em colapso, devido aos maus-tratos que vem sofrendo, ou então que um cometa estivesse se aproximando e que uma colisão fosse iminente. Descartamos tais hipóteses após rápida consulta em nossa base de dados astronômicos e ambientais. Depois, cogitamos de um gigantesco ataque terrorista usando bombas de hidrogênio. Impossível. O símio líder tribal mundial Obama acabou por arrefecer os ânimos conflitantes dos terráqueos insatisfeitos com a ordem geopolítica das coisas. Por fim, já sem estrutura de pesquisa, resolvemos apelar para uma atitude desprezível e desesperada: lemos os jornais, além das manchetes!

Descobrimos que a tal da "crise" se dá na esfera econômica, ou seja, os terráqueos estão preocupados com dinheiro! Não sei como pudemos esquecer que os símios ligam tanto para pedaços de papéis coloridos. Aparentemente, influenciados por decisões políticas de feições duvidosas e anti-humanitárias, identificadas sob a bandeira do que chamam "neoliberalismo", os humanos criaram um sistema financeiro fictício, existente apenas no plano abstrato, cuja razão de existência se alimentava de especulação. Eles institucionalizaram a especulação e, a partir daí, criaram uma imensa "bolha". Como aprendemos nos segundos iniciais de nossa existência (ao contrário dos nossos seres objeto de estudo), as bolhas são preenchidas de ar, ou, metaforicamente falando, de "nada".

Quando essa bolha financeira estourou, os terráqueos foram presenteados com "nada", o que causou pânico. Ao nosso ver, não há muita diferença entre pedaços de papéis e ar. Mas isso arrasou espetacularmente os seres humanos, cuja existência se demonstra materialista. Alguns deram cabo de suas próprias vidas (ao que parece eles não descobrem o sentido da vida enquanto respiram). Outros enlouqueceram. Alguns continuaram roubando, maquinando. Culpados são procurados por todos os cantos.

De qualquer maneira, em nosso estudo, notamos que a vida continua. Constantemente passamos em frente a estabelecimentos conhecidos como "bares" e os vemos lotados, símbolo de que a "riqueza" humana persiste. Indústrias e empresas continuam de pé. A par disso, não compreendemos exatamente do que se trata, materialmente, a tal "crise", uma vez que tudo permanece na mesma. Relatamos, por enquanto, que se trata de apenas mais uma esquisitice humana.

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Acompanhe o relatório clicando aqui.

14.3.09

A voz que enche e esvai

Sendo bem instruído, sabia corretamente pensar em Einstein enquanto a moeda subia lentamente, em movimento circular. Não subia lenta, obviamente, apenas o tempo era relativo, como preceituava o cientista. Relativo em sua capacidade de abrigar em tensão uma estréia no campo, o grito ensurdecedor da torcida, a cara de poucos-amigos dos capitães à sua frente e, não por menos, toda a insegurança de que poderia dispor aos seus 25 anos: isso tornava o tempo devagar para um juiz estreante. A moeda subiu, acompanhada de, ao menos, três olhares. E desceu, em toda sua glória de câmera lenta, vindo a repousar na fofa grama.

Aos olhos de Otávio e dos capitães que o acompanhavam, a sorte bradava: "Coroa!". "Bola", escolheu o goleiro-capitão vencedor. Sem escolha, preferiu o aclamado centroavante do outro time decidir por permanecer do lado do campo em que estava, onde gozava de boa sombra.

Acatando o formalismo de praxe, Otávio pregou-lhes um pequeno sermão, exigindo bom comportamento no jogo e prometendo coibir qualquer tentativa de deslealdade. Tentou não vacilar em voz e, ao mesmo tempo, passar um tom de companheirismo aos capitães, no que obteve um condescendente olhar de aprovação por parte dos representantes de cada time.

Posições tomadas. Bola no centro. Otávio deu uma olhada para os bandeirinhas, tudo ok; para o quarto árbitro, tudo ok. Nos bancos de reservas, tudo ok. Tudo parecia correto.

Cedendo a um instinto que nos faz olhar para baixo quando andamos pela corda bamba, Otávio vistoriou toda a extensão da arquibancada do estádio, girando sobre si. Uma massa uniforme dividida em duas cores digladiava-se numa guerra de hinos e coros, produzindo um só som, uma voz única, vibrante em seu poder de comunhão, escancarando a tensão de um clássico. Otávio sentiu-se diminuto, o que tentou reverter lembrando-se a si mesmo do poder de sua função, da autoridade que possuía ali dentro. Sabia, contudo, que sua origem era ali muito difamada, "coitada de minha mãe...", pensou. Será que se estivesse viva o apoiaria nessa escolha impulsiva de se tornar árbitro de futebol?

Por um átimo, pensou no desenlace que advira de um momento de dúvida: seguir uma carreira convencional? trabalhar? estudar? O pai, antes do acidente que o vitimara e junto sua mãe, o queria advogado, a mãe o queria feliz, ele não sabia o que queria, até que numa loucura qualquer decidiu enveredar pela seara da arbitragem. Curso após curso, jogo de várzea após jogo de várzea: série C, série B, campeonatos menores. Ascendeu, e com seus 25 anos chegara ali, numa grande partida. Orgulhava-se do fato de ter chegado nalgum lugar sem seus guias. Estaria feliz?

Apitou o início da partida.

Esse instante antes do apito inicial era singular para Otávio. Invadia-lhe um embrulho em toda a extensão de seu já enrolado intestino, seu coração parecia comprimir-se em busca de proteção, num único ponto, temeroso de bater uma vez mais sequer, sua respiração tornava-se fictícia, onde estava o ar? Como mantinha-se vivo assim? A resposta é que por ora e em todo jogo, supunha que só com o descomunal esforço de apitar com o fôlego que lhe restava o apito conseguiria se livrar daquela angustiante sensação. E então sobrevinha o efeito cascata: o tempo vagaroso apressava-se em correr para compensar sua anterior lentidão, o coração batia lépido, a respiração vinha em jorros, esquecia o embrulho no estômago e no intestino. O mundo se deslocava dele próprio para a bola, agora rolando; de seu umbigo para os jogadores sob sua custódia, sob o manto de suas decisões, o agasalho da justiça.

