1.12.08

Os jovens não lêem obituários

Acendeu o cigarro com alguma dificuldade: ainda que estivesse sob o guarda-chuva sobriamente preto, o vento e a umidade do ar pareciam lhe oferecer todos os obstáculos do mundo para não acender aquele cigarro. Talvez até fossem agentes à serviço de sua insistente mãe, que rezava para ele encerrar aquele odioso vício o quanto antes.

Entretanto, devido à gravidade da situação, logo forçou-se a parar de gracejos. Bem em frente, abaixada, estava Valentina, em seu hermético traje de luto, sussurando qualquer prece ou despedida para o túmulo de seu avô. Valentina vertia lágrimas para um sólido pedaço de mármore.

Olhou-a longamente, cigarro na boca, reprimindo-se por ficar pensando em bobagens durante um momento delicado em que Valentina sofria.

Súbito, ela se levantou, mãos presas ao regaço e cabeça baixa. De pronto se aninhou no corpo dele. Sem pronunciar som algum, ficou por ali um tempo que pareceu infinitamente superior ao que de fato se registrou. Não oferecendo resistência, ele a deixou ficar presa a si, molhando seu sobretudo com quentes e pesadas lágrimas, aquecendo-lhe as mãos geladas. Fez o que podia fazer: jogou a bituca no chão e pisou-a.

Quando Valentina cansou de chorar, virou o rosto para cima e encarou-o com alguma indulgência. Ensaiou um sorriso medíocre e balbuciou:

- Obrigada pelo artigo, muito digno, obrigada mesmo.

- Ele merecia - respondeu o obituarista. Foi um grande homem.

···

De madrugada, sozinho em sua cama, ainda em trajes sociais, leu, à luz de abajur antigo:

Ulisses Carvalho, 85 anos, nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, e deixou a terra natal há exatos 38 anos atrás. Foi comerciante em terras mineiras e, ao se mudar para …, tornou-se tabelião…

Não prosseguiu na leitura. Não conseguiria, uma vez que jamais relia seus obituários. Sentia uma espécie de ansiedade, que às vezes tomava por nojo. Ao ler as primeiras palavras, subia-lhe à testa um frio e pegajoso suor, os pés batiam depressa, as mãos tremiam, tiritava. Nunca chegava ao final. Escrevia com sua experiência, dignava-se do seu trabalho e de sua capacidade, porém, o texto em si só lhe seria cravado na memória no momento da redação. As correções ficavam a cargo do editor ou de qualquer outro funcionário à disposição no momento. Ninguém, contudo, tinha conhecimento dessa estranha aversão, posto que a disfarçava com sobriedade e brilhantismo, evitando correções futuras.

···

Entrou na casa de Valentina Carvalho sem apertar a campainha. A porta estava aberta e julgava gozar de intimidade o suficiente para tal iniciativa, embora houvesse se detido por exatos dois segundos antes de girar a maçaneta. Não gostava do cheiro daquela casa. Aliás, não gostava de nada naquela casa decrépita e crepuscular.

Valentina passava roupa agitadamente na cozinha. Vestia apenas uma calcinha e sutiã, o que não chegou a criar embaraços. Seu corpo não se ressaltava por curvas volumosas e sua palidez assustava os incautos. Na porta que dava para o quintal, sentada numa cadeira de rodas, estava a vó da garota, olhando fixamente o nada, como uma estátua talhada toscamente. Ele sabia que, toda vez que Valentina olhava para a velha, sentia tristeza. Talvez por suas convalescências, talvez por outras responsabilidades.

- Vamos – convidou-a.

- Não seja bobo, você sabe que não posso sair agora – e fixou seu olhar para a porta do quintal.

- Ela não vai a lugar algum, replicou rudemente.

- Não posso deixá-la…

- Você sabia que em 2020 as pessoas com mais de 60 anos serão 13% da população? E que em 2050 haverá 127,7 idosos para cada 100 crianças entre 0 e 14 anos?

- Não, não sabia e não me importo. Você e seus números…

- Vivemos numa bomba relógio caduca.

- Eu tenho que cuidar dela, vai querer ficar aqui comigo?

- Não.

···

Sentados num banco de praça, observavam placidamente pombos em suas pendulares brigas por comida. Gostava da companhia de seu amigo Torres, sujeito quieto e sabido.

- Ela vive num cemitério, Torres!, exaltava-se o obituarista.

- Veja pelo lado bom: você economiza com moradia ao morrer.

- Não fode. É um pepino muito grande para ela cuidar da vó. Não entendo como pode acontecer tanta desgraça com uma pessoa: perder os pais pequena, perder o avô que cuidava dela e da esposa, ter que se virar e cuidar de si mesma sem noção de nada. Ela não tem ninguém. Só a avó, um peso morto. A velha não se move, não fala, é um vegetal.

- Ela não pode abandoná-la, não seja idiota, isso mostra o quanto ela é fiel.

- Mas a preço de quê! Ela não tem mais vida, trabalha mal, não se diverte. O emprego dela está na corda bamba. Nem transar mais ela tem dado conta..

- É isso que o preocupa, não transar?

- Pff.

