13.12.08

O porquê do nome do blog

Alguns leitores, por vezes, e com razão, param-me e indagam:

“Por que seu blog se chama Zaratustra tem que Morrer?”

A pergunta, feita com a mais sincera curiosidade, embaraça-me, pois às portas de completar seu segundo aniversário (sim, dia 25 de Janeiro!), não há nenhum post no blog a respeito disso.

Não que as tentativas certas já não tenham sido executadas. Pelos mais diversos motivos, contudo, o resultado não chega aos olhos dos leitores: ora falta-me criatividade e oportunidade para escrever sobre o assunto, ora meu dedo leve esbarra na tecla Power do teclado fazendo eu perder todo o conteúdo do texto, ora a Providência simplesmente me toma por teimoso e me manda um raio à cabeça. Não é por motivos assim, entretanto, que deixarei de tentar explicar algo que merece ser explicado. Afinal de contas, o nome do meu blog é sua principal janela.

É preciso salientar, antes de tudo, que em seus meses mais primitivos, o nome do blog era Zaratustra me Contou, num reflexo do mais pueril daquela fase de adolescentes estranhos que idolatram Nietzsche. No caso em questão, brincava com o título do livro de autoria do filósofo já citado, Assim falava Zaratustra¸ livro que fascinava meu desejo de contestação: ótima leitura para aqueles que almejam enxergar o mundo de uma óptica diferente, isenta de amarras éticas e morais, trajadas sob o manto sagrado das virtudes, capazes de engessar uma sociedade em bases sólidas e retrógradas, identificadas ora sob ferro e sangue, ora sob preces e terços.

É em Assim falava Zaratustra que Nietzsche se fantasia de Zaratustra, profeta e filósofo, e se põe a pregar suas observações sobre a vida, a morte, o pensamento, a sociedade e suas perspectivas, exaltando o que julga ser correto e sensato e atacando aquilo que abomina. Fascinei-me, inicialmente, com a visão dura e fria com que Zaratustra encarava as coisas, desprovida de sentimento, desprovida de qualquer coisa, pois uma visão niilista.

Em Setembro de 2007, entretanto, o nome do blog passou a ser Zaratustra tem que Morrer. De onde partira todo esse antagonismo?

Foi durante todo o primeiro semestre de 2007 que eu tive aulas de Ética, com um ótimo professor chamado Bianco. Nessas lições, fui inserido nos estudos da ética e da moral, ou seja, dos limites do ser humano, no que diz respeito aos seus atos potenciais e quanto ao seu próprio conhecimento; além do estudo das lógicas, a maneira como se ordena esse conhecimento. Durante esses ensinamentos, obtive contato com o estudo da lógica dialética, na qual não me alongarei em explicações, que podem ser conferidas aqui, mas que, resumidamente, posso conceber como “a contradição de idéias que leva a outras idéias”. O entendimento disso pode ser feito a partir de um exemplo contrário e prático, disposto bem a sua frente. Esse monitor com que você me lê, leitor, recheado de softwares, hardwares e etc, nada mais é do que o desenvolvimento da lógica racional, matemática, binária, do 0 e 1. Tal lógica envolve a essência da negação, da exclusão. A não pode ser não-A, eles se excluem, 0 não é 1 e vice-versa. Na lógica dialética, contudo, A e não-A não se excluem no todo, eles podem resultar em algo novo.

A aplicação social desse conceito merece a análise do momento pelo qual eu passava então: mudara-me para Londrina, para cursar a faculdade de Direito, separando-me, para isso, de mãe, pai, família, namorada, amigos e lar. Sem referências para me amparar, só pude contar comigo mesmo, com minhas próprias forças. Não havia quem me consolasse, quem fizesse as coisas por mim. Eu estava sozinho.

E foi nesse cenário que compreendi o sentido da “luta”. Não vá se fazer de ignorante, leitor, e imaginar que falo de combates corporais. Não. Falo de luta no sentido de superação, no sentido de ter leões em seu pescoço, cada um representando um enorme problema, e você ter de tirá-los dali, a qualquer custo, caso não queira tombar. Naquela época, apinhavam-se em meu corpo inúmeros leões, de dentes afiados, garras dilacerantes e tão pesados quanto todas as responsabilidades às costas de Atlas.

Voltando um pouco em nossa explanação, tínhamos Zaratustra, o profeta que vivia no topo de uma montanha, pregava a morte de Deus e contentava-se em proclamar a vinda do Super ou Supra Homem (por favor, não pense em Clark Kent), um ser perfeito que seria a evolução do ser humano como o conhecemos hoje, aquele que transita na rua ao seu lado todo dia.

Passei a negar essa visão de Nietzsche e a não concordar mais com ela. Percebi que a filosofia do alemão baseava-se em uma lógica matemática, racional, mecanicista, em que duas contradições não poderiam sobreviver no mesmo espaço. O Super Homem de Nietzsche significava a exclusão do homem normal, defeituoso.