A partir daí, o resto era, para ele, de extrema facilidade. Corria, acompanhava de perto cada jogada, desviava de bolas que vinham em sua direção, apitava a infração, estufava seu peito, alongava sua coluna, sacava suas armas, uma vermelha, uma amarela, de passos firmes contava a distância da bola à barreira, era um paladino, um pilar de moderação entre forças díspares, em combate.

No final de cada partida, desagradava 50% de todos os presentes no estádio. Por diversas vezes culpavam-lhe pela derrota. Por apenas duas vezes no passado, em 147 partidas, seu erro havia interferido no resultado do jogo. E apenas ele tinha noção disso. Fora de sua consciência, seus erros haviam tomado ares de ingenuidade, ninguém ligava para aquilo, era um bom juiz, ninguém notara suas escorregadas. Um prodígio.

Era nessa atmosfera de consagração que permeava seu pensamento sobre o futebol: alegria. Um meio de reunir as massas, de planificar desejos, de encontrar identidade entre raças, credos, e classes diferentes. Futebol era a arma da paz. Como se regozijava ao ver as pessoas discutindo o esporte, passando suas impressões, desenvolvendo pensamento crítico quanto a atuações e dinâmicas de times, cartolas, jogadores. Agora até as mulheres gostavam de futebol. Futebol não via fronteiras, era a unificação tão almejada pelos humanistas. Um fenômeno estudado até por sociólogos.

Triste, entretanto, é o poder de um acontecimento. Um único acontecimento que, isolado, desdobra-se numa conjuntura de efeitos, movimentos e ações, que culmina num resultado ou em alguns deles. Maior que o poder da capacidade humana de construir algo com base em ideais de comunhão, é a capacidade do tempo e do ocaso de destruir tudo assistidos pela ordem natural das coisas.

É um desses acontecimentos que irá matar Otávio em menos de quatro horas.

Pensa que é apenas mais um lance do jogo, uma circunstância: não entende que a mão que o zagueiro usa disfarçadamente para afastar a bola do gol é a mesma que segurará a pá que jogará terra sobre seu caixão. Ouvem-se gritos, Otávio não viu nada, viu apenas a bola bater na barriga do zagueiro, o auxiliar também não enxergou nada, estava encoberto. Alguns jogadores reclamam. A bola sai. É apenas tiro de meta. A torcida adversária quer pênalti, novamente o grito que cria tensão, a voz única. Jogadores o cercam, querem justiça. Gritam, bradam. Outros jogadores surgem para proteger o suposto infrator, o mão-na-bola. Otávio precisa ser rápido, caso contrário, a situação fugirá de controle: estufa o peito, pede respeito, mostra o cartão amarelo para o jogador mais exaltado do time adversário. Em pouco tempo consegue botar ordem. A TV mostra no replay a mão do jogador tocando sutilmente a bola dentro da grande área. Torcedores sentados em sofás indignam-se, mas não podem fazer nada.

A despeito da decisão tomada, uma dúvida martela a cabeça do árbitro: "e se o infeliz tivesse tocado na bola?". Imaginou o Lance! criticando-o no dia seguinte, o noticiário de esportes mostrando sua conduta errada e ligando isso a um provável resultado modificado no jogo. A torcida pegaria no seu pé pelo resto da vida. O que seria de sua carreira? Aquele 0 a 0 parecia-lhe sufocante.

Olhou o quarto árbitro e pela sua face julgou que havia mesmo cometido um erro. "Quem é ele para me repreender?". "O que falariam os jornais?". "Eu realmente devo ter prejudicado o resultado, bem nessa partida...".

Foi com olhos de devoção à Providência que Otávio encarou uma jogada que se deu aos 43 do segundo tempo: a equipe que se julgava lesada pela decisão do juiz atacava novamente, com perigo, quando o mesmo zagueiro mão-na-bola dividiu de maneira mais rude a bola com o atacante. Este, empregando seus conhecimentos teatrais, lançou-se por terra, dando ecos graves a uma jogada banal. Otávio teve poucos segundos para decidir o que fazer, já sentindo os olhos dos milhares de torcedores sobre si. Agiu nele um sentido de compensação, ligado a uma concepção equivocada de justiça, que muito ajudou no intuito do destino de dar cabo de sua vida. Apitou a falta.

Dessa vez ignorou as reclamações. Deu seus passos da bola à barreira, onde, com spray, desenhou a linha onde os jogadores deveriam permanecer distantes da bola.

Um chute, um gooooooooooooooooooooooooooool. Novamente a voz única, vibrante.

A insatisfação da equipe adversária era evidente. Dos 44 aos 47 minutos, tempo em que acabou o jogo, Otávio novamente pensou em Einstein. Saiu do campo escoltado pela Polícia Militar.

Tomou uma ducha, não conversou com o resto da equipe, vestiu um terno e saiu, já pensava em como escreveria seu relatório sobre o jogo.

Às 20:15 pegou sua namorada para jantar no restaurante onde costumavam se encontrar. Passaram momentos divertidos. A moça, ciente do erro de Otávio no jogo que assistira pela TV, esforçou-se em levar os assuntos para longe do mérito esportivo. Otávio já se sentia mais aliviado. Comeram spaghetti à parisiense, tomaram vinho branco, fizeram planos.