Acendeu um cigarro. Lembrou da mãe. Após um tempo, prosseguiu:

- A velha tolhe a juventude da neta. Eu apenas queria que ela vivesse sua vida, não acho justo que ela perca bons momentos apenas para ficar presa a uma mulher que não vive mais. Que a suga.

- Talvez ela esteja aprendendo a viver dessa maneira. A vó não é um peso morto, é um sinal de vida. Ali nas rugas e nas varizes da senhora estão todas as pistas do que é a vida: vivências, avisos, alertas, experiências, sensações, sentimentos. Tudo. Os idosos vêem seus companheiros morrerem, eles sim perdem tudo, nós não perdemos nada, não vi você morrer e é bem provável que meus pais disputem a maratona esse ano. Até meu cachorro da infância ainda está vivo. Valentina já perdeu muitas pessoas, talvez ela sinta uma ligação com a vó, mais do que já há.

- Você é mesmo um filósofo de merda, Torres…, sentenciou pensativo, sob risos.

···

- Eu adoro esse lugar, mas… por que você me chamou aqui? – perguntou Valentina, envolta em dúvidas.

Estavam num parque: acompanhavam-nos uma relva verde, árvores encurvadas, borboletas em perseguições umas às outras e uma bola chutada por crianças. Uma brisa levemente gélida os acolhia. Distanciada dos dois, na cadeira de rodas, estava a avó da garota, a manter seu olhar pétreo em direção do casal.

- Valentina, eu amo você.

A moça pareceu alegrar-se um átimo. Ele não aguardou muito para ir adiante:

- Mas tenho visto você se afundar num poço, do qual talvez não consiga sair por conta própria no futuro. Você não pode se enterrar junto com seus avós.

- Vai começar com isso de novo…?

- Sim, vou. Eu amo você.

- Você já disse isso.

- Digo quantas vezes for preciso.

- Você precisa me entender.

- E você precisa viver.

Ficaram três minutos em silêncio.

- Valentina, descobri um lugar ótimo, fica num bom bairro, eles contam com uma equipe bem treinada, disposta a cuidar de sua avó, eu posso te ajudar a pagar.

- Você quer colocá-la num asilo?!

- É uma casa de repouso.

- Não me venha com eufemismos! Típico seu.

- É um ótimo lugar, eu visitei.

- Por que você odeia os velhos?

- Não odeio os velhos, só estou cansado de trabalhar com eles…

- Eu não sei o que fazer…

- Nem eu…

Apertaram as mãos, convictos de que a indecisão era, por ora, a melhor solução. Em sua sinuosa trilha em busca de paz e de estabilidade, deparavam-se com uma velha senhora, doente, que, por exigir atencioso cuidado, tomava o tempo produtivo da neta, Valentina Carvalho. Valentina sentia que arrebentaria sob tanta pressão e responsabilidade: não estava preparada para uma tarefa de tal magnitude, seu avô costumava manter tudo em ordem. Não ousava enfrentar a fidelidade familiar e abandonar a avó, tinha dúvidas do que o avô pensaria de tudo isso; porém, desejava viver, ir além. Seu companheiro, um obituarista, desejava o mesmo, sob arroubos egoístas, um ar cínico e algum senso de justiça e afeto.

De olhos fixos, sem esboçar reação e vida, a vó os vislumbrava, saudosa de tempos agora transformados em mármore: sentia inveja, pena, tristeza e remorso, tudo ao mesmo tempo, tudo contido dentro de um corpo inerte. Queria morrer.

8 comentários:

Laila disse...

Nossa, isso foi tocante. Essa semana presenciei uma situação parecida: a minha tia avó preferida foi para um asilo porque as filhas não queriam mais cuidar dela. Só que ela é conscitente de tudo, e quando a perguntei, ela respondeu que estava melhor.

karen disse...

bah, chorei.

CèS disse...

Só li o título, mas pra não perder a citação:

"vives como mortal: vives como se fosses imortal" (Aristóteles - e eu nem curto muito)

michelle_ambrozi disse...

na minha cidade, tem carro com auto-falante, sao os obituarios andantes...mas mesmo assim eu os leio.
'obituarista' me lembrou Closer...

A_for_Anetta disse...

Às vezes leio obituários no jornal... E quando eu páro pra pensar que aquilo que não significa nada pra mim além de algumas linhas foi a vida de alguém vejo o quanto sou insignificante. Tenho medo de morrer sendo assim.

Ótimo texto, muito bom mesmo! Nem imagino de onde tirou essa idéia. Parabéns!

=******

Lucas disse...

é. olhei o tamanho do post. pensei: "ah, nem vou ler". Mas. Juntei as primeiras letras, o primeiro parágrafo, e quando ví, tinha lido tudo. Isso é um ótemo sinal. gostei muito! na verdade. ; ) Só uma dúvida, (se me permite): são "todos os obstáculos do mundo para NÃO acender aquele cigarro" ou seriam: "todos os obstáculos do mundo para Acender aquele cigarro"? ou tanto faz, vai ver é frescura minha q não simpatizei com o "não", rs.. Um abraço!

Thatá disse...

nossa victor!
muito bom o texto!
=D

bjooo

Laila disse...

Nem sempre. Mas férias trazem livros, muitos livros, e acabo passando isso pro Banquinho também.