Passei a conceber a fraqueza como ponto primordial do homem. Sim, a fraqueza. Sem a fraqueza, o homem não teria consciência de seus defeitos, de seus vícios, de suas desvantagens, e jamais poderia evoluir, à base de sangue, suor e luta. É com a vergonha que o homem possui de sua fraqueza que ele pode decidir-se a evoluir e a lutar, dando lugar a um ser superior, sim, porém advindo de uma lógica dialética, da contradição, da superação. Não é simplesmente um conceito excepcional de um ser superior que nega seu passado e toma o homem que fora com desprezo e negação.

O óculos quebrado na imagem do topo da página nada mais é do que isso: a superação. A quebra da fraqueza.

Envolto em problemas e cansado, pude negar Nietzsche e sua visão niilista e estóica. Pude me afirmar em mim mesmo, e acreditar na fraqueza, na luta e na superação. Não há o forte sem o fraco. Pude acreditar na lógica dialética e vencer meus próprios leões, acreditando na minha própria força.

Não é na profecia da vinda de um ser superior que o ser humano precisa acreditar. Tampouco na existência de um Deus que nos substitua na persecução de nossos desejos. O ser humano precisa acreditar em si mesmo e em suas capacidades e potencialidades. E então poderá fazer milagres. Precisa acreditar no poder de seu sangue, suor e lágrimas.

E, acreditando que a figura de Zaratustra representava toda uma destruição e uma descrença e a impossibilidade de existir um mundo onde as pessoas tivessem a ambição de melhorar em alma e garra, que proclamei à blogosfera e a todos que tivessem olhos para me ler e ouvidos para me escutar, não sem alguma tristeza e compaixão antes: ZARATUSTRA TEM QUE MORRER!

E esse tem sido o objetivo do blog desde então.

15 comentários:

Marina disse...

Esse texto, fosse como fosse, tenho certeza de que quem acompanha este blog vai ler. Quem não estava se coçando para saber o que diabos significava o porquê do nome do blog? Eu só nunca tive oportunidade de perguntar.

Acho que a vida toda é uma série de aprendizados e a gente tem mais é que se orgulhar de cada um. Já acreditei em tanta coisa que não acredito hoje; já preguei tanta coisa que não concordo mais... Faço tanta coisa que nunca pensei em fazer. Sim, somos humanos e Zaratustra tem mais é que morrer mesmo.

No mais, só digo uma coisa: faça como eu, arranque o botão de Power do seu teclado e seja feliz! Huahua!
Abraço!

karen disse...

ótimo texto. e concordo plenamente, aliás. odiei Zaratustra desde o primeiro momento.

Stephanie disse...

V.

fui apresentada a Nietzsche num contexto completamente diferente, pós-dialética e por professores que diziam que era preciso ver os aspectos relevantes de um autor, mas 'não levar tão a sério' certas questões.

por exemplo, Platão escreveu diálogos que são extremamente importantes pra cultura ocidental - mas na República, diz que explusaria os poetas, que são perigosos porque sua arte estimula as pessoas a pensar e um povo que pensa dificilmente se submete. Nietzsche era totalmente misógino, e no entanto, apesar de ser mulher, o pouco que li dele não me incomoda, porque sei que na época em que ele escreveu as mulheres só serviam como donas de casa, pra procriação dos machos, etc.

pelo seu texto, dá pra notar que você está falando de uma relação muito pessoal, e tal, quem sou eu pra dar palpite. Concordo com você, que o ideal do Super-homem é exagerado - no entanto, gosto muito das idéias do Além do Bem e do Mal, em que Nietzsche é totalmente contra o maniqueísmo e o moralismo correntes na sociedade. Acho muito legal que ele defenda que as pessoas parem de pensar a vida, o mundo a partir de uma dicotomia e aprendam a conviver com as incertezas.

e sobre o que você me falou sobre a idéia da compaixão pro Kundera, bem, eu tenho uns problemas com ela - particularmente acho mais importante respeitar a dor do outro do que tentar se aproximar dela, se por no lugar do outro. Mas isso a gente vai conversando sem pressa, que esse comentário tá compriiido, nossa!

linkei você lá no leveza, tá ;-)
beijo

Andréia Alves Pires disse...

Não concordo com alguns pontos de vista que tu tens, mas acho ótima a proposta do teu blog. Sempre pensei em Nietzsche como uma sacada inteligente, um grande provocador. Para isso o discurso dele me serviu. Conforme aconteceu contigo, me vestiu por um tempo a lógica radical dele, mas logo se esgotou e deu lugar a outras brechas, outras interrogações, outras superações.

Em alguns momentos da minha vida Nietzsche foi uma das pontas que articulou a(s) dialética(s), e para além da certeza e/ou da verdade, foi uma das figuras que me fez sentir desconfortável e andar.