Ao saírem do estabelecimento, dirigiram-se para o carro, ao que ouviram pelas costas:

"O senhor é o Otávio Macedo?".

"Si...", e Otávio já se arrependia de concordar, ao se virar e notar o brasão do time que havia prejudicado no boné de um rapaz esquálido, de face chupada e bigode por fazer, acompanhado de outro rapaz e de uma garota, que gostava de futebol.

Os tiros foram surdos e quentes. Doeram logo no primeiro contato, tão à queima-roupa, tão passionais. Os jovens gritavam impropérios, pareciam felizes agora, mas uma felicidade tensa, nervosa, tresvairada. A voz não era única, era uma diversidade de gritos, de desespero, de ajuda, de risos, de fuga. Antes de seu coração comprimir-se em busca de proteção e de sua respiração fugir para o nada, Otávio sentiu uma profunda tristeza, "comunhão...paz...fronteiras...", foram suas últimas palavras.

24.2.09

Pepeto fala para

Não é de se espantar que sonhos inspirem textos. Ouso dizer que os inspiram até em demasia, coisa que me faz penar enquanto escrevo esta singela crônica. A despeito do clichê, no entanto, sinto-me na obrigação de desenvolver um texto a partir de um determinado sonho que tive, pois isso nada mais é do que desenvolver a mim mesmo, e vocês entenderão o porquê logo mais.

Se levarmos em conta meu pensamento ignorante de que há uma relação inversamente proporcional entre o que você vive e o que você sonha, é perfeitamente compreensível o fato de que meus sonhos sejam pobres em detalhes. Vivo intensamente, mesmo não estrelando trama de novela, e meus olhos, que dispõe da paciente arte da contemplação, são meus principais auxiliares em variadas tarefas: desde o ato de escrever e detalhar, até vislumbrar paixões nacionais em movimento de rebolado.

Com tanto para se ver, quase nunca tenho o que sonhar, ou talvez minha "vida real" seja o próprio sonho? Enfim, a crônica não é o espaço para tergiversações Lynchianas.

Mas dessa vez, houve um sonho mais elaborado. Um desses caprichos que inspiram textos.

Nele, eu, enquanto consciência e imagem e semelhança de mim mesmo, encontrava eu mesmo, pequeno, criança. Um encontro sem palavras, de olhares profundos e familiarizados, de envolvimento terno e sereno. Julgo até um encontro de aprendizados recíprocos. Reparei que meu eu pequeno segurava em mãos uma guitarra de plástico, colorida, um brinquedo de infância.

Não lembro mais que isso. Nunca lembro dos meus sonhos, o que não deixa de ser um fato tão ruim quanto os sonhos sem imagens do protagonista inominado de Vastas emoções e pensamentos imperfeitos, de Rubem Fonseca.

A falta de memória onírica, entretanto, não configura um empecilho para o papel de musa do meu sonho. Musa inspiradora. Pelo contrário, o volume de informações projetado em minha mente foi suficiente para que eu ligasse o sonho a um momento da minha vida, ou melhor, a vários deles, o que não deixa de ser lógico, pois assim encaro a finalidade do sonho: um indício, que aponta para algo, cujo resultado mostrar-se-á mais cedo ou mais tarde.

Este garoto pequeno, de tênis, calça jeans, camiseta listrada, cabelo bagunçado e guitarra em mãos, além de ser um retrato de um indie mirim, nada mais foi do que o começo da desistência.

Esta mesma criança, de cara emburrada e gênio explosivo, em seus ínfimos 4...5 anos, já compunha seu hit Pepeto fala pára*, com melodia de meu pai e letra própria, uma música em que versava seu amor pelo leite com Nescau.

Gosto para música, fica aqui comprovado, sempre tive. Anos depois, no entanto, ao ser defrontado com uma oferta de fazer um curso de piano, desisti. Sem nem tentar.

O garoto da guitarra também era bom de bola. Jogava de meia direita, era mais de passes do que de gols (o que mais tarde veio a configurar minha característica de mais auxiliar do que de me aparecer). Pôde fazer algumas aulas de futebol, mas, passado um tempo, e dados uns chutes, desistiu.

Filho de pai craque em castelhano, pôde cursar Espanhol com belíssima professora. Poucas lições após o básico do básico da língua de nossos hermanos latinos, todavia, desistiu.

E assim desistiu do curso de informática, do Inglês, de Brasília, de São Paulo, da USP, até mesmo de pessoas.

O menino da guitarra cresceu, sem guitarra, e esteve, inclusive, em sonho observando outro menino, este com guitarra em mãos e ambições diversas na cabeça lúdica e sem preocupações.

Este menino crescido, até poucos dias atrás, queria desistir de outras coisas. Um exemplo: do seu curso de Direito. Manteve-se, contudo, firme. Não desistiu, não arredou pé. Nisso viu, com ar de alívio, um atrasado amadurecimento no que toca a projetos pessoais. Felicitou-se e até se propôs a escrever crônica.

E aprender a não desistir, quem diria, quem lhe ensinou foi uma criança esperançosa, de guitarra de plástico colorida em mãos e cabelo bagunçado.

_________

* "Pepeto" era a forma pela qual eu era chamado por meu pai. O para com acento é minha revolta pessoal com o fim do acento diferencial.

12.2.09

Nunca pensou que cresceria

É nesse Davi que teimam em pensar. O sujeito carrancudo, jogado ao lado, ombros curvados, saculejando no bonde apinhado de trabalhadores, a olhar para o lado de fora mas a olhar para nada. Pensativo que só. Era esse mesmo Davi que vinha retornando de uma jornada de oito horas trabalhadas numa repartição velha e mal-ventilada qualquer, daquelas que melhor traduzem o sentido da palavra burocracia.

