4.12.08

Um lugar para viver

- Você sabia que Londrina é a sexta cidade do país com o maior número de prédios?, perguntam, orgulhosos, alguns incautos.

O truque surpreende os desavisados. De fato, a cidade constava num determinado ranking como possuidora de tal status, mas apenas porque um dedicado cidadão havia cadastrado todos os edifícios da cidade.

De qualquer maneira, não seria surpreendente se a segunda maior cidade do Paraná gozasse de semelhante privilégio. Londrina tem muitos, muitos prédios mesmo. É uma cidade média de, aproximadamente, 500.000 habitantes, que teve, durante toda a década de 80 e 90, um fantástico processo de verticalização. Duvida?

 londrina anos 50 Londrina, anos 50

 londrina anos 90 Londrina, começo dos anos 90

Isso é só uma parcial do centro, onde eu moro (lembrando que a cidade só tem 74 anos). Multiplique isso por algum número mais ou menos grande que você esteja pensando e corrija com acréscimo para a nossa década e, tcharam, terá Londrina e seu universo de prédios.

É nesse cenário à la Metrópolis que eu tenho de procurar um lugar para viver, já que Deus e o mundo, como alguns sabem, tenho de me mudar até o dia 15/12.

E eu gostaria de partilhar um dado interessante: mesmo com essa cacetada de prédios, acreditam que eu não achei nenhum lugar ainda que valha a pena? Pois é. Não, não sou otário, não.

O mais intrigante é que eu já devo ter visto uns 25.000 45 prédios e cada um tem seu jeitinho intrigante de ser.

Aqui no centro a maioria dos prédios se divide em dois aspectos: tem os prédios aposentados que jogam dominó na praça e os prédios estudantes. Os primeiros são bem antigos e os segundos também. Na verdade, eles se confundem. Porém é fácil perceber um prédio aposentado, pois ele o olha com aquela cara arrogante, sem tolerância alguma. Prédios aposentados geralmente gostam de síndicos chatos e igualmente velhos e não suportam estudantes ateus, agnósticos, promíscuos, pagães, de famílias separadas, não-cristãs e com fiadores distantes, embora nunca saibam diferenciar ninguém: para os prédios aposentados, é tudo farinha do mesmo saco.

Já os prédios estudantes são mais desleixados. Geralmente seu elevador não funciona, por falta de pagamento do condomínio. Porteiro então, nem pensar. Suas paredes são meio sujas e não é incomum ver em suas portas inúmeras adereços coloridinhos e bizarros que acusam peremptoriamente que ali vive um estudante. Barulho é normal. EU DISSE NORMAL, NÃO ESCUTOU?

Mais ao sul, na riquíssima (madames adoram superlativos: magérrima, chiquérrima, mas aposto que não sabem que o superlativo de sério é seriíssimo) Gleba Palhano, temos os pomposos prédios de elite. Esses prédios praticamente brilham de tão novos e bonitos que são. Em seu interior, é bem capaz que o ouro e o diamante brilhem com ainda mais intensidade, embora o interior de seus donos não revele nada mais do que uma podridão opaca e ambiciosa. Não preciso nem dizer que a presença de estudantes não é tolerada nesses estabelecimentos. Velhos são permitidos, desde que possuam um iate. Ou dois.

 gleba palhano A Gleba Palhano. Note a condição precária de vida do local.

Por fim, temos os prédios normais. Eles se dispõem de maneira regular e espalhada pela cidade e, de tão normais que são, servem à classe média. São certinhos e bonitinhos e geralmente foram vendidos com a rubrica do “sonho da casa própria” como não poderia deixar de ser. Estando em um deles, é comum que as pessoas não incomodem mais ninguém, ainda mais o governo, ou a elite.

É capaz que alguém comente: “mas e os prédios dos pobres?”. Bem, desde quando pobre mora em prédio? Londrina é uma ótima cidade, mas não é diferente do resto do Brasil. Pobre mora em casa, de preferência com puxadinho no quintal e um pintcher barulhento no jardim.

E nesse caos edificado, estou eu, à procura de um imóvel, sem muitas pretensões, algo que tenha a vida de um prédio estudante, a pontualidade nas obrigações de um prédio aposentado, a beleza, ainda que singela, de um prédio de elite, e a simplicidade e calma de um prédio normal. Mal imaginava eu que fosse tão difícil encontrar.

O dia 15 se aproxima e espero que vocês torçam por mim!

Caso contrário, o blog será escrito no olho da rua.

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Eu não sei a quem creditar as fotos, mas as achei no fórum de discussão Skyscraper City, na seção regional do Sul.

8 comentários:

Thatá disse...

o iptu daqui vem com endereço da gleba palhano!
sou chique beeem!

eu moro em um predio de pobre e que super tolera estudantes... alias.. aki só tem universitario ou prof da uel... mas vc n quer ser meu vizinho\=

tudo bem! eu supero!

Bjooo

Andréia Alves Pires disse...

gostei das observações sobre os apartamentos... tens razão. e esse olhar cartográfico sobre a tua cidade pode ser repetido aqui na minha (proporcionalmente) e logo ali na vizinha tb.. fico pensando que logo chega a minha vez de procurar a minha casa..

volto para acompanhar como a tua história se resolve.. :)

Laila disse...

Me senti fazendo um tour por Londrina.
Em Valença acho que são uns 15 prédios ao todo...

Marina disse...

Acho que meu prédio é um prédio normal... O síndico é meu pai e ele não é velho nem rigoroso. Estudantes podem até fazer barulho, mas não dá pra escutar, porque as paredes são bem grossas. O elevador vive quebrando, mas (geralmente) o outro funciona nessas horas. Estão reformando a fachada, pra ver se fica um pouco mais bonita. E, como em todo lugar, sempre tem gente chata pra reclamar.

Tô morrendo de rir com seu texto. Desejo-lhe boa sorte! Abraço!

(Se você não visitou ainda, visite qualquer um dos blogs dessa pessoa aí em cima, chamada Andréia. Valem muito a pena!)

karen disse...

ah, eu sou pobre e moro em prédio. pobre, sim. periferia de SP, Jardim Ângela (yep, o dos assassinatos do Datena). ó céus.

A_for_Anetta disse...

Ainda escreverei um texto sobre minha tragédia imóvel pessoal (acabei de inventar esse termo). Qualquer lugar seria melhor pra mim que aquele muquifo no calçadão com uma loira sem pudor no quarto... x.x

Fico imaginando quantos apartamentos estão vazios em casa prédio. Queria ter uma idéia da densidade demográfica... auahuahau

Blogues de Londrina disse...

hahaha, eu já iria aparecer e dizer: Como assim pobre não mora em prédio?

Mas lembrei que os apartamentos "distribuidos" pela COHAB tem uma prestação salgada e pede que a "pessoa carente" tenha uma boa renda.

Abraços e os textos sempre estão ótimos.

Roberto ORtega

Bruna Mitrano disse...

Teu jeito de escrever é tão, sei lá, tão teu. Gostei. Bom encontrar esse blog, virei outras vezes.