Entendo o teu posicionamento quando falas da fraqueza, mas prefiro pensar na acolhida, e na diferença. Escolhi olhar as presenças apesar das ausências. Nesse momento, pensar assim me faz sentir mais firme. Sabe-se lá até quando esse olhar vai me servir.. quantas vezes vou precisar ver Zaratustra morrer para ser capaz de me reorganizar...

Acho que nem imaginavas que esse teu post iria dar tanto pano pra manga.. :P

Laila disse...

De início até captei que o Zaratustra deveria ter a ver com o "Assim falou Zaratustra".
Mas quanto ao "tem que morrer"...
Bom, fiquei extremamente curiosa, embora morrendo de medo de ser algo óbvio que eu perguntasse em um comentário inocente e fosse esculhambada por toda a elite intelectual da blogosfera e banida para sempre.
Fiquei feliz de saber que não era nada óbvio e que tem uma explicação brilhante.
Eu acho a obra do Nietzsche (ai meu Deus, está certo?) muito interessante, me causa um estranhamento muito grande. Mas não é uma filosofia que eu adotaria.

Andréia Alves Pires disse...

A autora... acabei de terminar o mestrado.. sobre a obra dela. A referência é uma brincadeira. Inevitável depois de tanta leitura não retornar ao que ela escreve.. escapou. :) bjo, bjo.

Leonardo disse...

Eu acho que o Zaratustra tem que ser lido e debatido, como foi nesse post e nos seus comentários. Não acho que ele tenha que morrer, nem muito menos ser idolatrado.

Sempre em Trânsito disse...

Olá,

Estou aqui para divulgar o blog “Sempre em Trânsito, destinado à postagem em resumo aos últimos acontecimentos da nossa sociedade.

Aberto a sugestões, comentários e críticas construtivas.

Agradeço desde já!

Grato, Edson Nunes.

Aline Aimée disse...

Olha, gostei muito do seu ponto de vista. Crescer do próprio suor, sangue e lágrimas é algo freqüente em minha própria estória. Conhecer-se sem idealismos, admitindo os defeitos para se aprimorar. Nietzsche é um grande provocador. Muitos de seus textos serviram pra quebrar certos mitos. o "Acerca da verdade e da mentira" é um texto ótimo, relê Platão revelando-lhes as incongruências e demonstra o quão incoerentes são as nossas instituições.
Cheguei ao seu blog pelo blog da Bruna e gostei.
Abraço.

Bruna Mitrano disse...

Bom, se eu começar a compartilhar minha humilde opinião sobre Nietzsche, sobre a dialética, sobre evolução, aprendizado ou coisas do tipo, não terminarei hoje, talvez nunca termine.
Confesso que não estranhei o nome do blog. Logo: estranha sou eu. Acho natural que alguém queira ver Zaratrusta enterrado, embora eu não pense exatamente assim, nem assado; digamos que uma terceira idéia.
Enfim, gostei das explicações e gosto do blog. Até!

Bruna Mitrano disse...

E: um brinde à imperfeição!

Ju disse...

Gostei do seu texto.
Mas eu sou apaixonada por Zaratustra e não me canso de ler quantas vezes for necessário. Ao meu ver, falamos de superação de si não somente, mas também da AUTO-SUFICIÊNCIA. Quando fala das fraquezas, entendo o que quer dizer sobre aceitá-las, e vivê-las. É oque Nietzsche diz:" Torna-te Quem Tu és", não te envergonhes disso, pois tudo que você fizer, será para além do bém, e do mal!

TDM disse...

Oi, cheguei aqui através de Hugo, seu pai se não me engano.
Gosto da sua busca.Eu mesma,busquei questionamentos/respostas na Gestalt Terapia, depois no Budismo e depois em Nietzsche.
Mas vi Miestzsche através de Viviane Mosé.
E adorei o homem. Não li Zaratrusta pq não me limitei.E Viviane contextualizou Nietzsche de uma forma brilhante.
Como não tive uma criação judaico cristã, embora viva numa sociedade assim,fui pouco influenciada pelo "certo/errado", bem/mal etc...
Sempre me senti meio ET em relação ao sistema social e ao conhecimento
ocidental,religioso etc...
Só depois de ter me iniciado no Budismo Tibetano, foi que pude entender as "cabeças" das pessoas que andam por aí na busca diária de sua própria superação e ,portanto, sua força.
Sugiro que vc e outros vejam o vídeo de Viviane Mosé:
http://video.google.com/videoplay?docid=-7886555701259993758#
Mas, com certeza, acho que Nietzshe, não pode morrer.Se ele tivesse vivido mais que seus 46 anos, talvez tivesse tido o a ternura que o amadurecimento traz
Vc já está listado no meu blog:
http://todososdesejosdomundo.blogspot.com/
bjk

Zaratustra disse...

Nao me mate!

angstangst disse...

"Percebi que a filosofia do alemão baseava-se em uma lógica matemática, racional, mecanicista, em que duas contradições não poderiam sobreviver no mesmo espaço."


Lógica matemática... numa obra poética! Valha-me Deus!

E quais são as duas conntradições, que não me pareceu claro?