Olhava a paisagem se desenrolando constante sob seus olhos: carros, motos, postes, a Pão-pão, a Casa de Carnes, a morada do seu Zé, uma igreja qualquer de nome comprido, a loja de construções. Estava na hora de descer. Ou seria de crescer? É que vinha pensando na infância. Puxou a campainha e, segundos depois, lutando contra a gravidade da freada nada sutil do motorista, desceu do bonde, paletó num braço, maleta preta no outro.

Aquela cara séria sempre foi coisa do Davi. Os vizinhos, fazendo pouco caso, davam oi, boa-noite, como-vai, tudo-bem, salve-Davi, ou qualquer outro cumprimento que forçasse o homem a destrancar aquela sisudez toda e lhes notar a existência.

É na infância que vinha pensando enquanto andava pelo bairro. O certo do errado, os porquês, o pode-não-pode, as brincadeiras, o temor reverente pelos pais, aquela atmosfera meio escura, meio apagada, de mistérios infinitos e proporcionalidades angustiantes, como felicidades extasiantes e dores que batiam fundo. Tinha por crença que crianças sofrem, mas ninguém se dá conta disso.

Mais ou menos nessa altura, avistou o boteco da região e indeciso resolveu entrar. Meia dúzia ali se encontrava, entre ébrios contumazes e spleens de plantão. Algumas moscas irrequietas voavam teimosas em volta da lâmpada. Maneco, caneta na orelha e sempre limpando o balcão com o mesmo pano, ao ver Davi logo emendou "Taí quem não vem faz tempo". Davi se limitou a um muxoxo e olhando para um canto do estabelecimento indagou "Que que tá tocando aí, Maneco?", "Tom Uei... Tom Uetz...peraí" e, buscando a capa do vinil que descansava ao lado da vitrola, retornou sábio "Tom Waits". Davi gostou do som. Uma voz rouca, estranhamente acolhedora, familiar, um som calmo, porém tenso, um ar de fim-de-mundo. Pediu uma Brahma, que veio acompanhada dum copo americano.

Chegou em casa nem bêbado nem sóbrio. A mulher, assistindo novela, não fez questão de se levantar e beijá-lo. Os três filhos, escondidos alhures, não o recepcionaram felizes com abraços, gritando "Papai!". Tudo estava como sempre. Sempre fora assim? Não lembrava, só sabia que estava acomodado com tudo, e assim lhe parecia certo, afinal de contas, não tinha mais tanta paciência.

Puxou folgadamente a gravata e foi para o quintal. Vez em quando fumava e foi o que fez na hora, já que o céu estrelado o convidava a fazer isso. A fumaça ascendia espiralada e se tornava mais hora menos hora a Via Láctea lá longe, a qual ele gostava de admirar. Fazia isso também quando era criança, mas sem o cigarro, seu pai o espancaria. A infância.

As memórias, no entanto, foram sepultadas pelo grito da mulher: "Ô Davi! Não tá ouvindo eu chamar, não? Olha a hora que já é, vai botar as crianças pra dormir que eu ainda preciso lavar a louça". Apagou o cigarro e subiu as escadas do modesto sobrado. As crianças zoneavam em suas camas e a muito custo conseguiu fazê-las escovar os dentes e enfiar os pijamas nelas. Obteve êxito ao ameaçá-las com a vinda da mãe, de cinta na mão. Obedeceram na hora.

Tradição que já ia caducando, mas a qual, no entanto, Davi ainda insistia em realizar por uma ingenuidade de pai (sem notar que seus filhos pouco caso faziam disso), era a de ler um livro para as crianças dormirem. Tinha consigo toda uma coleção de livros, até mesmo infantis, pois gostava muito de ler e de se informar. Esopo, Rubem Alves, Monteiro Lobato, Saint-Exupéry, Ruth Rocha. Pareciam-lhe muito instrutivos. Pôs-se logo a ler, a meia luz, com voz de pai. Era A menina e o pássaro encantado.

Lia mais para si mesmo, pois as crianças acabavam por adormecer da exaustão de suas peripécias. Gostava muito de ler. Ultimamente, tinha uma gostosa saudade por tudo que o lembrava infância. Seus filhos, contudo, pouco se importavam com qualquer tipo de ritual pai-filhos. Seu pai era a mãe.

Foi para o quarto sentindo ombros de Atlas e por pouco não cedeu à tentação de deitar na cama de roupa e tudo e adormecer para sempre. Fez mais um esforcinho, porém, e tirou a roupa, tomou uma ducha, escovou os dentes, ajeitou o travesseiro e deu um beijo estalado na bochecha da mulher. Ela reclamava de contas atrasadas e da vizinha que lhe parecia invejosa. Foi adormecendo lentamente, sentindo os membros morrerem, a cabeça se distanciar, o mundo ficar longe, "amanhã tem mais trabalho, amanhã tenho que pagar umas contas, amanhã tenho que falar parabéns pro Freitas...". Dormiu, por fim, não sem antes se lembrar de que fazia dois anos que ele e sua esposa não faziam sexo.

Despertou de um sonho gostoso (mas do qual jamais se lembraria) ao ser sacudido pela mulher às seis horas da manhã, como todo dia, mas sem sorriso de hortelã. Se arrumou, bebeu café amargo e logo tomou o bonde, que lhe parecia já um velho amigo.

Era pensativo que observava o lado de fora do bonde. Parecia outro mundo. Pessoas rindo, pessoas gritando, guardas de trânsito, trombadinhas, casais, lojas, passarinhos, a fiação elétrica. Tudo parecia alheio à sua família. No mundo de fora do bonde não havia sua mulher nem seus filhos. Não havia cobrança nem patrão. Não havia repartição fedendo a mofo. Não havia nada, mas ao mesmo tempo, o nada lhe configurava o tudo.

Foi quase sem querer que brincando com sua bolsa descobriu A menina e o pássaro encantado lá dentro. Havia posto por engano lá o livro e foi automaticamente da hipnose de fora do ônibus que passou os olhos para o livro lido anteriormente aos filhos. Uma garota que tinha por amigo um pássaro mágico, que encantava o mundo. Um dia resolve aprisioná-lo e ele perde seu encanto. Uma bonita parábola sobre liberdade e saudade, que é resolvida quando a menina solta da gaiola seu amigo.

Um estranho sorriso estampou a cara de Davi.

Nunca mais retornou à sua casa.

2.2.09

Encontro atribulado

Ela se aproximou languidamente no melhor estilo cinematográfico, em câmera lenta, embora tristemente a realidade fosse de estética inferior ao cinema. Não importava: na visão dele, era como se o tempo tivesse parado momentaneamente para aquela deusa caminhar em sua direção, passo a passo, rebolado a rebolado. Examinou-a vorazmente e constatou alegre que algumas mulheres preservam o bom senso na maneira de se vestir, não se vendendo à vulgaridade e, de sobra, ainda assim, conseguindo exalar sensualidade por cada poro de seus belos corpos.

"Por favor, pode se sentar", sugeriu ele, num misto de solicitude e obediência ao olhar da mulher, que ordenava em cor-de-mel justamente que ele oferecesse tal pedido.

"Obrigada", disse, em meio à fatal cruzada de pernas e ao movimento da cabeça que jogaria seus cabelos de lado, enfeitiçando o pobre homem.

Podiam observar pessoas ao redor, caminhando, falando, apressando-se, trombando umas nas outras, embora elas estranhamente não os incomodassem, como se não existissem. Aquele era sem dúvida um momento privado, um presente do mundo dado a cada um dos dois. Ambos sairiam ganhando algo com aquele encontro.

"Eu gostaria de ouvir você falar sobre você mesma, pode ser?", sugeriu Hermes.

"Sem dúvida, senhor Hermes...".

"Vejo que já me conhece pelo nome, ora. Mas faço questão que me chame de Hermes, somente, ou mesmo de você, nada de senhor, ok?", brincou o homem, entre um sorriso que se esforçava para ser encantador.

"Como quiser, Hermes, quem me contou seu nome foi uma amiga sua, a Débora...meu nome é Elaine, tenho 25 anos, solteira, sou formada em Secretariado Executivo. Já viajei para a Argentina e a Austrália, tenho uma vida um tanto quanto atribulada quando se trata de trabalho, afinal, quem não tem? Ah, e se interessar ao sen...a você, falo inglês, espanhol e francês".

"Uau, quantas qualidades! Viajou a passeio ou a trabalho? Adoro a Austrália, mas só conheço Sidney".

"Depende, na Argentina participei de um curso para a faculdade; na Austrália, foi au pair. Adorei visitar ambos os países, aprende-se muito conhecendo outras culturas, povos, costumes. Conheci Sidney também, além de Melbourne. Não dá vontade de voltar sempre e sempre?".

Hermes não ligava muito para o conteúdo das frases de Elaine, apesar de prestar atenção em cada vírgula de suas sentenças. No entanto, interessava-lhe mais o movimento da boca da moça, seus lábios sobriamente avermelhados com batom, sua maneira de pender levemente a cabeça para a esquerda quando encerrava o que dizia, e como seus dedos cruzavam-se timidamente enquanto repousavam tensos sobre seu regaço, numa tentativa de aliviar a vergonha inerente aos primeiros encontros.

Notando os olhos inquisitórios do homem com o qual decidira passar um momento junto, Elaine resolveu comentar:

"Você parece ser um homem muito observador, Hermes, o que você faz?".

"Eu cuido de alguns afazeres numa multinacional, papel administrativo, um faz-tudo burocrático. Uma multinacional de grande porte, devo dizer". Ria, brincalhão.

"Parece importante", observou a mulher, com um sorriso de deboche.

"Pagam bem, estão sempre atrás de gente interessante, como você".

"Ah, é? Obrigada. Tanto pelo 'interessante' quanto pelo 'pagam bem'...me agradam tais coisas", agradeceu, perdida entre enrubescer e aproveitar a chance oferecida.

"Inclusive, pagam bem o suficiente para que eu possa levá-la para tomar um café", arrematou Hermes, fixando-a nos olhos, sorriso enigmático.

"Não gosto de café...", soltou Elaine, esfriando os ânimos do homem à sua frente, sem mais sorrisos no rosto.

"Poxa, uma pena...me desculpe, não foi apropri...".

"Gosto de vodka".

Hermes olhou Elaine de maneira ostensiva. Aquela fileira de dentes brancos que sorriam para ele, em conjunto com aquele olhar de cositas más, configuravam um convite mais claro e explanatório do que um outdoor contendo letras garrafais exposto numa avenida. Ciente de que não precisaria mais observar nenhum aspecto naquela maravilhosa e talentosa garota, regozijou-se em anunciar:

"Pois bem, senhorita Elaine, haja vista sua excelente formação, seu domínio em três línguas e sua capacidade para dar conta de múltiplas tarefas e de demonstrar pró-atividade, gostaria de lhe informar que está contratada!".

E Elaine não disfarçou seu bonito sorriso de felicidade, o qual só foi coberto com suas delicadas mãos após alguns segundos, em sinal de incredulidade, tal qual miss vencendo concurso. Fora do escritório, emparedado com vidro, viam-se outros funcionários, a correr, a se apressar, a trombrar um nos outros, a fazer sua rotina de trabalho de multinacional. Mas ali dentro, não se via, não se ouvia e não se reparava em nenhum deles. Era um encontro privado. Só sorrisos e uma promessa de noitada.

28.1.09

Pausa para brincadeira e Skoob

A Bruna do De lírio lilás foi vítima de uma dessas medonhas brincadeiras de blog, em que você é obrigado a fazer algo e passar adiante certa tarefa. Um vírus não seria tão eficiente. Para variar, fui indicado por ela para cumprir a corrente, que consiste em:

1-Agarrar o livro mais próximo;
2-Abrir na página 161;
3-Procurar 5ª frase completa;
4-Colocar a frase no blog;
5-Repassar pra 5 pessoas.

Depois que me mudei, não deixei mais nenhum livro sobre meu hack, estão todos guardados no armário ou na prateleira sobre minha cama (de casal, por sinal). Assim sendo, me senti no direito de pegar não o livro mais próximo (estavam todos igualmente à mesma distância), mas o que eu estou lendo: Amor nos tempos do cólera, do Gabriel García Márquez.

Aí vai:

"Aprendeu a fumar ao contrário, com a brasa dentro da boca, como fumavam os homens nas noites das guerras para não serem denunciados pela ponta incandescente do charuto."

Isso foi edificante, fiquei imaginando um soldado trapalhão querendo se manter escondido das tropas inimigas, fumando um cigarro ao contrário e queimando a língua. Iria ser bem discreto!

De qualquer maneira, gostaria de pegar carona na brincadeira proposta pela Bruna e oferecer uma dica a todos os leitores. Todos sabem que as redes sociais são uma realidade para lá de concreta no mundo virtual (tá, esse trocadilho foi horrível), assim sendo, já era hora que aparecesse uma rede social diferente do orkut (que foi tomado por patricinhas esdrúxulas e manos "ingnorantes"); algo mais culto, voltado para atividades mais construtivas. Surgiu então o Skoob, onde você pode dizer o que está lendo, o que vai ler, escrever resenhas e manter contato com pessoas de gosto semelhante ou não. Uma boa maneira de evitar ler aquele livro indicado por sua amiga que acha Dan Brown e Paulo Coelho o máximo. Ah, e o melhor: o site foi desenvolvido por brasileiros!

Para quem quiser me adicionar lá, sinta-se à vontade: clique aqui.

De resto, meus cinco amaldiçoados com a brincadeira do livro são: ninguém!

25.1.09

RelMIRPT: "Aniversário de 2 anos do blog"

Relato nº 90.666.999 da Missão de Investigação e Reconhecimento do Planeta Terra (MIRPT)

Ter>hum>pes>vhab>ztqm

É com grande orgulho que a equipe do MIRPT, após cansativo e desgastante trabalho de reconhecimento das peculiaridades desse planeta tão...azul que é o planeta Terra, vem desejar PARABÉNS aos 2 anos do blog Zaratustra tem que Morrer! Em nossa cruzada para decifrar todos os limites terrenos, a composição físico-química do planeta, a genealogia dos animais e, em especial, essa tremenda confusão que é a sociedade humana, acabamos por encontrar nesse universo paralelo virtual, denominado internet um "blog" singelo, diferente, preocupado em analisar a condição humana e relatar suas agruras e sofrimentos, evoluções e paixões, amores e lutas, ou seja, tudo aquilo de que não entendemos bulhufas e para o que somos pagos pela Sociedade Enciclopédica Universal para entender. Apesar disso, gostamos do ZTQM por estar sempre disposto a melhorar em prol de seus leitores. Nesses dois anos recém-completados, permeados de contos, crônicas, humor e besteiras, o blog persegue somente um objetivo: evoluir, como a sociedade humana deveria fazer...

Reiteramos que seu autor, um jovem terráqueo que insiste teimosamente em viajar conosco, não nos contemplou com nenhum tipo de propina para escrever este relato.

Parabéns por seus 2 anos, ZTQM!!!

bolo

22.1.09

Acima das folhas uma rainha (parte 3 - final)

Acompanhe: parte 1, parte 2

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vitória-régia

O escritório de M. Ortiz trazia em si toda a opulência de um homem poderoso. Centenas de livros dispunham-se ao redor do espaço, todos grossos e sobriamente encapados, de modo a formar uma arquibancada de espectadores curiosos, atentos e rabugentamente inertes. O mogno revestia cada detalhe do ambiente: desde as estantes dos livros opressores até a grande mesa atrás da qual estava sentado o dono de tudo aquilo. Leandro não possuía a delicada arte feminina do detalhismo, assim sendo, ao entrar naquele escritório, foi apenas tomado de uma súbita e única reação de espanto, registrada em seu cérebro pela forma de um lugar desconfortável, soturno, de uma seriedade tamanha que dali deveriam se originar decisões das mais imprescindíveis para o comércio e a política mundiais. Mulher fosse, duma única vislumbrada teria notado o sofá, a mesa, as cadeiras regiamente almofadadas, o divã impecável, as estantes, os livros, os abajures, a cortina, a Montblanc, e, não menos importante, o retrato do casal Ortiz, com uma foto tirada no dia do casamento de ambos, ainda vestidos nos trajes cerimoniais.

O Sr. Ortiz olhava-o com desdém, sem nada dizer, nem ao menos convidando-o a se sentar.

"Você está despedido", anunciou o rico empresário, com voz gélida.

"P...por que, senhor?!", precipitou-se Leandro, surpreso.

M. Ortiz encarou-o inconformadamente, uma veia saltava de sua longa testa.

"Como ousa agir assim?! Acha mesmo que pode comer a minha mulher e mentir como se fosse uma criança mimada? Você é muito cara de pau!".

Leandro, que inicialmente ostentava uma expressão consternada, gradualmente passou a sustentar um ar petulante. Risonho, encarava Ortiz sem medo.

"Nos amamos! ficarei com ela. Você logo será um corno abandonado. Um rico corno abandonado! Nem com todo dinheiro do mundo vai conseguir extrair os chifres da sua cabeça, seu grande otário. Enquanto isso, mentalize bem, pois é uma imagem que ficará na sua cabeça pelo resto da sua vida, toda manhã, tarde e noite: estarei comendo a sua mulher, não, a minha mulher, com muita, muita força".

Cabisbaixo, Ortiz olhava seu tapete persa, quieto.

Leandro ia saindo, quando Ortiz resolveu falar, talvez para si mesmo: "sou um homem infeliz, casei com uma puta e não soube agradá-la...bem que tentei. Sou poderoso e poderia matá-lo, mas não o faço pois o dinheiro me limita. Se saio do trilho minha fortuna se esvai...um assassinato me deixaria pobre e não há como escondê-lo, estou cercado de traidores, de cobras vis, que me denunciariam ou me chantageariam, a troco de uma merreca, porém pela vida toda. Vá embora e leve aquela biscate, não ligo para aquela piranha nem para um pobre como você, que julga esse momento um êxtase, já que conseguiu enganar o rico. Você é peixe pequeno. Vá e se foda, prepare-se para quando ela começar a sentir saudade da ostentação".

O jardineiro ainda saiu rindo, esforço que lhe pareceu difícil de executar, posto que sentia ter estranhamente perdido aquela batalha com Ortiz. Ele vencera, não vencera? Algo dentro dele começou a incomodá-lo, uma estranha vontade de sumir com tudo...

•••

"Aqui estamos novamente, Sr. Leandro! E dessa vez contamos que você abra essa sua boca imunda, ok?"

Lembranças desagradavam Leandro. O passado era um problema, gostaria de esquecer tudo. "A culpa", julgava, "está me comendo por dentro". Queria ir logo para aquele lugar, vê-la, mas o presente ainda exigia sua participação, sua existência. Organize-se, organize-se!, pensava.

"Vocês tiraram a rainha-da-noite daqui...", constatou com voz morta, sentado e algemado.

"Jogamos fora aquela merda. Não tinha cabimento uma planta decorar uma sala de interrogatório, não acha?", disse Batista.

"Além do mais...", provocou Joaquim, "...você não veio aqui para jardinar".

"Era uma planta bonita...".

"Bonita como Andrea Ortiz?", comentou Joaquim, juntando os dedos e os beijando com um estalo.

Leandro olhou Joaquim e Batista com olhos de morte. Suava muito e respirava com dificuldade. Todo o seu corpo sentia um enorme mal-estar, consequência a qual ele não saberia detalhar a causa. Subitamente, ficou sereno, deu um sorriso ou outro, meneou a cabeça, como se estivesse a lembrar de ótimos momentos. Uma lágrima correu seu rosto. Uma única lágrima.

"Andrea e seu marido sempre tiveram uma relação difícil...", começou a relatar, ao que os policiais prontamente se aproximaram, sentando de frente a ele, "...ela era uma garota nada abastada, e ele só um ricaço emergente, doido para impressionar alguma mulher com sua grana. Ela foi a 'presa' dele...".

"Continue...".

"Durante o tempo em que lá trabalhei, pude constatar o fim de algo óbvio: eles não se amavam. Ele amava o dinheiro e ela amava o jeito que ele amava dinheiro. Logo a lua de mel dos dois teve fim e foi quando começaram as brigas. Todos os empregados viam, era grito o dia todo".

Parou, procurando se lembrar de algo, e então continuou:

"Eu a achava muito linda, e foi uma surpresa também para mim constatar que estava apaixonado por ela. Não demorou muito para eu perceber que ela também estava apaixonada. Começamos a sair escondidos, tivemos encontros em motéis, em lugares afastados. Um dia até fomos ao cinema. O que não sabíamos é que ele nos seguia, ou mandava alguém seguir. Quando ele descobriu, começou a agredi-la fisicamente, virou outra pessoa, um animal. Ela não suportava mais, resolvemos então fugir. Antes disso ele me chamou ao escritório dele e me demitiu, apenas isso. Fez com tanta calma que estranhei. Fui para minha casa e poucas horas depois me caiu a ficha de que toda aquela calma só poderia significar uma coisa: ele iria matá-la!...Voltei correndo para a mansão e descobri com os empregados que ele a tinha levado para a chácara que possuem...possuíam a 100km daqui".

Prosseguiu:

"Não tenho um carro muito veloz e temo por isso ter chegado tarde demais! Quando lá cheguei, percebi que ele não tinha levado nenhum segurança, ele estava só..."

Leandro agora olhava fixamente para o nada, como se estivesse em outro lugar, em outra dimensão. Falava apressadamente.

"Peguei-o pelo colarinho e o sacudi, gritando onde ela está, onde ela está. Ele parecia uma pedra, estava irreconhecível, mas tinha um sorriso na boca. Disse que agora estava livre da vagabunda, parecia um louco varrido. Fiquei assustado, implorei para ele contar onde a tinha levado, onde ela estava. Está morta, respondeu. Mortinha, mortinha, e ficava rindo. Eu me desesperei, me ajoelhei e implorei que me respondesse e ele vendo isso começou a me chutar, disse...ah...disse que a tinha queimado viva, que quase gozou enquanto ela gritava de dor, que adorou o cheiro de queimado da mulher, era doce e inebriante, ele disse. Por último, ele falou depois enterrei, tá enterrada perto daqui, agora é dos vermes. Eu corri para o carro, não aguentava mais aquilo, lá estava um facão que eu usava para o serviço, estava morrendo de raiva, então ele se assustou e correu, eu o alcancei e comecei a golpeá-lo, não sabia mais o que estava acontecendo comigo, estava cego".

Batista e Joaquim se entreolharam, calados. Leandro agora chorava desoladamente: "Estou tão arrependido!", gritou, por fim.

•••

Na saída do tribunal, o alvoroço de jornalistas engoliu Leandro entre perguntas, algumas cretinas outras pertinentes. A nuvem de indagações permeou a mente do jardineiro, que, entretanto, não havia escutado nenhuma: "Como o senhor se sente após ser absolvido?", "O que o senhor fará daqui em diante?", "Como foi matar o Sr. Ortiz?", "Como era Andrea na cama?", "O senhor irá posar nu?", "O senhor acha a decisão do Júri justa?", "O senhor realmente se considera inocente?", "O que o senhor sentiu quando viu que a polícia tinha encontrado um corpo carbonizado sem nenhuma chance de ser reconhecido?".

Leandro apenas sorria. Estava livre. Entrou no carro que o esperava e partiu a toda velocidade.

"Sem nenhuma chance de ser reconhecido", aquilo flutuou durante horas em sua cabeça. Estava livre.

Alguns meses depois, ao passo em que ia pacientemente tentando reestruturar sua vida, fugindo de jornalistas, de transeuntes indignados com o que tinha feito, de ameaças anônimas e de manifestações de apoio - e inclusive, até de algumas cantadas e cortejos - Leandro conseguiu se estabelecer em um novo bairro, gozando de certo anonimato. Tinham se esquecido dele, seu rosto voltara à condição de normalidade, tinha adquirido o ar de habitualidade de maneira a ninguém mais perturbá-lo, exceto um ou outro maníaco que o tinha por alvo ou por ídolo. Foi nessa época, e somente nessa época, em que conseguiu se misturar em meio à massa uniforme da incognoscibilidade, que julgou possível realizar um desejo que o perseguia há tempos, consumindo sua alma dia após dia. Finalmente poderia ir lá.

Pegou seu carro ainda de madrugada, às vésperas do amanhecer e, socando o volante, obrigou o carro a pegar no tranco. Dirigiu-o cuidadosamente por uma estrada já conhecida. Estava elétrico e mal continha sua ansiedade. Contudo, havia aprendido no tempo em que passara na cadeia, aguardando a decisão do Júri, a controlar suas emoções. A atitude era lógica, visto que se não aprendesse a domar ansiedade e frustração, seria consumido ali mesmo, dentro de sua cela, tanto por seu coração acelerado e sua vontade de gritar, quanto pelas paredes que o oprimiam vorazmente.

Ao chegar no local, estacionou desajeitadamente o carro. O sol espreguiçava seus primeiros raios, e não pôde deixar de soltar um gemido de excitação quando examinou bem o cenário: o lago imóvel, coberto por uma leve neblina, a refletir o sol nascente, e a atrair para si um tanto de árvores que se localizavam em suas margens, árvores que se curvavam em direção ao lago como a reverenciá-lo, como a reverenciá-la. A beleza dela.

Focou sua visão sobre as protagonistas do lago, aquelas que, únicas, chamavam a atenção para seu tamanho, sua desenvoltura, sua capacidade de flutuar sobre as águas. Leandro sabia que aquele espetáculo era inerte e eterno. As vitórias-régias ali estavam antes dele e estariam ali ainda durante muito tempo, a abrir suas flores durante a noite e oferecê-las aos céus, em sinal da mítica amizade entre água e ar.

Encarou-as durante um bom tempo, feliz.

"Andrea, meu amor, perdoe-me. Isso tudo foi, infelizmente, necessário. A mentira foi necessária, entenda. Tive de indicar onde estava o corpo da Beatriz. Foi um mal necessário. Beatriz era minha antiga mulher, querida, já lhe contei sobre ela. Não...não sinta ciúmes, amo você, muito! Você precisava ver, eles caíram como patos. Eu a havia eternizado tempos atrás. Ela ardeu como a própria chama da vida, um fogaréu imenso, iluminaria um descampado inteiro. E então a enterrei perto de sua chácara, tamanha a sorte, ainda nem a conhecia! Pelas fotos nos jornais, havia lírios lindos sobre ela, eu mesmo os plantei, sabia que a beleza dela daria belas flores. Eles pensaram que era você, não imaginava que ela estava tão irreconhecível. Ou vai ver que a pressão pública era tamanha que eles se sentiram gratos de ter só um corpo para mostrar, para fingir que haviam resolvido algo. Tanto faz, o importante é que agora estou livre e você também, meu amor. Você está eternizada, olha só que belas flores você nos deu!".

Conversou com Andrea por horas. Ao terminar, retirou uma rosa de uma mala e a lançou sobre a vitória-régia, que a apanhou bem em seu centro, onde ficou deitada, bela e vistosa. Leandro foi embora, agora lívido e complementado em sua ansiedade: sentia-se novamente bem. Andrea, no entanto, permaneceu imóvel, fria e em decomposição, morta por aquele que acreditava ser o amor de sua vida, abaixo das águas, presa por pedras, a servir de matéria orgânica para toda as criaturas lacustres, e, em especial, de adubo para o espetáculo das vitórias-régias.

•••

EPÍLOGO

A campainha soou alto e, por estar entediada, Larissa correu divertidamente para atendê-la:

"Mãe! Tem um jardineiro na porta oferecendo seus serviços! Vamos pedir para ele cuidar das bromélias? Elas estão tão acabadinhas!"

"Tá certo, filha, cuida dele aí que estou ocupada fazendo a unha..."

Larissa abriu o portão e foi se encontrar com o recém-chegado, para lhe dar instruções, não sem antes passar na frente do espelho e ajeitar seu cabelo.

"Olá, mocinha, meu nome é Augusto, o seu jardim está precisando de cuidado...mas dá para ver, se me permite dizer, que é um belo jardim!". Observou Augusto, escancarando uma longa fileira de dentes brancos.

Larissa sorriu tolamente, havia gostado da espontaneidade do sujeito e de seu encantador sorriso, além disso, a cara dele...não a havia visto em algum lugar?